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Entre outros assuntos, falo da escalada ao Pico Cão Grande e das minhas aventuras em canoas – Visam defender a teoria de que antigos povos africanos, podiam ter sido os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo da Guiné, antes dos colonizadores – Parti à meia-noite, disfarçado de pescador, ligando a ilha do Príncipe. Para me orientar, uma rudimentar bússola – A canoa era minúscula, à segunda noite adormeci: rolei na escuridão das vagas. No regresso fui distinguido com sopapos da policia salazarista, enviado para os calabouços – Cinco anos depois, numa piroga maior, fiz a ligação São Tomé-Nigéria. Partindo igualmente à noite, 13 dias depois atingia uma praia de Calabar, tendo sido detido 17 dias por suspeita de espionagem. - No mesmo ano, já com São Tomé e Príncipe independente, tentei a travessia São Tomé ao Brasil, usando os mesmos recursos. Além de pretender reforçar a minha teoria, desejava evocar a rota da escravatura e repetir a experiência de Alain Bombard. Porém, quis a ironia do destino que vivesse a difícil provação de um naufrágio de 38 longos dias, tendo aportado numa praia de Bioko (Bococo)onde fui recambiado para a famosa prisão de Black Beach

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Santo Tirso e a celebração de um século da Escola Agrícola Conde de São Bento – Romagem de saudade de um antigo aluno e o encontro com antigos colegas e jovens estudantes santomenses – Santo Tirso geminada com Santana (região de Cantagalo) Uma geminação bem acasalada com o verde da paisagem da Ilha de São Tomé



SE GOSTA DE SANTO TIRSO E DA SUA ESCOLA AGRÍCOLA - NÃO DEIXE DE ME ACOMPAHAR NESTA VIAGEM NO TEMPO: DE UM ANTIGO ALUNO DOS ANOS LETIVOS DE 1959-60 A 1962/63,  - Que passou doze anos em S.Tomé, que também aqui os recorda.

Algumas das imagens do vídeo estão editadas neste post - Mesmo assim - se puder -  reveja-as e leia o texto - Se houver alguma imagem que não seja bem  aceite - de antigos ou atuais alunos, neste meu reencontro físico com a memória -  será retirada.


As palavras são como as cerejas. Atrás de umas vêm outras. Foi o que sucedeu a este texto. correndo o risco de repetir-me. O que, inicialmente,  era apenas para serem breves impressões de uma peregrinação a um lugar que me é muito querido e saudoso, acabou por se estender por uma longa postagem -  Se não tiver tempo de me acompanhar, veja pelo menos as imagens e alguns títulos.




ESCOLA PROFISSIONAL AGRÍCOLA CONDE SÃO BENTO  - 100 ANOS! – BONITA IDADE E MUITA EXPERIÊNCIA OFERECIDA E PARTILHADA   











A Escola Profissional Agrícola Conde S. Bento é centenária, está de Parabéns.  Motivo de orgulho para a cidade de Santo Tirso, antigos e atuais alunos, conselho diretivo, corpo docente e antigos professores. 



Chegou a temer-se que, com a descolonização, não havia saídas para cursos agrícolas, quer de nível medio ou superior . Mas, se  há quem tire o canudo e fique com ele na mão, pelos vistos, não é nesta atividade. Sucede com os cursos teóricos. Os de formação profissional continuam a ter bons níveis de empregabilidade. Tal é o caso da Escola Profissional de Santo Tirso – Em declarações à imprensa, o  Diretor da centenária Escola Profissional Agrícola do Conde de S. Bento (EPACSB), em Santo Tirso, Carlos Furtuosa, garante  que a instituição tem índices "superiores ao normal" de empregabilidade (30%) e continuidade para o ensino superior (50%).Escola Agrícola de Santo Tirso tem índice de empregabilidade ..



DESCONHECIA O PROGRAMA DAS COMEMORAÇÕES - IA À PROCURA DE CONSULTAR O RELATÓRIO DO FINAL DO CURSO  E DEPAREI COM A ESCOLA EM FESTA
 








Preza-me de ter sido um dos  antigos alunos desta Escola. Estive lá na semana  passada, tendo-me encontrado com alguns jovens santomenses, que estão a frequentar os seus cursos. Fui lá para rever o meu relatório do estágio, que elaborei em São Tomé, com  vista a editar um  trabalho jornalístico mas ainda não me foi facultado.Parti de S. Tomé numa canoa e não pude levar a cópia comigo.



UMA INTERESSANTE INICIATIVA ASSINALANDO O CENTENÁRIO DA BIBLIOTECA ROSAE Vejam alguns exemplos de alunos e professores. http://epacsb-bibliotecarosae.blogspot.pt/


QUEM VISITAR NESTES DIAS A ESCOLA AGRÍCOLA DE SÃO BENTO EM SANTO TIRSO FICARÁ SURPREENDIDO PELA RUA PRINCIPAL DA QUINTA ESTAR TRANSFORMADA NUM STAND DE TRATORES EM FOLHA  -

ATUALIZAR OS ESTUDANTES COM OS NOVOS EQUIPAMENTOS, IDEIA É POSITIVA.

Trata-se da  «Mostra da Agrícola .  que tem sido dinamizada por Júlio Magalhães do Porto Canal. Dizia, há uns anos,  o Eng. Carlos Alberto da Silva Frutuosa, Presidente do Conselho Executivo da Escola Profissional Agrícola Conde S. Bento:    “autonomia que se tem vindo a perder lentamente, os constrangimentos financeiros que por vezes colocam em causa os Projectos Educativos e criam instabilidade na Comunidade Escolar. O equipamento destas escolas também é uma necessidade urgente. Não podemos ignorar a evolução tecnológica que é constante e em minha opinião, as escolas deviam ser as pioneiras, isto é, deveriam ser elas a testar esses novos equipamentos. Na maioria das vezes isso não acontece, sendo que os alunos quando chegam às empresas, se surpreendem com os equipamentos que encontram." -Ensino profissional agrícola - preparar o futuro



  Pelo menos, em tempo de comemorações do seu centenário, essa oportunidade não faltou. Mas, em tudo, há sempre um mas: salvo o facto de não ter logrado consultar o meu relatório do final do curso, vim de lá bem impressionado. Quer com os professores que contatei, quer com funcionários e alunos.Há que reconhecer que a Escola Agrícola lá vai resistindo e constituindo-se como um exemplo modelar no Ensino Profissional.


SANTO TIRSO, CIDADE, TEM MAIS MAGIA QUE O SANTO QUE LHE DEU O NOME 

Realmente, Santo Tirso  não é uma cidade qualquer - Além de ser prendada com uma Escola Profissional  Agrícola, numa quinta que, noutros tempos, já foi Convento e que dispõe talvez das terras mais férteis do concelho e da mais bela exposição,  é sem dúvida uma cidade verde: À sua volta e nas suas praças e parques, há muita verdura e muitas flores. 

Creio que nem Sintra lhe leva a palma. Enquanto esta é quase mergulhada pelo arvoredo das faldas da serra, Santo Tirso estende-se como que alcandorada por um vasto presépio. Debruçada sobre o Rio Ave, e, tendo o Monte Córdova, de Nossa Senhora de Assunção, como a sentinela vigilante de toda extensão do seu casario e até do próprio concelho



A cidade de Santo Tirso está geminada com a Vila de Santana, distrito de Cantagalo (em São Tomé e Príncipe) - Outros municípios portugueses, também reforçaram idênticos laços de cooperação:  a cidade de Matosinhos  está geminada há vários anos com São João de Angolares; Porto (com Neves), Guimarães (com Mé-Zochi, cidade da Trindade) e Seixal , com região de Lobata, cidade de Guadalupe. E a capital de Água Grande e Bragança assinaram acordo de geminação 




O distrito de cantagalo faz termo com o de Água Grande, sendo S.Tomé, cidade, a capital distrital e do país. Tem cerca de 14 mil habitantes e ocupa uma superfície de 119 km - Sem desprimor para Santana, debruçada sobre o Atlântico, com praias magnificas  devia ter sido com S. Tomé.




Não  tanto pelo  fato de uma das suas freguesias se chamar São Tomé de Negrelos, mas até por uma questão de semântica natural - Falar-se de São Tomé e Santo Tirso é o mesmo que pronunciar lugares de lenda e de poesia.  E não só: Pelos verdes multicores e intensos que as caracterizam - Aliás, toda a Ilha e também Santana. No entano, creio que a afinidade, com S. Tomé (cidade e capital) assentava que nem uma luva: ambas são marcadas pelo elemento água: pelos seus rios. 

A que se debruça em torno da Baía Ana de Chaves, é atravessada pelo Água Grande. E a que foi o berço da industrialização do têxtil em Portugal (agora, com as fábricas em ruínas, devido à globalização e concorrência oriental), tendo  a seus pés um belo açude do  Rio Ave. Onde os olhos saudosos de estudantes santomenses, que frequentam a Escola Agrícola, para aqui obterem ali cursos de formação profissional, muito úteis ao seu país. são como que tentados a relembrar a paisagem e a rever a baía da sua linda capital.


 Pelo que me apercebi, quer a amenidade do seu microclima, quer as suas belezas naturais, fá-los-ão sentirem-se como que a contemplar os verdes luxuriantes da sua longínqua ilha. De resto, foi esta a mesma sensação que eu tive, quando desembarquei em São Tomé, no já distante ano de 1963, para ali ir estagiar como Agente Rural, desta mesma Escola, nas Roças de cacau e café - De registar esta curiosidade: no dia. 12 de Julho comemora-se, em São Tomé, a proclamação da independência do arquipélago; um dia antes, a 11 de Julho é o feriado municipal de Santo Tirso, dia do padroeiro  São Bento 

 O importante é o vínculo, mas sobretudo as intenções: seja através de uma vila ou cidade - Até porque há quem se sirva das geminações para congeminar - Recebem milhões de fundos da UE, com esse pretexto e ficam com a fatia de leão.

Santo Tirso  , até 1834 era composto pelas freguesias de Santo Tirso, São Miguel do Couto e Santa Cristina do Couto. Em 1998 perde o atual  concelho da  Trofa,   deixando de ser um dos 10 mais populosos do país.  Santo Tirso, pertence à Região Norte do Distrito do Porto e à sub-região do Grande Porto, tendo cerca de 14 mil habitantes.  Sede do município com 135,31 km² de área e 71 530 habitantes 

São Tomé, capital do distrito de Água Grande e de  São Tomé e Príncipe, na África Ocidental,  com uma população estimada em 2005 de 56.166 habitantes. Ainda sem porto de acostagem, é através da sua baía que  é exportado o cacau, madeira e bananas - O turismo, as suas belas praias e paisagens, é outra das suas maiores riquezas - O petróleo, de que tanto se tem falado, por enquanto, ainda repousa muto abaixo das profundidades das suas águas.

PROGRAMA DA CELEBRAÇÕES

O programa das celebrações de tão significativa efeméride, teve início no passado dia 14 de Março e termina no dia 21 de Junho  – Para além da cerimónia de abertura, que contou com uma exposição fotográfica, um museu do leite, missa solene, palestras e debates, o programa comemorativa foi também já assinalado, no passado dia 11 deste mês, com   um cortejo etnográfico «mostra agrícola « que desfilou pelas ruas de Santo Tirso. Tendo nos dias seguintes, Sábado e Domingo, decorrido o mercado  de venda ao público e um concerto. Os próximos eventos estão previstos para o dia  3 de Maio, com apresentação  do vinho da escola – colheita 100 anos. A 31 do mesmo mês terá lugar a apresentação do livro «Escola Profissional Agrícola Conde S. Bento Centenário (1913 – 2013)» da autoria do Eng.º Urbano Moreira. A 21 de junho realizar-se-á a Cerimónia Solene dos 100 anos com um Jantar de Gala*Programa comemorativo do centenário escola agrícola (1913-2013 ...*****Escola Profissional Agrícola Conde SBento assinala um Século 

 A VELHA SINETA JÁ NÃO BADALA MAS HÁ POR LÁ MUITA AZÁFAMA NUMA ESCOLA COM HISTÓRIA 


Saí com 18 anos - Já lá vai quase meio século - Os sinos da igreja matriz ainda são os mesmos mas não me apercebi da existência dos sons da velha sineta que estava ali pendurada junto aos claustros da adega e da portaria , que o Sr. Martins ia tocar para os alunos deixarem  o recreio e irem para as aulas ou vice-versa . Não me dei conta dos seus tinidos de cabra refilona. Agora, também já não há a rigidez  de outros tempos. Fazia-se a chamada. Quem chegasse atrasado, levava falta. Umas quantas, penalizavam o aluno. Agora nas escolas funcionam as campainhas - Nem sempre.  E toda a gente tem telemóveis e relógios de pulso para se orientar com os horários.

COLÉGIO DAS CALDINHAS PRÓS MENINOS RICOS


Havia então a Escola Comercial e Industrial. E, relativamente perto de santo Tirso,  o famoso Colégio das Caldinhas, (ainda existente) para onde ia a  fina flor da burguesia - E também os filhos de estadistas estrangeiros. Alguns até vindos de países africanos que viriam apoiar os movimentos de libertação - Constou-se-me que estáva lá a estudar um dos filhos de Patrice Lumumba - E que teria chegado a visitar a Escola Agrícola Conde de "São Bento", acompanhado por um pequeno grupo de seus colegas. 












O ANGOLANO AMADEU - QUEM O NÃO  RECORDA?!... 

Na nossa Escola, alunos africanos, a bem dizer, só havia o angolano Amadeu:  - Muito afável. Todos os demais alunos  e professores simpatizavam com ele. Tive-o como um grande amigo.   Para não sairmos, aos domingos, com a mesma roupa, chegávamos a trocar as camisolas de lã no Inverno. Quando havia os desfiles da mocidade portuguesa, lá fora,  ou, mesmo, com as visitas, cá dentro - não faltavam expressões como estas:  "Olha! ali um pretinho!..."  "Vai ali um pretinho!...". Um negro era coisa rara. Hoje não é assim. É frequentada pelos que nascem  em Portugal e pelos que vêm de Cabo Verde, de S. Tomé, Guiné, Angola, Moçambique e de outras paragens. Todavia, é uma pequena minoria, em comparação com o nível de frequência nas faculdades e noutros estabelecimentos de ensino. Foi pelo menos esta a impressão com que  fiquei. 

Imagem, ao lado, na companhia de trabalhador santomense, em Fernão Dias, da então Roça Rio do Oiro, da Companhia Agrícola Vale Flor

Claro que não há descriminações raciais. Com a Escola de Hotelaria em pleno, creio que ainda vai atrair  mais alunos. O antigo regime  não a proporcionava  aos africanos: só se importava com a mão-de-obra barata, escrava. É por isso que as roças em S. Tomé estão irreconhecíveis.  

Téla Nón >> Nacionalização das roças e a reforma agrária


Os nativos não iam além de capatazes e, geralmente, o trabalho que lhes era destinado era o da capinagem.. - Até os brancos tinham todos de começar de empregado de mato - Foi a categoria que me deram e o  ambiente colonial que eu fui encontrar em S. Tomé. Pagavam mal e trabalhava-se de sol a sol. . Só se tinha direito a férias de quatro em quatro anos.No mato, o trabalho era todo de empreitada aos serviçais. Estes podiam regressar às sanzalas - angolanos, moçambicanos e caboverdeanos - ,  concluídas as tarefas e  depois de apanharem umas quantas ratazanas (principal praga do cacau) mas o empregado do mato continuava até ao fim do dia de machim na mão.. Apanhava-se a chuva no corpo, que acabava também por secar com a roupa, sem se mudar. Não se andava de guarda-chuva. Quanto muito, cortava-se uma folha de bananeira. 

Além disso, o administrador da roça, impunha que os "negros deviam ser tratados todos por tu e abaixo de cão". Pelo menos, o Pereira da Roça Uba-Budo (talvez das roças a mais desumanizada e agarrada à disciplina férrea colonial) foi isto que me ordenou: não permitia que o empregado de mato ou os feitores tratassem por você, qualquer serviçal. Como não acatei as suas ordens, mandou-me de castigo para a Ribeira Peixe, ao sul da Ilha,  a contar cacaueiros velhos, com um cabo-verdiano(também castigado)  numa área abandonada e infestada  da terrível cobra-preta. Um dia ele foi picado e morreu. . Ainda encontrei alguns exemplos de uso da chibata. 

SETE OFÍCIOS 


Por força dessa inadaptação, acabei por ser uma espécie de  homem dos sete ofícios: empregado de mato nas roças; apicultor de abelhas africanas  na B.F.AP  - Pouco maiores que as varejas mas extremamente agressivas, assassinas, pois, se perturbadas, são capazes de perseguir uma pessoa centenas de metros! Levei milhares de picadas quando ia tirar os enxames nos buracos dos coqueiros e de outras árvores: pretendia-se colonizar a abelha selvagem para colocar colmeais nos palmares, unicamente para aumentar  a polininização, que é cruzada, visto produzirem pouco mel - É bom mas, como têm flora todo o ano, armazenam escassos favos, apenas o indispensável. - Mas não havia máscara que me valesse. Se houvesse patos ou galinhas por perto, atacavam-lhe a cabeça e não escapavam - Clike e veja:  Por que as abelhas africanas são tão perigosas? - 


 Um dia vi que havia uma colmeia muito calma; dei uns toques e apercebi-me de que os sons eram de calmaria. Meti a abelha mestra numa gaiola de rede e fiz pousar cinco quilos no queixo, sem uma única picada - O meu auxiliar  fez o resto - a fotografia. Aliás, bastaria uma ferroadela para o cheiro do veneno destabilizar todo o enxame. Claro, nada de movimentos bruscos, uso de sabonetes ou perfumes que as excitasse. 

Mas se o leitor tentar a experiência, cuidado com as "africanas" que não são para brincadeiras! - Evite aproximar-se dos enxames ou tocar-lhes - Disparam exércitos de ferrão em riste em todas as direções. Uma ocasião, uma mulher com uma criança ao colo, ao passar num caminho, a mais de duas centenas de metros, enfiarram-se na carapinha da criança, iam-na matando! Logo que ouvimos os gritos, corremos para lá e foi à força do fumigador que a salvámos. Cheguei a não poder sair de casa, quase cego, com os olhos inchados ou a não poder calçar os sapatos, devido aos inchaços nos pés. Pois são muito espertas: atacam onde menos se  espera: até nos testículos. E, ao tirar-se o enxame, só desistem do ataque, quando a sobrevivência está em risco, depois de morrer mais de um terço - A partir daí, pode-se tirar a máscara e pegarem-se às mãos-cheias, que já não há picadas para ninguém

O DIA EM QUE ESTIVE LADO A LADO COM MÁRIO SOARES E SEU FILHO JOÃO

Fui ainda polinizador de baunilha, de cacau e palmeiras (BFAP);  inquiridor da FAO, através da Missão de Inquérito Agrícola,  nas pequenas parcelas dos "forros" - Deu para ver até onde chegava a usurpação das suas terras: com os roceiros a expandirem as balizas do pau sabão até as fazerem desaparecer - E também o estado em que estavam - Sem qualquer apoio técnico governamental, muitas delas, cheias de capim, mas também quase não valia a pena serem tratadas, dadas as reduzidas dimensões, autênticos quintais  - salvo a do Agrónomo Salustino da Graça do Espírito Santo  , um modelo de  exploração da cultura do ananás - Foi aí, que, numa manhã ridente de sol equatorial, na altura em que ali me dirigira  na qualidade de sargento da messe de oficiais e Agro-Pecuária, encontrei Mário Soares e o seu filho João Soares, então jovem moço, ambos em ameno e agradável convívio com o mais ilustre santomense,  talvez o mais perseguido e torturado pela PIDE - Fui também aprendiz de feiticeiro: quando fiz a viagem de canoa ao Príncipe, foram eles que vieram ter comigo, tendo havido reciprocidade de experiências. Além disso, ainda vedor, arte que aprendi com o nosso Prof.  Eng. Malheiros - capataz dos jardins da cidade - CMSTP; operador de rádio (ERSTP) fotógrafo e jornalista; alpinista e navegador solitário  - E só não fui agente da CIA, porque me recusei trair os meus amigos - cia em são tomé 

 E agora?!..Depois de uma profícua carreira no jornalismo (graças   a aprendizagem na Escola Agrícola, pois não tenho outra formação académica,  que me deu a oportunidade de entrevistar imensa gente, anónima e conhecida),  talvez o  místico – Conjugando a espiritualidade com a fotografia  – Pois, se não há plena certeza da imortalidade, há pelo menos a possibilidade de fixar um momento de sublimidade para a posteridade.




Quando deixo a cidade e peregrino lá pelos arredores da minha aldeia pelas horas mais silenciosas - Sim, na vida há um tempo para tudo - Depois de vaguear pelos mares e de atingir cumes dados como inacessíveis  este é o meu tempo da peregrinação terrestre em busca da última resposta  que pode dar sentido à razão da própria vida.



Parti de S. Tomé, tal como cheguei: sem um tostão nos bolsos. Mas com uma experiência humana e espiritual, que não troco por dinheiro algum.


Nas restantes colónias, o negro ainda tinha a possibilidade de se defender - Se o patrão o chatiasse, tinha para onde ir. Mas, em S. Tomé, cada roça era um feudo, uma colónia prisional, com hospital e a sua justiça. Havia muita prepotência. Encontrei os hábitos coloniais, não muito diferentes dos descritos no Equador de Miguel Sousa Tavares. Foi tal a afronta que, só na Tropa, ao encarregarem-me da Agropecuária do quartel, pude aproveitar para elaborar um relatório  e concluir o meu estágio - Fui substituir um sargento pedófilo, que fazia da quinta do quartel o lugar para devorar os cabacinhos de meninas. 


Em seis meses, abasteci o quartel de hortaliças, bananas, papaias, ananases, ovos, frangos e galinhas. Tendo recebido um louvor. E era esse relatório que eu ia consultar e que me foi recusado. Cuja cópia não pude trazer comigo, visto ter partido numa canoa.

FUI TAMBÉM UMA ESPÉCIE DE FERNANDO CAPELO GAIVOTA - EM DEMANDA DO DESCONHECIDO E EM BUSCA DE DESAFIAR E ULTRAPASSAR OS LIMITES DO IMPOSSÍVEL 

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BREVE ESBOÇO DA HISTÓRIA DA ESCOLA CONDE DE S. BENTO 

"A  Escola Profissional Agrícola de S. bento tem as suas instalações integradas no antigo Mosteiro de S. Bento construído no século X, mas o que se v~e hoje é o resultado de construções dos séculos XVII e XVIII (...) 



Em Junho de 1913, por decreto assinado por Manuel de Arriaga, é criada a Escola Profissional de Agricultura Conde de S. Bento, Diário do Governo Nº 146/1913, de 25 de Junho  mantendo desde então a tradição do Ensino Agrícola. - Em Outubro de 1915, o estabelecimento passou a chamar-se Escola Prática de Agricultura Conde S. Bento(decreto (..)Nova reestruturação ocorre em 1934 no ensino agrícola. Em resultado a Escola passa a formar “feitores agrícolas”, formação que tem a duração de quatro anos, em que o último é um tirocínio feito na própria Escola. O ensino agrícola sofre novas mudanças entre 1957 e 1992, destacando-se a leccionação de cursos gerais e complementares (1973), do curso profissionalizante de Técnico Agrícola nos ramos agropecuária e indústria alimentar com a duração de 3 anos (10º, 11º e 12º – 1980), e de cursos Técnico-Profissionais (1983), permitindo o acesso ao Ensino Superior - Mais pormenores em:Escola Agrícola comemora 100 anos (1913-2013) | SantoTirsoDigital

RECORDAÇÕES INOLVIDÁVEIS...




Na verdade,  quem transpõe a porta principal, paredes meias com a Igreja matriz, e,  tem logo pela frente e ao seu lado direito, uma parede atapetada de era,  que naquele dia estava a ser aparada (trabalho que cheguei a fazer algumas vezes) mais parece ter a sensação se estar a caminhar para  um Éden perdido no tempo de que ir ao reencontro das antigas instalações e  dos verdes campos de um antigo convento – Ou terá sido por mero acaso que  os monges beneditinos do antigo Mosteiro de  S. Bento,  escolheram estas margens do Rio Ave, como o local eleito para o seu recolhimento, aprendizagem, oração e subsistência? – 

Quem visita a Escola Profissional Agrícola Conde S. Bento , jamais poderá olvidar-se dos  momentos felizes ou dos dias  de recreação, de estudo e aprendizagem profissional,  ali vividos. De resto, quem passa por Santo Tirso, dificilmente deixa de associar a sua beleza àquele singular enquadramento:  os campanários da Igreja e os antigos edifícios, atualmente repartidos  pelo Museu Municipal Abade Pedrosa , instalado no piso superior do referido edifício conventual e as instalações da Escola Agrícola,  Conde de S. Bento, com as duas fertilíssimas herdades! – As Quintas do Mosteiro, de dentro e de fora, doadas pelo Conde de São Bento  à    Santa Casa da Misericórdia.

SEXTA-FEIRA NUBLADA COM ALGUMAS BONITAS ABERTAS DE SOL  - E A VISITA À ESCOLA AGRÍCOLA

Parti de Lisboa, na véspera, de comboio ao princípio da tarde. Mas ainda me quedei algumas horas no Porto. Pois também gosto muito desta cidade: mas  acabei por pernoitar, no SOLAR S.BENTO . - Sem dúvida, simpatia no acolhimento e muito boas acomodações. Pelo que depreendi, atualmente, a par do Hotel Cidnay, não se encontram outras hospedagens.

A crise atinge profundamente também esta cidade. O restaurante deste Solar só já funciona para servir pequenos almoços ou refeições encomendadas. Trata-se, pois, de uma exploração familiar e a preços acessíveis. Situa-se na margem direita do Rio Ave, o local  é realmente aprazível, conta com excelentes quartos, que, muitos dos bons hotéis de cinco estrelas, não dispõem. Pena a minha reforma não permitir grandes devaneios.


  VELHA PONTE DO AVE, A PESCA  E OS BANHOS NO  AÇUDE  ENEGRECIDO  

- O MOINHO AINDA LÁ EXISTE MAS  ESTÁ QUASE DESTELHADO - É UMA PENA QUE UMA PEÇA DE MUSEU, SE ENCONTRE ABANDONADA E NAQUELE ESTADO 

Mal deixei a Rua Alberto Pimentel, eis-me a caminhar na ponte do Rio  Ave, com uma bonita surpresa ao longo da margem: a de um passeio pedonal. Uma tira avermelhada através da qual é possível olhar mais de perto a Escola Agrícola e o açude, que, devido a uma primavera que continua chuvosa,  transbordava ludoso e prateado, sob o reflexo do céu cinzento mas algo luminoso.  Antes assim  que negro como alpechim, que é o seu aspeto geral que costuma ter, devido às descargas poluidoras. 

OS BANHOS NO RIO AVE

No meu tempo, mal  chegava o Verão, mesmo com o leito algo enegrecido, aventurávamo-nos a tomar por lá uns banhos e a navegar em pequenos barcos a remos, que eram alugados junto   a um pequeno cais da ponte -  Infelizmente, um pouco acima do termo da bouça com o rio,  afogou-se por lá um      dos nossos colegas.





O lendário Deocleciano Monteiro, popularmente conhecido por  Duque da Ribeira sulcou o rio a cima e a baixo, com as fateixas, durante uma semana, até o encontrar preso a uns arbustos, quase junto às pranchas onde costumávamos lançarmo-nos à água.  Mais tarde, em Maio de 1992, encontrei-me com ele na Praça da Ribeira, no Porto - Recordámos aquele trágico afogamento; ofereceu-me um cartãozinho autografado. 

Foi no Rio Ave que dei as primeiras remadas. E quem sabe senão os primeiros ensaios para as minhas aventuras, que mais tarde levei a cabo nos mares do Golfo da Guiné, com as pirogas santomenses. Por aqueles tempos, iam ali muitos pescadores domingueiros, pescavam-se por lá uns peixitos jeitosos; carpas, barbos e enguias. Ao que parece, esse hábito tem sido incentivado em saudáveis  concursos de  Pesca Desportiva - CM Santo Tirso


DIZEM QUE MELHOROU A QUALIDADE DE ÁGUA MAS O NÍVEL DE VIDA PIOROU - EM TODO O PAÍS

Referem as noticias que, nos últimos anos, com o aumento de ETARS, em funcionamento do Rio Ave e seus afluentes, tem-se verificado uma melhoria da qualidade da água deste rio. Ainda bem. As fábricas, que eram os principais agentes poluidores, encerraram, e, pelos vistos, a crise, tem destas coisas: melhorou a água mas pirou o nível de vida. Naquele tempo ganhava-se mal mas havia emprego para toda a gente. 


O 25 de Abril trouxe a democracia e a esperança... Mas foi sol de pouca duração... A classe media está em vias de desaparecer, há mais desigualdades sociais e um milhão de desempregados - Democracia burguesa, com o controlo dos média, é no que dá. Passou-se de uma censura declarada a uma sofisticada em nome dos bons costumes dos  liber dominus económico: primeiro o cifrão depois o zé Cagalhão.

INTRODUÇÃO DE ESPÉCIES  EXÓTICAS  - A COMEÇAR PELO MERCADO CHINÊS QUE CONTRIBUIU PARA O ENCERRAMENTO DE FÁBRICAS E DESTRUIU O PEQUENO E MÉDIO COMÉRCIO

O ocidente absorve tudo o que a China produz (o que é bom e o que não presta) e a china absorve unicamente o que lhe interessa! - Este é um dos lados insólitos da luta das espécies. O outro problema,  não é tanto o da água mas da introdução de espécies exóticas, que, tal como noutros rios, constituem a maior ameaça às espécies autóctones.   Fonte consultada Peixes no Rio Ave – Que espécies


 E lá estavam,  do lado da igreja matriz,  as estufas, os talhões das hortas e das flores, com os vários telheiros de onde em onde, os caminhos com as latadas – Sobretudo aqueles que me  proporcionaram tão aprazíveis passeios ao longo do rio. Tanta memória a recordar nos quatro anos letivos do meu curso!




Vi que o Ave já pode ser contemplado de um lado e do outro das margens. Mas, para mim, a extensão para onde  fixava mais o olhar, era mesmo para a margem esquerda: os campos que bordejam o rio: os que se situam a montante e a jusante da ponte. A jusante, nada de novo. O terreno parecia estar de pousio. Era ali que se semeavam os grandes milheirais e algumas searas de trigo, centeio e cevada. Lá ao alto, na colina, era a quinta da eira, onde se celebravam as festas da rosas; agora em obras para ali construírem as instalações da Escola de Hotelaria. Obra polémica, que, pelo que  me  foi dado apurar,  vem descaracterizar o lugar. - Dizem que é para  a "requalificação das margens do Rio Ave, que contempla a reabilitação dos Edifícios da Quinta de Fora do Mosteiro de S. Bento” ISanto Tirso ganha escola profissional de hotelaria 


 MUDOU MUITA COISA MAS AINDA É UM EXEMPLO DO ENSINO PROFISSIONAL EM PORTUGAL

Já por ali passaram milhares de estudantes e muitos professores. Uns melhores de que outros mas lá continua. Os hábitos  da Escola Agrícola de S. Tirso, já não são os mesmos que eu conheci, entre 1959 e 63, mas ainda há por lá muita memória viva - Ainda permite recordar muitas imagens. 

Com Vergílio Ferreira e Jorge Amado - E à direita, com Jorge Amado


Quase 50 anos depois, muita coisa já mudou no nosso país - E, no ensino, até para pior, atribuindo canudos sem esforço e sem estudo.  Não creio que seja o caso.  Foi uma visita breve mas  o bastante para ter muito que contar - É esse relato que aqui lhe deixo com algumas das fotografias que ali fiz e outras que fui buscar ao álbum das minhas antigas recordações





Depois de       ter  fotografado um grupo de alunos no final de uma aula teórica, junto a um portentoso trator, fui convidado pelo seu professor  a assistir a um exercício prático no campo  mas o tempo estava de chuva, tendo-me limitado a um curto passeio pela quinta




UM ANO DE ENXURRADAS, O AVE TAMBÉM NÃO ESCAPOU - HÁ BOCADOS DE CAMINHOS QUE AINDA PERMANECEM ENLAMEADOS 














QUEM FOSSE BOM ALUNO E PROVASSE DIFICULDADES FINANCEIRAS FAMILIARES, NÃO PAGAVA PENSÃO NEM PROPINAS - COM MEDIA ACIMA DE 14 VALORES 



Preza-me de ter sido um bom aluno.   Naquela altura havia uma grande exigência escolar. Mas o ensino não era gratuito. Não era acessível a qualquer bolsa. O recurso era o seminário. Depois da instrução primária, também tentei ali a minha chance mas fui despedido por falta de vocação. Conto isso em VERGILIO FERREIRA - PARA SEMPRE NO ESPAÇO INVISIVIEL

A partir do segundo ano tive isenção de pensão e de propinas, o que foi uma grande ajuda para os meus pais e permitiu ao meu irmão que pudesse também ali ir estudar. Mas o Fernando Trabulo Marques (um ás no atletismo) só pôde fazer o 2º ano. Não havia dinheiro para mais. Devo dizer que o meu nome próprio é Jorge Luís Marques, filho de Maria Joaquina Trabulo e de Manuel Joaquim Marques - Como não me batizaram com o apelido de minha mãe, adoptei-o como pseudónimo jornalístico e literário.


VISTA BREVE MAS QUE ME DEU TANTAS VOLTAS À MEMÓRIA!

A minha visita fui curta - Mesmo assim, deu para matar algumas saudades de um tempo que já lá vai mas que continua a deixar ainda  muita memória  - E que perdurará enquanto for vivo.  

Claro que vi alegria e boa disposição junto de alunos e professores. Claro que haverá problemas. Deu para ver alguns e  também houve quem mos quisesse transmitir. Talvez noutra oportunidade. Eu ia ali quase com a mesma devoção de quem vai a  Fátima e o mais importante era divagar, dar largas à imaginação, ao espírito  e recordar.. Na vida há um tempo para tudo: o tempo agora na Escola Agrícola é o de festa. Apanhou-me de surpresa. Mas ainda  bem.

  
PASSOU-SE DO PORTUGAL DO SALAZARISMO AO PORTUGAL DO OPORTUNISMO


A Escola Agrícola, é  para qualquer antigo aluno um local de memória, de saudade e  de peregrinação –- E também para os professores competentes e dedicados. Se algum docente não souber respeitar esse sentimento, está deslocado na profissão - A cunha em Portugal está instituída e há muito quem seja  promovido a oficial, quando nem sequer para Cabo devia servir.


Quem ali  estudou  nesta secular e já mítica escola, jamais a esquecerá.   Quem subiu centenas de vezes as escadas para as salas de  aulas (ou mesmo frequentou só as pré-fabricadas), conheceu os dormitórios, o salão do Estudo e biblioteca,  jogou bola no campo da bouça, comeu ali os mais saborosos  morangos e nêsperas, sim, mesmo não tendo vivido o regime de internato ou semi-internato, manterá dela um cordão umbilical até à sepultura. 

Quem, após tantos anos, indo ao  refeitório, depois de atravessar aquele belo jardim, em forma de quadrilátero, com geométricos canteiros de sebes rasteiras, tracejados de frisos de  conchas, ocupando a parte central dos edifícios,  com  o  velho chafariz  ao centro e os peixes encarnados a rabear, ali, lado a lado aos  vetustos claustros, claro que não deixará de sentir alguma  comoção,  um misto de nostalgia, um sentimento algo inexplicável, intraduzível em palavras – No meu tempo, uma das praxes aos calouros, constava em medir com um fósforo  o percurso do primeiro ao último claustro das arcadas que suportavam os pisos das aulas e do dormitório, sob a supervisão atenta (gozona e maquiavélica) dos mais velhos.








ESCOLA AGRÍCOLA - QUEM ESQUECERÁ OS DIAS EM QUE ALI  ESTUDOU?!..

Oh quantas recordações não me vieram  à memória naquelas escassas horas da manhã de Sexta-feira, dia 12 de Abril!... Ah! a Festa das Rosas!.. Que  agora é bianual - É pena... O que é bom sabe a pouco... Dias maravilhosos!



E, então, quando entrei no velho refeitório, sob as mesmas arcadas de  cantaria, oh quantos pensamentos de outros tempos!..  Até do fartote de ovos que a Natércia e o Cientista apanharam na Tasca do Monte. Na semana em que estivemos de serviço aos galinheiros juntamos uma cesta de ovos e, num domingo à tarde, saltámos o muro da boiça e fomos entregá-los ao homem da tasca para os fritar - Não é difícil de imaginar o que nos sucedeu com o vinho verde servido em malgas - Foi cagunçada toda a semanada. Numa das noites, devo ter delirado - Como era um bocado sonâmbulo, levantei-me e fui acordar o malaquias à bofetada, que, acordando aos gritos, acordou também todo o dormitório. Para não ter mais problemas no género, acabei por ficar instalado alguns meses, como externo, na Casa de Santa Zita, com o Veloso, que morreu na Guiné.


NOUTRO TEMPO OS PROFESSORES NÃO SE SENTAVAM À MESA DOS ALUNOS 


É inegável que o ensino, em Portugal,  está mais acessível e democratizado - Mas também não menos verdade é o facto de que há menos rigor pedagógico e mais conflitos entre professores e alunos - A todos os níveis: desde o primário, médio ao superior.


Depois de ter visitado   a Biblioteca, que passou a ocupar  as instalações da  antiga lavandaria, onde se guardavam as malas, sim,   após ali ter tido  o prazer de  dialogar  com um grupo de santomenses,   pedi autorização para almoçar no refeitório,  que ali fica contíguo, a qual gentilmente me fora concedida pelo encarregado.  Enquanto esperava a minha vez na fila, não deixei porém de olhar todo aquele espaço e de vasculhar uma vez mais os escaninhos de uma memória que parece agarrar-se ainda mais ao passado à medida que os anos passam – e já lá vão quase 50! Vi muita alegria e muita vivacidade. Vi professores a comer na  mesa dos alunos, o que, naqueles tempos, creio que só acontecia na Ceia de Natal. Nem mesmo nas excursões: também professores e alunos se apartavam por mesas ou sítios 

NO TEMPO EM QUE HAVIA A FILA PARA A BROA COM FIGOS OU NÊSPERAS



Soube que terminou o internato - Os alunos vão pernoitar na Casa do Estudante,  na cidade. Mas, as filas, agora só dentro do refeitório. Quando ali estudava, os alunos entravam e sentavam-se nas mesas - A única fila que havia era  a da merenda. Pelo lado de fora da  cozinha, na álea voltada para o Rio Ave. À medida que ia chegando a sua vez, o aluno recebia uma fatia de broa com figos, nêsperas ou outro fruto da época. No refeitório,  para cada dia da semana,  havia invariavelmente os mesmos pratos: desde o cozido à portuguesa até batatas à espanhola. Agora, a sopa de caldo verde não chegava à mesa em grandes terrinas, nem o prato do dia era servido pelos empregados em grandes travessas. É o sistema usual das cantinas escolares. Em todo o caso,  o serviço pareceu-me eficiente, não tive que esperar muito tempo na fila, lá chegou a minha vez. Duas pernas de frango, batatas fritas e arroz, sabiam bem e comeram-se num trago. 







NO TEMPO EM QUE ÉRAMOS OBRIGADOS A IR  EM FORMATURA À MISSA COM A FARDA DA MOCIDADE PORTUGUESA  - Eu sou o fardado da MP na ponta direita da imagem



Antes de descer o caminho até ao rio e dar um giro frente à vacaria, dar uma olhadela à bouça ali ao fundo,  ir até ao fontanário do batismo e junto a um outro sob o qual havia um tanque para cultura de agriões, onde agora não jorra uma gota de água,  lá vi o antigo  recreio   com as suas bancadas de cimento e as traves do basquetebol - serão as mesmas?... Fiquei na dúvida – Sim, onde o Prof. Samuel (que foi treinador da Académica e do Tirsense) nos dava aulas de ginástica. E, aos domingos e dias santos,  partíamos em formatura com  a farda da mocidade portuguesa  a prestar a guarda-de-honra à bandeira, quando esta era levantada no momento mais solene da missa.. No Inverno era uma chatice: o que nos valia é que o banho de chuveiro de água fria, já  nos preparava com uma certa dose de resistência para andarmos depois de camisa e calção curto e perna descoberta.

ANTIGAMENTE HAVIA O IMPÉRIO DA CUF - AGORA HÁ OS DO CONTINENTE, DO PINGO DOCE E ORIENTAIS - AINDA MAIS DEVASTADORES

  Fui chefe de quina - a Mocidade Portuguesa era obrigatória. Ter umas divisas era então algo sedutor. E, quando me calhava a mim, lá ia eu: “Esquerdo, direito! Esquerdo direito!”. O pior é que eu sentia um quase terror por estar isolado e de braços cruzados à frente da formatura. E,  depois, ainda por cima, algo tímido, a ter que  dar as vozes para estenderem o braço à bandeira! - Sem dúvida,  inimaginável a minha preocupação!..Com todos os olhares acestados em mim!... Sim, havia uma disciplina de religião e moral - Em que a religião da igreja andava de mãos dadas com a do Estado -  Em sintonia: Clero, Família, Fado, Colonialismo, Touradas e Estado - E agora?!... Há tudo isso mas de forma diferente e muito mais: antes havia o impório da CUF? Agora há o dos Continentes, dos Pingo Doces e da Lojas dos Chinocas, que acabaram com milhares de pequenos e médios empresários - Para já não falar das fábricas que encerraram. Eu, que fui preso pela PIDE, às vezes fico sem saber o que se ganhou: as colónias estão independentes  e acabou-se a exploração?!...

Do lado norte ficavam as coelheiras. Agora, não me pareceu que ainda lá existissem. Pude subir pelas escadinhas do regato até ao velho lago, ver os gansos e os patos,   ouvir o seu grasnar, a linguagem que se eterniza através dos tempos. Lembrando-me da carpintaria, que se situava na rua que passa  por  detrás do lago  - Vi que tinha as portas fechadas. Foi lá que uma ocasião deparei com um quadro da Santa Inquisição.  Ao lado ficavam as  oficinas da serralharia -  Depois detive-me junto a um grupo de estudantes, que se preparavam para ter uma aula de instrução de condução de trator no campo – Professor e alunos, inexcedíveis em simpatia – Houve registo de imagens para a posteridade, com agrado de todos. Bela rapaziada e mestres generosos e amáveis!






VAMOS LÁ PARA DENTRO!!


Ao passar pelos sítios dos antigos aviários e  pocilgas, pude visitar as gaiolas de aves tropicais e répteis exóticos, que  não existiam. Recordei-me  da algraviada dos  ruídos, naqueles  tempos e agora não me apercebia desses característicos sons – Pois, uma parte das instalações era a céu aberto.  

À saída ainda voltei a  espreitar  para a adega e onde também se situava a leitaria e a queijaria, as centrifugadoras para fazer saborosa manteiga.  Vi  a Casa das Ferramentas transformada em  Casa das Vendas, onde comprei um frasco de mel  - mas foi à saída.  Pude dialogar com alguns professores e alunos. Deambulei um pouco pelas alamedas das camélias. Fui até à margem do rio – passeio inevitável. E  por lá andarilhei alguns momentos sob as ramadas, ainda nuas de folhas, imerso em memórias antigas.

DESEJO

Gostava de um dia apresentar nesta cidade ou na Escola Agrícola a exposição das minhas aventuras marítimas que inaugurei no Padrão dos Descobrimentos, com um poema de  António Ramos Rosa e de sua mulher Agripina Marques  Espero que esse desejo um doa seja concretizado(
vinde ver o mar


Ainda há uma certa resistência quando se alude à probabilidade das Ilhas poderem ter sido povoadas por intrépidos pescadores africanos através das suas pirogas, antes dos europeus ali terem aportado  - E esta minha demonstração ainda fere alguns ouvidos - Os compêndios coloniais ensinaram-nos a dizer que Portugal ia do Minho a Timor e que as Ilhas de S. Tomé e Príncipe estavam desertas. - Pois é, mas entretanto até já foram descobertos mapas, com nomes árabes das Ilhas, antes de 1470 ilhas asben e sanam, povoadas por canoas africanas

Como chegaram ali os africanos?.. Foi à procura da resposta  dessa interrogação que eu parti sozinho, munido apenas de uma simples bússola.  Uma coisa é o espírito dos nossos marinheiros, que eu sempre admirei essa gesta heroica de corajosos navegadores,  indo de canoa da cidade de S. Tomé à Espraínha, onde dizem ter aportado pela primeira vez as caravelas de João de Santarém e Pero Escobar, desfraldando a bandeira portuguesa, no dia em que se comemoravam os 500 anos sobre a "descoberta" - Outra a verdade histórica



Na verdade, gosto muito de Santo Tirso. Sou natural da aldeia de Chãs, concelho de Vila Nova de Foz Côa. Mas, além do meu torrão natal e dos seus amplos espaços envolventes, há duas terras que também me marcaram para sempre: Santo Tirso e São Tomé - a primeira cidade que eu conheci, foi Lisboa, aos 12 anos. 




Aqui que resido, desde que regressei da "Pérola do Equador" mas confesso que sempre me senti um pouco estrangeiro - Vim para aqui como marçano e não posso esquecer-me dessa adolescência difícil, com algumas noites a dormir na rua.  E porque razão eu gosto tanto de Santo Tirso?... - Quase pela mesma razão que  gosto de S. Tomé.  Se não tivesse vindo a frequentar aqui o curso de técnico agrícola (Agente Rural), nunca teria ido para a Ilha de S. Tomé, onde gostaria de voltar e poder mostrar    pessoalmente as fotografias dessas minhas odisseias solitárias.E escaladas verticais no Pico cão grande 

ESPERO UM DIA APRESENTAR A MESMA EXPOSIÇÃO QUE INAUGUREI NO PADRÃO DOS DESCOBRIMENTOS - EM LISBOA 

----- Original Message -----
Sent: Friday, March 31, 2006 4:50 PM
Subject: Fw: proposta para exposição fotográfica: 38 dias à deriva no oceano

Exmo.Senhor
Eng.Carlos Alberto da Silva Frutuosa
Director da Escola Profissional de Agricultura
Conde São Bento - Santo Tirso
Exmo. Senhor


Sou o antigo aluno que já o contactei para apresentar uma exposição fotográfica, nas instalações da Escola Agrícola, sobre as minhas aventuras marítimas nos mares do Golfo da Guiné. V.Exa manifestou essa disponibilidade, porém, o problema que se colocava era o transporte dos quadros. Como o conjunto do espólio ainda é bastante volumoso, e não tendo essa garantia por parte de V.Exa., decidi dirigir-me à Câmara Municipal para que me fosse dado esse apoio e facultada a oportunidade de expor no edifício da antiga sede municipal, situada sobre a adega da nossa Escola, aonde, aliás, me dirigi. Disseram-me para apresentar o pedido por escrito, o que fiz através de correio eletrónico. No entanto, até hoje, não me deram qualquer resposta. Por isso mesmo, e vendo que esses contactos foram infrutíferos, resolvi dirigir-me de novo a V.Exa para lhe voltar a fazer o mesmo pedido.


(...) Acredite que seria para mim um enorme prazer dispor dessa possibilidade - E penso que, também, uma exposição bem aceite por alunos e professores.
Com as melhores saudações de agradecimento e de consideração
de Jorge Trabulo Marques

PS - Tomo a liberdade de lhe enviar a cópia do último email( com o mesmo anexo) que mandei ao Presidente da Câmara Municipal de Santo Tirso, ao qual juntava várias imagens fotográficas e outros elementos
----- Original Message -----
Sent: Friday, November 04, 2005 7:10 AM
Subject: Fw: proposta para exposição fotográfica: 38 dias à deriva no oceano.

Assunto – Proposta para uma exposição fotográfica e documental
- 38 dias à deriva numa piroga



Exmo.Senhor
Eng.António Alberto Castro Fernandes
Presidente da Câmara Municipal de Santo Tirso

Sou autor de várias travessias oceânicas em pequenas pirogas primitivas, nos mares do Golfo da Guiné, com partidas na Ilha de São Tomé e Príncipe, em condições de extrema precaridade, das quais disponho de um interessante acervo fotográfico e documental, que tem sido apresentado em várias exposições, nomeadamente em estabelecimentos de ensino, auditórios municipais, Padrão dos Descobrimentos, e cuja mostra se tem revestido de particular curiosidade, aos visitantes, dado o seu carácter científico e didático, como testemunho de sobrevivência humana, entre outros importantes aspectos.

Sou antigo aluno da Escola Agrícola, de que guardo as melhores recordações, tal como também da bonita cidade de Santo Tirso, em cujo rio, então limpo, várias vezes mergulhei e ensaiei as minhas primeiras remadas, naqueles belos dias de sol, já próximo das férias grandes, que antecediam o Verão - Após o curso partiria para Sâo Tomé para um estágio na roça, porém, Santo Tirso, talvez também pela verdura da sua paisagem, sempre foi uma saudosa imagem, muito presente na minha memória, durante os 12 anos em que ali vivi.Creia, muitas vezes, ao contemplar aqueles luxuriantes recortes da Ilha verde, chegava, mesmo, a compará-los aos que bordejam as margens da princesa do Ave.

Eu já lhe enviei um email, com vista à referida exposição, mas, como não obtive resposta, presumo que não o tenha sido recebido, razão pela qual volto a dirigir-me a V.Exa.com idêntico pedido.




UM ABRAÇO DE AGRADECIMENTO AO ANTÓNIO ANDRADE, MEU ANTIGO COLEGA -  E AO SEUS AMIGOS AUGUSTO ANDRADE E ANÍBAL SANTOS

Depois de ter deixado as instalações da Escola Agrícola, visitei o Museu Municipal Abade Faria, e, como não podia deixar de ser, fui até ao   frondoso Parque e à Casa de Chã. Alguém me falara que ali costumava tomar café  um dos meus antigos professores e eu queria ir cumprimentá-lo. Qual não foi, porém, a  minha surpresa que, ao perguntar pelo seu nome ao empregado do bar, a uns metros ao lado, a uma mesa junto à vidraça, uma voz me chama: tu não és o navegador solitário? Sim, era nem mais nem menos que o meu antigo colega Andrade, que, depois de ter terminado o curso, foi  concluir o de Regente Agrícola, atualmente classificado de Engº Agrário - Mas que  comovente supressa! Nem queria acreditar que, 50 anos depois, revia um antigo colega. . 

Ele com tão fresca memória! Recordou-me até a alcunha pelo qual eu era conhecido. De referir, que, naquele tempo, havia a cerimónia do batismo dos calouros e era dado um nome a cada um. Deram-me o Charabaneco mas o nome pelo qual passei a ser conhecido foi o de "Natércia". Alguém se lembrou da Natércia de Camões e eis de mo aplicar, não sei a que propósito. Então, como era muito amigo do Cortês (Camilo Pereira Paiva Cortês, natural de barqueiros), a ele lhe chamavam o "Cientista", às tantas, já nem era "Natércia" nem "Charabaneco" mas o "Cientista" e a sua "Amiga"

SETE NAMORADAS. 


 Não havia a liberdade que agora há mas fazia-se por se mostrar garanhão. Naquele  tempo, toda a rapaziada (e então, logo nós do ancinho e da enxada) se voltava para as namoradas. e fazia questão de as colecionar. Numa excursão ao Algarve, ao passáramos por Vila Viçosa - não sei já se no regresso ou na ida - , não é que fiz pousar sete para a fotografia. Para depois me gabar que tinha engatado sete raparigas de uma vez.  Havia-as de quase todas as idades. 

Bom, mas já estava a desviar-me  do convívio que tive o prazer de ter com  o Andrade. Ainda não se reformou. Tem um filho que é um génio de violinista na Alemanha: o Pedro Morais Andrade - Sobrinho da Graça Morais. Falou-me de vários colegas, nomeadamente do Néné Moreira, que, tal como ele, se formaria em engenharia agrária e  vai editar um excelente livro no dia 31 de Maio, sobre as memórias da Escola Agrícola. Deu-me o seu contato e já tive o prazer de falar com ele. Entretanto, numa saída para um curto passeio, encontramo-nos com os seus amigos, Augusto Andrade e Aníbal Santos, na companhia dos quais pude ainda encontrar-me com o Oliveira e o Júlio, com o qual pousou nas duas imagens, acima e nos lados. Foi, de facto, uma tarde que não esperava. Tanto mais que ainda tiveram  a gentileza de me levarem de carro até à Estação da CP. Obrigado Amigos. espero voltar em breve para mais uns agradáveis momentos de convívio 

Já em Lisboa pude falar ao telefone com o Néné Morreira, que também me trouxe à memória excelentes recordações. E, depois disso, com o José Luis. Um ano mais novo de que eu e que revelou igualmente uma boa memória. Quem o quiser encontrar em S. Tirso, poderá vê no seu bar  BARMALI 

. Jorge Trabulo Marques - Jornalista

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Almada Negreiros – Comemorações dos 120 anos de um filho distinto de São Tomé e 



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