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Entre outros assuntos, falo da escalada ao Pico Cão Grande e das minhas aventuras em canoas – Visam defender a teoria de que antigos povos africanos, podiam ter sido os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo da Guiné, antes dos colonizadores – Parti à meia-noite, disfarçado de pescador, ligando a ilha do Príncipe. Para me orientar, uma rudimentar bússola – A canoa era minúscula, à segunda noite adormeci: rolei na escuridão das vagas. No regresso fui distinguido com sopapos da policia salazarista, enviado para os calabouços – Cinco anos depois, numa piroga maior, fiz a ligação São Tomé-Nigéria. Partindo igualmente à noite, 13 dias depois atingia uma praia de Calabar, tendo sido detido 17 dias por suspeita de espionagem. - No mesmo ano, já com São Tomé e Príncipe independente, tentei a travessia São Tomé ao Brasil, usando os mesmos recursos. Além de pretender reforçar a minha teoria, desejava evocar a rota da escravatura e repetir a experiência de Alain Bombard. Porém, quis a ironia do destino que vivesse a difícil provação de um naufrágio de 38 longos dias, tendo aportado numa praia de Bioko (Bococo)onde fui recambiado para a famosa prisão de Black Beach

sábado, 11 de agosto de 2012

20ª Dia Estou envolvido por enorme cardume! Que me está a arrastar!(...) Louvado sejais meu Deus!...Será Deus que me mandou este cardume para me salvar?!... Porque, hoje, já fui retardado por aquele tornado de manhã!...Fui muito empurrado para Sul!

Algures no Golfo da Guiné, 9 de Novembro de 1975

(imagem ao lado, bebendo água do mar)


Diário de Bordo  – 1  É manhã do 20º dia. Já estou mais a Norte da Ilha de Fernando Pó, agora completamente descoberta. Portanto, estou  aproximar-me da costa de África, mas ainda tenho um bocado a percorrer. O céu, a leste, apresenta-se bastante encoberto, e, do lado oeste, tem algumas nuvens, o que tudo indica que vai haver chuva. Pelo menos à noite. – Estas as minhas primeiras palavras, vertidas, de forma pausada e denotando um certo abatimento,  para o meu diário de bordo, registadas num pequeno gravador, guardado da fúria das ondas, no meu baú, um ex-contentor do lixo

Diário de Bordo .... 15ª dia -  UM GRANDE BARCO PASSOU AO MEU LADO ***** ******.....17ª Dia - Se me perguntassem qual era o meu maior desejo ..... ....;BIOKO À VISTA - ILHA DO “DIABO......***.;NÁUFRAGO - 18ª DIA – MAIS UM BARCO PASSOU A CURTA DISTÂNCIA ......; 19º Dia – Sinto muita sede  ...     ...;..........;21º DIA – “Sinceramentejá tenho pena de ter ferido aqueles tubarões n............;Náufrago 22.º dia - A canoa esteve há pouco à beira de se virar .......;23º Dia -Vi uma borboleta!    ..24º Dia - É tubarão!.... Filho da mãe....... 25º diaEstou cheio de sede e de fome............26ª Dia Não tenho comidaÁgua também não. .      . 27ª dia  mar nunca se podem fazer cálculos seguros!...........28º Dia - Grandes vagas alterosas entravam dentro da minha canoa!.        29ª dia - Passei a noite todo encharcado.....       30º Dia - Não comi nada: limitei-me a comer uma das barbatanas do tubarão. .......... 31º Dia - A canoa a meter água cada vez mais!.... .............. .32º Dia -Estou comendo o coco! Avidamente!... Sofregamente!................33º Dia - Estou exausto!.........Dia 34º -  Sinto uma grande dureza no estômago..........35ºDia - Acordei com o barulho de uma enorme baleia aqui próximo da canoa ....36º Dia - Comi a ave que apanhei ontem! (...) Tenho a costa de África muito próxima... É já noite"... Estou a velejar! Estou-me a precipitar como um suicida. Tenho fome! ... Não posso demorar mais tempo!......37ª Dia Estou partido! Tenho o estômago metido para dentro...Estou realmente bastante fraco...

sem destino e a noite por companheira. poema

Diário de Bordo  – 1 Esta noite apanhei uma ave que tinha pousado sobre mim. Tenho-a aqui para a depenar daqui a bocadito... - (Confesso que era o que mais me custava: sacrificar as avezinhas que me serviam de companhia - Além disso, eram só ossos. Mas a necessidade, assim me obrigava).


Como não chove, só estou a consumir água do mar!... Não sei a que distância me encontro de Fernando Pó. Sei que estou muito próximo  (quem está perdido no mar, o que parece perto, nem sempre é o que parece). mas não me interessa ir para lá, de maneira nenhuma!... (e tinha razões para não aportar lá) Como tal, vou aqui  a permanecer deitado no fundo da canoa.. – Mas  por pouco tempo, as condições atmosféricas, agravar-se-iam e voltaria a ser balanceado ao sabor de mais uma tempestade.






A canoa, fotograficamente falando, talvez possa parecer-lhe um iate - Sim, de 60 cm de altura por 1 metro de largura. Um pedaço de um tronco escavado, mais ou menos comprido, com umas ligeiras coberturas laterais e uma pequena ponte à proa e à popa


SENSIVELMENTE A MEIO DA MANHÃ – DEPOIS DE UM  TORNADO - Fazia o balanço do dia:


Diário de Bordo  2 – Hoje já tive muito trabalho!... De manhã cedo, estava muito próximo de Fernando Pó, entretanto, surgiu um tornado que me aproximou mais, depois afastou-me para Oeste!... Estou-me ainda a afastar!...Convenci-me que não tinha outra hipótese senão ir dar lá, mas felizmente que coloquei a vela e estou a afastar-me nitidamente da Ilha de Macias. Portanto, estou a dominar perfeitamente a minha canoa, depois de ter enfrentado mais um temporal!... Não foi muito violento, mas, enfim, deu-me algum trabalho. Neste momento, estou a dirigir-me para a Nigéria. Espero lá chegar hoje, com certeza.


Com a chuva, desta manhã, consegui  arranjar mais provisões de água. Portanto, esta manhã, já me consolei  com água doce, água das chuvas!...Estou mais satisfeito, pois já não tinha água nenhuma. Já estava a beber água do mar!... Enfim, tudo vai andando com um bocado de sorte, felizmente


Diário de Bordo  3 . As aves estão aqui a voar ao meu lado!... Sinceramente, agrada-me a cor desta água. Uma cor diferente!... Um azul límpido, transparente!...Tudo indica que não devo estar muito afastado da costa...


As aves continuam aqui a sobrevoar o mar ao meu lado e à minha frente. Parece que querem acompanhar  a minha canoa!...Os peixes, todos acompanham o ritmo do seu andamento... Enfim, tudo parece ir pelo melhor caminho!... Ainda não vislumbrei contornos de terra, o que, aliás, é compreensível, visto que a costa é normalmente baixa e só quase se avista, quando se está sobre ela, mas não devo estar longe. 


NOVO ATAQUE DE PERIGOSO TUBARÃO

Diário de Bordo  4 – Neste momento, a canoa voltou a ser investida por um grande tubarão!!... Já lhe dei umas tacadas com o remo e espero  que  ele me deixe em paz e se afaste!... É realmente um tubarão grande! Ele ainda anda aqui, talvez próximo da canoa!...


Diário de Bordo  5 – Já vi aqui alguns paus!... São vestígios, normalmente de  aproximação de terra. Mas a água mantém-se com a mesma cor... isto é, de um azul clarinho, embora com muita carneirada... Aguardemos, enfim, que a desejada praia chegue à vista.


Diário de Bordo  6 – Devem ser três e tal da tarde deste dia 20. Tive que tirar novamente a vela, pois o mar apresenta-se bastante cavado, não há vento e tornava-se bastante difícil velejar... Continuo, portanto, à deriva, já que não há outra solução. Com o leme (que lhe adaptei e perdi) , talvez pudesse fazer qualquer coisa. Tenho um remo tosco, uma coisa improvisada, que quase não serve para nada!.







Imagem registada num certo dia ao pôr do sol 


Diário de Bordo  6 Agora deixaram-se de ver as aves, pelo menos aqui nas cercanias... Ainda não vislumbrei qualquer contorno da costa africana... É uma costa muito baixa!... Já da outra vez, quando cheguei à Nigéria, apenas a avistei a uma duas ou três milhas. Desta vez, com certeza, vai ser a mesma coisa....É difícil o equilíbrio na canoa. O mar está muito cavaco, muito agitado!..


Tive que lançar hoje à água o peixe que tinha pescado ontem por já cheirar mal. Não foi preciso utilizá-lo porque tinha ainda o fígado do tubarão, que comi. Mas, se for necessário,  pesca-se e come-se peixe. Por enquanto, ainda tenho alguma comida. Não é muita mas ainda há alguma!... Quanto a água, arranjei mais um pouco das chuvas, que, misturada com a do mar, resolve o problema.





Diário de Bordo   7 – Seguidamente, vou-me entreter a comer qualquer coisa. Tenho muita fome!... Realmente, o apetite é bastante!...




ARRASTADO POR VÁRIAS HORAS  POR EXTENSO CARDUME – DESDE O  MEIO DA TARDE PELA NOITE A DENTRO


Diário de Bordo 8 – Neste momento, grande cardume de peixes! Estou envolvido num grande cardume de peixes! É indescritível uma coisa destas!... Há-os por todos os lados! Formam uma verdadeira corrente!...Não sei que possa ser isto!... Peixes!... São peixes!... é um cardume!.. São cardumes! Fazem autênticas vagas! Eu não compreendo isto!... É uma coisa estranha! Absolutamente estranha! O mar ficou agitado! Completamente agitado com tanto peixe! A  minha canoa continua a  tombalear!... É uma coisa que eu não percebo! Nunca vi tal fenómeno!... Os peixes são em quantidades monstras!... Paus, também, entre os peixes!... Agora dirige-se novamente para cá!... Ah!... Não posso!... Agora tenho de tomar cuidado com a minha canoa!...


Diário de Bordo 9 – Este ruído que se ouve  são as vagas produzidas pelo cardume!...Enorme!... Que tem uma extensão de mais de uma milha, talvez. É um fenómeno curioso este ruído (fervilhar) que continua a ouvir-se... Modificou a fisionomia do mar, completamente!... Faz vagas como se fosse  uma tempestade! É uma coisa que nunca vi!... Estranho não haver aqui aves, porque normalmente há aves quando  aparecem cardumes. O mar  toma uma agitação de ondas de todo o tamanho!... Pequenas! Grandes!.. Todo em turbilhão! Num autêntico turbilhão!...


Diário de Bordo10 – Ainda estou no meio do cardume! O cardume voltou para trás e voltou a cercar-me!...Os tubarões devem estar a ter um belo prato!... Nem num tornado teria tantas dificuldades  de me equilibrar  de como agora!...Prolonga-se por uma área enormíssima!... A canoa tem maior velocidade! Simplesmente há vagas que a galgam! É realmente um espectáculo!... Parece que me quer levar a terra; não me larga!...


Diário de Bordo 11 – Já passou mais de uma hora sobre o seu aparecimento e eu já andei mais em distância do que se tivesse  sido arrastado por um tornado. O seu maior comprimento está no sentido poente nascente e a sua  largura no sentido Norte/Sul. Umas vezes descai para Norte outras vezes descai para Sul. E eu estou a ser arrastado a uma velocidade impressionante!...Verifico pela posição da Ilha de Fernando Pó... Não há dúvida nenhuma que parece que foi Deus que veio ajudar-me a sair deste lugar, porque, hoje, já fui retardado por aquele tornado de manhã!...Fui muito puxado para Sul!... Agora estou a ser puxado nitidamente para Norte!...Umas vezes estou no meio dele, outras fora dele!... É coisa esquisita mas curiosa ao mesmo tempo!... Parece que há uma divindade!... Há algo superior que me está ajudar!... O cardume parece que tem alma! tem vida!...É impressionante!... Tem vida o cardume!... Parece que os animais têm descrição!.



 
(imagens da construção da piroga)


Diário de Bordo12 – Louvado sejais meu Deus!... Será Deus que me mandou este cardume para me ajudar?!... Para me salvar?!...O cardume continua... é já noite!... E ele a fazer-sentir! Umas vezes  descendo para Sul outras vezes avançando para Norte e a canoa deslizando... Agora, num movimento suave!...Há muitas ondas que  às vezes tentam galgá-la, mas ao deleve! Vai até num movimento mais equilibrado. É curioso!... Há qualquer coisa de especial nisto...


FINALMENTE, LÁ CONSEGUI LIBERTAR-ME DO CARDUME, COLOCANDO A VELA


Diário de Bordo 13 - Neste momento,  são cerca das dez horas da noite. Estou a navegar à vela. À minha retaguarda, a Sul, parece haver formação de uma tempestade qualquer. Depois de algumas horas, envolvido no cardume, lá consegui afastar-me, graças à ajuda da vela e do remo improvisado. Não é  nada prático. É extremamente difícil navegar nestas condições. Estou com uma atenção muito grande na bússola, que tenho aqui à minha frente, porque isto tem que ter o máximo de exatidão a fim de me aproximar quanto antes!... Ao meu lado , tenho o rádio (pequeno transístor a pilhas) com o qual tenho escutado a Rádio Nacional de São Tomé e Príncipe...Com certeza que só poderei navegar mais uma hora porque as condições não são nada favoráveis.


Diário de Bordo 14 – Realmente é uma situação muito difícil esta em que me encontro agora empenhado. Para dar equilíbrio à canoa é um caso sério! É preciso um sacrifício enorme!... Ainda não comi mais nada...Estou cheio de fome!... Mas, efetivamente, quero libertar-me  aqui disto, porque é uma chatice...Está para ali a formar-se um temporal à minha retaguarda, não me apanhe!...Mas, enfim, se me apanhar, ao menos seja em boa posição da canoa...Por vezes, é desfavorável..


 



VOGANDO À FLOR DO MAR, PERANTE UMA NOITE ESPLENDOROSA DE LUAR ...MAS POR POUCO TEMPO... HAVIA TEMPESTADE AO LARGO, QUE NÃO TARDARIA A FUSTIGAR-ME


Diário de Bordo 15 - A canoa ficou atravessada na corrente e agora é um caso sério para conseguir... Mas já está quase!... Os relâmpagos estão-se a ver... Portanto, é natural que, lá para a meia-noite, venha a ter aqui uma chuvazita... O mar está a ficar um pouco mais difícil. Até agora tenho navegado .Havia uma aragenzita e  o mar estava calmo.


Há luar! O céu está descoberto, pelo menos aqui nesta zona... Lá um pouco mais para a leste é que há nuvens e uns relâmpagos. Deve estar a formar-se para ali uma trovoada, com certeza.


Vejo as estrelas perfeitamente... É muito agradável!...Mas era bom que tivesse o leme (ou o remo); prendia-o ou amarrava (a cana do leme)  e navega de qualquer maneira... Assim, ando para aqui... desengonçado... É uma chatice... Enfim, vai-se fazendo o que se pode.


Há bocado o cardume deu-me que fazer.... Ah! mas também favoreceu, favoreceu!...Deu um bocado de andamento à canoa.... Oh santo Deus! Como é que eu consigo?!...Outra vez a  atravessar-se!....

Ver a lua é agradável!... O pior é se vem para aí alguma chuvada!...Põe isto numa banheira!... Daqui a pouco vou fazer umas papitas com água do mar


 ""Diante de mim, a escuridão. A voragem que não tem cimo e que nem sequer tem margem" - Victor Hugo

Diário de Bordo 16 – Não sei que horas são neste momento. É noite do dia 20 para o dia 21. Acabei agora de apanhar uma chuvada!... Estive  a tirar a água da canoa, porque estava toda alagada!...Está escuro! Muito escuro!... Não sei... mas devem ser aí uma duas da manhã...Estou aqui com uma lanterna... A canoa estava alagadíssima!... Portanto, neste momento, não me posso deitar... Tenho de estar a ver se a canoa seca um pouco... Mas a chuva continua a ameaçar! Continua a relampaguear e a trovejar! ... É o resto da noite de vigília!...

O mar, até ao momento em que choveu,  estava muito agitado; agora já está mais calmo... É uma noite bastante chata, esta.... O trovão, lá longe!...Os relâmpagos... É aventura, propriamente dita.

Diário de Bordo17 – Um pormenor que já ficava por dizer: é que eu reforcei as minhas provisões de água. Apanhei mais um bocado de água das chuvas para beber...Portanto, neste momento já não preciso de água do mar.






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