expr:class='"loading" + data:blog.mobileClass'>

Quem sou eu

Minha foto
Entre outros assuntos, falo da escalada ao Pico Cão Grande e das minhas aventuras em canoas – Visam defender a teoria de que antigos povos africanos, podiam ter sido os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo da Guiné, antes dos colonizadores – Parti à meia-noite, disfarçado de pescador, ligando a ilha do Príncipe. Para me orientar, uma rudimentar bússola – A canoa era minúscula, à segunda noite adormeci: rolei na escuridão das vagas. No regresso fui distinguido com sopapos da policia salazarista, enviado para os calabouços – Cinco anos depois, numa piroga maior, fiz a ligação São Tomé-Nigéria. Partindo igualmente à noite, 13 dias depois atingia uma praia de Calabar, tendo sido detido 17 dias por suspeita de espionagem. - No mesmo ano, já com São Tomé e Príncipe independente, tentei a travessia São Tomé ao Brasil, usando os mesmos recursos. Além de pretender reforçar a minha teoria, desejava evocar a rota da escravatura e repetir a experiência de Alain Bombard. Porém, quis a ironia do destino que vivesse a difícil provação de um naufrágio de 38 longos dias, tendo aportado numa praia de Bioko (Bococo)onde fui recambiado para a famosa prisão de Black Beach

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Almada Negreiros – Comemorações dos 120 anos de um filho distinto de São Tomé e neto de Angola – Nascido na Roça Saudade – Oportunidade para ser recordada, turisticamente, tal como, em Cuba, a “Finca La Vigia, de Ernest Hemingway -A projetada romagem de José Afonso de Almada Negreiros, que não chegou a concretizar-se ao amado chão que viu nascer seu pai.

(neste post foram entretanto editadas algumas imagens da minha visita à Roça Saudade, na tarde do dia 22 de Outubro 2014 -  Leia e não deixe de ver a informação mais atualizada dessa minha peregrinação, referindo a minha surpresa da recuperação da casa onde nasceu Almada- em http://www.odisseiasnosmares.com/2014/11/sao-tome-39-anos-depois-roca-saudade.html) 16 de Nov  e também a de 29 de Dez



Não foi por acaso que o meu sangue veio do sul
se cruzou com o meu sangue que veio do norte
não foi por acaso que o meu sangue que veio do oriente
encontrou o meu sangue que estava no ocidente
não foi por acaso nada do que hoje sou
desde há muitos séculos se sabia
que eu havia de ser aquele onde se juntariam todos os sangues da terra
e por isso me estimaram através da História
ansiosos por este meu resultado que até hoje foi sempre futuro.

"O aniversário dos 120 anos do nascimento de Almada Negreiros (1893-1970 assinalado, em Lisboa, com o lançamento do programa de comemorações e a inauguração de uma exposição inspirada no artista multifacetado.Comemorações dos 120 anos do nascimento de Almada Negreiros são lançadas hoje em Lisboa







Hoje tive duas surpresas - Uma boa: a de que, os 120 anos do nascimento de Almada Negreiros.  que se completaram ontem, dia 7 de Abril, começaram a ser  assinalados por um  conjunto de interessantes eventos culturais em Lisboa. 


A má, a de que, ao lembrar-me do seu filho, o arquiteto José Afonso de Almada Negreiros, com quem tive o prazer de conviver e de vir a projetar uma viagem com ele a São Tomé, a fim de o levar a conhecer a roça onde seu pai nasceu, pois bem,  querendo saber se ele havia tomado conhecimento desta inciativa,  já que o seu nome não era referenciado em nenhuma noticia, pude apurar, que, afinal,  falecera no dia 25 de Setembro de 2009 -  Tratava-se de uma pessoa afável e discreta, de um excelente arquitecto mas que não era dado a dar nas vistas.   

Ao que parece, a sua morte foi ignorada.No entanto, os seus amigos mais chegados, com os quais se encontrava em agradáveis tertúlias, não deixaram de o lembrar, no blogue, "SÓ IMAGENS", com algumas fotos e esta singela menção: "Caro amigo, esta pequena coleção de fotos dos nossos almoços das Terças pretende ser uma singela homenagem para avivar a memória e mitigar as saudades do bom companheiro que soubeste ser. Descansa em paz" SÓ IMAGENS: Arquitecto Almada Negreiros

Arquiteto José Afonso de Almada Negreiros - Filho de José de Almada Negreiros e de Sarah Afonso  

Imagens registadas no ano de sua morte - em 2009

COMO O TEMPO PASSA...

 - Sim, como o tempo passa!... Penso que foi justamente no ano em que ele faleceu, que  lhe fiz estas fotografias. Talvez um mês ou dois antes. Mas até parece que foi ontem, que  eu e o meu amigo, o pintor João Neves, tomávamos um café com ele na Calçada do Combro, na Pastelaria Oreon,  com vista a combinar a sua deslocação à Roça Saudade - Era a terceira vez que falava com ele, depois que o conhecera nos habituais convívios do  Botequim  de Natália Correia  situado no Largo da Graça, em Lisboa. 

Na primeira vez, procurei-o para lhe comunicar que ia ser leiloado um importante espólio de  seu pai e de sua mãe, Sarah Affonso, quadros inéditos que ele devia desconhecer, dado terem sido pintados há muitos anos - Talvez, com ele, ainda criança. Um amigo meu, havia-me pedido para tratar desse assunto - A esposa, filha de um casal (português e espanhol) e que mantivera estreitas relações de amizade com o artista, era herdeira de uma vivenda , em Belém, na zona das vivendas dos embaixadores e queria vender a casa, o vitral de Almada e várias obras. A segunda vez, foi para o avisar de que havia deparado com vários desenhos(falsificados)  à venda na Feira da Ladra, como se fossem obras assinadas por seu pai. Pediram-me 120 contos por cada um. Por fim, já me ofereciam vários por 5000$00.  A imitação da assinatura era perfeita. Mas vi logo que só podia ser falsificação. Não era o primeiro caso. Também outros famosos artistas eram ali igualmente pirateados.





 O último encontro foi  casual  e ocorreu na esquina da Calçada do Combro, com a Rua Marchal Saldanha, tendo-o convidado a tomar um café, sugerindo-lhe  a possibilidade de o acompanhar numa visita à Ilha de São Tomé, para ali ir conhecer as instalações (já em ruinas) onde seu pai viera à luz do Equador, sugestão que ele aceitou com muito agrado, acrescentando que era um sonho que alimentava há muito tempo.  Dia para a dia para nos voltarmos a encontrar e acertar essa viagem (pois deu-me um cartão com a sua morada e o contacto) agora é tarde de mais.  Espero que também não seja tarde de mais para mim - Foram 12 anos ali vividos. E, Outubro, de 1975, já vai longe.



As recordações da infância e da adolescência: de Sara Afonso - Mulher de Almada Negreiros e mãe dos seus dois filhos.


«Nasci em Lisboa, minha mãe era lisboeta, alfacinha, meu pai era minhoto. Por volta dos meus quatro anos fomos viver para o Minho e só regressámos a Lisboa tinha eu quinze anos feitos. Aliás, agradeço à mãe não termos ficado no Minho porque, realmente, lá, não havia futuro para uma rapariga pobre como eu. A vinda para Lisboa foi um presente que o meu pai deu à minha mãe: era esse o grande sonho dela. Mas não tenho boas recordações da minha infância. Tenho, sim, recordações do sítio onde passei a infância. No entanto, foi o norte que me deu as primeiras emoções, os primeiros deslumbramentos das coisas. Sinto que metade do meu sangue é de lá.» segredos - sarah affonso.. Sara Affonso, Almada Negreiros

ALMADA NEGREIROS - 7 de Abril de 1893 a 15 de Junho de 1970



."Esta é a homenagem simples que lhe queremos prestar. José Almada Negreiros faleceu no passado dia 15 de Junho" (1970) ", A Sara Afonso - pintora de grande talento, apresentamos as nossas condolências" - Noticiava a Semana Ilustrada, de Luanda, de que eu era seu correspondente, em São Tomé, dias depois da morte do grande poeta e pintor português - Que, entre outros elementos da sua vida artística, lembrava esta sua expressão: «Há anos que repito afinal a crença da minha infância: se não for por arte, não serei de outro modo». - Hoje pode dizer-se  que «foi por arte»; desenhador, pintor, bailarino, vitralista, poeta, romancista, dramaturgo, conferencista, crítico de arte - Almada Negreiros foi, desde 1910, como acentua Jorge de Sena, «uma  das mais notáveis figuras da cultura portuguesa, e uma das que mais decisivamente  contribuiu para a criação, prestígio e triunfo de uma mentalidade moderna entre nós:
.


 RUÍNAS DO SOLAR DA ROÇA SAUDADE -  CASA ONDE NASCEU ALMADA 

OPORTUNIDADE PARA SER RECORDADA, TAL  COMO, EM CUBA, A "FINCA LA VIGIA" DE ERNEST HEMINGWAY



Mesmo que só existam ruinas, talvez irreconhecíveis. Já o eram, quando  ali me desloquei, há mais de 40 anos, nesta altura, dificilmente alguma parede continuará erguida. As chuvas, ali constantes, contribuem para a degradação das habitações. 

Mas, obviamente,  se as ruinas estiverem cobertas de vegetação, que ao menos se limpem e se deixem algumas pedras à mostra - E porque não reconstrui-la?!.. - É que, ali, ergue-se  a mais bela e exuberante  paisagem do interior da Ilha, com todos os seus encantos e surpresas, com todos os seus múltiplos verdes e espécies tropicais: desde a flora às aves mais belas e exóticas aos canoros cânticos




Com um atelier de desenho e pintura; exposições de obras literárias e artísticas de Almada e do seu avô paterno José António Freire Sobral e do seu  pai António Lobo de Almada Negreiros, escritor e jornalista, administrador do concelho de São Tomé, figura de relevo no seu tempo, autor de vários livros  - poesia e história das ilhas. Promovendo ali conferências e ofertas de turismo artístico - O cenáro presta-se admiravelmente para  breves cursos de pintura de férias.  O turismo cultural tem os seus admiradores.


 

Pelos vistos, o estado em que se encontram atualmente as roças, não será o melhor exemplo. Ao menos que os erros sirvam para alguma coisa. A evocação ao nome de  Almada Negreiros, um progressista, o homem do " Manifesto Anti-Dantas - que  se recusou a pactuar com o colonialismo e dizer BASTA PUM BASTA! - ultrapassa todas as contradições ou preconceitos.



A sua memória sobrepõe-se a qualquer tipo de ressentimento. Remete-nos à  expressão do artista mais genial e completo no domínio da universalidade e multidisciplinaridade artística. Ou haverá alguém que vá a Cuba e não se lembre da  Finca La Vigía   ou de associar ao seu nome ao Hemingway's Hotel Almada não atingiu a fama de um Picasso ou de um Hemingway porque  nasceu e cresceu sob a bandeira de Portugal - O império colonial foi mais mito de que glória. Todavia, cada país tem os seus valores. Saibam é ser valorizados e aproveitados.

AGORA É A VEZ DE ALMADA  SER RECORDADO PELA CIDADE QUE O ACOLHEU DESDE CRIANÇA - SETE ARTISTAS PARA MARCAR 120 ANOS DE ALMADA NEGREIROS

Refere o Expresso online que  “A inauguração da exposição é o ponto de partida para a vasta programação que inclui tertúlias, documentários, exposições, um colóquio internacional, espetáculos, edições sobre o artista e reedições da obra do autor do "Manifesto Anti-Dantas", "para lançar um novo olhar sobre o seu legado", segundo a organização.

Figura destacada da vanguarda da arte portuguesa, Almada Negreiros explorou vários níveis de expressão artística, desde as artes plásticas, a poesia e o ensaio, ao romance e à dramaturgia, aos quais também juntou os textos de intervenção e de humor, o bailado e a crítica de arte.” – Excerto de Sete artistas para marcar 120 anos de Almada Negreiros

NASCEU NA ROÇA SAUDADE 

 
O tempo passa e nem se dá conta que passa. Desembarquei, em São Tomé, terra natal de Almada Negreiros, nos finais de  1963.para fazer um estágio na Roça Uba Budo.  Uns anos depois, no princípio da década de 70, era correspondente da Revista Semana Ilustrada, de Luanda. 

 
Numa dessas edições dedicadas a São Tomé e Príncipe, realizada pelo chefe de Redação Morão de Campos,  foi publicado um desenvolvido artigo das origens de uma das figuras mais destacadas da vanguarda da arte portuguesa Foi, então, pela primeira vez que soube que, Almada Negreiros nascera na Roça Saudade. Tendo como cicerone o Padre António Ambrósio, autor do livro "Almada Negreiros Africano", pude então conhecer as ruínas das antigas instalações  onde nascera e vivera até aos 2 anos. 


ALMADA NEGREIROS AFRICANO  - POR ANTÓNIO AMBRÓSIO 


Vou tomar a liberdade de transcrever alguns excertos do livro  de autoria do Padre António Ambrósio, já falecido, cuja obra teve a amabilidade de ma oferecer. Ele viveu vários anos na Ilha de São Tomé, onde era muito estimado, tendo-se interessado pelo estudo e investigação do  passado de ambas as  Ilhas - É autor de várias obras - Entre outras. "Almada Negreiros Africano", Editorial Estampa, em 1979, já em 1972, havia publicado, DA MOEDA E FAZENDA EM S. TOMÉ - Em 1984, pela editora Livros Horizonte publica,Subsídios para a história de STomé e Príncipe - António Ambrósio






Obra muito bem compilada e difícil de encontrar - De referir que, António Ambrósio,  depois do 25 de Abril regressou a Portugal, tendo ingressado numa paróquia de  Lisboa. Era possuidor da melhor coleção de livros sobre a história de São Tomé e Príncipe, bem como a mais importante coleção  de moedas e selos destas ilhas. Tudo isso ardeu no incêndio do Chiado. Vivia num dos últimos  andares, fazendo esquina com os Armazéns do Chiado, e, quando se apercebeu, mal teve tempo de fugir - Foram anos de uma vida que se perderam, que o deixaram profundamente triste.  Padre Ambrósio, tal como o Monsenhor Moreira das Neves, que tive o prazer de entrevistar para a Rádio Comercial, eram dos tais sacerdotes que, a par da sua dedicação às causas da fé e da sua religião,  cultivavam um imenso gosto pela cultura. 





Google Map of São Tomé and Príncipe - 


A ROÇA  SAUDADE ´É SÓ MEMÓRIA DO PASSADO - MAS QUE VALE A PENA PERSERVAR 

Fica a 17 Km de S. Tomé, cidade, voltada a nordeste. Numa das mais belas áreas da Ilha. . Atualmente, tal como quase todas as roças, é uma  miragem  do que foi. Faz confronto com as roças S.Nicolau, Nova Moka, Monte Café, Milagrosa,Vista Alegre e algunas pequenas propriedades.

"UM SONHO E UM BERÇO" Texto de António Ambrósio, citando passagens de um dos livros José António Freire Sobral, avô paterno  de Almada Negreiros


"A casa  onde Almada nasceu, na sede da Roça Saudade, estava suspensa sobre uma profunda grota, e aberta a nascente, por uma varanda corrida, ao estilo tropical, para um mar de verdura, que, depois da primeira quebra, se espraiava, numa ondulação aparentemente suave, por vários quilómetros de extensão, em forma de leque rendilhado, até ao mar-oceano

As dependências interiores da casa eram amplas e com boa orientação e arranjo. Desse bom gosto na construção, são, por exemplo, prova significativa, os lindos azulejos que decoravam a lareira e sala-de-jantar, em instalações, que, ligadas pelo interior à varanda da residência, formavam, na fachada principal, um ângulo de entrada deveras acolhedor (A tempo, ainda conseguimos salvar alguns desses belos azulejos, que possuímos e guardamos como preciosa relíquia). Aqui, garridas buganvílias subiam pelas paredes brancas, por sobre a porta, janelas e beirais.


Por fora, a Saudade era um mimo. O comendador José António Freire Sobral fizera da sede uma estância modelar: além das instalações para habitação e trabalho, das sanzalas  e dos secadores, e do hospital de boa construção, a Roça tinha um amplo terreiro, onde, como uma bandeira hasteada, se erguia uma elegante palmeira de 54 metros de altura (Veja-se: Almada Negreiros, História Ethnographica da Ilha de S. Tomé, p.272). Na parte superior do terreiro, em zona mais elevada, situavam-se os jardins, dispostos em socalcos. No meio, sobressaía  um artístico  caramanchão, todo coberto de buganvílias e trepadeiras. Junto, uma nascente de água puríssima foi aproveitada para construir  uma pequena  fonte, bem adornada de azulejos  pintados  e com dois grandes jarrões de porcelana envidraçada, aos lados..


Aliás, as nascentes de água potável , na Roça Saudade, são óptimas e abundantes. Ali é feita a captação que abastece a Vila da Trindade. Ali mesmo nasce o rio Água Grande, que fornece a cidade. E, próximo, mais acima, nasce também o Manuel Jorge (um dos maiores rios de S. Tomé), que se transforma nas lindíssimas cascatas de S. Nicolau e do Blu-Blu, e constrói, na sua passagem, as maravilhosas «pontes que Deus fez»



Mais acima da Saudade, a caminho do Pico, localizam-se as roças Nova Moka, S. Nicolau e Santa Maria. Esta última pertencia também  a José António Freire Sobral. Era uma dependência rica, sobretudo, em boas madeiras.


Não há dúvida que a Roça Saudade, na sua geografia acidentada e vegetação luxuriante, possui algumas das  lindas paisagens da lindíssima Ilha de S. Tomé. Deixemos ao próprio Almada Negreiros que nos descreve in loco o que era para ele a Roça Saudade: um sonho, um berço encantado para os seus filhos.


«... A atmosfera  saturada de vapores  deixa, pela manhã, nas folhas do arvoredo, milhões de pérolas de mil cores, que o sol egoísta vem depois roubar para seu Tesouro. O quadro que então se observa  é deveras surpreendente. Como pequeninas estalactites, pendem das folhas tremulantes, essas gotas de cristal, que a luz transmuda em cores diversas numas nuances que entontecem e inebriam docemente. Nos "óbós" (matas), onde a vegetação é mais luxuriante e compacta que nas plantações, ao entontecimento do "san-niclá" que assobia, do "ossobó" que parece chorar , da "cécia" que soluça, do "padé" que trina novas canções de uma alegria ingente.


«A Natureza gigante , sugestiva, nova, eleva a alma menos contemplativa. Há um não se quê de misterioso  e de sobrenatural em tudo isto, que se vê e  não se descreve  com facilidade. Altas serras cortadas a pique, em perfeitas paralelas, tapetadas d'alto abaixo de alguns fetos gigantes e outros muitos arbustos coloridos, apertam em baixo, onde a vista a custo alcança, as águas sussurrantes  dos riachos que vão correndo para o mar. Mais ali, o leito desses riachos estorce-se, apertado por alterosas montanhas, que parece terem-se confundido numa luta titânica, e o veio das águas brancas lá vai ser penteado, apertado aqui  para despenhar-se com fracasso numa esplêndida cascata; mais livre acolá, marulhando uns sons que só se podem sentir. Cruzam-se, em todas as direcções, dezenas destes regatos, alguns muito caudalosos, correndo todos, como que a custo, entre a massa compacta do arvoredo que encobre o solo.
«As árvores colossais, erguidas como sentinelas no cimo dos outeiros alterosos, parece que levantam os braços seculares sobre o formidável exército que as rodeia, para regerem a orquestração divinal produzida pelo vento  que as açoita.

«De repente, formam-se os mais densos nevoeiros que temos visto. Estas árvores gigantes  tomam, por efeito da conhecida ilusão de óptica, as proporções mais fantásticas que pode imaginar-se, infundindo ao mesmo tempo um sagrado respeito contemplativo e uma fortíssima comoção emocionante. Dissipam-se, numa marcha vertiginosa, esses nevoeiros, como a desfazer-se, a diluir-se em fumo branco, abrindo aqui e ali clareiras luminosas onde o sol vai fixar  o seu olhar em brasa.






 
«A constituição física do solo, extraordinariamente acidentada, começa a manifestar-se à medida  que os nevoeiros vão correndo: abrem-se os vales profundíssimos; brilham, como fachas de prata luzente, os regatos tortuosos; descobre-se as cristas dos ramos piramidais; a ilha inteira, como uma noiva cândida, parece despir-se do seu véu de tule pardacento. O pacífico mar do Equador, lá está em baixo, com a sua orlazinha branca de espumas, em roda da ilha, e parece juntar-se, mais além, ao céu de anil...


«Num momento, porém, tolda-se o Céu de nuvens negras; o horizonte estreito desaparece e a chuva começa a cair impetuosamente. O estrondo dos trovões, ecoando pelos vales, infunde um respeito aterrador. Em poucas horas, as águas dos rios crescem espantosamente, arrastando árvores enormes na corrente possante e levando-as, num arrastar estrugidor e forte. O mar enfurece-se, como a desenfiar a tempestade que se desenvolve. E, rapidamente, surge outra vez o sol, rútilo, faiscante, apresentando agora a ilha como que  emergida do Oceano, que brama por todos os lados. Branquejam as casinhas das roças: há veios de água das levadas fora do leito, pelas plantações  aninhadas entre  os "obós"  altaneiros; aqui  e ali , as povoações aparecem como que esmagadas pelo arvoredo que  cai sobre elas. E a tempestade finda.
«Com esta pasmosa rapidez  se formam e dissipam aqui as tempestades....
«O aspecto da lha enxaminada  da zona alta  é indescritivelmente  belo.

«...Subindo pelas encostas  de Macambrará até Santa Maria, onde existem grandes plantações de "cinchonas"  bem desenvolvidas,  presencia-se , dessa altitude de 1400 metros sobre o nível do mar, um espectáculo soberbo.
«Em muitas ocasiões a chuva cai torrencialmente , mais abaixo, nos terrenos de S. Nicolau, Minho, Saudade, etc...
«Quando a tempestade chove, o ribombo do trovão ali,  dá a ideia de uma convulsão geológica, fazendo estremecer, num eco prolongado , o ponto em que nos achamos...

«A uns cem metros mais acima está a Lagoa Amélia, uma das maiores crateras de vulcões extintos que conhecemos»


«Por toda a parte, os rios vão formando  cascatas e pequenos lagos lindíssimos e, nalguns pontos, as chamadas pelos naturais "pontes que Deus Fez".


«A mais bonita dessas pontes que conhecemos é a que existe  na Roça Saudade, a 17 km da capital da Província. Estas pontes são o resultado do embate das águas contra mossas de basalto, onde cavaram arcos caprichosíssimos. A de que tratamos eleva-se  na forma quase perfeita de um arco de volta abatida , sobre uma  cascata que, em baixo,  forma um pequeno  lago. Na parte superior do arco, ergue-se um renque de árvores colossais  cobertas de trepadeiras, e a vegetação dos lados parece sufocar aquela obra esplêndida da natureza»


“Pelo directo conhecimento que temos da Ilha de S. Tomé e da Roça Saudade, dos fenómenos geográficos  e climatéricos do Equador, do seu admirável efeito visual, sobretudo quando presenciados  do alto daquelas paragens , podemos afirmar que a imaginação poética  do jovem Almada Negreiros  não excedeu, nesta descrição,  os limites normais que a beleza objectiva naturalmente impõe.


São mesmo assim, belos, em S. Tomé , como autor os descreve na sua obra- "A poesia dos obós- As paisagens e fenómenos atmosféricos - As tempestades - As regiões alpinas - Acima das nuvens - Os vulcões extintos - A cascata e as "pontes que Deus fez".»

Na sua extraordinária beleza, a Roça Saudade, era verdadeiramente "um sonho", hoje... um sonho desfeito.


Efectivamente. de sede e da casa cheia  de arte e bom gosto, onde José Almada Negreiros nasceu, não restam , hoje, mais de que ruínas e alguns vestígios  das raras belezas  de outrora.

Quando o patriarca José António Freire Sobral deixou S. Tomé, por volta de 1897, passou a administração da Roça ao filho primogénito Joaquim Freire Sobral. Este ainda enriqueceu a sede com novos encantos. A Saudade teve então, desde 1895 a 1918, talvez o seu apogeu. Porém, tendo-lhe falecido a esposa e feitas as partilhas da herança paterna, Joaquim Freire Sobral  abandonou também S. Tomé. A Saudade entrou em rápido declínio. Mais tarde foui vendida á Roça Santa Margarida da qual, presentemente,  é uma dependência.


Entretanto, as instalações ruíram  e a casa, em completo abandono, está hoje quase irreconhecível. Em 1970 fotografámos  as ruínas, incluindo a fachada principal, logo demolida. É pena que da bela instância  e do prédio histórico, apenas restem, hoje, insignificantes vestígios e mal acautelados.
Ainda entre os escombros, à beira dos caminhos, por toda a parte brotam  plantas e flores as mais raras. Eis, hoje, a saudade..


"FILHO DE S. TOMÉ E NETO DE ANGOLA" - Texto transcrito directamente do texto introdutório do livro:  ALMADA NEGREIROS AFRICANO

José de Almada Negreiros nasceu em São Tomé  na Roça Saudade, freguesia da Trindade, às 3 hora da manhã do dia 7 de Abril de 1893.
Da terra da sua naturalidade foi arrancado, na tenra idade de 2 anos, e transportado para Lisboa, em 23 de Abril de 1895, passando a viver em Cascais, em casa dos avós e tios maternos, da família Freire Sobral.

A mãe, Elvira Freire Sobral, morreu na Ilha de S. Tomé, ano e meio depois, a 29 de Dezembro de 1896. O pai, António Lobo de Almada Negreiros, zeloso funcionário  e escritor fecundo, sendo Administrador do Concelho, continuou em S. Tomé, totalmente devotado à administração colonial. Deixou finalmente a Ilha de  S. Tomé, a 22 de Dezembro de 1899, e seguiu para Paris, quase sem passar por Lisboa.
O mesmo vapor Loanda levou o pai e filho para a Europa.

José de  Almada Negreiros, na idade dos 3 anos e meio, ficou órfão de mãe. Com o pai ausente em S. Tomé, a criança começou  a receber a primeira educação em casa dos avós e tios maternos, em Cascais. Mais tarde, Almada escreveu algures: «É sempre preferível um tio ou uma tia a um casal de tios um estranho para substituir os pais. Um cordão umbilical não se falsifica. Ou há ou não há» (Nome de guerra, VII - Obras completas, 2 p.33)


Ao pequeno José não deve ter ficado lembrança da mãe, Elvira Freire Sobral. O facto  da orfandade, porém, marcou-o para sempre. Do pai, António Lobo, apenas recebeu duas ou três visitas rápidas, durante a infância em Cascais. Em 1910, pai e filho encontram-se em Paris. Mas Almada nunca viveu em família com o pai par receber dele, pessoalmente, educação. Todavia, a influência paterna  existe na formação de Almada, positivamente.

Em Cascais e no Colégio de  Campolide andaram, nas mãos do pequeno José, as obras que o pai António Lobo ia escrevendo, acerca da Ilha  e das gentes de S. Tomé. Em Equatoriaes, leu muitas vezes o belo soneto que o pai lhe dedicou no dia do seu primeiro aniversário. Na História  Etnográfica da Ilha de S. Tomé (editada em Lisboa, em 1895), ficou as lindas fotogravuras a cores e o desenho da capa, pintado, para o efeito, pelo tio Joaquim Sobral, na Roça Saudade.

A criança cedo manifestou  vocação para o desenho e pintura, e precocemente se revelou artista e escritor. Um facto a registar: José de Almada Negreiros  é filho de um extraordinário escritor e poeta, e tem, pelo lado materno, entre os seus ascendentes familiares, o tio Joaquim, artista e pintor. Joaquim Sobral será o seu segundo pai e educador, nos primeiros anos da sua infância.


Estes dados biográficos  da infância  de Almada Negreiros são de suma importância para se compreender a psicologia e a obra do artista poeta-pintor. Grave nos parece, por isso, que,  em uma obra base de cultura e consulta - a Enciclopédia  Luso-Brasileira - se afirme que Almada nasceu em Lisboa, e se faça caso omisso da sua filiação e da sua origem africana. Ainda mais lacónica, a este respeito,  a Enciclopédia Verbo.

Entretanto, no Arquivo Histórico de S. Tomé  e Príncipe, existem centenas de documentos inéditos referentes a José de Almada Negreiros e a toda a sua família.

Em 1970, demos a conhecer em primeira mão, o auto do nascimento  e baptismo  de José na freguesia  da Trindade, em S. Tomé.O documento foi autenticado  com a reprodução fotográfica. A revelação do importante inédito foi  constituiu, geralmente,  uma autêntica surpresa. Em 1973, no Diário de Notícias e sob o título «Almada Negreiros Africano: filho de S. Tomé e neto de Angola», demos os documentos essencais, em que, defintivamente, deverá ser enquadrada a origem euro-africana, são-tomense e angolana de Almada Negreiros.


Por esta documentação ficamos a saber que: José Almada Negreiros naceu em África, na Ilha de S. Tomé, a 7 de Abril de 1893. É filho legítimo de António Lobo de Almada Negreiros, europeu, e de Elvira Freire Sobral, mulata africana natural da Ilha de S. Tomé. A mãe são-tomense, por sua vez,  era filha ilegítima  de José Freire Sobral (européu de Santarém) e de leopondina Almélia  de Azevedo (de cor e natural de Benguela).
Daqui se conclui, portanto,  que o sangue africano de Almada é de cepa angolana e que lhe é transmitido pela avó materna: «filho de S. Tomé e neto de Angola».

Órfão de mãe desde a primeira infância , José de Almada Negreiros pouco conviveu com os pais em família.Conheceu mal a sua ascendência na árvore geneológica. Sabia do seu nascimento em S. Tomé e da sua legítima filiação.Nunca soube, porém,  que a sua origem africano se radicava em Angola, pelo lado materno. Este facto consta, como elemento identificativo , no registo de nascimento  da mãe  e no auto de casamento dos pais, documentos que ele nunca leu.





De notar que Almada Negreiros  dava muita importância á árvore geneológica. Diz ele que «a árvore geneológica, sabida ou ignorada, determina a personalidade  e a vocação de cada um». Referindo-se ainda ao assunto e ao conhecimento  de que da árvores geneológica podemos ter, afirma no primeiro capitulo de Nome de Guerra:«É completamente impossível conhecer inteira uma árvore geneológica; o que pode é cada um possui-la no seu carácter.A árvore geneológica não funcona como ciência. É mesmo o contrário de ciência: mistério! Um mistério que se espelha só em cada um de nós! Um verdadeiro mistério humano, que ultrapassa a sociedade e a ciência, que respira apenas ar de Arte e de Religião» (Ob.cit,2,p.17)


Nestas palavras de Almada encontramos, talvez, a chave da explicação para um dos maiores enigmas da sua obra. Referimo-nos ao facto de que, havendo dado, teoricamente, tanta importância à árvore genealógica, e sabendo-se de origem africana, e conhecendo pelo menos a sua próxima filiação, Almada Negreiros nunca tivesse, como artista (poeta-pintor), nem sequer uma dedicatória, ou referência directa, aos seus pais - António Lobo de Almada Negreiros e Elvira freire Sobral - à Ilha de s. Tomé onde nasceu, à África e aos seus africanos.

Evidentemente que o facto , em Almada, não pode atribuir-se  a um desconhecimento da história  e menos  à falta de sentimentos afectivos no seu espírito delicado. Por outro lado, também não se pode admitir  que fosse a dele, uma atitude premeditada e psicologicamente recalcada. Relacionamos sim o caso com o da orfandade de Almada Negreiros que, naturalmente,  derivou nele para uma ausência do espírito, para uma espécie de desenraizamento da História. É neste alheamento que nos parece ver José Almada Negreiros, contemplando absorto e como que ficando mudo, perante o «mistério» da sua origem africana. Recordemos as suas palavras acerca da árvore genealógica. «Um mistério que se espelha só em cada um de nós! Um mistério humano que ultrapassa a sociedade e a ciência»

Esta é uma das interessantes  conclusões  que tiramos  da consulta aos arquivos. Mas o leitor, depois de ler as páginas bem documentadas que seguem, tirará  outras, talvez de mais importância ainda, como por exemplo:
- Que a Vida e a Obra de José Almada Negreiros carece de ser totalmente revista à luz da sua naturalidade africana.
- Que os acontecimentos da primeira infância de Almada marcaram, indelevelmente  a sua psicologia e a sua educação: a sua vida e a sua obra.

- Que á luz da história da sua vida, podemos explicar e apreciar  melhor alguns traços  da figura de Almada, quase inéditos, como é, por exemplo, em política, o seu espírito independente e progressista. Verificamos que a sua oposição sistemática à política portuguesa da época, nasceu nele quase instintivamente, como uma reacção ao colonialismo africano, ao qual s viu vinculado pelo sangue: O pai António Lobo, depois de alguns anos que passou em África, foi toda a vida um servidor  e acérrimo defensor da política colonial. Por parte da mãe, o avõ José António freire Sobral foi um dos mas célebres colonos europeus  da África Portuguesa, no último quartel do século  XIX. Diremos tudo, reparando que o próprio José de Almada Negreiros teve por berço , em S. Tomé, a sede da roça Saudade, protótipo da exploração colonialista.

Eis, entre outras, uma das facetas, da riquíssima figura de Almada, que importa registar. Almada recusou-se sempre a alinhar com o fascismo e o colonialismo. A este respeito, os Textos de Intervenção, inseridos no volume 6 das Obras Completas, assumem maior actualidade. Adiante recolhemos alguns excertos. Desde já chamamos atenção  para esses traços autobiográficos 

Lisboa, Abril de 1975.

António Ambrósio

Se é um admirador da obra e da personalidade do poeta e pintor Almada Negreiros, pudendo, não deixe de ler este interessante livro de autoria de um profundo estudioso sobre uma  figura  ímpar no panorama artístico português do século XX - Verdadeiro artista multifacetado (multidiscipliar) que se dedicou fundamentalmente às artes plásticas (desenho, pintura e escultura) e à escrita, romance, poesia, ensaio e dramaturgias, ocupando uma posição central na primeira geração de modernistas portugueses 


Nenhum comentário :