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Entre outros assuntos, falo da escalada ao Pico Cão Grande e das minhas aventuras em canoas – Visam defender a teoria de que antigos povos africanos, podiam ter sido os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo da Guiné, antes dos colonizadores – Parti à meia-noite, disfarçado de pescador, ligando a ilha do Príncipe. Para me orientar, uma rudimentar bússola – A canoa era minúscula, à segunda noite adormeci: rolei na escuridão das vagas. No regresso fui distinguido com sopapos da policia salazarista, enviado para os calabouços – Cinco anos depois, numa piroga maior, fiz a ligação São Tomé-Nigéria. Partindo igualmente à noite, 13 dias depois atingia uma praia de Calabar, tendo sido detido 17 dias por suspeita de espionagem. - No mesmo ano, já com São Tomé e Príncipe independente, tentei a travessia São Tomé ao Brasil, usando os mesmos recursos. Além de pretender reforçar a minha teoria, desejava evocar a rota da escravatura e repetir a experiência de Alain Bombard. Porém, quis a ironia do destino que vivesse a difícil provação de um naufrágio de 38 longos dias, tendo aportado numa praia de Bioko (Bococo)onde fui recambiado para a famosa prisão de Black Beach

quarta-feira, 27 de julho de 2011

CIA EM SÃO TOMÉ INFILTROU-SE PARA BOICOTAR A DESCOLONIZAÇÃO A PEDIDO DO GENERAL SPÍNOLA E SOB PRESSÃO DOS ROCEIROS QUE TENTARAM UMA REVOLTA ATRAVÉS DO COROENL RICARDO DURÃO, QUE ALI FORA COMANDANTE DO CTISTP








Por Jorge Trabulo Marques - Jornalista - com um vídeo e algumas imagens mais recentes 

O Cônsul dos EUA, em Luanda,  deslocou-se a S. Tomé, no período mais conturbado que antecedeu a independência do arquipélago. Eu era o delegado da revista angolana Semana Ilustrada e, entre as pessoas com quem falou, eu fui uma delas. O governo americano desconhecia o que ali se passava e, pressionado pelo General Spínola, que se opunha à independência daquela antiga colónia, deu instruções ao diplomata, acreditado em Angola, para se deslocar imediatamente com duas missões: recolher o máximo de informações possíveis do movimento pró-independentista e arregimentar um  colaborador para a CIA - Colocando à sua disposição todos os meios técnicos e pagando-lhe o que fosse preciso: essa proposta foi-me apresentada pessoalmente mas recusei trair a confiança nos meus amigos da Associação Cívica e colocar-me ao lado dos colonos, que só não me mataram porque não puderam,







O Sr. Everett Ellis Briggs, precisava urgentemente de elaborar um relatório sobre a situação  política e económica de S. Tomé e Príncipe. Queria saber se as ilhas dispunham de recursos económicos para serem independentes.  E necessitava de enviar esse relatório  à sua Administração, antes do General Costa Gomes discursar na ONU e ser recebido,  com Mário Soares, na Casa Branca, pelo então Presidente Gerald Ford e  o  Secretário de Estado Henri Kissinger -Veio a S. Tomé propositadamente com esse propósito - Entre as várias pessoas que contactou, eu fui uma delas. Porém, de mim, não pretendia apenas  uma opinião, quis convidar-me para colaborador da agência Central de Inteligência  

 Entre as várias informações que desejava recolher, depreendo que pretendia também a apalpar o terreno para o possível êxito do golpe contrarrevolucionário dos roceiros  .

Quando  me procurou, obviamente que não foi para me confidenciar as suas intenções mais secretas. Porém,  a interpretação que  eu acabaria por fazer das suas diligências,  prendia-se também com   o golpe, que estava a ser perpetrado por roceiros e com apoio externo dos spinolistas,.  - Esse era o objectivo do anterior Comandante do CTISTP,  um Tenente Coronel, que, uns dias depois, ali  iria desembarcar: - Só que, para seu azar, nem sequer chegou a sair do aeroporto; foi obrigado a regressar no mesmo avião. (veja os pormenores em SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE E O 25 DE ABRIL – MOVIMENTO DAS FORÇAS ARMADAS


Os roceiros estavam fortemente armados! Até com metralhadoras, que haviam entrado clandestinamente,   descarregadas de uma baleeira, na Praia Grande, ao sul da Ilha. Conto referir-me a esta questão em próxima postagem.  Nas propriedades agrícolas, havia muitas armas: as velhas Mauseres, que foram usadas pela infantaria Nazi.Com que habitualmente se treinavam os colonos.  Também eu, aos 18 anos, fui obrigado a participar, nesses treinos, quando lá trabalhei como empregado de mato - A imagem ao lado, sou eu, à entrada da Praia Roça Uba-Budo,  e um pouco mais ao fundo, ficava o campo de tiro ao alvo, onde, aos Domingos  de manhã, cada branco fazia para ali a fogachada que quisesse


NÃO FUI ESPIÃO DA CIA PORQUE NÃO QUIS - ERA UM RISCO MUITO GRANDE MAS SOBRETUDO MAIOR ERA AINDA A TRAIÇÃO – DESDE LOGO A RECUSEI E   NÃO ME VENDI AOS QUE SE OPUNHAM À INDEPENDÊNCIA E QUE SÓ NÃO ME LINCHARAM, PORQUE NÃO PUDERAM 


APÓS INVADIREM O PALÁCIO DO GOVERNO E INSULTAREM O GOVERNADOR MAL ME VIRAM NAS IMEDIAÇÕES, UMA AUTÊNTICA MULTIDÃO DE COLONOS BRANCOS, LOUCOS E ENFURECIDOS, MUNIDOS DE MACHINS, DESATOU A CORRER ATRÁS DE MIM  -  SE ME APANHASSEM,  TERIA SIDO DEGOLADO E DESFEITO!... ESPALHARAM-SE POR TODAS AS RUAS E O QUE ME VALEU FOI TER DESCOBERTO A ESCADA DE UMA PORTA ABERTA E REFUGIAR-ME NO TELHADO DESSE PRÉDIO

MESMO ASSIM, QUANDO CORRIA À SUA FRENTE, AINDA LEVEI COM UMA PEDRA NA CABEÇA e outra nas costas - Depois de descarregarem toda a ira e ódio na minha modesta viatura, furando-lhe os quatro pneus à navalhada, arrombara-me a casa, partiram-me tudo: escaqueiraram-me a máquina de escrever, onde nem sequer ficou um simples copo inteiro para beber água - Não satisfeito com a malvadez, deixaram uma forca pendurada na porta, e, na parede ao lado,  uma cruz desenhada e a inscrição: " a morte sanciona cada traidor".

TIVE QUE ME REFUGIAR, EM CASA DE UM SANTOMENSE: dos pais do Constantino Bragança, que, tendo assistido à perseguição, se deslocou à noite ao local para me colher no seu modesto casebre, algures no mato: Sr. Jorge! Pode descer, que os brancos foram todos para o quartel da Polícia Militar e do Cinema Império e venha para a minha casa




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 A minha casa ficou irreconhecível, num monte de destroços. Como não me apanharam lá no seu interior,  deixaram-me à porta  o laço da prometida forca de corda. Pelos vistos, em qualquer parte do mundo, os jornalistas são sempre as primeiras vítimas. É neles que descarregam todos as iras e ódios. Ainda hoje, ao escrever estas linhas, se me toldam os  olhos, tal os maus momentos por que passei. Ao meu modesto carro, por duas vezes, lhe furaram os pneus à navalhada.- Não me importo de ser confrontado com os elementos  da natureza mais hostil, mas ser  atingido pelo ódio humano é mil vezes pior!...Não é medo é um sentimento de profunda tristeza e revolta.


NÃO DEIXEI PORÉM DE LHE DAR A MINHA OPINIÃO  TRANSMITI-LHE AQUILO QUE EU CONSIDERAVA MAIS IMPORTANTE PARA EVITAR UM BANHO DE SANGUE  

- Que era, no fundo, o que poderia vir acontecer, caso o então Tenente-Coronel Ricardo Durão, não tivesse sido recambiado. As informações que lhe prestei,  foram sobretudo sobre as possibilidades económicas das ilhas e o que eu pensava dos tais "agitadores". Claro,  uma opinião completamente diferente das que lhe haviam fornecido.


ESTOU CERTO QUE, SE  ACEITASSE A  PASTA CARREGADA   DE NOTAS DE CEM DÓLARES  DO SR. EVARETT BRIGGS (que muito jeito me davam, é verdade, mas o dinheiro não é tudo)  PARA MIM TERIA SIDO  TALVEZ MAIS COMPLICADO DE QUE FAZER POUSAR UM ENXAME DE ALGUNS QUILOS DE ABELHAS AFRICANAS NO QUEIXO


Sugeri-lhe que devia falar com os dirigentes da Associação Cívica (Pró-MLSTP) para melhor se inteirar dos seus objetivos. De qualquer modo, nesse mesmo dia, eu dei conhecimento do encontro, que ele teve comigo,  a um militante da referida Associação - Mas já estava referenciado: já toda a gente sabia que andava um americano à solta na cidade, quase armado em turista.  E o turismo, naquela altura,  não existia.  

Um dado curioso: as perguntas, em que mais insistia, eram as relacionadas   com a existência ou não de petróleo. Respondi-lhe que havia muito  petróleo numa lagoa da montanha, onde era habitual os trabalhadores da roça abastecerem-se para a sua própria iluminação. Nesses momentos, os seus olhos até faiscavam de contentamento!  

Vi perfeitamente que podia ser bem remunerado, mas  recusei prestar-me a tão vil tirania e trair-me os meus amigos, que lutavam pela independência da sua terra - a qual  também eu tanto amava- : Ele conhecia-me através da minha colaboração na Semana Ilustrada,  sabia que eu era o único branco que tinha as melhores relações com a Associação Cívica (que então representava o MLSTP, ainda sediado  em Lebreville. 

Mas tinha obrigação de saber que eu não estava na sua barricada nem na dos colonos. Bastaria que fizesse essa pergunta a qualquer colono - Mas só fez perguntas sobre a Associação Cívica Pró-MLSTP . Na sua perspetiva, os brancos eram especiais e tinham de estar todos unidos à volta da bíblia colonialista


A bem dizer, como jornalista, eu procurei   ouvir  os vários dirigentes de associações e movimentos. E, nesse aspecto, os meus artigos e reportagens, são disso o melhor testemunho.  Mas, em termos ideológicos, eu não estava ao lado do colonialismo.  A fase do disfarce estava ultrapassada.  A agonia e o seu estrebuchar, estavam em marcha! 

Claro que não se pode agradar a toda a gente. Sobretudo, com  as denúncias dos massacres do Betepá - dos quais era proibido falar antes do 25 de Abril - E, esses artigos e a divulgação de imagens, não apenas chocavam, quem ainda sentia a dor pessoal ou de familiares e amigos, como enraiveceram aqueles que mantinham ainda a consciência pesada das suas maldades. E, por essa altura, ainda havia muitos colonos,  que haviam pegado em armas e matado muitas pessoas inocentes e indefesas. 

Everett Ellis Briggs  tinha obrigação de se ter informado melhor, mas pareceu-me um mau e atabalhoado diplomata  e muito pouco vocacionado arregimentar hostes para a sua Agência – Lança-me o convite do pé para a mão como se eu fosse algum dos seus funcionários. Habituado, talvez, à cretina  ideia  do passado da CIA, de, que,  o dinheiro tudo compra e tudo corrompe  - Percorreu a cidade de táxi à minha procura, e, quando me encontrou, queria que eu fosse nesse mesmo carro para conferenciar com ele no mato.

     Sim, mas vendo bem, ele não estava enganado: “há sempre alguém que diz não”, mas há também sempre alguém que diz sim: houve quem fosse na isca e  aceitasse a  proposta, conforme vim apurar mais tarde.

QUEM ACEITOU A ARRISCADA TAREFA, FOI  O ALEMÃO DR. KRAUNE. (POR SINAL, UM BOM AMIGO)  - JULGO QUE FOI ELE QUE TERIA FICADO COM  OS MEIOS TÉCNICOS QUE  O CÔNSUL ME  QUERIA PÔR À DISPOSIÇÃO - E A PROVA É QUE, MAIS TARDE,  TEVE QUE SE RASPAR APRESSADAMENTE  PARA O GABÃO NO SEU CATAMARÃ,  QUANDO TERÁ PRESSENTIDO QUE LHE HAVIAM DESCOBERTO A CARECA E QUE PODERIA SER PRESO.

FUI ABORDADO, NA AVENIDA DA MARGINAL, PELO  CÔNSUL AMERICANO, SR.   EVARETT BRIGGS - QUE QUERIA FALAR COMIGO FORA DA CIDADE - "NUM LUGAR ONDE PUDÉSSEMOS ESTAR MAIS À VONTADE".

2015 - banco onde nos sentámos 
Vivia-se, por aquela altura, um clima de grande instabilidade. A cidade à noite ficava deserta. Muitos dos colonos haviam-se refugiado num quartel da tropa portuguesa. Mais por precipitação de que por as suas vidas correrem perigo. Mas sentia-se que havia realmente receio e uma tensão generalizada de parte a  parte. Já não me recordo do dia ou do mês em que o cônsul me contactou. Mas sei (dito por ele) que  foi a três dias da deslocação de Costa Gomes a Nova Iorque, onde ia discursar  perante a Assembleia Geral das Nações Unidas, sobre  o andamento da descolonização.  - Aliás, foi com essa a explicação com que se justificou para pedir a minha opinião

Encontrou-me no passeio da marginal, frente à praia de São Pedro, da Baía de Ana Chaves, olhando as canoas que ali se perfilam na fina língua de areia. Onde andava já a congeminar a travessia de canoa de .Tomé à Nigéria – Nisto, apercebo-me que um táxi pára junto de mim, ao mesmo tempo que vejo sair  de lá um sujeito, alto, ainda meio curvado - talvez  pelo incómodo das várias andanças à minha procura – Pois, ao abordar-me confessava-me que já tinha percorrido toda a cidade:  “Oh! Finalmente, encontro o Sr. Jorge Marques!”..

Traz consigo uma pasta preta na mão (cheia de dólares e um emissor) . Veste calça de tireline tropical.  Camisa de meia manga, sem gravata, mas, pelo aspecto, dificilmente disfarçava a sua condição de “camone”.  E,  para  meu espanto,  trata-me  logo pelo nome. “Conheço o Sr. Jorge Marques através dos artigos que escreve na revista Semana Ilustra. Tenho muito prazer em falar pessoalmente consigo. Chamo-me Everett Briggs. Sou o cônsul dos EUA, em Luanda e estou aqui para me inteirar da descolonização. Já falei com algumas pessoas da Associação Comercial e Industrial (com os principais cabecilhas das forças vivas colonialistas) e gostava muito de saber a sua opinião e de contar com a sua disponibilidade! Não se importa?”
 
– A seguir passa-me o seu cartão-de-visita (deixei-o em São Tomé, entre outras coisas). E, simultaneamente, dispara: “Sabe!.. O assunto é para nós muito importante!!... Se não se importasse, para estarmos mais à-vontade,   sugeria-lhe que me acompanhasse no táxi para fora da cidade, num local mais discreto!”. Mas eu respondi-lhe, imediatamente, que mandasse o táxi embora, porque que eu não aceitava sair dali: “Tenho muito gosto em falar com o Sr. Cônsul, mas tem que ser aqui! Eu não vou consigo para lado nenhum! –  As opiniões que lhe possa transmitir,  não  vejo que tenha  de as esconder, seja de quem for!”  - Mas, como atrás referi, o desejo dele era que a conversa pudesse decorrer fora da cidade para ver se me dava a volta

COMPREENDI IMEDIATAMENTE ONDE ELE PRETENDIA  CHEGAR – Não lhe virei as costas porque pressentia que estava perante uma personalidade com um poder de influência muito grande - E eu não queria que ele se deixasse embalar  no coro dos colonialistas, com os quais havia conversado , pois calculava que as suas expressões não teriam sido as mais favoráveis ao processo da descolonização.  

Recusada a proposta, lá teve que se resignar ao banco voltado para a baía, sob a sombra de uma das acácias  um dos castanheiros da índia, que por ali havia: - lá nos sentámos os dois, num dos bancos, ali existentes, voltados para a tranquilidade do azul  que estendia à nossa frente da Baía de Ana Chaves. Pois logo me apercebi, onde  o cônsul queria chegar. E  não estava minimamente interessado em fazer jogo duplo. Por mais tentadora que fosse a oferta.    

QUEM NÃO DEVE NÃO TEME – IR PARA O MATO  A FAZER O QUÊ?..

Ainda assim, depois de ver que a abordagem começava a ser incómoda, nem sei como é que me expus ali tanto tempo, junto dele  - quase duas horas. Mas, tal como diz o velho ditado, quem não deve não teme, e, como estávamos sentados de costas para o trânsito da marginal (que era escasso), nem dei que o tempo passasse. Além disso, não podia desperdiçar a oportunidade de me opor às teses dos colonos.

Começou então por  me explicar que tinha recebido instruções do seu governo para se deslocar a São Tomé. Que o general  António de Spínola aconselhara   a sua administração para vetar os movimentos que visavam a independência das Ilhas de Cabo Verde e de São Tomé e Príncipe, por entender que, quando foram descobertas, estavam desabitadas; que  os seus povos queriam ficar ligados a Portugal – Referindo que Spínola argumentava que o programa do MFA se desviara dos  princípios iniciais e que os auto-proclamados movimentos  de libertação, destas ilhas, apareceram depois   do 25 de Abril para destabilizar a vida das duas colónias, não tendo qualquer influência local ou representatividade

SÃO TOMÉ E CABO VERDE. NA VISÃO NEO-COLONIAL SPÍNOLISTA  ERAM FUNDAMENTAIS DA DEFESA DA NATO – E TINHAM DE PERMANECER NAS MÃOS DOS BRANCOS – ACTUALMENTE AINDA EXISTEM MUITAS ILHAS, NESSAS CIRCUNSTÂNCIAS E OS PAÍSES CAPITALISTAS E COLONIALISTAS NÃO ARRENDAM PÉ.  – NO ENTANTO, É DE CRER QUE, EMBORA TARDE, MAS LÁ  CHEGARÁ O DIA QUE HÃO-DE SER CORRIDOS  SOB O FOGO DAS ARMAS OU A PONTAPÉ.

Briggs, confidenciava-me que, António Spínola, considerava os arquipélagos de Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, fundamentais para  a defesa da Aliança Atlântica (a NATO) no atlântico Sul.  Por esse facto, a administração americana, tinha dúvidas se deveria ou não exercer o direito de veto na Assembleia das Nações Unidas, pelo que  lhe solicitara o envio, com urgência, de um relatório nos próximos três dias, antes de Costa Gomes, lá ir discursar. Precisava de se inteirar, pessoalmente, de como estava aqui a decorrer o processo de descolonização:  se as ilhas tinham ou não possibilidades económicas para se tornarem independentes e também de saber o que é que eu pensava sobre  a  representatividade e de credibilidade  dos dirigentes da Associação Cívica pró-MLSTP. – a frente activista do  movimento de libertação de São Tomé e Príncipe, já que as informações que, até então, havia  recolhido eram extremamente negativas a respeito do comportamento da referida Associação 

MEMBROS DA ASSOCIAÇÃO COMERCIAL E INDUSTRIAL DE SÃO TOMÉ, - EXTREMAMENTE SEVEROS PARA COM A ASSOCIAÇÃO CÍVICA

Briggs, informava-me que já havia conversado  com alguns membros da Associação Comercial e Industrial  de S.T.P., mas  todos lhe responderam que, em S. Tomé,  "a associação cívica  estava muito mal vista e não tinha nenhuma credibilidade!"  Tendo havido mesmo .quem lhe afirmasse que nem sequer se deveria “preocupar com essa garotada de arruaceiros do Riboque”    Pois,  segundo lhe haviam transmitido,  tratava-se deum pequeno grupo  de  racistas e agitadores, que odeiam os brancos e querem ficar com o seu património”. 

A MINHA RESPOSTA ERA DIFERENTE – E JULGO QUE O TERÁ SIDO PREPONDERANTE

Falei-lhe da minha experiência nas Roças e de como os negros eram ali tratados. Que não se deixasse influenciar por preconceitos racistas – que os racistas eram  os brancos, que não aceitavam que os negros pudessem ser livres e independentes.  E que a população não concebia outra ideia que não fosse o direito à Independência de S. Tomé e Príncipe.  Caso contrário, poderia “haver  um banho de sangue”.Repeti-lhe isso várias vezes.  Mas também lhe disse que, se quisesse uma opinião mais fundamentada, que devia dirigir-se à sede da Associação Cívica.  Ali teria oportunidade de ouvir os membros da referida  Associação: - “Se quer ouvir todas as partes, acho que deve  lá ir falar com eles!...É gente civilizada!... Acredito que o vão receber cordialmente  e que lhe prestarão  os esclarecimentos de que precisa!

Agradeceu-me e pareceu-me que as minhas palavras o teriam feito mudar da opinião que trazia dos colonos. “Muito obrigado, Senhor Jorge Marques!.. Gostei muito de ouvir a sua opinião. O senhor está muito bem informado! Vou ver se me recebem e  falo ainda hoje com alguém da Associação Cívica

Não cheguei a saber se o fez. Soube, pelo General Pires Veloso, na altura do lançamento do seu livro “Pires Veloso – Vice-Rei do Norte – Memórias e Recordações”, que o referido diplomata, chegara também a conferenciar com ele.  Porém, só o facto,  de naquela altura, este alto funcionário americano, me ter abordado na rua e com a proposta de me arregimentar para colaborador  da sinistra  Agência americana, deixava-me bastante embaraçado! - Estava de consciência tranquila, é certo – Mas, num momento tão agitado e tenso como aquele, falar como alto diplomata americano, era algo arriscado.

Tudo quanto lhe transmitira,  era verdade e poderia ter sido dito numa palestra. Mas aquela sua proposta – e logo a propor-me para falarmos num lugar mais isolado – perturbar-me-ia, pois era  feita  de rajada; deixou-me bastante incomodado - Contudo, também  não pensei mais no assunto. Tinha outras preocupações. Um grande desafio no mar, sozinho, esperava-me e era para mim a grande obsessão.

SAI-SE ENTÃO COM ESTA: “GOSTARÍAMOS QUE FOSSE COLABORADOR DA NOSSA AGÊNCIA! POMOS-LHES TODOS OS MEIOS À SUA DISPOSIÇÃO!..” – DIZ-ME DESCARADAMENTE, DEPOIS DE TER PERCORRIDO DE TÁXI  A CIDADE INTEIRA À MINHA PROCURA.

Quando me abordou, presumo que  já soubesse que eu era dos poucos brancos (senão o único) que acompanhava de perto as manifestações e algumas reuniões, promovidas pelos activistas afectos ao MLSTP, que se haviam agrupado na Associação Cívica, para se ocuparem das acções de luta e de mobilização, até ao regresso dos membros, daquele movimento de libertação, ainda exilados no Gabão.. Mas a minha participação era jornalística e não interventiva. 

Vinha, pois, com dois objectivos engatilhados:  recolher o máximo de  informações da Associação Cívica e  engajar-me para espião da CIA. – Obviamente, não fui na sua conversa, tal como explicarei adiante. – O dinheiro fazia-me falta, mas o dinheiro não paga a tranquilidade. Apercebi-me  que  oferta poderia ser muito tentadora, mas a minha consciência  era ainda mais forte.
 
Tinha sido maltratado nas roças, enquanto empregado de mato. E agora estava a ser vítima de espancamentos e de perseguições de colonos. Eu estava ao lado do Movimento de 25 de Abril e ao lado da independência daquele povo e, por isso,  de forma alguma poderia trair as minhas convicções. Houve, porém, quem acedesse – aliás, que continuasse a fazê-lo, pois presumo que já era colaborador da RFA, antes do 25 de Abril. Teve sorte!.. Noutro país, tinha-se tramado: teria sido fuzilado. Mas as gentes de São Tomé são por natureza pacíficas e ordeiras - Ele também não perdeu pela demora e raspou-se. 

Por fim, depois de  me ouvir atentamente, avançou-me então com a proposta,   que, logo de  início, me deu a perceber:

 “Sabe, meu caro senhor! Nós gostaríamos de ter na Ilha alguém que  pudesse prestar, informações, regularmente,   à nossa Agência; o governo americano está muito empenhado com a descolonização das colónias portuguesas. Há todo nosso interesse que o processo decorra com normalidade. E convinha-nos que nos informasse sobre as actividades da  Associação Cívica e de outros acontecimentos que considerasse importantes” E, então,  veja-se  ainda a lata do  cavalheiro:  

Se o Sr. Jorge aceitar  a nossa proposta,   damos-lhe os meios indispensáveis… E, como quem não quer a coisa,  abria a pasta cheia de notas de cem dólares e ostentava numa das mãos um pequeno emissor. Garanto-lhe  que ninguém tomará conhecimento da sua colaboração: só ficarei eu a saber, o Sr. Jorge e um elemento da nossa Agência....Diga-me de quanto  precisa?...” – Curiosamente nunca prenunciou a palavra CIA – Só falava da “nossa agência”. E aquele “paquete” de notas de 100 dólares – (algumas até as deixou cair propositadamente ao chão, tal como os vigaristas aos incautos cidadãos, quando os pretende burlar
 ...
 - EU?!...COLABORADOR DA VOSSA AGÊNCIA?!...   NEM ME FALE NISSO, SENHOR CÔNSUL!... “ - FOI A MINHA RESPOSTA

Por favor, não  me volte a abordar para tais assuntos!... Procure outro!!...Já me bastam os problemas que tenho com os colonos!... As  agressões e ameaças que  me fazem!... Já deverá saber – através da Semana Ilustrada.

E era verdade! – Em breve ia abandonar a ilha: já o havia tentado ao sul, na companhia de um santomense e de um natural do Príncipe, que andava fugido na mata, mas, ao largamos da praia, surgiu uma enorme onda, desequilibrámo-nos e fomos deitados borda fora - Ainda pensei ir no dia seguinte, mas roubaram-me todas as coisas (escasseavam conservas e alimentos importados, e houve quem se aproveitasse), além de   já ninguém me queria acompanhar. A minha vida corria perigo e eu não podia adiar por mais tempo o meu projecto da travessia São Tomé à Nigéria, que andava na minha cabeça há quatro anos.  Se fosse para fugir, teria ido mais para nordeste.  Os colonos faziam de mim o bode expiatório da sua revolta. Não aceitavam que se falasse de descolonização. E, a ter que morrer selvaticamente nas suas mãos, ao menos morresse no mar por uma causa nobre. Mesmo que fosse na barriga de um tubarão!...

Obviamente que me recusei colaborar no nojento e perigosíssimo papel de espião. Não podia aceitar ser cúmplice com uma Agência que, desde há muito tem as mãos sujas de sangue, através de atentados, torturas e dos mais ignóbeis crimes e provocações! O dinheiro é importante mas não pode nem deve ser a troco de convicções ou da nossa consciência. Lá foi à sua vida e eu fiquei na minha.   

Levantei-me para me despedir dele, mas logo a seguir  me voltei a sentar no mesmo banco, algo embaraçado e receoso de  que alguém me tivesse visto a falar com aquela inesperada criatura. Ao fim da tarde dei conhecimento a um elemento da Associação Cívica, que me disse que já sabiam da sua presença.
 ..

UM JORNALISTA DA EX-UNIÃO SOVIÉTICA HAVIA-ME ABORDADO, QUASE COM IDÊNTICA INTENÇÃO   - DEPOIS DA KGB, SÓ ME FALTAVA AGORA SER ARREGIMENTADO PELOS AMERICANOS

Antes do americano, já um jornalista russo (que trabalhava para a principal agência soviética, nos Camarões, na qualidade de correspondente para a África Central) , viera com uma certa cantilena. Era mais um (aliás, o primeiro) que queria aproveitar-se de mim: - Não pretendia informações mas doutrinar-me. Parecia um mestre de jornalismo revolucionário. Só faltava entregar-me  uma cartilha! Entretanto, nunca mais voltei a vê-lo  na cidade, pelo que tudo não passou de um mero encontro cordial –– Numa ilha onde a informação era escassa, a minha revista não passava despercebida. Mas quem lhe deu ainda mais popularidade, foram as reacções agressivas de alguns colonos –  pois eu não fazia mais de que relatar o que observava ou de procurar ouvir os vários intervenientes -  Pessoas anónimas, colonos, dirigentes das associações, governador e elementos da Junta de Salvação Nacional. E, é claro, também aproveitei para denunciar algumas prepotências do velho regime que até então eram proibidas na imprensa. Mas, é tal coisa, os artigos não podem agradar a gregos e a troianos! – Sobretudo àqueles que nem sequer toleram outras opiniões.

NNUMA DAS PRÓXIMAS POSTAGENS- NÃO PERCA: O EPISÓDIO DO OFICIAL SPINOLISTA, QUE DESEMBARCOU NO  AEROPORTO DE S. TOMÉ PARA COMANDAR O GOLPE CONTRA-REVOLUCIONÁRIO DOS ROCEIROS , MAS QUE O GOVERNADOR OBRIGOU A VOLTAR NO MESMO AVIÃO - ESTAVA LÁ, FALEI COM ELE PRESENCIEI A CENA - E  A HISTÓRIA DA ESPIA FRANCESA 
 


ENCONTRO DE COSTA GOMES E MÁRIO SOARES NA CASA BRANCA - Na imagem: Costa Gomes, Presidente Ford e Henry Kissinger - 18 de Outubro de 1974.

POSTERIORMENTE À PUBLICAÇÃO DESTE POST, FIZ UMA INVESTIGAÇÃO NA INTERNET, SOBRE AS RELAÇÕES DIPLOMÁTICAS DO EUA COM PORTUGAL , PÓS 25 DE ABRIL - NOMEADAMENTE, AO PERÍODO A QUE ATRÁS ME REFIRO - DESSA PESQUISA, ACONSELHO A LEITURA DOS SEGUINTES LINKS.Portugal Classificado: Spínola: a conversa que deixou Nixon  preocupado com Portugal...******Portugal Classificado: Na ressaca da revolução*****Portugal Classificado: Os risos de Marta de la Cal*******Portugal Classificado: China/1975: Kissinger com Portugal na agenda*******25 DE ABRIL - O ANTES E O AGORA: Spínola quis aliciar Nixon*******Gerald Ford autorizou operações da CIA em Angola .*******As relações atribuladas de Costa Gomes com Ford ******Encontro entre Costa Gomes e Gerald Ford na Casa Branca*******25 DE ABRIL - O ANTES E O AGORA: Costa Gomes quis sossegar os EUA*******Costa Gomes quis sossegar os EUA - dn - DN******Como os EUA foram derrotados na independência de Angola********CRONOLOGIA DA REVOLUÇÃO DE ABRIL

Spínola quis aliciar Nixon para outra descolonização -

 
POSTAGENS SEGUINTES - CLIKE E COSULTE

Terça-feira, 19 de Julho de 2011

NÁUFRAGO POR VONTADE PRÓPRIA

Sexta-feira, 15 de Julho de 2011

(2) SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE ANTIGAS ILHAS ASBEN E SANAM - NAUFRÁGIO NA NOITE EQUATORIAL

 

terça-feira, 12 de Julho de 2011

36 ANOS DE INDEPENDÊNCIA -

 

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