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Entre outros assuntos, falo da escalada ao Pico Cão Grande e das minhas aventuras em canoas – Visam defender a teoria de que antigos povos africanos, podiam ter sido os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo da Guiné, antes dos colonizadores – Parti à meia-noite, disfarçado de pescador, ligando a ilha do Príncipe. Para me orientar, uma rudimentar bússola – A canoa era minúscula, à segunda noite adormeci: rolei na escuridão das vagas. No regresso fui distinguido com sopapos da policia salazarista, enviado para os calabouços – Cinco anos depois, numa piroga maior, fiz a ligação São Tomé-Nigéria. Partindo igualmente à noite, 13 dias depois atingia uma praia de Calabar, tendo sido detido 17 dias por suspeita de espionagem. - No mesmo ano, já com São Tomé e Príncipe independente, tentei a travessia São Tomé ao Brasil, usando os mesmos recursos. Além de pretender reforçar a minha teoria, desejava evocar a rota da escravatura e repetir a experiência de Alain Bombard. Porém, quis a ironia do destino que vivesse a difícil provação de um naufrágio de 38 longos dias, tendo aportado numa praia de Bioko (Bococo)onde fui recambiado para a famosa prisão de Black Beach

sexta-feira, 20 de julho de 2012

ANTIGO AERÓDROMO CIVIL DE SÃO TOMÉ – O DIA EM QUE O TIGER DO COMANDANTE GROMICHO AFOCINHOU NA PISTA E O FESTIVAL DO AEROCLUBE IA ACABANDO NUMA TRAGÉDIA



 

  











Foi em 1971, por ocasião de um festival aéreo organizado pelo Aeroclube, destinado a assinalar a entrega dos diplomas aos alunos do 2º  curso de  pilotos. Sim, que decorrera no então aeródromo de São Tomé e Príncipe, por essa altura, já tornado mundialmente famoso, devido à ponte aérea São Tomé-Biafra .
A avioneta afocinhou a uma vintena de metros à minha frente. A pessoa que se vê no primeiro plano da imagem à direita, sou eu a correr para junto da Tiger, mal acabava de afocinhar. Um  pouco mais à minha frente, correm dois funcionários do aeródromo, com os extintores, prontos para apagarem os primeiros sinais de fumo, que logo começaram a notar-se.

Encontrava-me no local a fazer a cobertura para uma reportagem da revista de Luanda, Semana Ilustrada, de que era seu delegado em São Tomé. Ainda hoje me interrogo, como foi possível, a frágil aeronave, ao embater com um  tal estrondo, com a hélice e o motor sobre o duro asfalto da pista, não ter sucedido  a quase inevitável explosão. Houve muita sorte.  Além do tripulante, teria havido ali uma tragédia, já que os estilhaços, teriam certamente atingido as pessoas que se encontravam junto à pista, eu teria sido uma delas – Felizmente, tudo não passou de um grande susto – O bastante, no entanto, para a última  parte do festival, a mais aguardada, ter sido abruptamente ensombrada e interrompida, não tendo permitido que fosse o corolário de um extraordinário espectáculo aéreo, tal como até àquele  momento,  estava a decorrer.

Findo o rali-aéreo, que tivera a participação dos novos pilotos, seguiram-se os  momentos mais aguardados do festival, com as várias acrobacias  dos pilotos veteranos:  Alfredo Trindade,  pilotando um Austim, o chefe da pequena esquadrilha; Comandante Gromicho, a asa direita, num Tiger e o Comandante Damião a asa esquerda, numa Piper Cub

E, na verdade,   mal os pequenos aparelhos se ergueram no espaço em voo rasante sobre o traço rectilíneo da pista, logo deixaram antever que o público ia assistir às mais inconcebíveis demonstrações de voo e de perícia. E, de facto,  assim sucedeu, nos voos em grupo, com os três experimentados e hábeis pilotos. Só que, quando chegou a altura dos voos isolados, de cada piloto demonstrar, individualmente, as suas habilidades, aconteceu o inesperado: o Tiger tripulado pelo Comandante Gromicho, que iniciava a fase apoteótica do festival, ao  fazer um voo de alto risco, picado e rasante,  afocinhou com a  frágil avioneta, embatendo impetuosamente com a fuselagem no solo, deixando-a totalmente amolgada e danificada, fumegante, em começo de incêndio, cujo alastramento foi impedido pela pronta intervenção dos extintores.

Houve algum pânico. E houve quem desatasse a escapar-se do local, mas também houve (os responsáveis pela segurança, pilotos, repórteres e outras entidades), sim, que acorreram  imediatamente em direcção à avioneta acidentada. Confesso que ainda hoje me interrogo, como, naquela tarde de um belo domingo equatorial,  o Comandante Gromicho (um dos pilotos que fazia regularmente as ligações, entre as Ilhas de São Tomé e Príncipe), logrou sair com vida do pequeno Tiger – Mas a explicação, em boa parte, ficou a dever-se à sua notável destreza e larga experiência, fechando acto contínuo a  bomba de gasolina, e, num ápice, abrindo a porta e desembaraçando-se da  modesta máquina voadora que tripulava, sofrendo apenas umas ligeiras escoriações.
 
Declarações (excertos)

Comandante Damião, instrutor

“É pena que não haja mais incentivo, mais vontade de ajudar, porque o aeroclube é um aeroclube pobre. E faz o máximo que pode e tem aqui instrutores bons,  verdadeiramente amigos do aeroclube – No tocante ao curso, não posso ter ficado mais satisfeito do que estou. Foram realmente extraordinários"

Capitão Teixeira da Silva – presidente interino da Comissão Administrativa do aeroclube e director técnico do curso de pilotos de 1971 salientou as provas do Viriato Moura e do jovem Vale – "O acidente que depois se passou no rali, são casos de quem tem o brevet."

IMAGENS: avião da famosa ponte aérea com o Biafra, levantando voo da pista do aeródromo civil de São Tomé, a outra é a de um artigo, igualmente de minha autoria, chamando atenção para o péssimo estado da aerogare - No primeiro plano, ao fundo do texto, o avião que fazia semanalmente  a ligação com Angola, uns metros à frente do velho hangar onde estavam estacionados dois caças do Biafra, sem as asas - Lá mais ao fundo, podem ver-se, também, os velhos constellations da ponte humanitária. A última imagem é a da Baía Ana de Chaves, com as suas canoas, numa passagem de ano. Foi desta Baía, que eu partira à meia-noite, numa frágil piroga, igual às que ali se vêem na fotografia, disfarçado de pescador, para efectuar a travessia até à Ilha do Príncipe, tendo depois sido preso pela PIDE. 

  
 - Este apontamento, ocorreu-me, aqui transcrever na sequência de uma amável mensagem que recebi de  António Amorim, cujo gesto muito sensibilizou e muito lhe agradeço; lembro-me do seu nome, mas já não consigo associar a sua imagem ao nome.

 
Olá Jorge
Certamente já nem se lembra de mim. Eu fui testemunha desses momentos da guerra do Biafra pois nessa altura  eu trabalhava nas comunicações aeronáuticas do aeroporto de S. Tomé. Foram dos momentos mais desgastantes e também os que mais me chocaram cada vez que os aviões chegavam carregados com  as chamadas "crianças do Biafra". Você deu um grande contributo para a memória desta guerra na qual S. Tomé teve um papel muito importante com as crianças que acolheu. Bom trabalho, parabéns.
Mais tarde encontrámo-nos na ilha do Príncipe, (24 DEZ 1974) chefiava eu o aeroporto, aquando da queda do avião Piper28 pilotado pelo comandante Teixeira da Silva. Tenho um registo fotográfico desse momento

Caro Amorim:

Lembro-me do seu nome mas não consigo associá-lo. Só com a fotografia ou falando pessoalmente consigo. 
 
Muito obrigado, pois, pela sua lembrança e pelas palavras tão amáveis. Vou tomar a liberdade de publicar a sua mensagem no meu site. Se estiver por Lisboa, ou passar por esta cidade, não deixe de me contactar. Creia que dar-me-ia muito prazer recordar aqueles  meus tempos, e seus, ali vividos,  nas maravilhosas Ilhas de São Tomé e Príncipe. Caso disponha de algumas imagens, teria muito gosto em editá-las no meu site

 De facto, a guerra do Biafra foi uma tragédia para alguns milhões de seres humanos, mulheres, homens e crianças - A ponte-aérea de São Tomé para aquele território rebelde da Nigéria, foi muito importante, todavia incipiente para tamanho desastre humanitário. Mas o que conta, são as boas intenções e os voo heróicos. Se bem que, por detrás de  muitas intenções, houvesse a corrida aos dólares e ao ouro negro. E quem sofre são sempre os que menos culpa têm, as crianças, as mulheres e os idosos, os mais vulneráveis. E foi isso que ali ambos pudemos testemunhar, com as crianças famélicas, que ali chegavam para serem carinhosamente assistidas.

Um grande abraço amigo

de Jorge Trabulo Marques

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