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Entre outros assuntos, falo da escalada ao Pico Cão Grande e das minhas aventuras em canoas – Visam defender a teoria de que antigos povos africanos, podiam ter sido os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo da Guiné, antes dos colonizadores – Parti à meia-noite, disfarçado de pescador, ligando a ilha do Príncipe. Para me orientar, uma rudimentar bússola – A canoa era minúscula, à segunda noite adormeci: rolei na escuridão das vagas. No regresso fui distinguido com sopapos da policia salazarista, enviado para os calabouços – Cinco anos depois, numa piroga maior, fiz a ligação São Tomé-Nigéria. Partindo igualmente à noite, 13 dias depois atingia uma praia de Calabar, tendo sido detido 17 dias por suspeita de espionagem. - No mesmo ano, já com São Tomé e Príncipe independente, tentei a travessia São Tomé ao Brasil, usando os mesmos recursos. Além de pretender reforçar a minha teoria, desejava evocar a rota da escravatura e repetir a experiência de Alain Bombard. Porém, quis a ironia do destino que vivesse a difícil provação de um naufrágio de 38 longos dias, tendo aportado numa praia de Bioko (Bococo)onde fui recambiado para a famosa prisão de Black Beach

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

HOJE É DIA DA INDEPENDÊNCIA DE ANGOLA: UM DIA DE FESTA PARA MUITA GENTE” (e eu perdido na mar) “PARA MIM UM DIA TÃO TRISTE!".

Editado em 11 de Nov de 2010 -


Completam-se hoje 35 anos: tantos como a Independência de Angola. Estava eu com 22 dias de mar a bordo de uma piroga. Sozinho e à deriva no imenso Golfo da Guiné. Foi a 11 de Novembro de 1975. Para muita gente, especialmente os angolanos, foi um dia de muita alegria, de uma grande festa e de muita felicidade. Tive essa confirmação através de um pequeno transístor, enquanto não se esgotaram as pilhas. 




Para mim, foi um dos dias mais tristes e atribulados no mar: não houve nada que eu não tivesse enfrentado. Os registos do meu diário, que vou reproduzir mais adiante, extraídos de um pequeno gravador, que preservei da ofensiva do mar num contentor do lixo, em plástico), não deixam margem para dúvidas. No mesmo dia, apanhei de tudo!.. Desde o tornado violento à podre calmaria. Não foi um dia de desespero mas andou lá próximo. Aproveitarei ainda para aqui revelar os nomes pelos quais rem conhecidas as Ilhas do Golfo da Guiné

O MEU TRIBUTO AO POVO DE ANGOLA, COM OS SONS INESQUECÍVEIS DO DUO OURO NEGRO E OS DESEJOS DE PAZ, PROGRESSO E O BEM-ESTAR DO SEU POVO



E TAMBÉM OS MESMOS DESEJOS EXTENSIVOS AO POVO DE SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE, ERAM JÁ CONHECIDAS NO TEMPO DOS ÁRABES, POR ASBEN E SANAN

ILHAS SITUADAS NO EQUADOR E NO MEIO DO MUNDO, JÁ FESTEJARAM O DIA NACIONAL NO PASSADO DIA 12 DE JULHO, DATA EM QUE COMEMORARAM OS 35 ANOS SOBRE A PROCLAMAÇÃO DA SUA INDEPENDÊNCIA.

PODE BEM DIZER-SE, QUE AMBAS SÃO POSSUIDORAS, NÃO DE CINCO SÉCULOS DE POVOAMENTO, MAS DE UMA ORIGEM AINDA MUITO MAIS ANTIGA OU LONGÍNQUA, QUE A PRECONIZADA PELA HISTORIOGRAFIA COLONIAL. - ABORDAREI A QUESTÃO NUMA DAS PRÓXIMAS POSTAGENS. COM A PUBLICAÇÃO DE UM MAPA DE 1375 - ANTES DOS PORTUGUESES OS ELABORAREM.


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CANOA CARREGADA A BORDO DO PESQUEIRO AMERICANO HORNET, FUNDEADO AO LARGO E A NORTE DA PEQUENA ILHA DE ANO BOM - A ILHA MAIS SETENTRIONAL DO GOLFO DA GUINÉ - À FRENTE, EDITAREI O DIÁRIO DE UM DOS DIAS MAIS DRAMÁTICOS NOS 38 DIAS EM QUE ANDEI À DERIVA NUMA FRÁGIL PIROGA DE SÃO TOMÉ..

"FIQUE CONNOSCO! VOCÊ VAI MORRER! A CANOA NÃO RESISTE!". - PEDIAM-ME ALGUNS TRIPULANTES. MAS EU PARTI RUMO AO DESCONHECIDO: - UMA VEZ MAIS POR MINHA CONTA E RISCO, ACABANDO POR SER CONFRONTADO COM UMA DAS MAIS DURAS E PROLONGADAS LUTAS DE SOBREVIVÊNCIA NAQUELES TURBULENTOS MARES - INFESTADOS DE PERIGOSOS TUBARÕES E ASSOLADOS POR CONSTANTES TORNADOS

Lá fui no meu "luxuoso paquete" - Sim, o mar quando quer pregar alguma partida, não escolhe categoria social ou tamanho do barco. - Sofri muito mas fui mais feliz que as centenas de vidas que se afogaram a bordo do Titanic - Nos meus tempos de estudante, na Escola Profissional Agrícola Conde S. Bento, em Santo Tirso, o meu Prof. de religião e moral, Rev. Padre Serra, natural de uma aldeia de Famalicão, gostava muito de nos recordar nas suas aulas a tragédia do dramático naufrágio, cantando connosco o Cremos em Vós, ó Deus, Sim, muitas vezes me lembrei desse hino e implorei a Deus protecção, conquanto não me sinta um católico.

Antes de me reportar à minha odisseia, aqui fica, mais uma vez, esta canção magnífica, do filme que evocou a perda de tantas almas. A vida humana - mesmo a bordo dos mais gigantes e luxuosos cruzeiros - , é insignificante; não é nada, se o grande oceano ocultar algum traiçoeiro escolho ou mostrar a fúria da sua face.GOLFO DA GUINÉ - À FRENTE, EDITAREI O DIÁRIO DE UM DOS DIAS MAIS DRAMÁTICOS NOS 38 DIAS EM QUE ANDEI À DERIVA NUMA FRÁGIL PIROGA DE SÃO TOMÉ..


"FIQUE CONNOSCO! VOCÊ VAI MORRER! A CANOA NÃO RESISTE!". - PEDIAM-ME ALGUNS TRIPULANTES. MAS EU PARTI RUMO AO DESCONHECIDO: - UMA VEZ MAIS POR MINHA CONTA E RISCO, ACABANDO POR SER CONFRONTADO COM UMA DAS MAIS DURAS E PROLONGADAS LUTAS DE SOBREVIVÊNCIA NAQUELES TURBULENTOS MARES - INFESTADOS DE PERIGOSOS TUBARÕES E ASSOLADOS POR CONSTANTES TORNADOS
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QUANDO SE VAI PARA O MAR, SABE-SE QUANDO SE PARTE MAS NÃO SE PODE TER A CERTEZA ABSOLUTA SE SE CHEGA A BOM PORTO OU SE SE REGRESSA AO PONTO DE PARTIDA

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A canoa havia sido carregada, ao largo da Cidade São Tomé no pesqueiro americano Hornet, que ali deixara um tripulante hospitalizado. Como os ventos e as correntes, são dominantes do Sul para Norte, eu precisava de ser largado na corrente equatorial, um pouco a Sul da Ilha de Ano Bom, que é onde a Corrente de Benguela se divide: uma parte vem perder-se a Norte do Golfo e a outra deriva em direcção ao Equador para o coração do Atlântico, até voltar para sul, junto à costa brasileira, num périplo que desce até quase ao Oceano Antárctico, confluindo depois para a costa africana.

O comandante, desse pesqueiro, comprometeu-se a lagar-me naquela corrente, mas faltou à palavra. Ou antes, fez tudo para que eu ficasse a bordo a trabalhar e não me metesse nessa aventura - na travessia oceânica - visto achar demasiado arriscada a minha ousadia, até porque, os dias de viagem até à ilha de Ano Bom, haviam sido marcados por constantes tempestades tropicais. Especialmente ao fim da tarde e à noite. Em que ninguém podia parar no convés: as vagas varriam-no de proa à popa. E muitos tripulantes, tentavam dissuadir-me: "Fique connosco!... Você vai morrer!... Fique connosco! A sua canoa não vai resistir"

E, de facto, ninguém se atrevia a expor-se ao vento e à chuva. À fúria do mar. Eu olhava a escuridão, por detrás das escotilhas e fixava os olhos bem abertos na borbulhante e pálida espuma, ouvia o marulho das vagas a desfazerem-se contra o casco e galgarem-no!... Olhava e escutava pasmado a sua inaudita violência com alguma apreensão, mas estava determinado...


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Nada deste mundo podia demover-me!... Sentia-me ao mesmo atraído por uma espécie de resistível desafio e tenebroso fascínio...Sentia que o palpitar do meu coração precisava de vibrar ou se aquietar com a palpitação do mar. Os meus olhos só queriam espraiar-se e deleitar-se com o imenso azul clarinho dos dos céus e o azul profundo da vasta superfície oceânica.












J
á não era a minha primeira experiência solitária, o meu encontro a sós com o mar alto e também sabia que, quanto maior é nau maior é a tormenta...Pelo que, ao ser confrontado com alguns temores e dúvidas, quando aquele turbulento cenário nocturno mais me impressionava, imediatamente a minha imaginação me transportava para as façanhas daqueles corajosos pescadores de São Tomé - os "angolares" - a desafiarem o mar encapelado, a abandonarem a praia ou a fugirem do tornado. Alguns deles haviam sido os meus mestres e a sua agilidade encorajava-me.

As canoas vogando à flor do mar, com vento de popa ou mesmo impelidas pelo remo, entram numa espécie de desenfreada vertigem e furtiva cavalgada do sobe e desce, e, mesmo que as ondas sejam tão altas como as montanhas, acompanham sempre a sua hilariante dança!...

Só se a sorte for demasiado madrasta é que o mar não brinca com a sua impertinente fragilidade. Ou que o homem do remo deixa de se integrar no ondulante e translúcido seio. Estava pleno de fé, confiante!...
Mar! Mar! Mar! ... Esta palavra mágica de três letras não me saía do pensamento. Eu queria a voltar a estar sozinho com os olhos extasiados ou circunscritos em todos os confins do círculo que se abrem sobre o vasto mar! - E, ao sulcar as suas ondas, ir buscar raízes e pedaços da história, perdidos no tempo e no esquecimento.

 





Havia-me preparado, longamente, na arte de navegar nas pirogas dos pescadores daquela linda Ilha. Navegava de praia em Praia e afasta-me para o largo. Voltava a canoa de costado para o ar e empinava-me novamente nela. Preparara-me para todas as circunstâncias de tempo e de mar. Aliás, na viagem ao Príncipe, o sono surpreendeu-me, e, às tantas da noite ao adormecer, rolei no seu bojo e fiquei debaixo dela. Mas depois - embora muito a custo - lá voltei a equilibrar-me naquele esquifezinho ou escavado tronco de madeira.

Não é fácil esquecer-me dessa minha primeira travessia oceânica, entre as duas Ilhas: apanhei um grande susto e quase me ia afogando mas não esmoreci: de pé ou sentado, sobre uma das travessas, lá naveguei, noite adentro, à vela e a remos, algo perturbado e não sabendo bem para que ponto do horizonte me dirigir: seguia o instinto. A piroga era muito estreita, não podia desistir, não podia deixar de remar ou velejar. Não podia adormecer, sob pena de voltar a cair de lado e de me virar no mesmo remoinho. Perdera a pequena bússola e o garrafão de água, mas dispunha de um remo e uma vela suplente amarrado no bordo da canoa. Era uma maratona que tinha de cumprir: calculara dois ou três dias no máximo, perdera muitas noites ao relento, sentado nas paredes do antigo Forte de São Jerónimo, junto ao mar, sem dormir, olhando a escuridão, preparando-me e ambientando-me para fazer a travessia, sem largar mãos do remo ou do cabo de escota. A embarcação era demasiado minúscula e, deixada à deriva, podia desequilibrar-me e mergulhar nas águas. E foi o que aconteceu, quando o sono fora mais forte de que a minha resistência e me surpreendeu.

Mas felizmente lá me livrei daquele rodopiante sorvedouro. Lá recuperei o anterior domínio e me fiz de novo à escuridão das águas. Largara à meia-noite da Baía Ana Chaves, disfarçado de pescador para não ser reconhecido - pois sabia que as autoridades, não me autorizariam a meter-me nessa aventura. Tanto assim, que ao regressar a São Tomé, seria preso pela PIDE (policia do regime) e severamente punido com uma pesada coima. De resto, para navegar, desde a baía da cidade até ao Padrão da Espraínha (Água Ambô, junto à Ponta Figo), praia onde terá aportado, João de Santarém e Pero Escobar, foi o cabo das arábias! Fiz o percurso no dia em que se comemoravam os 500 anos: mas o Capitão dos Portos, só muito a custo, me concedeu autorização.

Fazia essa viagem de 40 milhas, ida e volta, por duas razões: por um lado, como meu primeiro grande teste, com vista às futuras ligações entre as ilhas e o continente africano (comprovando assim a minha teoria: de que era possível fazer ligações de canoas em grandes distancias pelos povos africanos do litoral com as ilhas do Golfo) ;

por outro lado, queria prestar homenagem - não à
colonização, de que também fora vítima (principalmente na Roça) mas à heroicidade e temeridade desses bravos navegadores, cujas façanhas, tanto alimentaram o meu imaginário, desde criança e que haviam sulcado, aqueles mesmos mares, a bordo da suas frágeis caravelas. Além de que, só indo ali, arvorando um tal propósito, poderia ser autorizado.- .São Tomé e Príncipe... São Tomé e Príncipe - Wikipédia,

SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE - ANTIGAS ILHAS: ASBEN E SANAN


E, AFINAL, QUEM FORAM OS NAVEGADORES PORTUGUESES QUE REDESCOBRIRAM AS ILHAS DE SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE? -

ALÉM DE JÁ TEREM NOMES E SEREM REFERENCIADAS NUM PLANISFÉRIO CATALÃO, MUITO ANTERIOR AOS QUE OS PORTUGUESES COMEÇARAM A DESENHAR, E TEREM SIDO VISITADAS POR ANTERIORES VIAJANTES ISLÂMICOS, QUE LHES CHAMARAM
ASBEN - À ILHA DE SÃO TOMÉ; SANAN - À ILHA DO PRÍNCIPE)

Tema que
desenvolverei, mais detalhadamente, noutra postagem, graças ao amável contributo da jornalista e investigadora ...Fernanda Durão Ferreira que também é autora da obra .A Terceira Atlântida

Conhecendo as razões das minhas viagens de pirogas, em demanda das origens do passado destas ilhas, teve a gentiliza de me oferecer uma cópia do estudo que desenvolveu com a socióloga e jornalista, Sara Santiago.
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Para já, deixo aqui o registo de alguns linkes da versão histórica mais conhecida e de estudos - Um dos quais faz referência às minhas travessias,Questão da Origem dos Angolares situando-as, creio, por lapso, nos anos oitenta Nos anos oitenta o jornalista português Jorge Trabulo Marquês foi de canoa de. Tomé para o Príncipe e para a Nigéria a fim de provar que os antepassados dos angolares poderiam ter chegado ao sul de São Tomé através do mar nas suas próprias embarcações. Outros links São Tomé e Príncipe... São Tomé e Príncipe - Wikipédia,.......Sao Tomé e Pincipe no coraçao |.......Enciclopédia - Artigos: São Tomé e Príncipe....Sobre S. - Missão São Tomé e Príncipe




"VIAGEM CLANDESTINA AO PARAÍSO"

Este o título que eu dei a uma série de artigos, sobre a atribulada travessia à ilha do Príncipe, que na altura publiquei na revista Semana Ilustrada, de Luanda, de que passei a ser correspondente, em São Tomé, graças a essa mesma aventura, com reedição, mais tarde, no Diário Popular (publicações, ambas já extintas) - Mas, retomando o episódio, a que atrás me estava a referir, sobre aquela noite, em que a canoa se voltou, sim, cheguei mesmo a acreditar, quando acordei envolvido no tumulto das águas, que era o fim da minha vida. Felizmente, a minha estrelinha, aquela que seria talvez o meu anjo da guarda, embora num céu encoberto e sem estrelas, não me abandonou.


Mal me livrei das garras daquelas enegrecidas vagas, lá me dispus, pela segunda noite, a encarar o desconhecido, singrando à superfície daquela massa informe e viscosa, ondulante e negra, donde surgiam manchas luminescentes, em cada rebentação ou mesmo escorrendo da pá do remo, devido ao planton, que vinha das profundezas à superfície, em virtude da intensa escuridão. Manchas que ora pareciam arder em fogo vivo, ora branquejavam, por entre sulcos negros e o ruído da espuma que se desfazia. Sim, em torno de mim pairava o absoluto abandono e um cenário de afronta, terrifico; sob um céu turvado de grossos e enegrecidos novelos de nuvens que rolavam desvairados, quase sobre a minha cabeça. Navegando numa canoa, bem mais pequena do que aquela que agora ia carregada a bombordo e sobre o tombadilho do Hornet.

Sabia que, se a mesma se virasse no alto mar, e sendo mais pesada, seria muito difícil voltar a meter-me dentro dela. Mas estava certo que as pirogas estão talhadas para enfrentar todas as situações de mar. Tinha a convicção de que havia sido, com tão primitivas mas seguras embarcações que as ilhas do Golfo haviam sido povoadas. E queria demonstrá-lo. Admiro muito a coragem dos nossos primeiros navegadores, mas a sua audácia não pode colidir, de maneira alguma, com a verdade histórica. Confiava nas ancestrais capacidades de navegação das pirogas.









Do alto das velhas muralhas do Forte de S. Jerónimo, onde tantas vezes olhava a espuma que ali ia rebentar nas rochas negras e contemplava o mar ao largo, sim, muitas vezes ali me envolvi em prolongadas cogitações. E só via o mar... Só pensava, obsessivamente, nas distâncias e nas entranhas do mar.!.. Olhava-o com pasmo e respeito, mas queria sentir-me também parte dele! Ser mais um elemento do mítico e misterioso oceano! Ir por ali a fora numa das ágeis pirogas.! Desvendar segredos esquecidos no tempo!...

Oh, e quantas vezes ali mesmo, não experimentei as estreitíssimas cascas de noz, navegando em frente ou embicando na areia da pequena praia ao lado, naqueles meus habituais treinos, ao Domingo, vindo da Praia Lagarto (ao fundo da descida a caminho do aeroporto), passando em frente da Baía Ana Chaves, Fortaleza de São Sebastião, costa da marginal, Praia Pequena e ponta do Forte de São Jerónimo -e, por vezes, ainda um pouco mais a sul, à Praia do Pantufo.

São Jerónimo era geralmente a baliza de chegada e de retorno ... E, também, muitas vezes ao fim da tarde e pela noite adentro, era o meu local preferido (até por ficar um pouco isolado e retirado da cidade) para me familiarizar profundamente com o mar.

Lembrava-me das façanhas dos pescadores são-tomenses, dos seus antepassados que demandaram as ilhas, dos barcos negreiros que ali aportaram e também dos nossos marinheiros (antes desse vil mercado) que por aquelas águas navegaram; imaginava quantos naufrágios e sofrimentos aqueles mares, já não teriam causado.

Sabia dos muitos perigos que me podiam esperar - não os desdenhava! - mas entregava-me ao oceano de coração aberto, possuído de uma enorme paixão, em demanda dos grandes espaços e de uma infinita liberdade, tal qual as aves migradoras! Olhava-o como se fosse já meu familiar e meu amigo. Embora sabendo que a sua face, quando acometida de irascível crueldade, havia sido palco de muitas tragédias, havia engolido muitos barcos e tragado muitas vidas. Contudo, eu não ia ali apenas movido pelo prazer da aventura: só por isso, não sei se compensaria... Mas orientado por razões mais fortes


E havia algo, no fundo de mim, como que estimulado por um pendor sobrenatural inexplicável que me fazia acreditar que, mesmo que apanhasse alguns sustos, tal como já havia acontecido em anteriores viagens, lá haveria de sobreviver e de me safar!...

Pois o mar também é generoso quando quer ... Acreditava que haveria de compreender os objectivos pelos quais que norteava o meu espírito e a minha temeridade.
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TRAVESSIA PELA ROTA DOS ESCRAVOS - SÃO TOMÉ - BRASIL - PARA EVOCAR O QUE FOI E AINDA CONTINUA A SER SOB AS MAIS DIVERSAS FORMAS

Na Ilha de São Tomé, recebera o melhor apoio e carinho e não queria desiludir ninguém; de forma alguma podia defraudar essa ajuda: a canoa fora mandada fazer a um pescador da Vila das Neves, que derrubou um ocá na floresta e que depois a escavou com o machim e à inchó, tendo sido paga com os apoios recebidos de várias pessoas.

Pois regressara a São Tomé, após a bem sucedida viagem clandestina à Nigéria, sem um tostão na algibeira. Mentalizara-me de que a travessia estava ao meu alcance, sabia que, se precisasse de socorro, ninguém me poderia valer. Não levava meios de comunicação com ninguém. Servia-me apenas de uma bússola, orientava-me por ela, pelo sol e pelas estrelas.Mas era assim que se enquadravam os propósitos dessa minha aventura. Os primeiros povoadores das ilhas, também se orientavam como as aves. E eu achava que valia a pena correr todos os riscos. E nada podia demover-me.

Antes da canoa ser baixada ao mar por um dos guindastes, o comandante chamou-me então à sua câmara onde assinei um termo de responsabilidade. Desejou-me boa sorte e recomendou-me para abandonar aquela área o mais rápido que pudesse: dada a penúria de alimentos existente na ilhota, havia o risco de alguma canoa vir atrás de me mim para me roubar as provisões. Lá fui largado (ao largo, em pleno alto mar) com os acenos dos meus amigos que entretanto fizera a bordo. Para qualquer lado que olhasse, só via o mar azul. Estava sozinho, mais uma vez só podia contar comigo.

DUAS CANOAS REMAM O DIA INTEIRO ATRÁS DE MIM PARA ME ASSALTAR

E os perigos começaram, logo nas proximidades da Ilha de Ano Bom. Mal o barco levantou ferros e zarpou, duas das canoas, que andavam por ali na pesca, avançaram a remar imediatamente na minha direcção. Para evitar esta situação, o comandante do Hornet, ainda chegou arrear a canoa na véspera ao pôr do sol - e até me levou algumas milhas a Norte, para sair daquela zona. Depois começou a navegar em torno do horizonte. Vendo que não havia vento e pairava a ameaça de uma tempestade, voltou aproximar-se e içar-me a canoa. Veio à ponte e disse-me que era melhor passar a noite no barco e ser largado de manhã. Aceitei a sua disponibilidade. Durante a noite, mais um "sermão" para eu abandonar a canoa, mas não me demoveu. De manhã cedinho, mal o sol se erguia a Oeste, uma ordem, em inglês, soava pelo auto-falante: "canoa ao mar!!!"


- O mar estava um bocado agitado; quase se ia partindo ao ser arreada. Do alto do convés, o cozinheiro, curvado da amurada, atira-me uns enchidos sobre a canoa. Não os chagaria a comer, pois o mar mos levaria. E, mais uma vez, lá me despedi e fui ao meu destino. Porém, como o barco voltara a fundear ao largo da ilha, naquela manhã eu estava perigosamente muito perto. E já havia várias canoas as sulcarem as águas.

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Não tive dúvidas que vinham para me assaltar. Em cada uma delas, dois homens, em tronco nu , com uma pequena tanga pela cintura, não paravam de se vergar e impulsionar o remo. Pela facilidade com que navegavam, deveriam ser pescadores muito experimentados. Felizmente, as correntes favoreciam-me e, os alísios , que sopravam do sul, eram constantes; corria um bom vento. Não havia calmaria. Vela a todo o pano e vento de popa, foi a minha sorte. Chegaram a aproximar-se a menos de uma milha de mim.


Só os perdi de vista depois de anoitecer. Se foram apanhados pelo tornado, que surgiu depois de escurecer, calculo que devam ter tido muitas dificuldades para regressarem à sua ilha. Mas, pelos vistos, a fome obrigava-os a arriscar a vida - e talvez a não se importarem de afrontar a minha - Foi por isso que o tornado me apanhou de surpresa: eu não tirava os olhos de uma estrela a Norte. Nem olhava para as vagas que entretanto começavam a levantar-se: quando, quis colocar a vela de tempo, já era tarde de mais. Uma onda avançara, impetuosamente e submergira-me praticamente toda a canoa e, só Deus sabe, porque não me quis levar naquela noite, tempestuosa, infernal!

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A pequena ilha Ano Bom, lá ao fundo, parecia um pequeno boné. Fica localizada no Atlântico Sul, a 350 km da costa oeste do continente africano e 180 km a sudoeste da ilha de São Tomé (São Tomé e Príncipe). O território mede aproximadamente 6,4 km (comprimento) por 3,2 km (largura), com área superficial total de 17,5 km². A actualmente a população da ilha é determinada em 5.008 pessoas. As actividades económicas principais são a pesca e extracção de madeira.. Porém, naquela altura, diziam-me que não teria mais de mil almas, quase esquecidas do resto do mundo, havia muita mortalidade infantil e só vivia um único europeu: um sacerdote, que, aliás, chegou vir a bordo do barco para receber alguma caridade, dada a penúria e escassez de alimentos, que por lá existia. Eu próprio fiz permuta com algumas latas de conserva por cocos e bananas.


Os pescadores vinham nas suas estreitíssimas canoas para vender à tripulação os seus frutos frescos e, no fundo, para matarem a fome. A ilhazinha faz parte da Guiné Equatorial, tal como a de Malabo, ex-Fernando Pó, onde haveria de ir parar (e era o que menos desejava ) visto ser então governada por feroz ditador, que logo me mandou prender: o Sr. Francisco Macías Nguema, um autêntico tirano; mais tarde apeado do poder pelo sobrinho, o actual Presidente, através de um sangrento golpe de Estado. O povo vivia amordaçado e, apenas mantinha, com aquela pequena ilha, uma só ligação marítima anual.

Que será feito agora do atuneiro Hornet e da sua tripulação? De um pesqueiro, que, aliás, segundo me disseram na altura, já tinha alguma história para contar, visto ter chegado a estar aprisionado no Vietname. Os tripulantes foram muito amáveis e até pintaram o fundo da canoa de azul - estava pintada de negro de alcatrão, mas achavam que era para lhe conferir ainda mais resistência e evitar o apodrecimento. Porém, muitos trabalhos me haveria de dar, por ser uma cor clara que iria atrair os tubarões, que investiram por várias vezes. Também pintaram o nome do barco na ponte da pequena coberta da proa, bem como o símbolo da paz e do amor.

Fiquei com saudades dos dias que ali passei. Guardo boas recordações. A viagem de dia era espectacular mas de noite, o mar alterava-se e até cheguei a marear, devido aos fortes solavancos das vergastadas das vagas e aos cheiros das máquinas. Fui muito bem tratado. E, de facto, lá no barco, a faina era dura mas comia-se bem: a mesa era farta e variada, não faltava nada. Toda a gente se servia em torno de uma enorme mesa rectangular e comia o que quisesse e lhe apetecesse. A temporada era de seis meses e havia provisões em abundância. A jornada era dura mas era paga a dólares. Era uma autêntica babel. Sobretudo oriundos de América Latina.

Mais tarde, quando já não tinha nada para comer e água potável, de noite, até cheguei a sonhar com aquelas boas refeições, mas depois, quando acordava era a desilusão. Olhava para o fundo da canoa e estava completamente vazia: a fome no mar é cruel! Dois bidões de água já vazios, uma toalha, as velas, uma lona, a capa que haviam oferecido e só quase a roupa que trazia no corpo. No entanto, por vezes, o fundo da canoa era uma banheira. À noite sentia um grande desconforto. Fome, sede e ainda por cima dormir mal, é muito violento.

Felizmente que o contentor, onde guardava o gravador, a máquina fotográfica e o pequeno transístor, não tinha metido água e estavam salvaguardados. Porém, nos dias de maior abandono e fraqueza, cheguei realmente a arrepender-me não ter aceitado os conselhos daqueles bravos pescadores... Mas era tarde. Estava ao sabor das águas , aos caprichos da sorte. E não podia dar-me por vencido.



Decorria a época das chuvas e essa era a pior altura para se navegar numa canoa naquela zona. Ainda se fosse na Gravana: o tempo refresca, os ventos são constantes e não há tornados. Coincide com o Verão no Hemisfério Norte. No entanto, eu acreditava que, sendo largado um pouco a sul daquela ilha, na grande corrente equatorial - e bastavam mais umas 20 ou 30 milhas - que ficaria livre das maiores turbulências . Ele porém não me deu essa oportunidade. E colocou-me num dilema: "Ou fica a bordo a trabalhar ou a canoa tem que ser largada ao mar".

Na impossibilidade de navegar para Oeste, decide-me então por não abandonar a canoa e aproveitar os alíseos e as correntes que correm em direcção a Norte, na esperança de alcançar a Ilha de São Tomé e adiar a aventura para outra oportunidade. Só que, ao fazer isso, eu ia realmente apanhar, logo ao fim do primeiro dia e mal a noite havia caído, um violento temporal, que me fez perder a maior parte das provisões e dos apetrechos.

Eu já havia enfrentado tempestades semelhantes nas duas anteriores viagens (nos 3 dias São Tomé ao Principie e nos 13 de São Tomé à Nigéria), pelo que não era uma situação nova para mim: só que o tornado surgiu de repente ; eu não tive tempo de reduzir a vela e uma enorme vaga colocou-me de través, encheu a canoa de água, tendo perdido quase tudo: umas coisas tive que me alijar delas para aliviar o lastro, outras foram levadas pelo vento e pela fúria do mar.


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Estava agora a 22 dias, praticamente à deriva. Os remos improvisados, com barrotes do estrado e pedaços arrancados aos bordos da canoa, junto à popa, eram demasiado rústicos para poder navegar com o mínimo de condições. Eis de seguida, o registo de alguns dos momentos vividos nesse longo dia - afinal, um dia, cheio de dificuldades como tantos outros que ainda tinha pela frente.


De referir que, naquela região equatorial, o sol nasce às 5.30. TMG e põe-se às 17.30 da tarde: doze horas de dia e doze horas de noite.Praticamente não há alvorecer nem crepúsculo: a passagem da noite para o dia ou vice-versa, é quase repentina: às cinco da manhã, nas noites sem luar, é noite escura; meia hora depois, em céu limpo, quando a manhã surge descoberta, abre o dia e irrompe o sol glorioso do "fundo" das águas..


Dada a extensão deste post - a transcrição relativa ao 22º dia, foi transcrita para a postagem Náufrago 22.º dia -

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