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Entre outros assuntos, falo da escalada ao Pico Cão Grande e das minhas aventuras em canoas – Visam defender a teoria de que antigos povos africanos, podiam ter sido os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo da Guiné, antes dos colonizadores – Parti à meia-noite, disfarçado de pescador, ligando a ilha do Príncipe. Para me orientar, uma rudimentar bússola – A canoa era minúscula, à segunda noite adormeci: rolei na escuridão das vagas. No regresso fui distinguido com sopapos da policia salazarista, enviado para os calabouços – Cinco anos depois, numa piroga maior, fiz a ligação São Tomé-Nigéria. Partindo igualmente à noite, 13 dias depois atingia uma praia de Calabar, tendo sido detido 17 dias por suspeita de espionagem. - No mesmo ano, já com São Tomé e Príncipe independente, tentei a travessia São Tomé ao Brasil, usando os mesmos recursos. Além de pretender reforçar a minha teoria, desejava evocar a rota da escravatura e repetir a experiência de Alain Bombard. Porém, quis a ironia do destino que vivesse a difícil provação de um naufrágio de 38 longos dias, tendo aportado numa praia de Bioko (Bococo)onde fui recambiado para a famosa prisão de Black Beach

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Charles Darwin - Cabo Verde, 16 de Janeiro de 1832 – Na rota do autor da Evolução das Espécies - Passou pela Ilha da Madeira (mas não aportou nela) indo então para Tenerife, proibido de desembarcar por causa da quarentena de cólera imposta a barcos vindos da Inglaterra. A expedição fez a sua primeira parada na ilha vulcânica de Santiago no Arquipélago do Cabo Verde, ponto da partida para catapultar o jovem botânico inglês para os píncaros da fama mundial

JORGE TRABULO MARQUES - JORNALISTA 

AS ILHAS DO ATLÂNTICO MAIS FLAGELADAS PELAS SECAS - E que terão inspirado a curiosidade do promissor jovem cientista inglês de 22 anos para o trilho da fama mundial -Charles Darwin

Recordando os pormenores da escala do veleiro Beagle HMS por Santiago,  onde viajava o  naturalista inglês, que  teve por guia um padre  cabo-verdiano e, como intérprete, um espanhol que ali fora parar nas lutas da guerra peninsular – Oferecemos-lhe a transcrição integral do relato e algumas imagens parecidas com as que terá  observado. "Noutro dia  cavalgámos até à vila de S. Domingos, situada perto do centro da ilha"


SANTIAGO, ILHAS DE CABO VERDE, 16 de janeiro de  1832 - Vistas a partir do mar as imediações  do Porto da Praia apresentam um aspecto desolado. O fogo vulcânico das idades passadas e o calor tórrido de um sol tropical tornaram o solo estéril e, na maioria dos lugares, mal propício para vegetação. O campo ergue-se em sucessivos degraus de terra plana, entremeados de alguns montes cónicos e o horizonte é limitado por uma cadeia irregulares- de montanhas mais altas

"Durante a nossa estadia observei os hábitos dos animais marinhos. A grande Aplísia  é muito comum. Esta lesma marinha tem cerca  de cinco polegadas de comprido e é de uma cor amarelado sujo, ralada de púrpura.  Na extremidade anterior tem dois pares de antenas, das quais as superiores se assemelham em forma às orelhas de um quadrúpede."

"Enquanto procurava animais marinhos, com a cabeça a uns dois pés da margem rochosa, fui mais vez saudado por jacto de tinta  acompanhado de um ligeiro ruído de disparar . A princípio não sabia o que  era. mas depois descobri que se tratava da lula" - Mais à frente   todo o relato 



Charles Darwin fez uma viagem a bordo do navio  HMS Beagle, que inicialmente estava planeada  para durar um ano, mas acabaria por se prolongar em  quase cinco anos – o Beagle não retornou até 2 de outubro de 1836.

O  objetivo da expedição era o de  mapear a costa da América do Sul. E a presença do então talentoso, sedutor e  curioso, jovem inglês, de 22 anos,  não era a de coletar e estudar a biodiversidade, mas tão somente o  de fazer companhia ao capitão da embarcação, que buscava uma pessoa simpática e comunicativa, com quem pudesse conversar durante a longa  viagem. O veleiro utilizado tinha o nome de HMS Beagle, em referência à raça de cães

Avaliar pela leitura das suas observações, não  foi em Cabo Verde que terá feito   o maior número das descobertas ou as mais relevantes para o célebre tratado das espécies, no entanto, conclui-se que  terá sido a singularidade insular o ponte de partida a espevitar a sua curiosidade pelas coisas da natureza e a dar largas à sua curiosidade de inato cientista   no vasto campo da ordem vegetativa, animal e mineral. 

É  justamente o que se pode depreender das suas primeiras anotações, no diário que, mais tarde viria a publicar, sob o título  "Uma Viagem do Beagl", com o qual o viria a granjear considerável  fama e respeito nos meios científicos. Sobretudo, posteriormente, ao  utilizar várias das suas observações  no célebre Teoria da Evolução, cujo capitulo tomei a liberdade transcrever do pequeno opúsculo editado na coleção da Expo 98, com tradução de Helena Barbas. 

Através do relato da referida obra, consta-se que ficou encantado com os sorrisos e a hospitalidade das pessoas, com a  geologia das rochas e a panorâmica  árida da ilhas, onde não chovia há um ano, das cabras que ali procuravam alguma folha e sustento  - Além disso, as aves, os insetos, os animais marinhos   e  que ali conheceu,  até o divertiram: como a lesma-marinha;  a lula camaleónica, as galinhas-da-índia;” provavelmente em número de cinquenta ou sessenta. Eram extremamente desconfiadas e não deixaram que nos aproximássemos. Fugiam como perdizes num dia de chuva em Setembro, correndo com as cabeças levantadas e, se perseguidas, prontamente levantavam voo.  O pássaro mais comum é o pica-peíxe ( jagoensis), que mansamente pousa nos ramos da planta do rícino e daí salta sobre os gafanhotos e lagartos. Também o surpreendeu o  espetáculo de um grande forte e uma  catedral em ruínas.

É referido por estudiosos que “O Beagle" não estava pronto para velejar até o início de novembro, e foi então repetidamente atrasado por ventos fortes, zarpando só em 27 de dezembro de 1831. Passou pela Ilha da Madeira (mas não aportou nela) indo então para Tenerife, mas proibido de desembarcar por causa da quarentena de cólera imposta a barcos vindo da Inglaterra. Eles fizeram sua primeira parada na ilha vulcânica de Santiago no Arquipélago do Cabo Verde, e é onde o Diário de Darwin começa.
Daqui o navio dirige-se ao  arquipélagos de São Pedro e São Paulo e de Fernando de Noronha, Bahia (Salvador), em 29 de fevereiro, onde Darwin ficou maravilhado com a floresta tropical. A visão da escravidão foi considerada ofensiva por Darwin. Ao retrucar isso a FitzRoy quando ele disse que a mesma era justificável, fez com que FitzRoy perdesse a calma e o baniu da expedição. Os oficiais do barco apelidaram o capitão de "hot coffe" (café quente) devido ao seu temperamento na situação, e após algumas horas ele pediu desculpas a Darwin e pediu para que ele permanecesse na expedição. https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Viagem_do_Beagle

Depois de ter deixado o  Brasil - em Salvador e Rio de Janeiro -, viajou para  o Uruguai, Montevidéu, Argentina, Patagónia no Chile e Ilha Galápagos, que pertence ao Equador. Em seguida foi para o Haiti, passou pela Nova Zelândia, Austrália e África. Depois desse percurso, ele retornou à Bahia e seguiu para a Inglaterra. Nessa jornada Darwin viu que há muita diversidade de meio ambiente e que cada lugar tem suas características, tanto na vegetação, quanto na fauna e flora”.


SANTIAGO, ILHAS DE CABO VERDE, 16 de janeiro de  1832 - Vistas a partir do mar as imediações  do Porto da Praia apresentam um aspecto desolado. O fogo vulcânico das idades passadas e o calor tórrido de um sol tropical tornaram o solo estéril e, na maioria dos lugares, mal propício para vegetação. O campo ergue-se em sucessivos degraus de terra plana, entremeados de alguns montes cónicos e o horizonte é limitado por uma cadeia irregulares- de montanhas mais altas. Tal como observado através da atmosfera nublada deste clima. o cenário é de grande interesse; se, de facto. uma pessoa acabada de chegar do mar, e que pela primeira vez se passeia por um pequeno bosque de coqueiros, pode ser juiz de ali1uma coisa além da sua própria felicidade. De um modo geral, a ilha seria considerada como muito pouco interessante; mas para alguém acostumado apenas a uma paisagem  inglesa,  o prospecto novo. de uma terra completamente  estéril possui uma grandeza que maior presença de vegetação destruiria. Dificilmente se pode descobrir a verdura de uma única folha sobre a vasta extensão das planícies de lava; no entanto, rebanhos de cabras, junto com algumas vacas, lá se arranjam para subsistir. Chove multo raramente, mas durante uma pequena parte do ano caem chuvas torrenciais e depois delas desponta imediatamente  uma ligeira vegetação em cada fenda. Murcha depressa. mas é a partir de forragem tio naturalmente formada que vivem os animais. No  momento presente já há um ano que não chove. largos e de fundo direito, muitos dos  vales servem apenas durante alguns dias aquando da estação das chuvas como leito para n 6guas. e estão cobertos por matagais de arbustos sem folhas. Poucas criaturas vivas os habitam.O pássaro mais comum é o pica-peíxe (D1tce/o jagoensis), que mansamente pousa nos ramos da planta do rícino e daí salta sobre os gafanhotos e lagartos. Tem cores brilhantes, mas não tão belas quanto as da espécie europeia: também existe uma grande diferença no seu voo, comportamento, local de habitação - que em geral é nos vales  mais secos .


Um dia, dois dos oficiais e eu cavalgámos até à Ribeira  Grande, uma aldeia a poucas milhas a ocidente de Porto da Praia. Até chegarmos ao vale de S. Martinho o terreno apresentava-nos o seu usual aspecto pardo monótono: porém ali, um minúsculo regato de i1ua dava origem à mais refrescante margem de luxuriante vegetação. Levámos uma hora a chegar à Ribeira Grande, e ficámos surpreendidos pelo espectáculo de um grande forte e uma  catedral em ruínas. 'Antes que o seu porto fosse assoreado, a pequena cidade era o principal povoado da ilha, mas agora apresenta um aspecto melancólico, embora muito pitoresco. Tendo conseguido um padre negro por guia,  e como intérprete um espanhol que havia lutado na Guerra Peninsular, visitámos uma série de edifícios, de entre os quais se destacava uma igreja antiga. Nela tinham sido enterrados os governadores e capitães-generais da Ilha. Algumas das pedras tumulares registavam  datas do século dezasseis. Os ornamentos  heráldicos eram as únicas coisas, em todo este lugar retirado, que nos faziam lembrar a Europa. A igreja ou capela formava um dos lados de um quadrângulo, no meio do qual crescia um grande maciço de bananeiras. Noutro lado havia um hospital, com cerca de uma dúzia de hóspedes de aspecto miserável.

Regressámos à Venda para o jantar. Um número considerável de homens, mulheres e crianças, todos negros como azeviche, reuniram-se para nos observar. Os nossos companheiros mostravam-se extremamente alegres, e tudo o que dizíamos ou fazíamos era seguido pelas suas risadas vigorosas. Antes de deixar a cidade visitámos a catedral. Não parece ser tio rica como a igreja menor, mas vangloria-se de ter um pequeno órgão, que produzia os 1alnchos mais singularmente desarmoniosos. Adiantámos   alguns xelins ao padre negro e dando-lhe palmadinhas na cabeça o espanhol  disse, com grande candura, que achava que a cor dele não fazia grande diferença. Regressámos  então a Porto da Praia tão depressa quanto os póneis o permitiam.

Noutro dia  cavalgámos até à vila de S. Domingos, situada perto do centro da ilha. Numa pequena planície que atravessámos, cresciam umas poucas de acácias enfezadas, com as copas curvadas numa posição singular, por acção do constante vento marinho, algumas delas fazendo até um ângulo recto relativamente ao tronco. A orientação dos ramos era exactamente NE por N, e SW por S. Estes cataventos naturais devem indicar a direcção predominante da força do vento marinho. A viagem tinha deixado tão poucas marcas no  solo estéril, que aqui perdemos o nosso rasto e fomos parar a Fontes. Tal só o descobrimos  quando lá  chegámos; e depois ficámos muito contentes com o nosso engano. Fontes é uma  bonita aldeia, com um pequeno regato, e tudo parece prosperar, salvo, de facto, quem melhor o deveria - os seus habitantes. As crianças negras, completamente nuas e com um aspecto muito miserável, carregavam molhos de lenha duas vezes maiores que o seu próprio corpo.

O cenário de S. Domingos possui uma beleza totalmente inesperada, dado o carácter predominantemente sombrio do resto da ilha. A aldeia está situada na base de um vale cercado de majestosas muralhas com reentrâncias de lava estratificada. As rochas negras oferecem o mais espantoso contraste com a vegetação verde brilhante que acompanha as margens de um pequeno regato de águas elaras. Aconteceu que era um grande dia de festa e a aldeia estava cheia de gente. No regresso  alcançámos um grupo de cerca de vinte jovens raparigas negras vestidas com o melhor gosto; o contraste entre as peles negras e as suas roupas de linho branco de neve era realçado pelos turbantes coloridos e grandes xailes. Assim que nos aproximámos, viraram- se todas subitamente e, cobrindo o caminho com os xailes cantaram todas com grande energia  uma canção selvagem, e marcavam batendo  nas pernas com as mãos. Atirámos-lhes alguns vinténs que foram recebidos risadas estridentes, e deixámo-las a redobrar o  ruído da sua canção.

Já foi  dito que a atmosfera é geralmente muito nebulosa; tal parece dever-se principalmente a uma poeira impalpável que está constantemente a cair, mesmo sobre os navios no mar alto. A poeira é de uma cor acastanhada. e sob o maçarico facilmente se funde num esmalte negro. É produzida, como creio, pela erosão e desgaste das rochas vulcânicas, e deve vir das costas de África. Uma manhã,  a paisagem encontrava-se singularmente clara; as montanhas distantes projectava-se com o contorno mais puro sobre um pesado banco de nuvens azul-escuro. A julgar pela aparência, e de acordo com casos similares observados em Inglaterra, supus que o ar estava saturado de humidade. O facto, porém, revelou-se ser exactamente o oposto. O hipómetro acusava uma diferença de 29º 6' entre a temperatura do ar e o ponto de precipitação do  orvalho. Esta diferença era quase o dobro da que observara nas manhãs anteriores  Este invulgar nível de secura atmosférica era acompanhado  por relâmpagos contínuos. Não será, então, um caso invulgar encontrar um notável grau de transparência aérea com um tal estado de tempo?

A geologia desta ilha é a parte mais interessante  da sua história natural. Entrando no porto, pode ser vista em frente dos recifes perfeitamente horizontal uma faixa branca correndo por algumas milhas ao longo da costa e  à altura de cerca de 45 pés acima da água. Sob observação, descobre-se que este extracto  branco consiste em matéria calcária, contendo numerosas conchas incrustadas idênticas que agora existem na costa próxima. Descansa sobre rochas vulcânicas antigas cobertas por uma corrente de basalto que deve ter entrado no mar quando esta cama  branca de conchas ainda jazia no fundo . É interessante  traçar as mudanças que o calor da lava sobrejacente produziu sobre a massa friável. Nalgumas partes foi convertida em pedra firme com uma espessura de várias polegadas. tão dura quanto o melhor grés; e a matéria terrestre, originalmente misturada com a  calcária. foi separada em pequenas manchas deixando assim a cal branca e pura. Noutras partes formou-se um mármore altamente cristalino, e os cristais de carbonato  e de  cal são tão perfeitos que podem facilmente ser medidos pelo goniómetro reflector. A mudança é ainda mais extraordinária onde a cal  foi apanhada  pelos fragmentos escoriáceos da superfície  inferior da corrente; porque aí está convertida em grupos de fibras maravilhosamente  irradiadas e semelhantes a aragonite. As camadas de lava erguem-se em planícies ligeiramente  Inclinadas em direcção  Interior ao ponto  interior de onde procederam originalmente os dilúvios de pedra derretida. Dentro do período dos tempos históricos. creio que não se manifestaram quaisquer sinais de actividade vulcânica em alguma parte de  Santiago. Este estado de repouso existe, provavelmente, devido à vizinha ilha do Fogo estar frequentemente em erupção. Mesmo a forma de uma cratera só raramente se consegue descobrir nos cumes dos montes cobertos de cinza vermelha; no entanto, podem distinguir-se na costa os ribeiros mais recentes formando uma linha de rochedos de altura menor, mas ultrapassando os que pertencem a uma série mais antiga: a altura do rochedo oferece, assim, uma rude medida da sua idade

Durante a nossa estadia observei os hábitos dos animais marinhos. A grande Aplísia  é muito comum. Esta lesma marinha tem cerca  de cinco polegadas de comprido e é de uma cor amarelado sujo, ralada de púrpura.  Na extremidade anterior tem dois pares de antenas, das quais as superiores se assemelham em forma às orelhas de um quadrúpede. Em cada lado da superfície inferior ou pé, existe uma membrana larga, que às vezes parece funcionar como ventilador, desencadeando o fluir de uma corrente de água sobre as brânquias dorsais. Alimenta-se de algas delicadas que crescem entre as pedras em águas enlameadas ou paradas, e encontrei-lhe no estômago várias pedras, como nas moelas dos pássaros. Quando perturbada, esta lesma segrega  um fluido vermelho-escarlate que tinge a água no espaço de um pé ao seu redor. Além deste melo de defesa, espalha-se-lhe pelo corpo uma secreção acre que provoca uma sensação aguda e picante, semelhante à produzida  pela Fisália, ou anémona navio-de-perra-português.

Por várias ocasiões fiquei muito interessado a observar  os hábitos de um polvo ou lula. Embora comuns nas poças de água deixadas pela maré vazante, estes animais não eram apanhados com  facilidade. Por meio dos longos tentáculos e ventosas. conseguiam esgueirar os seus corpos para fendas muito estreitas de onde, quando assim se fixavam. era necessário uma força enorme para os retirar. Outras vezes,  de cauda para a frente e com a velocidade de uma  seta, precipitavam-se de um lado da poça  para outro, ao mesmo tempo  tingiam a água  com uma tinta castanho-escura. Estes animais  também escapam a detecção por um extraordinário poder camaleónico de mudar a sua cor. Parecem variar as tonalidades de acordo com a natureza do solo sobre o qual passam ; quando,  em águas profundas , a sua cor  em geral é de um castanho-avermelhado, mas quando colocados sobre a terra, ou em rasa água, esta coloração escura mudava-se num verde-amarelado. Examinada mais   cuidadosamente. a cor era um cinzento francês salpicado  com Inúmeras pintas minúsculas de amarelo brilhante: as primeiras variavam de  intensidade enquanto as ultimas desapareciam e apareciam  de novo, por turnos Estas mudanças  efectuavam-se  de tal maneira que  nuvens, variando de tonalidade entre  o vermelho-arroxeado e o castanho. lhe continuamente sobre o corpo. Qualquer  parte do corpo sujeita a um choque galvânico quase preta: um efeito similar, mas em menor grau, era produzido pele com uma agulha. Estas nuvens ou rubores, como  se poderão chamar, quando examinados  sob uma lente, são descritos  como sendo produzidos pelas expansões e contracções alternadas de minúsculas vesículas contendo variados fluídos coloridos.

Esta lula exibia o seu poder camaleónico, tanto durante o acto de nadar, como quando se mantinha estacionária no fundo. Muito me divertiram as variadas artes de escapar à detecção  usada por um indivíduo, que parecia estar perfeitamente consciente de que eu o observava. Depois de ficar imóvel durante algum tempo, avançava furtivamente por uma a duas polegadas. como um gato atrás de um  rato, às vezes mudando de cor: assim avançava até que, tendo atingido uma parte mais profunda, disparou para a frente deixando ama trilha enevoada de tinta para esconder o buraco para onde se tinha esgueirado.
Enquanto procurava animais marinhos, com a cabeça a uns dois pés da margem rochosa, fui mais vez saudado por jacto de tinta  acompanhado de um ligeiro ruído de disparar . A princípio não sabia o que  era. mas depois descobri que se tratava da lula. a qual,  embora escondida num buraco, assim muitas vezes me conduzia a descobri-la. Que possuía o poder de ejectar água não há dúvida. mas mais ainda, parecia-me certo que dirigindo o tubo ou sifão da parte inferior do corpo, obtinha uma boa pontaria. Dada a dificuldade que estes animais têm em sustentar a cabeça, não podem deslocar-se com facilidade quando colocados no chão. Observei que aquele que eu conservava na cabina se tornava ligeiramente fosforescente no escuro.





domingo, 5 de julho de 2020

Cabo Verde celebrou neste domingo o 45.º aniversário da independência nacional – Com a promessa do Presidente, Jorge Fonseca, de que "Esta pandemia vai pôr à prova a nossa capacidade de resistir e vencer" PM de S. Tomé e Príncipe, Jorge Bom Jesus, solidário com o pais irmão, felicitou o seu homólogo Ulisses Correia e Silva

Jorge Trabulo Marques - Jornalista 

 Alguns dos membros da comunidade cabo-verdiana na Roça Uba-Budo - 2014
O dia 5 de Junho é uma data histórica da fundação da nacionalidade cabo-verdiana mas longe de ser o dia festivo de celebrações anteriores, visto estar também ensombrada  pela pandemia global - Na sua intervenção na sessão solene, que decorreu no palácio da Assembleia Nacional, na Praia, com um reduzido número de convidados, 


Na roça Água Izé - S. Tomé   - 2015

O Presidente Jorge Fonseca, reforçou a ideia de que o país quer ser conhecido "pelas boas razões” e que o contexto, económico (previsão de duplicar a taxa de desemprego em 2020) e sanitário (com 1.451 casos diagnosticados de covid-19 e 17 óbitos), "põe à prova” a solidariedade nacional.

Em Julho de 2015 - Na visita a STP - Naqueles dias havia mais alegria


Noticias de Cabo Verde,  destacam também o facto de que,  "numa altura em que o arquipélago conta com casos diagnosticados de covid-19 em sete das nove ilhas habitadas, o chefe de Estado voltou a insistir no cumprimento das medidas de distanciamento social e proteção individual pela população, mas terminou a intervenção com a preocupação com a situação económica, que desde logo prevê uma recessão, este ano, acima dos 8% do PIB, a mais grave desde que Cabo Verde se tornou independente.
"Torna-se imperativo o reforço de políticas que favoreçam a inclusão e combatam a pobreza, sobretudo a extrema, em áreas como a habitação, o emprego, o acesso à proteção social e à educação", afirmou..https://www.dw.com/pt-002/covid-19-esta-pandemia-vai-p%C3%B4r-%C3%A0-prova-a-nossa-capacidade-de-resistir-e-vencer/a-5406040

BANA  - A VOZ DA DIÁSPORA DE  CABO VERDE QUE A MORTE NÃO APAGA 





Bana, o rosto e a morna que mais consubstanciou a diáspora cabo-verdiana - O cabo-verdiano emigra porque não encontra, muitas vezes, trabalho no arquipélago, porque deseja alcançar um nível superior de vida ou, mesmo, porque tem certo espírito de aventura. Existem nos Estados Unidos da América do Norte núcleos importantes ele cabo-verdianos (em Massachusetts, Rhode Islaud e outros Estados); há-os, também, nas ilhas Sandwich, no Senegal (especialmente em Dacar; há, também, cabo-verdianos estalecidos na Argentina  no Brasil e um pouco por toda a  a parte. Quando emigram, o crioulo leva consigo o amor da terra (da mamãe-Terra», como lhe chamou um poeta das ilhas), e volta sempre que pode, para casar ou para comprar um pedaço dessa terra ingrata e construir uma moradia

Nuns versos  cantados cm Santiago, diz-se, segundo a tradição  do crioulo para o português, que deles dá um escritor cabo-verdiano
O corpo, que é escravo, vai, O coração, que é livre, fica ...


Quer isto dizer que o corpo parte porque é escravo das circunstâncias  ou elas necessidades, mas que o coração, que tem a liberdade de sentir, fica preso à terra, à casa, à família  

São Tomé e Príncipe, é outro dos países de expressão portuguesa, igualmente atingido pelo Covid-19, num   total de 719 casos positivos, dos quais, 433 encontram-se em isolamento domiciliar,  6 internados no hospital de campanha, enquanto o número de óbitos mantém-se em 13.

SOLIDARIDADE AO POVO CABO-VERDIANO COM DESEJOS DE REFORÇOS DE COOPERAÇÃO

Refere a Agência STP e o Téla Nón, que "O primeiro-ministro são-tomense; Jorge Bom Jesus felicitou hoje o seu homólogo de Cabo-Verde, Ulisses Correia e Silva e ao povo cabo-verdiano pelo 45.º aniversário da independência de Cabo-Verde que hoje se comemora, tendo manifestado toda a vontade de estreitar os laços de amizade e fraternidade entre os dois Países.”.O primeiro-ministro são-tomense; Jorge Bom Jesus felicitou hoje o seu homólogo de Cabo-Verde, Ulisses Correia e Silva e ao povo cabo-verdiano pelo 45.º aniversário da independência de Cabo-Verde que hoje se comemora, tendo manifestado toda a vontade de estreitar os laços de amizade e fraternidade entre os dois Países..http://www.stp-press.st/2020/07/05/primeiro-ministro-sao-tomense-felicita-seu-homologo-de-cabo-verde-pelo-45o-aniversario-da-independencia/   ...https://www.telanon.info/politica/2020/07/05/32065/governo-de-stp-felicita-cabo-verde-pelos-seus-45-anos-de-independencia/

MEUS PARABÉNS AO PRESIDENTE DE CABO VERDE, AO ACADÉMICO E POETA, JORGE CARLOS FONSECA - Pelos 45 anos da Independência do seu pais - Com os meus votos de que possa ultrapassar os dias de incerteza que atravessa

2015 - De Visita a São Tomé e Principe
De sublinhar que, na cerimónia que assinalou os 45 anos da Independência de Cabo Verde, o presidente enfatizou ainda que A “tragédia” para a qual o mundo não estava preparado só pode ter uma resposta global para resolver um problema global. A solução apontada pelo Presidente da República de Cabo Verde deu o mote para o discurso de encerramento da cerimónia solene, na Assembleia Nacional, que assinalou os 45 anos da Independência de Cabo Verde. https://expressodasilhas.cv/pais/2020/07/05/jorge-carlos-fonseca-a-pandemia-deixou-mais-patente-as-assimetrias-regionais-e-as-desigualdades-sociais/70310

Em 2015 - Jorge Carlos Fonseca e Mamnuel  Pinto da Costa
Traços Biográficos "- Jorge Carlos Fonseca, político, jurisconsultor, académico e escritor cabo-verdiano, nasceu em 1950.É Licenciado em Direito e Mestre em Ciências Jurídicas, pela Faculdade de Direito de Lisboa, tendo obtido a classificação de Muito Bom. Foi Assistente Graduado na Faculdade de Direito de Lisboa, durante vários anos, tendo lecionado designadamente as disciplinas de Processo Civil III (Recursos), Direito Penal e Direito Processual Penal.
. A sua vasta obra científica nas áreas do Direito Penal, Processual Penal e Constitucional – uma dúzia de livros e mais de cinquenta trabalhos doutrinários em revistas – está publicada em mais de uma dezena de países. Tem igualmente várias dezenas de escritos sobre política, cultura, democracia, direitos humanos e cidadania, em revistas da especialidade cabo-verdianas e estrangeiras.

Foi presidente e professor do Instituto Superior de Ciências Jurídicas e Sociais de Cabo Verde e presidente da Fundação «Direito e Justiça», sendo, também, um de seus principais fundadores

Participou, como perito contratado pelas Nações Unidas, nos trabalhos de elaboração da Constituição de Timor-Leste (2001 e 2002). https://pt.wikipedia.org/wiki/Jorge_Carlos_Fonseca

Cabo Verde  45.º aniversário da independência nacional. Jovens afirmam que não têm conseguido participar de forma ativa na vida política e social do país e que os dirigentes se afastaram dos ideais do pai fundador das nacionalidades guineense e cabo-verdiana, Amílcar Cabral. https://www.dw.com/pt-002/cabo-verde-celebra-o-45%C2%BA-anivers%C3%A1rio-da-independ%C3%AAncia-nacional/av-54059639

sábado, 4 de julho de 2020

Pintor Pascoal Viegas Vilhete (Sum Canarim – Bisneto do 1º Barão d’Água-Isé “Antes de perder a vista eu tinha muitos amigos. Agora as pessoas já não me ligam nada” – A única entrevista dada em vida pelo maior pintor ingenuista de São Tomé e Príncipe – Que ao sentir-se cego e desprezado, se isolou ainda mais no seu mundo desenhado a tinta “robbialac” -Natural de Santana, do sítio de Água Lama - Memórias do meu carnet de repórter

Entrevista conduzida por Jorge Trabulo Marques, para a revista angolana Semana Ilustrada, em Julho de 1971 - Não perca o curioso diálogo, neste post, mais à frente.

CAMÕES PERDEU UMA VISTA MAS CANARIM DEIXOU DE PINTAR QUANDO JÁ QUASE NÃO VIA DAS DUAS  - POBRE E ABANDONADO

Era conhecido por  Canarim ou Sum Canalim. Desenhava a lápis e a tinta de madeira, e a sua marca preferida era a Robbialac . Por isso mesmo, muitos dos seus desenhos ou estão já degradados ou não vão ter vida longa. Mas ele também não pintava para eternizar o seu nome mas para viver intensamente o  momento: como quem não quer perder a liberdade da inocência, o lastro mais belo da memória.

Em parte também era escultor: pois também pintava as esculturas que desenhava para o carpinteiro cortar. De “songués” e  “sanguês” da sua terra natal, bonecos de homens e mulheres, em posturas de moleques ou de trajes típicos. As cores da sua preferência eram os verdes e os vermelhos e o azul  - Nos quadros gostava sempre de lhe colocar a bandeira da república, que foi aquela que ele viu desfraldar, em 1910, quando foi estudar para Lisboa - mas por pouco tempo. Pensamos que, fazendo-o, mais como sinónimo da liberdade que o símbolo então profetizava de que propriamente como veneração colonial, pois ele sabia muito bem quem  lhe usurpara a   Roça das Laranjeiras, onde nasceu.

PARA QUEM NÃO LEU A S.I. HÁ QUASE  CINCO DÉCADAS, FICA A CONHECER  UM POUCO MAIS O PERFIL DO GENIAL ARTISTA- De quem muito se fala mas de cuja  personagem pouco se lhe conhece - Não havendo sequer registos de fotos pessoais na Internet e parece-nos que até do dia da sua morte, que certamente terá passado despercebida.

Foi nos finais de Julho de 1971, que me dirigi a casa de Pascoal Vilhete para o entrevistar – A entrevista, que a seguir vou reproduzir na íntegra, foi publicada na Revista Semana Ilustrada, de que era seu correspondente nestas ilhas

Começava assim:  -"Vive em S. Tomé, nos subúrbios da pequena cidade da paradisíaca Ilha Verde, lugar de arraial, numa modesta casa de madeira escondida entre tufos de colorida e luxuriante vegetação, praticamente arredado do ambiente buliçoso e palpitante que o cerca, entregue a si próprio, à sua arte que é o seu· refúgio, a sua quase única razão de se sentir feliz num mundo que é para si o dia-a-dia, devido a persistente surdez e perda de vista, que o vai isolando cada vez mais.

"Chama-se Pascoal Viana de Sousa Almeida Viegas Lopes Vilhete, bisneto do 1º. Barão de Água lzé. Homem de uma grande simplicidade, Pascoal Vilhete é um autêntico artista, cuja virtude permanece oculta, debaixo de uma timidez e de uma desconfiança de tudo quanto é real na vida ''  - Mário de Oliveira

"Pois foi justamente com esse homem simples e humilde com quem há dias tivemos o prazer de conversar. Não o conhecíamos, nunca o havíamos visto pessoalmente, e, portanto, até então, ainda nunca tínhamos com ele dialogado. Sabíamos porém da sua existência, não pelo que dele ouvíssemos falar, porque, apesar  do muito valor que encerram as suas obras, é quase desconhecido em S. Tomé  e Príncipe. Mas, amigos da leitura que somos, dele nos demos conta através de escritos, sobretudo do conhecidíssimo e categorizado crítico de arte, Arquiteto Mário de Oliveira, do qual inserimos algumas passagens.

Por isso, foi com vivo entusiasmo que fomos ao encontro desse grande artista, quase ignorado das gentes de São Tomé e Príncipe. Pois disso tivemos ocasião de constatar, sobretudo do povo, que o devia conhecer e  acarinhar, ou, pelo menos, saber da sua existência, porque ele, afinal, sintetiza o povo, pertence a ele e é dele que as suas pinturas nos falam. Mário de Oliveira, confirma-nos  que sim:

“As figuras humanas que Pascoal Vilhete representa, são possivelmente  os seus amigos da juventude, porque o artista sentiu e viveu  em S. Tomé, com uma verdadeira nostalgia. Aí a pintura tem sido o seu refúgio - um verdadeiro paraíso terreal. Este fenómeno, aliás, pode apreciar-se em todos os pintores ingenuístas,  pela simples razão de que nestes pintores não existe “batota”,  a intenção subconsciente está sempre a descoberto. A recordação dum mundo que não existe nunca, senão aquele pedaço de terra perdido na infância, onde Pascoal Vilhete, com os seus  amores, ia ver o Tchilôli, o Danço Congo, o Fundão, etc., etc. , temas· que hoje o artista continua a pintar numa absoluta quietude , contraditoriamente conciliada com uma pavorosa sensação de mistério”


CAMÕES PERDEU UMA VISTA MAS CANARIM DEIXOU DE PINTAR QUANDO JÁ QUASE NÃO VIA DAS DUAS  - POBRE E ABANDONADO



E lá o fomos encontrar em sua casa, na companhia de sua filha, uma alegre e  bonacheirona negra de certa Idade, completamente absorto e entregue à execução-de alguns dos seus famosos quadros.

Não nos conhecíamos, por isso – artista e repórter -, iam encontrar-se pela primeira vez frente a frente num franco e agradável diálogo. Recebeu-nos com simplicidade, mas recebeu-nos muito bem.

Vimos nele, logo de início, um sorriso aberto, como que a desejar-nos as boas-vindas. Pareceu-nos ter ficado satisfeito com a nassa visita inesperada. Pois, Pascoal Vilhete, confessou-nos  que as pessoas já não o cumprimentam, já não lhe falam. Daí, o desabafar-nos com certa amargura:

“Antes de perder a vista eu falava muito. Tinha muitos amigos. Agora as Pessoas já não me cumprimentam, Já não me ligam nada”

Mas será mesmo assim ou serão os efeitos da implacável surdez e cegueira que o ameaçam? Ninguém por certo saberá responder. Talvez um pouco de tudo, cremos nós.

Daí, que, Lisboa, para onde partiu quando jovem, com 14 anos, seja agora recordada na sua mente com profunda saudade.

Gostava de voltar a Lisboa - em Lisboa, tinha lá muitos amigos. Tinha lá um rapaz chamado Augusto dos Reis Sá Nogueira, e um rapaz de Setúbal, mas esse rapaz não sei se ainda existe ou não.

E a verdade é que até os próprios vizinhes de Pascoal Vilhete mal o conhecem. Disso tivemos oportunidade de verificar. Pois, para conseguirmos encontrar a sua casa, foi-nos mesmo bastante difícil. As voltas que demos e as pessoas a quem perguntámos por ele, não têm conto. E, afinal, ele mora tão pertinho de nós!

Passa-se assim normalmente com os grandes génios. Quando são votados ao abandono, são desprezados ou humilhados, se possível for”.

As entidades oficiais – Câmara e Turismo – compraram-lhe alguns desenhos para lhe fazerem as reproduções, mas depois caiu no esquecimento. 

Entretanto, depois viemos a saber,  que, pelo Centro de Informação e Turismo foram já tomadas diligências no sentido de Pascoal Vilhete ser operado à vista. Aguarda-se, apenas, cirurgicamente, a altura própria. O Dr. Sousa Dias prontificou-se a operá-lo gratuitamente. E ainda bem que assim é, pois senão corre-se o risco de se vir a perder, segundo afirma, Mário de Oliveira, o nosso primeiro grande pintor ingenuista.

A ENTREVISTA COM PASCOAL VILHETE – ATRAVÉS DA QUAL É POSSÍVEL COMPREENDER MELHOR O HOMEM E O ARTISTA

“E eis agora, caros leitores, em linguagem simples, algumas passagens da curiosa conversa havida com Pascoal Vilhete, ou Sr. Canarim,  que nos dão um retrato fiel do homem e do artista - era assim como, na edição da revista angolana, Semana Ilustrada, iniciava a única entrevista que, o singular pintor santomense, deu em sua vida, a um órgão de comunicação social – Do qual também não existem fotos pessoais, que não as que lhe fizemos em sua casa

J.M. – Senhor Canarim: porque pinta? Qual o motivo que o levou a pintar?
P.V – Foi uma coisa a calhar… não aprendi.
J.M. – Então você não aprendeu mesmo nada?
P.V. – Eu aprendi mas foi quando tirei o 2º grau. A  gente fazia desenho de uma cadeira… ou uma coisa qualquer.
J.M. – Mas o Sr. falou-me há pouco de Lisboa: que foi lá a fazer?
P.V. – Foi o meu padrinho, Sr. Luís Carlos, que me mandou ir.
J.M. – E porque é que o mandou ir? Vivia lá em Lisboa?
P.V. – Sim. Tinha lá um escritório. Queria que eu fosse tirar o curso de guarda-livros. E mandou-me ir para lá. Depois, quando fui, estive no hotel Frankfurt
J.M- Esteve hospedado ou a trabalhar?
P.V. – Não, não estive a trabalhar. Estive lá até arranjar um colégio.
J.M. – Quanto tempo?
P.V. – Pelo menos dois meses.

J.M. – Depois foi estudar para onde?
P.V. – Para o Colégio Universal na Calçada Santana, defronte à Igreja da Pena.
J.M. – E então o que estudou?
P.V. – Tirei o 2º grau. Depois do 2º grau comecei a estudar francês, inglês, etc. Depois aprendi a trabalhar à máquina. Queria tirar o curso de guarda-livros  mas depois o meu padrinho mandou dizer ao meu pai… e mandou-me embora.
J.M. – Mas o Sr. não chegou a frequentar as Belas-Artes?
P.V. – Quê?!... Não conheço essa casa.
J.M. –  E quanto tempo é que esteve em Lisboa?
P.V. – Fui em Fevereiro de 1908 e vim em Janeiro de 1912.
J.M. – E porque é que voltou para S. Tomé e Príncipe?
P.V.- Voltei, porque meu padrinho não queria que eu continuasse o estudo. Porque, se eu continuasse o estudo, não deixava ele intrujar meu pai. Porque essa Roça de Santana das Laranjeiras, foi de meu pai.
J.M- Como se chamava ele?
P.V. – João Viegas de Abreu Pascoal  Vilhete.

COMEÇOU POR BRINCADEIRA A DESENHAR – BONECOS, CAVALOS, DANÇO CONGO… PEGAVA NUM LÁPIS E FAZIA QUALQUER COISA…

J.M.- Então explique-me lá: como é que o Sr. começou a pintar? O que é afinal o levou a procurar a pintura?
P.V- Pegava num lápis… fazia qualquer coisa. Depois… calhou. E pronto!
J.M. – E primeiro começou a pintar o quê?
P.V. – Bonecos. Cavalos. Danço Congo.Tchilôli, Cirurgião. Enfim… brincadeiras da terra.
J.M. – E esses desenhos, os bonecos que o Sr. tem feito, são de coisas de São Tomé, da sua terra, ou também de Lisboa?
P.V. – Só são coisas da minha terra. Olhe. Uma coisa até está aqui. – E Canarim apressa-se acto contínuo, a mostrá-la, ao mesmo tempo que no-la identifica: - É um boneco de madeira, é um “songue”.
J.M. – Então o Sr. também faz bonecos de madeira? – Interrogamos de imediato.
P.V. – Sim, Senhor. Faço manequim de “sangue” com filho às costas e de “songue” com cinzeiro na mão. Mas só risco e pinto. O carpinteiro é que corta.
J.M – E quanto é que leva por cada peças dessas?
P.V. – Comecei a vender por 150#00.
J.M. – Não é caro, Sr. Canarim. É barato.
P.V. – Sim. E isso dá-me muito trabalho.  E tenho gasto muito dinheiro, porque também tenho que pagar ao carpinteiro. Tenho que primeiro andar cortar isto. Depois é que faço desenho e tudo.
J.M. – Muito bem. Então o Sr. Canarim desenha, depois, o carpinteiro trabalha a madeira e por  fim você pinta a figura, não é assim?
P.V. Pois. Eu faço o risco. Depois ele vai com a serra rodear.
J.M – Nesse caso, o Sr. a ter que pagar ao carpinteiro, pouco lhe deve ficar. Vive então com muitas dificuldades, não é verdade?
P.V. – Ah! Mesmo muitas!
J.M. – Quantos filhos tem?
P.V. Tinha seis .Morreram quatro, e fiquei com um rapaz e uma rapariga.
J.M. – É casado?
P.V. – Não. Não casei. Tive uma amiga. Mas agora…
J.M. – Seu pai tinha uma roça?
P.V. – Sim, senhor. Com sino e tudo.
J.M – Mas, agora…

MAS AGORA….

Mas agora…  Achamos que está tudo dito. Uma frase áspera e sombria na via de um homem, que não vale a pena activar. Resta-nos apenas variar o tema. E foi mesmo isso que fizemos. E com igual força de curiosidade de que vínhamos precedidos, a mesma incontida ânsia de penetrarmos nas profundezas recônditas da via do homem e do artista, prosseguimos:
J.M – Então, Sr. Canarim. Conte-nos lá mais coisas da sua pessoa. Estamos desejosos de ouvir. Diga-nos lá, por exemplo quais as melhores recordações de Lisboa?
P.V- Ah! Tenho muito boas recordações. Lembro carnaval de Lisboa. Carnaval de Lisboa é muito bonito!... Trem, da Avenida da Liberdade. Mas agora já deve ser outro carro fino.
J.M. – Se lhe mandassem fazer uma pintura de Lisboa, ainda era capaz?
P.V. – Não. Já não era capaz. Já não tenho bem na ideia.
J.M – Dos seus quadros que tem feito, de qual é que gostou mais de pintar?
P.V. – Eu gosto de todos. Mas Tragédia e Danço Congo é que  gosto mais.

UTILIZA TINTA ROBBIALAC

J.M. -  Já reparei que nas suas pinturas, o Sr. Canarim utiliza muito verde e o vermelho. Porque será? Tem algum gosto especial por essas duas cores?
- E Canarim, como que apanhado de surpresa, respondeu-nos:
P.V. – Ah! É tinta da república. É da bandeira. E também gosto de fazer  com tinta azul e tinta branca, que é a bandeira portuguesa de antigamente. Mas também gosto do encarnado porque sobressai mais. Fica mais bonito e faço o verde, de vez em quando, devido às folhas das bananeiras, das palmeiras. Da paisagem.
J.M – O Sr. Canarim, desenha normalmente a bandeira portuguesa  nos seus quadros. Com que sentido?
P.V. – Para ficar uma coisa bonita. Eu quando estive em Lisboa, havia lá a república e eu vi lá essa bandeira. Foi em 1920. Eu estava lá ainda.
J.M- Quanto tempo é que você leva a pintar um quadro?
P.V. – Conforme. Às vezes quinze dias, e mais. E agora cada vez pior. Não vejo. A vista começa a arder.
J.M. – Gostava de ser um bom pintor? De ter aprendido a arte de pintar?
P.V. – Ah! Tinha habilidade; se meu pai me deixasse….
J.M – O Senhor utiliza tinta vulgar, tinta das portas. Que marca é gasta?
P.V. –  Tinta Robbialac.
J.M.- E pinta sobre cartolina?
P.V. – É sim senhor.

J.M. – Sabe, Sr. Canarim: os pintores geralmente utilizam tintas especiais. Nunca ninguém lhe ensinou a empregar outras tintas?
P.V. – Nunca ninguém me ensinou nada. Tintas outras não conheço. Faço só.
J.M – Pois bem, Sr. Canarim. E aqui é que está o valor. Não concorda connosco?
P.V. – Sim, de facto. Dá-me muito trabalho. É muito difícil. Cai um pingo de tinta e estraga tudo. Mas agora dizem que há outra de uma forma não sei de quê!
J.M – Quantos quadros calcula ter pintado em toda a sua vida?
P.V. – Oh! Não sei. Não me lembro ao certo.
J.M – Que preço faz normalmente por cada quadro seu?
P.V. . Trezentos escudos.
J.M. – Isso é muito pouco, Sr. Canarim. Não deve compensar o trabalho que lhe dá, não acha?
PV – Mas, que se há-de fazer.  Ninguém dá mais, mas a vista é que me mata , senão!…

J.M – Senão o quê, Sr. Canarim?
P.V. – Fazia mais desenhos. Ou então ia para Lisboa, que lá é melhor.
J.M- Tem apenas trabalhado na pintura, ou também tem feito outros trabalhos?
P.V. – Só nas pinturas. Nas pinturas e nos bonecos. E também tenho pintado bandeiras nas freguesias, dado cor às imagens na igreja de Santana, e outras mais.
E com isto pusemos ponto final às nossas perguntas pois que para o nosso bom homem, para a sua débil saúde, passaria a ser abuso a mais.
Restava-nos, unicamente e uma vez mais, agradecer-lhe a sua tão justa solicitude  à nossa entrevista. E ficámo-nos, portanto, por aqui, esperançados de que tenhamos dado a conhecer, aos nossos leitores, todos os pormenores de um verdadeiro artista.

DOIS ANOS DEPOIS – NUM ARTIGO DA S.I. RECORDANDO A ENTREVISTA E O PINTOR – JÁ QUASE CEGO E CADA VEZ MAIS SÓ E AMARGURADO

Parece-me que foi há  dois anos que me desloquei a casa do  curioso pintor ingenuista de S. Tomé, e o entrevistei para a Semana Ilustrada. No entanto, conservo bem vivo na memória o interessante diálogo que mantive, demoradamente,  com este autêntico artista, um dos maiores pintores ingenuistas contemporâneos; no dizer do conhecido e reputado critico de arquiteto Mário  de Oliveira.

Guardo desse agradável encontro as melhores impressões, ,quer da sua arte, quer mesmo a impressão humana colhida da sua pessoa. Não posso esquecer os seus belos quadros, plenos de riqueza de cor e expressividade, de pitoresco e gracioso do folclore santomense dos seus tempos de rapaz. Quase todas ou mesmo todas as suas pinturas remontam ao seus tempos de juventude. E mostram-nos, de facto, alegre e bizarros quadros, preenchidos na sua totalidade por cenas e motivos da vida e do folclore da Ilha.

Também sempre que o vejo tenho-lhe perguntado como tem ido a saúde, mormente a recuperação da sua vista que está  em vias de perder por completo. Os seus óculos, de lentes graduadíssimas, parece que já pouco lhe podem valer. As melhoras não têm  sido animadoras. 
E é pena, realmente, que ninguém lhe acuda, que ele não encontre os recursos necessários para o tratamento da sua vista. E que este” curioso pintor”, aliás, como  ele próprio se define, mas grande artista de S. Tomé, não possa continuar a proporcionar-nos a sua agradável e apreciada arte. A muita arte que de facto ainda teria para nos oferecer.


PARA QUEM NÃO LEU A SEMANA ILSUTRADA,  HÁ QUASE CINCO  DÉCADAS, FICA A CONHECER  UM POUCO MELHOR  O PERFIL DO GENIAL ARTISTA- De quem muito se fala mas de cuja  personagem pouco se lhe conhece - Não havendo sequer registos de fotos pessoais na Internet e parece-nos que até do dia da sua morte, que certamente terá passado despercebida.

A sua biografia não necessitava  de catálogo, reduzia-se a umas breves palavras, que geralmente eram impressas nas legendas dos seus quadros:

 Tais como. Desenho do curiôso artista (artista Nativo da Província Portuguêsa S. Tomé) Pascoal Viana de Sousa Almeida Viegas Lopes Vilhete; nasceu em Santana a 3 de Maio de 1894. O infeliz Bisnéto do 1º Barão d’Água-Isé. Foi aluno interno do Colégio Universal Calçada de Santana Nº 180, Lisboa, no ano 1908 pª 1912, do mêz de Fevereiro.”

Mais tarde, o Padre Ambrósio, dedicou-lhe mais alguns pormenores à sua resumida biografia, dizendo que nascera na localidade de Água Lama, filho de  João Viegas d'Abreu Lopes Vilhete e de Leopondina Viana  D'Almeida, foi bisneto do primeiro Barão de Água Izé , por parte da mãe, neta de João Maria de Sousa e Almeida.

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Além das escassas  linhas, em caligrafia desenhada, ao lado das legendas em que sintetizava  a biografia e  explicava os temas dos seus quadros, como se fossem personagens de uma autêntica comédia:

 Tchiloli", o "Danço Congo", o "Fundão", o "Socopé", a "Santana", o "Cortejo Religioso" e o "Piadô Zaua"*.»entre outros  assuntos que ia  buscar ao fundo da sua memória mais  longínquadiz-se,  atualmente, que, de Pascoal Viegas, o Canarim, pouco se sabe, a não ser que era um grande pintor que nasceu em São Tomé, com um quadro num museu de Nova Iorque – Sim, isto , porque, mesmo no período colonial, tal como o Mestre Diogo de Macedo, afirmara acerca dos artistas em geral, “nós os portugueses continuamos e continuaremos, fora do nosso sonho , a não saber nada… e a perceber menos ainda deste mundo que andamos há séculos a revelar ao próprio mundo”

Também se diz  nas considerações que se faz à vida e à  obra do genial artista “curioso” que “ o nome que se tem como referência no país e na época colonial é o de Pascoal Viana de Sousa Almeida Viegas Lopes Vilhete"  - É verdade. Embora de reconhecido mérito, é certo,  mas o que o tornou famoso foi sobretudo o aproveitamento dos seus quadros pelas entidades coloniais, quando se deram conta que era interessante (sob o ponto de vista político) associar as culturas locais como elementos de propaganda turística do regime. De outro modo, quer o folclore, quer a expressão pictórica nativa, era menosprezada. Era tida como  distração de negros. 



De resto, nos africanos, a expressão artística (pintura, escultura e música) comportou sempre um lado mais lúdico e sensitivo, que as pesadas lucubrações intelectualistas,  assim o assume e o  reconhece, Pascoal Vilhete, na legenda com que descreve o “Danço Congo” ao dizer que  “Essa dança não é verdadeira de S. Tomé. Dizem que foi um Nativo desta Ilha que andava no Congo é que veio plantar essa brincadeira em S. Tomé; há muitos anos”.

Sim, também os desenhos de Canarim, foram sempre tomados como sua brincadeira que o transportava à adolescência  E só não chegou a pintar “o carnal de Lisboa, que foi o que mais adorou, porque, também lá esteve pouco tempo, e havia na sua terra de origem carnavais bem mais genuínos e que tinham a ver com a sua verdadeira identidade

USADO COMO INSTRUMENTO DE PROPAGANDA COLONIAL

Tal como dizíamos nesta entrevista, que nos concedeu, quem primeiro se referiu a Canarim, foi Mário de Oliveira, arquiteto, urbanista, pintor e crítico de arte português, autor do projeto  da Escola Técnica Silva e Cunha, atual Liceu Nacional de São Tomé e Príncipe – 

A bem dizer foi ele que o notabilizou.  A revista PANORAMA (arte e turismo, editada pelo regime),em Setembro de 1967, consagra-lhe a capa com um dos seus desenhos, servindo de chamada de atenção a um artigo sobre o Tchiloli, de autoria de Fernando Reis; no ano seguinte, em 1968, portanto, dois anos antes das comemorações dos 500 anos destas ilhas, Amândio César, na antologia “Presença do Arquipélago de S. Tomé e Príncipe na Moderna Cultura Portuguesa, edita-lhe vários desenhos (mas a preto e branco), entre os vários textos da referida obra, repescados de “O Mundo Português”, 1936, tendo no verso da reprodução, unicamente a breve resenha descritiva que o artista costumava fazer – como legenda - em cada dos seus quadros, mas dir-se-ia que o ignora ao mesmo tempo, visto não o incluir na antologia  dos pintores, desenhistas e aguarelistas  que, no período colonial, “melhores quadros” proporcionaram de S.Tomé e Príncipe.

Fala de Fausto Sampaio”, dizendo, nomeadamente, que “só ele  encontrou as cores e os motivos que deram amplitude maior à sua arte” (…) “Se me debruço no tempo vejo as cores gárrulas de Fausto Sampaio a gravarem para o mundo dos sentidos a “Ponta do Cossaco”, a “Cascata” da Roça Guégué, a “Represa de Água da Roça Boa Entrada, o “Pico de S. Tomé”, da Roça Lembá, um retrato natural do “Tonga”, o “Cão Grande” na Roça Novo Brasil” (…) “Fausto Sampaio  foi um pintor que todo se entregou ao Ultramar. Mas é verdade que, em S. Tomé, ele encontrou as cores e os motivos que deram amplitude maior à sua arte”. Alude a Jorge Barradas, a um Neves de Sousa e uma  Rachel Roque Gameiro, que “soube dar , na sua arte filigranada, alguns aspectos únicos de S. Tomé”. Não esquecendo as 20 aguarelas  e 27 desenhos de autoria do  arquitecto Mário de Oliveira, “o apaixonado paisagista” que, “em 1961, apresentava no Salão do Palácio Foz , uma mostra de pintura toda dedicada a S. Tomé”. Contudo, de Canarim, tanto quanto me apercebi,  destaca-o nas ilustrações que reproduz mas não o comenta.

Mas é, sobretudo, em 29 de julho de 1970, que o nome de Canarim é catapultado para a fama, conforme diz Luciana Éboli, , com o lançamento “de  um impresso das suas pinturas para retratar aspectos da cultura de São Tomé, entre eles a já conhecida representação do Danço Congo – “em prol das comemorações dos quinhentos anos do descobrimento de São Tomé e Príncipe, que evidenciou a iniciativa de cooptar e integrar as culturas locais e torná-las participantes de uma nova identidade “sincrética-luso-são-tomense”, conforme palavras de Valverde, iniciada pelos governantes na década de 60 - que passou a divulgar a cultura através do caráter folclórico estritamente turístico. In identidade e memória cultural em São Tomé e Príncipe