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Entre outros assuntos, falo da escalada ao Pico Cão Grande e das minhas aventuras em canoas – Visam defender a teoria de que antigos povos africanos, podiam ter sido os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo da Guiné, antes dos colonizadores – Parti à meia-noite, disfarçado de pescador, ligando a ilha do Príncipe. Para me orientar, uma rudimentar bússola – A canoa era minúscula, à segunda noite adormeci: rolei na escuridão das vagas. No regresso fui distinguido com sopapos da policia salazarista, enviado para os calabouços – Cinco anos depois, numa piroga maior, fiz a ligação São Tomé-Nigéria. Partindo igualmente à noite, 13 dias depois atingia uma praia de Calabar, tendo sido detido 17 dias por suspeita de espionagem. - No mesmo ano, já com São Tomé e Príncipe independente, tentei a travessia São Tomé ao Brasil, usando os mesmos recursos. Além de pretender reforçar a minha teoria, desejava evocar a rota da escravatura e repetir a experiência de Alain Bombard. Porém, quis a ironia do destino que vivesse a difícil provação de um naufrágio de 38 longos dias, tendo aportado numa praia de Bioko (Bococo)onde fui recambiado para a famosa prisão de Black Beach

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

VOGANDO A COBERTO DA NOITE E À FLOR DO MAR..









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AOS NÁUFRAGOS DE TODOS OS TEMPOS.

Eu, humilde navegante e aventureiro,
em viagens sob azuis de além mar,
e em águas erguidas em revolta,
ou em podres calmarias de inquietar,
aqui vos evoco, vos recordo,
como quem conhece a ânsia da partida
e, depois, em noite infinda, em noite morta,
apenas tem por companhia mar e céu
em negro mar de véu e tristeza infinita,
enfim, a cruel certeza de quem não volta!

Náufragos! Dos tempos idos e da actualidade
de odisseias ignoradas e esquecidas!
Heróis sem nome, sem pátria e sem fronteiras,
que do fluxo e refluxo das marés fizestes as vossas veias!...
Viajantes transitórios do mar passado e do mar actual!
Gente tisnada e crespada por mil sóis, ventos uivantes,
diluvianas chuvadas!
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Gente a quem a imensidade incerta devolveu a inocência
mas cuja sorte a condenou ao suplício da mais atroz morte!
Gente limpa de olhos e de alma de tanto olhar o mar e o céu!
- Todavia, gente que a ira das tormentas e a audácia da aventura
fizeram com que a fundura do abismo fosse a própria sepultura!...

Irmãos! Aqui vos evoco e me vergo em turbado pranto
evocando o plangente canto de poetas marinheiros
trinando a dolente lira de tão triste ventura e negro fadário
Que, em infindável rosário de mares estranhos, medonhos, irados,
vosso corpo vivo arremessaram, sorveram, para sempre sepultaram!

Aqui vos recordo com lágrimas de dor e mágoa pura
por tão absurdo golpe e duro sofrer - por tanta desventura!...
Não, não venho dizer-vos outros versos! Versos a valer?!...
Estes, perderam-se-me no mar! - Ficaram-me por lá todos!
Além disso, senti-os demais para agora os poder dizer!
Senti-os no interior das trevas nas muitas coisas tristes que não vi
ou vagamente descobri, mas profundamente senti! - Senti-os
também nas muitas alegrias, que intensamente vivi
e claramente vi com olhos de ver!

Tão pouco, venho acalentar
vossas tão martirizadas almas - Não!
Porque, agora, o que as vossas almas mais querem,
é que a memória não se apague, é paz e descanso eterno!
- Bastou-vos o percurso lúcido através da voragem
daquele rouco e tumultuoso inferno!
Aliás, de versos, também, cada alma,
por si e à sua maneira, os viveu
a transbordar de mar e do céu!

















Na verdade, venho elevar as mãos aos céus ...
E rezar as piedosas preces
que não pudestes terminar! - As
mesmas orações que, por tão sentidas
e sofridas, estampadas ficaram para a eternidade
no frio desvario do vosso último olhar
quando o abismo já vos sorvia e fundia!
Mas que, as longínquas estrelas do Universo,
atentas e vigilantes no seu contínuo cismar,
imersas no seu radioso brilho,
até hoje, puderam guardar.

Vou, pois, concentrar-me
no intransponível centro da imensa abóbada
que, embora desmoronando-se, em diluídas formas,
permaneceu impassível, surda e silenciosa
nos confins longínquos do amortalhado céu,
onde, ainda agora, sob os vultos do brumoso manto,
ecoam, penso eu, sumidos brados, ecos dispersos,
vagidos e gritos do vosso exaurido pranto

Vou pois escutar-vos e rezar!...
...por todas as vidas que a fúria e o desamor do mar
em fundas entranhas iradas, asfixiou e engoliu!!
E também agradecer ao Deus Criador,
com exaltado reconhecimento e fervor,
de alma e corpo escancarados, tal como,
então, perdido, no mar vogava, Louvando-O,
Bendizendo-O, em salmos esparsos
ou simples palavras soltas e  ditas,
apenas pelo surpreendente milagre - Oh Olhar Divino!
de me levares a terra firme e ainda hoje estar vivo!
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Partida da piroga para ser carregada a bordo do pesqueiro americano Hornet, onde seria pintada de azul e vermelho pelos marinheiros, com vista a reforçar a sua resistência.  E ser largada a sul de Ano Bom, na corrente equatorial. O que não aconteceu. O comandante deixou-me junto a esta ilha e um pouco  a Norte, colocando-me neste  perturbador dilema: ou ficava a trabalhar a bordo e deitava a canoa borda fora ou íamos os dois - Optei por irmos os dois, por não abandonar a minha canoa. À noite surgiu a tempestade, tendo perdido quase tudo.  Acabei por viver a situação de um náufrago - Na verdade, também era o que pretendia,  um dos objectivos dessa minha aventura era juntamente reforçar as de teses de .Alain Bombard, o náufrago voluntário .. Por isso, aqui dedico estes versos a todos quantos sofreram o mais absoluto abandono e solidão do mar .Mais deles perdidos para sempre



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