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Quem sou eu

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Entre outros assuntos, falo da escalada ao Pico Cão Grande e das minhas aventuras em canoas – Visam defender a teoria de que antigos povos africanos, podiam ter sido os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo da Guiné, antes dos colonizadores – Parti à meia-noite, disfarçado de pescador, ligando a ilha do Príncipe. Para me orientar, uma rudimentar bússola – A canoa era minúscula, à segunda noite adormeci: rolei na escuridão das vagas. No regresso fui distinguido com sopapos da policia salazarista, enviado para os calabouços – Cinco anos depois, numa piroga maior, fiz a ligação São Tomé-Nigéria. Partindo igualmente à noite, 13 dias depois atingia uma praia de Calabar, tendo sido detido 17 dias por suspeita de espionagem. - No mesmo ano, já com São Tomé e Príncipe independente, tentei a travessia São Tomé ao Brasil, usando os mesmos recursos. Além de pretender reforçar a minha teoria, desejava evocar a rota da escravatura e repetir a experiência de Alain Bombard. Porém, quis a ironia do destino que vivesse a difícil provação de um naufrágio de 38 longos dias, tendo aportado numa praia de Bioko (Bococo)onde fui recambiado para a famosa prisão de Black Beach

segunda-feira, 30 de julho de 2012

VOGANDO SEM DESTINO E A NOITE POR COMPANHEIRA...



















O sol  mergulhou e afundou-se há muito,  algures
sobre o imenso círculo a ocidente – Momentos antes,
alguns  dos seus raios rasgaram as nuvens, espalharam-se
em mil reflexos e chegaram até mim - Como que despedindo-se
através de nostálgica  e reluzente estrada de luz - Já lá vão umas horas!...
Espero voltar a vê-los esplendorosos a oriente.
A noite vai alta e espessa! O mar encapelou-se
com o refrescar do vento - A canoa balança....
Atmosfera é húmida de névoas negras,
que correm baixas, rolando mui densas.....
- Para onde vou eu  na estreita concavidade
deste frágil  tronco escavado?!...
Para onde me levará este esquife fantasmal?!...
De que te lamentas, afinal,
meu coração esquivo e atormentado?!..
Não terá sido loucura insensata
ter confiado a minha vida em tão precária fragilidade?!...

Não sei, nem me importa. Vim sem destino,
meu rumo é ditado pelos ventos e correntes,
não tenho nenhum itinerário  programado!
- Não sou senhor de mim: - lancei-me ao mar
sem instrumentos náuticos e cartas de marear.
Medito e por vezes fico ainda mais triste e em sobressalto,
ao sentir o mar a rugir e o vento a fustigar-me e a uivar!
Nada mais posso fazer que sentir a ansiedade
dos vivos nas horas incertas ou esperar absorto
pela eterna paz dos mortos se a vida me escapar.
Vou balanceado para onde o vento  soprar.
À flor das águas, vogando deitado e solto!
Vou  para onde  me arrastarem as  ondas
os caprichos do destino, me quiserem levar!....





Quando não chove e o céu está descoberto, não vejo o mar
mas ouço constantemente as suas pancadas ao meu lado,
até que adormeço com o bailado das estrelas - Mas hoje
ainda não vi nem as estrelas nem vi o luar... 
Não consegui adormecer -  Oh vil ou doce tormento!
Pecados mortais meus ou ira negra dos altos céus!  

Meu colchão é côncavo estreito e duro - Muito desconfortável.
Não me permite sequer abrir os braços,  mal posso respirar.
Pior ainda quando estendo e cubro a canoa com o toldo de plástico.
Meu coração, quase sufoca, possuído pelas sombras do oceano noturno.
Mesmo assim, meus olhos, cegos de cansaço, perdidos 
num horrível vazio sonoro e escuro,
não cerram as pálpebras, não cedem 
à continuada afronta que os amarra 
mergulha e sobressalta!

Vão abertos, em persistente vigília e alerta! - Não  param de sondar
os  ruídos, os marulhos! - E, quando estes ressoam no casco
ainda mais os intrigam e assustam -  Arregalados,
perscrutam e devassam a penumbra absoluta -Porém,
nada enxergam do  que vai   dentro ou lá fora - Vão cegos
mas não desistem!- Nesta horrenda dança de vida 
ou morte, são eles e os meus ouvidos, 
o mais íntimo sonar, desta minha 
inarrável errância marítima

Neste corrocel ensurdecedor  de sonoros embates de arrepiar,
vergastas impiedosas das vagas  que vão sucedendo 
em brutais baques crispados de quase enlouquecer, 
Oh quantas ideias! Quantos pensamentos!
Quantas dúvidas e inquietações!....
Que resposta poderei eu   dar à noite?!... 
Que devo eu  fazer?!...Senão conformar-me 
ou renunciar às interrogações da sua  infinita curiosidade...
Pois todos os momentos, por mais negros e incertos que sejam,
 vão além dos mares e da terra, são parte do Universo!
São verdadeiramente  divinos!..Pertencem a Deus!
Mesmo através da mais cerrada escuridão,
elevam-se dos mares ou da terra aos céus!


 

Na verdade, mesmo deitado,  vogando à tona desta vastidão,
deste cemitério imenso, nunca estou inteiramente tranquilo 
– Imerso em tantas dúvidas! Assolado por tantas interrogações
 e por  tanto mistério! Enquanto não adormeço, 
vivo num estado de permanente torpor, angústia incerteza
 - A todos os instantes, a todas as horas, a minha alma interroga-me,
 faz-me perguntas à solidão que me assola, a que eu não sei responder.
. A canoa voga e  a minha vida voga e flutua igualmente suspensa.

Por vezes, depois de adormecer, acordo em sobressalto,
com o bater de uma vaga mais violenta ou de uma barbatana
que se encosta e roça asperamente no seu bojo - Outras vezes,
não é o sobressalto mas a desilusão: - a sonhar 
julgava-me noutras paragens mas, ao acordar,
constato que estou encaixado num exíguo espaço
e,  ao levantar-me, logo me apercebo
que nem sequer um passo  aos lados, posso dar.

O passado já não me pertence e o  meu futuro 
é como a noite: desconheço onde começa e onde acaba
-  E o presente é este estado de incerteza permanente,
que não é traduzível nem por imagens nem por palavras.
 Estendido sobre o fundo húmido da canoa,
que chega a assemelhar-se a uma salmoura - sim, às vezes só lanço mão
do vertedouro, quando a água  chincalha demasiado e me cobre.
Mesmo que não reze -  não, não rezo, só se for a  cantar
ou então quando as lágrimas me escorrem pela face,
tal como as contas de um rosário e têm o sabor a sal

 No entanto, quando me deito, depois de estender-me
por entre as madeiras do meu estreito leito,  sinto que as  minhas mãos
elas mesmas naturalmente se aconchegam ao meu peito e se entrelaçam
num gesto de  permanente pose de súplica e  de religiosa oração,
enquanto o peso do sono  me não vence  e a noite  me acolhe
com as  negras vestes  assombradas  ou maravilhadas do seu regaço
e me cobre por completo no mesmo infinito manto
da sua pacífica ou conturbada solidão. 





Eis, porque, a escolha que agora  se me oferece é só uma:
deixar-me ir para onde quer que seja arrastado,
enquanto a noite for correndo e for passando,
pasmado e confiante de que os astros longínquos
me sirvam de tecto e de  lastro, por companhia...
E que, o irromper da alvorada, não seja mais
o prolongamento da "noite eterna e antiquíssima"
mas o alvorecer e a promessa de um novo  dia...

Soergo-me, olho em redor, olho e revejo o melhor que posso,
inseguro e ansioso, mas nada mais vejo e descubro
que as trevas de um imenso, negro e medonho poço!
Enquanto a canoa, boiando na ondulante superfície,
boiando à flor do abismo, indiferentemente a tudo,
corajosamente, vai sulcando os  fugidios vultos...
.- Oh, sim!...Que vejo eu, enxergo ou  sinto
em mundo tão misterioso e desconhecido?...
Vejo que a solidão ainda é a mesma
para onde quer que alongue o meu olhar...
Sinto que vogo por um mar negro e indistinto,
Sinto-me, em parte incerta, vogando
prisioneiro do meu corpo e que,
tanto a minha alma, como o meu corpo,
ainda não são inteiramente livres um do outro..
Vou errante e solto à superfície
desta massa líquida ondulante.
Vou como ave noturna sem asas,
vogando inteiramente condicionado
e prisioneiro da minha liberdade ...

É certo que não tenho paredes à minha volta a cercearem-me
os movimentos - Pelo contrário:  esta cúpula infinitamente parda
é toda a minha, este mar  imenso  e negríssimo é todo meu,
 mesmo assim,  sinto-me infeliz, pois não sou eu
que vou a comandar a minha nau e o meu destino,
mas é o mar que me leva, não sei para onde
ou para que parte incerta do negro horizonte...
- Ó mensageira áurea luz! Errantes forças divinas!
Vós que alternais dentro do meu peito a paz e harmonia
das manhãs e tardes serenas ou mesmo as noites mais escuras e assombrosas,
com a voragem devoradora das tempestades - sejam quais forem as horas! -
 em que alturas celestiais ou erma solidão, agora estais?!..
Será que abandonaste meu pobre coração mortal?!...
- A noite nestes mares equatoriais, reparte por igual
as suas trevas com a claridade do dia 
- Quando chegará a hora - ó luz bendita! -
de vos contemplar?! Poder eu adormecer, libertar-me 
e esquecer-me de tudo isto?!...
.





Diário de Bordo .... 15ª dia -  UM GRANDE BARCO PASSOU AO MEU LADO ***** ******.....17ª Dia - Se me perguntassem qual era o meu maior desejo ..... ....;BIOKO À VISTA - ILHA DO “DIABO......***.;NÁUFRAGO - 18ª DIA – MAIS UM BARCO PASSOU A CURTA DISTÂNCIA ......; 19º Dia – Sinto muita sede  ...     ...; 20ª Dia Estou envolvido por enorme cardume,...........;21º DIA – “Sinceramentejá tenho pena de ter ferido aqueles tubarões n............;Náufrago 22.º dia - A canoa esteve há pouco à beira de se virar .......;23º Dia -Vi uma borboleta!    ..24º Dia - É tubarão!.... Filho da mãe....... 25º diaEstou cheio de sede e de fome............26ª Dia Não tenho comidaÁgua também não. .      . 27ª dia  mar nunca se podem fazer cálculos seguros!...........28º Dia - Grandes vagas alterosas entravam dentro da minha canoa!.        29ª dia - Passei a noite todo encharcado.....       30º Dia - Não comi nada: limitei-me a comer uma das barbatanas do tubarão. .......... 31º Dia - A canoa a meter água cada vez mais!.... .............. .32º Dia -Estou comendo o coco! Avidamente!... Sofregamente!................33º Dia - Estou exausto!.........Dia 34º -  Sinto uma grande dureza no estômago..........35ºDia - Acordei com o barulho de uma enorme baleia aqui próximo da canoa ....36º Dia - Comi a ave que apanhei ontem! (...) Tenho a costa de África muito próxima... É já noite"... Estou a velejar! Estou-me a precipitar como um suicida. Tenho fome! ... Não posso demorar mais tempo!......37ª Dia Estou partido! Tenho o estômago metido para dentro...Estou realmente bastante fraco...



sábado, 21 de julho de 2012

NO DIA EM QUE UM GRANDE BARCO PASSOU AO MEU LADO E NÃO ME VIU OU SE ME VIU, IGNOROU-ME E ABANDONOU – ME: FOI AO 15ºDIA


Ainda possuía alguns mantimentos, mas, à minha frente, ainda haviam de decorrer mais  23 longos dias e longas noites equatoriais. Longe, porém, de conhecer o calvário que me esperava. Ao fim de cada dia, havia sempre a esperança de que pudesse aportar a qualquer ponto da costa africana na manhã ou na tarde do dia seguinte. Porém, os dias davam lugar  às noites e estas sucediam aos dias.  - Já aqui transcrevi alguns excertos do meu diário, referente ao 15º dia e a outros dias, mas creio que vale a pena transcrever outras passagens, que ia registando num pequeno gravador, que pude guardar no meu baú, um modesto caixote do lixo (em plástico)

Diário de Bordo 1- Hoje, 15º dia. Grande decepção!... Um barco cargueiro passa aqui ao meu lado ...Faço-lhe sinais vários de aproximação... mas não correspondeu!...     Não há dúvida nenhuma que tenho que contar apenas com os meus modestos recursos. Mais nada! 

 
Diário de Bordo 2- Devem ser neste momento, cerca das nove horas da manhã. Agora tenho a nítida sensação que  devo estar a aproximar-me da Ilha de Fernando Pó. (Bioko) - Ontem tive a impressão, depois de ter enfrentado um violento temporal, que estava próximo da Ilha do Príncipe. Mas não, foi ilusão...Agora há muito calor. Uma calmaria podre... Não há vento nenhum.

(no diário, recordo ainda os motivos pelos quais o comandante do pesqueiro não me largou na corrente equatorial e a noite do naufrágio)

Há pouco tive a sorte de pescar outro tubarão!....Pelos vistos, peixes aqui há muitos e até se podem pescar à mão e a machim, se for preciso... 

Diário de Bordo 3 - De noite, a dada altura, fui surpreendido por ruídos estranhos dos golfinhos, que andavam aqui a voltear a canoa (às cambalhotas por cima dela) e de um lado para o outro. É curioso, porque deixavam um rasto luminoso e exprimiam uns grunhidos!... Por um lado, aquilo pareceu-me simpático, mas, por outro, atemorizou-me. Depois dei umas apitadelas e consegui afastá-los.



Postagens do Diário de Bordo .... 15ª dia -  UM GRANDE BARCO PASSOU AO MEU LADO IGNOROU-ME E ABANDONOU– ME****** ******.....17ª Dia – “Se me perguntassem neste momento qual era o meu maior desejo.........;BIOKO À VISTA - ILHA DO “DIABO- ......***.;NÁUFRAGO - 18ª DIAMAIS UM BARCO PASSOU a curta distância.......; 19º DiaSinto muita sede  Estou deitado no fundo da canoa.......; 20ª Dia Estou envolvido por enorme cardume, que me está a arrastar...............;21º DIA – “Sinceramente, já tenho pena de ter ferido aqueles tubarões azuis e martelos.............;Náufrago 22.º dia A canoa esteve há pouco à beira de se virar.......;23º Dia -Vi uma borboleta! Tudo leva a crer;........24º Dia - É tubarão!.... Filho da mãe.

 

SEM DESTINO E A NOITE POR COMPANHEIRA (poema)



LÁ ERGUI A VELA NO TOSCO MASTRO E, COM AJUDA DE UM REMO IMPROVISADO, ESFORCEI-ME POR NAVEGAR, CONVENCIDO QUE ATINGIRIA O  QUE ME PARECIA A ILHA DE BIOKO – MAS  POUCO TEMPO NAVEGUEI...E, terra à vista,  acabaria por ser mais uma das muitas desoladoras ilusões. - Novelos de nuvens escuras sobre o horizonte, eram o bastante para me darem à ilusão de perfis de terra

Diário de Bordo 3 -Neste momento, devem ser cerca das dez horas. Está a fazer um bocadinho de vento. A canoa já está a balancear... Portanto, vou comer qualquer coisa, pôr uma vela e ver se me aproximo o mais depressa possível da praia... Não sei a que praia mas o que me interessa é que seja terra

NÃO ADIANTEI NADA – ILUSÃO SOBRE ILUSÃO – E AINDA A IMAGEM DO BARCO QUE NÃO ME SAÍA DOS MEUS OLHOS - QUE TÃO PERTO PASSOU E QUE ME ABANDONOU

Diário de Bordo 4 - De manhã avistei um barco!... Passou relativamente próximo de mim. Até tive a impressão que ele vinha a aproximar-se... Mas ele manteve o seu rumo, certamente por não me julgar perdido ou por me julgar muito próximo de terra... Espero que sim, que esteja próximo de terra.. Aliás, tenho essa impressão, quer pelo aspecto do mar – pela maneira serena como se apresenta – quer pelos contornos que eu vislumbro.

Quanto a provisões?!... Estou ainda garantido com algumas latas. Mas, quanto a água, tenho muito pouca!... Claro que isso pode não representar problema... Se demorasse mais algum tempo, teria que recorrer à água das chuvas ou então dos peixes ou do mar. Espero que isso não seja necessário porque não é nada agradável...

Diário de Bordo 5 - É uma hora da tarde do 15º dia. Estou a escutar a Rádio Nacional de São Tomé e Príncipe (enquanto as pilhas do pequeno transístor não se gastaram). Está um calor abrasador!... Uma calmaria muito grande. Não há praticamente vento. O que pode ser mau sinal, porque, quando o tempo está calmo, normalmente segue-se um temporal violento... De tempestade... De ventos fortes!... Apetecia-me realmente beber água...Já tenho pouca... E tomar um banho fresco... Mas é impossível aqui neste mar... Há muitos tubarões em volta, muita fauna marinha que não me apetece visitar....Mas o céu está totalmente descoberto. O mar de um azul muito claro. Há por aqui algumas aves que andam a voar à procura de peixes e eu sempre na mira de ver terra. (inesperadamente dos sons do pequeno rádio, sai a voz de  Paco Bandeira, nem a propósito)

 
(...)"A noite é clara! A imagem rara!...Meu destino lá no mar.!...Meu barco baloiça nas ondas salgadas! Mais uma remadas para descansar!... Olho mais ao longe, lá no horizonte, um clarão brilhante reflecte o luar!... Remo!... Vivo cantando! o vento é brando, como a mansidão do mar! Volto!... O sol já raia! e lá na praia está alguém para me esperar!.. Meu barco baloiça nas ondas salgadas. Mais uma remas para descansar!...Olho mais ao longe, lá no horizonte, um clarão brilhante reflecte o luar!..."

Diário de Bordo 6- Esta foi a voz de Paco Bandeira, que acabei de escutar, bastante emocionado!.... Pois ainda continuo esperando que chegue a uma praia....Neste momento, a contrastar com o de ontem.... Ontem!... Era pavoroso! O mar estava agitadíssimo!.... Ondas alterosas, com mais de dez metros, pareciam engolir a cada instante a minha canoa!... Hoje não!... Hoje o mar está chão! Sereno!... Não há vento!...Eu queria velejar um bocadinho mas não há vento...
A água que tenho, já é pouca. Mas tenho esperança de que hei-de chegar a terra o mais depressa possível. Se é como julgo estar na Baía de Biafra, portanto, próximo de Fernando Pó, é natural que me aproxime da costa africana, talvez da Nigéria.

BALEIA À VISTA...

Diário de Bordo 7 - Hoje avistei duas enormes baleias!... Aqui próximo da canoa e um tubarão monstro!... Um tubarão muito grande!... Que andou aqui a voltear a canoa de um lado para o outro... Os pequenos tubarões, esses, continuam a todo o momento. Pois, até já pesquei dois!... Foi fácil!... Mal meti a linha veio logo um!... Outros peixes continuam aqui em grandes cardumes. Na questão de peixes. Não há dúvida nenhuma  que este mar é riquíssimo! Mas também é perigoso, porque, efectivamente,  se apanharem uma pessoa onde só eles podem viver, naturalmente que não me perdoariam!... Mas eu evitarei, a todo o custo, que isso aconteça.

  Diário de Bordo 8 - Há uma serenidade!... Só se vê mar!... Absolutamente mar!... Mar e mais nada!... A minha canoa a vaguear, a vaguear!...

Eu não si onde estou!... Não sei!... Mas não estou desesperado!... Não perdi a confiança!... estou emocionado, com certeza!...Mas continuo confiante!...Realmente, o homem!... Eu acho que o homem é nestas circunstâncias que ele se superioriza a si próprio!... O seu espírito se enaltece!...

Há qualquer coisa de místico!....Ontem! no meio daquelas ondas!... Alterosas!!...De vez em quando, uma ou outra entrava  com alguma água, dentro da minha canoa!... Eu sentia-me ao mesmo tempo pequeno e gigante!... Pequeno!...   No meio de tanta grandeza!.... E gigante!... por vencer tamanha força!...

Diário de Bordo 9 - Os peixes, aqui ao lado; de vez em quando a saltar!... Pois, são decorridos 15 dias e tal, que me encontro nestas circunstâncias, vivendo numa autêntica banheira, a que eu, pomposamente, dei o nome de hotel.

Eu posso!... Eu sinto-me capaz  de fazer  uma viagem muito grande!... Evidentemente que tenho de ir bem preparado, com alimentos e água!... A canoa tem de oferecer outra segurança. Porque, esta canoa, de facto, não está bem construída!... Não está muito mal mas já está com rombos; está um bocadinho torta...Ela não ficou equilibrada... Enfim, estou convencido de que, com uma boa canoa, com boa alimentação e água, sou capaz de ir muito longe. Sinto-me encorajado!... E com velas boas. Velas quadrangulares!...Porque, estas velas rectangulares, não se adaptam à canoa.

Diário de Bordo  10 - Pois... não sei!... Não sei!... Estou longe de tudo!... Longe das vistas de toda a gente!... Perdido nesta imensidão!... É de facto uma imensidão!... Eu, se caísse aqui, não me salvaria!....

Ninguém! Absolutamente ninguém!... Ainda não perdi a confiança... Eu, acima de tudo, acredito em algo... Algo superior a mim... Há uma força qualquer que nos protege, de certeza absoluta!.... Porque, se assim não fosse, estou convencido que não estaria aqui!... Porque eu tenho vencido muitas dificuldades!... Imensas!... Eu, ontem parecia não seu o quê no meio daquela fúria!... Fúria autêntica!... Indescritível!... O vento!...As vagas alterosas!... O mar parecia engolir-me a cada momento!... Eu não teria salvação nenhuma se a canoa se virasse!... Eu continuei!...

Diário de Bordo  11- Realmente... sinto-me saturado!... Saturado!... Olho para a minha canoa... vejo  tudo em desordem!... Não sei!... Logo de manhã, passou um barco, perto de mim... Fiz tudo por tudo por ir à fala  com ele... Pois preciso de água... Tenho muito pouca!... Tenho apenas uns dois litros de água... Pelo menos para me dar água... No entanto, o barco continuou a sua marcha, como que indiferentemente a mim!... Afinal de contas, só posso contar comigo e com a minha canoa. Com mais ninguém. E com uma força!... Uma força qualquer!... Sim, uma força divina!... Uma força superior!...

Diário de Bordo 12 - Apenas a presença de aves, aqui perto e de peixes, aqui debaixo da canoa.... Peixes de todas as espécies são a minha companhia... Nesta serenidade!...Nesta calmaria!...Não sei se isto é prologo para mais uns momentos como os de ontem....O mar é assim!... Umas vezes sereno, outras furioso!

Diário de Bordo 13 -  Fim de tarde do 15º dia. Estou a ouvir o Duro Ouro Negro (Muxima) através da Rádio Nacional de São Tomé e Príncipe. Uma tarde serena!... Mas, no horizonte, ao longe, nuvens carregadas, nuvens escuras!....Ameaçam chuva!...





Já vislumbrei contornos  da costa africana, portanto, espero chegar à manhã.... Os tubarões continuam aqui a voltear a canoa. Tentei pescar alguns mas já me comeram as iscas. O naylon mostra-se demasiado frágil para a força deles. Agora surgiu o tubarão martelo, completamente verde!... Deixa uma sombra verde por onde passa!... Há tubarões  de todas espécies!...Há bocado, um tubarão martelo, deu aqui uma cambalhota! Tem a cabeça realmente do feitio de um martelo e é completamente verde!.. É bonito, é lindo!... Mas ameaçador!... Outros tubarões, os mais feios, são precisamente os que vão mais vezes ao anzol.... Há bocado, houve um que veio ao anzol, mas, claro, arrebatou-o logo, porque era muito grande!

Diário de Bordo  14 - Neste momento, eu sinto-me tranquilo. Sinto-me sossegado... Vamos lá a ver como será a noite...Vamos lá a ver se tenho uma surpresa, como a que tive a noite passada!... Às tantas, um grupo de toninhas, começaram a voltear a canoa!... Pareciam  autênticos foguetes, deixando um rasto luminoso por baixo, por cima e em todas as direcções!... Exprimindo uns grunhidos muito estranhos!... Achei aquilo interessante, mas, por outro lado, também senti algum receio que caíssem na canoa e a partissem.

Diário de Bordo  15 - Pois tenho tudo arreado... A canoa, enfim, aos solavancos, tomboleando ao sabor da corrente. Uma corrente que se faz sentir, evidentemente, ouvindo Muxima-ai-oé!... É realmente, uma canção africana que eu gosto muito de ouvir.

Diário de Bordo  16 - Não há dúvida nenhuma... O mar é cheio de beleza!..... Umas vezes ameaçador!...Outras vezes belo! Maravilhoso!... De plenitude!...De alegria e de paz!...

Há uma serenidade em tudo o que vejo aqui... E há vida!... Há a luta dos peixes pela sobrevivência!... Luta mais feroz, talvez que a dos homens!...

Diário de Bordo 17 - Pois é já ao anoitecer... A  canoa com uma coberta, faz-me lembrar, não sei o quê... Uma espécie de junco chinês!... Apenas a rádio o meu rádio a tocar e mais nada!...Ah! sinto uma sensação  de me deitar ao mar!....Enfim, tomar um banho... Mas não posso!...Não posso!....(de seguida canto a Barca Bela) Quem quer ver a barca bela?/ Que se vai deitar ao mar/ Nossa Senhora, vai nela / E os anjos vão a remar! / S. Vicente, é o pilotJesus Cristo, o general


Diário de Bordo  17 - Parece-me que tenho ali a costa de África !...O céu está agora carregado para lá...Deve estar a chover, com certeza, porque as nuvens  estão para lá a descarregar chuva!.... Mas ainda estou muito longe.... Vejo, lá longe!... A umas 20 milhas, contornos de Fernando Pó...

(E volto a cantar: “Quem quer ver a barca bela” e “Ó Noite Plácida!

Diário de Bordo 18 - Ó noite plácida!.... Avança a medo!... Como em segredo! Por sobre o mar!!... Eu nesta hora, tão doce e calma!... Sinto a minha alma, voar!...Voar!!..”
(Deitado sobre o fundo da canoa e velas arreadas)
Diário de Bordo 19 - São cerca das 10 horas da noite. O ruído que se ouve são as vagas a baterem  constantemente e arrastarem-me!...Neste momento, não tenho qualquer vela içada...Estou aqui deitado numa espécie de caixão!...

De tarde, as nuvens ameaçavam chuva... Agora, não sei...Ainda não vi... Hei-de espreitar daqui a bocadinho....a ver como o tempo está lá fora...Oxalá se ache bom, senão daqui a pouco, fica tudo isto molhado!... (pausa) Silêncio absoluto!..Estou num completo abandono!...

(levanto-me para espreitar)

Noite escura!... Sombria!!... Ouço apenas o bater da água do mar nas paredes da minha canoa!...Sinto-me só!...Tenho aqui ao meu lado o meu pequeno rádio, com o qual posso ouvir várias estações e entre elas a Rádio Nacional de São Tomé e Príncipe
(ligo o rádio)

Diário de Bordo 20 - Neste momento está a dar notícias!... (sobre a guerra no Vietname) Não me interessam as notícias! Estou arredado disso tudo!... Gosto de ouvir música, mais nada... Nem sempre... Às vezes quero ficar indiferente a tudo. Alheio completamente a tudo!... Só o mar!...O mar que me atrai...Não sei porquê!...Não sei porquê!...
Eu algum dia haveria de pensar que me encontrava assim...nesta escuridão! Neste abandono!... Aqui metido!... Num tronco de árvore escavado!... Sozinho!...Entregue a mim  próprio!... mais nada!...
(Após uma pausa, ligo de novo o pequeno transístor, mas simultaneamente dou-me conta que o tempo está a mudar)
Está a começar a  fazer mau tempo!... O vento está a soprar forte!!... O vento está a soprar forte!...Vou ver o que se passa....Noite medonha!...Escura!... Fria!...O mar
 está a ficar agitado!... Estou debaixo de nuvens escuras! Vai chover, com certeza!... O vento começa a soprar mais forte! – (e no gravador ouve-se perfeitamente a ventania)





Não choveu mas a noite foi muito ventosa  e horrível!... No horizonte negro, os relâmpagos rasgavam constantemente a escuridão. O tornado não me atingiu, senão o efeito da ondulação e da ventania.  E eu até desejava que chovesse alguma coisa para recolher água das chuvas, pois a reservas de água doce, estavam praticamente esgotadas. Não tive um minuto de descanso – Foi mais uma longa e exaustiva vigília – No dia seguinte, o meu diário de bordo, seria muito breve - Por esse facto, aproveito para aqui o transcrever – Tendo apenas feito o primeiro registo a meio da tarde – De referir que não tinha relógio; as horas eram calculadas pelo curso aparente do sol ou do passar do tempo ou quando ouvia o rádio - Mas depois até isso me faltou, quando as pilhas se esgotaram.
16º DIA

 
 Já são dezasseis dias passados que me encontro numa canoa, em pleno Golfo da Guiné. Devem ser três horas da tarde. Sinceramente, encontro-me muito desiludido! Muito desanimado!..Cheio de sede!... Não tenho praticamente água!...


Ontem, de facto, estive próximo da Ilha do Príncipe. Mais propriamente, do Ilhéu das Tinhosas. Afastei-me... agora ando para aqui!... Não há vento. Há uma calmaria!...Longe de terra, com falta de água!...

Encontro-me  muito desanimado!... Não perdi ainda a esperança de que hei-de chegar a terra... Hei-de me salvar!...Mas, sinceramente, sinto-me muito saturado, muito saturado!... A situação é extremamente difícil!... Ponho a vela e canoa não obedece... Não há vento!...Por outro lado, a falta do leme (que lhe adaptei e a perda do remo) é que provocou isto tudo!... É uma situação delicada! Bastante, mesmo!...Perdi até o apetite de comer!... Aliás, eu tenho muita sede! Imensa sede!.. Oxalá que chova!

Fim de tarde do 16º dia. Um dia bastante aborrecido!... Há bocadinho, houve um tubarão que investiu contra a minha canoa! Andou aqui em volta dela, dando-lhe rabanadas violentas e só consegui afugentá-lo com o auxílio do machim!... Estava a ver que me queria virar a canoa... Realmente foi uma situação bastante desesperada.

Mais tarde, voltaria a ser atacado por um outro tubarão enorme e da mesma espécie. Mas só daria duas voltas; à segunda, esperei-o.num dos bordos e deferi-lhe um golpe com o machim, tendo-o afastado - Desesperado, propriamente, nunca estive. Nem com ataques de tubarões, nem com tempestades. Mas também não vejo outras palavras para descrever, certas situações dramáticas.


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