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Entre outros assuntos, falo da escalada ao Pico Cão Grande e das minhas aventuras em canoas – Visam defender a teoria de que antigos povos africanos, podiam ter sido os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo da Guiné, antes dos colonizadores – Parti à meia-noite, disfarçado de pescador, ligando a ilha do Príncipe. Para me orientar, uma rudimentar bússola – A canoa era minúscula, à segunda noite adormeci: rolei na escuridão das vagas. No regresso fui distinguido com sopapos da policia salazarista, enviado para os calabouços – Cinco anos depois, numa piroga maior, fiz a ligação São Tomé-Nigéria. Partindo igualmente à noite, 13 dias depois atingia uma praia de Calabar, tendo sido detido 17 dias por suspeita de espionagem. - No mesmo ano, já com São Tomé e Príncipe independente, tentei a travessia São Tomé ao Brasil, usando os mesmos recursos. Além de pretender reforçar a minha teoria, desejava evocar a rota da escravatura e repetir a experiência de Alain Bombard. Porém, quis a ironia do destino que vivesse a difícil provação de um naufrágio de 38 longos dias, tendo aportado numa praia de Bioko (Bococo)onde fui recambiado para a famosa prisão de Black Beach

sexta-feira, 17 de maio de 2013

37ª Dia Estou partido! Tenho o estômago metido para dentro...Estou realmente bastante fraco


26 de Novembro de 1975

Fundeado junto a uma praia da região de  Bococo, a sul da Ilha de Bioko - Guiné Equatorial -  26 de Novembro de 1975 -  Era já noite e não pude acostar. Na manhã seguinte, descobriria, na mesma orla, algures para oeste, um pequeno areal negro onde pude finalmente desembarcar. As horas magníficas que ali passei durante a manhã, naquela pequena enseda luxuriante -  qual  aspirante a Robinson Crusoe  e depois a caminhada pela floresta que me levaria a uma finca de cacau, a forma amistosa como ali fui bem recebido a contrastar com o comportamento desumano das autoridades que, mesmo extremamente debilitado, nesse dia à noite, me levariam para os calabouços de uma esquadra, sob supeita de espionagem, tendo, no dia seguinte, sido conduzido algemado para a  mais temível cadeia de África - a tenebrosa Blach Becah  -  Quer dizer morte. Quando um prisioneiro chega a esta prisão, sua família começa a preparar o caixão.- Os relatos, dessas vicissitudes por que passei na Guiné Equatorial,  que pude redigir na minha cela, cujos cadernos guardo mas, dada a  sua extensão, conto editá-los em próximas postagens - Junho ou Julho - Para já, veja como foi a minha aproximação a terra, após tão longo e penoso calvário de tormentosos  dias e noites de incerteza.

Muito por culpa do comandante do pesqueiro americano, Hornet, que me tendo prometido, em S.Tomé, que me largaria a sul de Ano Bom, na influência da corrente equatorial que me arrastaria para o Brasil - rota que pretendia seguir - me trocou as voltas, quando fundeou a Norte e ao largo daquela ilha: ou fica a bordo ou canoa ao mar - Optei pelo regresso a S.Tomé  - E, navegar no Golfo, em plena época das chuvas e dos tornados, numa frágil canoa, era opção quase suicida, de vida ou de morte - Apesar de tudo, quis o destino que, mesmo tendo sido atingido por violenta tempestade, logo na primeira noite, que me causaria a perda de quase todos os apetrechos e víveres, fosse um homem de sorte.


( 

É manhã do 37º dia. Ainda me encontro no mar...Estou partido!...Tenho o estomago metido para dentro. Não tenho nada na barriga... Estou realmente bastante fraco!...Estou mais próximo de terra... mas os ventos não me têm ajudado.














A manhã surgiu cinzenta e quase morta, sem a mais leve aragem a quebrar a sua triste monotonia.  Por detrás do horizonte brumoso, a custo desponta, de quando em quando, o pálido disco solar. A nordeste, vejo ao longe contornos de terra, altas montanhas cobertas por um espesso manto de um verde escuro, cujas cumeadas  ora se cobrem ora escondem sob densos nevoeiros ou claras neblinas, visão, aliás, reconfortante, porém, fisicamente, ao mesmo tempo, tão próxima como distante. Contornos de uma costa que toma o aspeto de um enorme triângulo, recortada por uma enorme baía. Mas não estou ainda  bem certo  se é o continente ou Bioko - a Ilha de Fernando Pó. As correntes mal se sentem mas  arrastam-me ao longo dessa mancha, em vez me levarem na sua direção.





Finalmente, ao princípio da tarde, levantou-se algum vento. Estou a velejar  mas com extrema dificuldade, devido à ondulação, que é muito forte. O leme, que lhe adaptei, soltou-se com uma vaga do primeiro tornado - e lá foram também os remos. Por mais esforço que faça, com o remo improvisado, não há maneira de embicar para terra. De volta e meia, a canoa atravessa-se à vaga. Mas lá  vou indo, lá vou navegando,  com determinação e a  graça de Deus








Não me apetece abrir o meu baú (o caixote de plástico), pegar no gravador e fazer o registo do meu diário. Estou apreensivo e confuso, não tenho vontade de dizer nada. Calculo que seja uma da tarde. O relógio que trouxe deixou de funcionar na primeira noite do naufrágio. Há horas que parecem infinitas... É verdade... Mas nunca perdi a noção do tempo. Quando há sol é fácil calcular as horas pela  posição que descreve no arco  do firmamento. Se o céu  está nublado, carregado de nuvens ou tempestuoso, é mais complicado. No entanto, quem é que não sente o peso do tempo?!... Quem é que,  nestas circunstâncias, não conseguirá determinar a rotação do dia ou da noite, o movimento das marés  - que no alto mar também se notam! Vogando, com a vida  à flor do mar, errando perdido,  sem destino!...


Oh, se pudesse ir a nado!... Mas não posso. Sinto-me muito fraco, cheio de fome, mas não me rendo. Estou confiante de alcançar  anda hoje, terra firme, chão seguro!..  A bússola dá-me a leitura de todos os quadrantes, porém,  não podendo dispor  de meios para calcular a minha posição, fico sem saber onde estou.  No entanto, de uma coisa estou certo: a terra está ao alcance dos meus olhos, estou muito próximo!... E tão longe de a poder alcançar, eu já me encontrei!...


Deverão ser aí três da tarde. O vento abrandou um bocado mas o mar continua muito ondulado e as minhas forças são fracas. Estou exausto, terrivelmente cansado. As pernas tremem-me e o ventre aperta-se-me com cruel dureza... Que suplício, meu Deus!...Oh, mas não posso desistir, a costa está ali à minha frente e tenho que a alcançar.


Aproxima-se o fim de tarde - Já não há vento. O mar está calmo. Entrei numa zona, que é nitidamente litoral,  com várias  manchas de correntes, que trazem à superfície uma infinidade de detritos vegetais de terra. Desde cascas de cocos, ervas, folhas de árvores, verdes ou já quase desfeitas, frutos secos e podres. Já meti algumas folhas e frutos à boca para mitigar a fome. Também se veem muitos grânulos de alcatrão e dejetos de aves.  E, como não podia deixar de ser - pois nunca deixaram de seguir a  canoa , também afluem peixes de várias espécies, que saltam, espinoteiam, aqui e além por entre os despojos e nos contínuos remoinhos, ora sôfregos, ora talvez competindo ou divertindo-se com tamanha abundância de alimentos.













Chamou-me atenção um coco, flutuando e a rebolar de um lado para o outro.  Dei umas remadas na sua direção. Qual não foi o meu espanto!... Estava sem a amêndoa e com a casca meia partida mas com um peixe lá dentro. Em redor, vários peixes graúdos, nadando em torno do coco, pareciam fazê-lo saltar. Claro que aproveitei a presa, o pequeno peixito para o meter logo inteirinho à boca. De seguida apanhei mais dois cocos inteiros. Um deles descasquei-o imediatamente com o machim e aproveitei para saborear a suculenta amêndoa. O outro guardei-o para mais tarde. 

Pormenor curioso, a companhia de uma ave: deixou o bando e veio pousar na ponta da proa da canoa, teimando acompanhar-me.  Não me pareceu que estivesse doente ou cansada. Teve sorte, achou-me inofensivo. Pois,  se não tivesse tão próximo de terra, já lhe teria pregado uma partida - Ainda bem, para ambas as partes; é que, à falta de alimentos, lá tive - e com  muita pena minha -de sacrificar tão amorosas criaturas . Além de muito piolhosas, só têm penas, pele e ossos.

Quando fiz a viagem de S. Tomé à Nigéria, de manhã, ao acordar, a borda da canoa parecia um autêntico pombal. Registei belas imagens: ao regressar a S.Tomé, deixei-as na redação de uma revista, esta entretanto extinguiu-se e perderam-se. 





O sol brilha acima de algumas nuvens no horizonte. Não há sinais de mau tempo e o mar está calmo. Mas o esforço com o remo, deixa-me arrasado. Queria libertar-me destas pequenas correntes, que parecem leitos de rios e me arrastam nos mais desencontrados sentidos, estou a ver que não consigo. Era bom que se levantasse um pouco de vento para velejar. A distância parece-me curta mas só com ajuda do remo, receio que não possa chegar lá ainda hoje.



Mais umas remadas, ó Jorge!...Vá lá!..  Tens a terra, ali a  quatro ou cinco centenas de metros!... Dobra-te sobre o remo!.. Aperta o cinto e não desistas!... De modo algum, vou desistir... Se não  desisti, até agora, como poderia desistir com os perfumes, balsâmicos, vindos da floresta, a revigorarem-me os pulmões e o meu coração?!...Tenho de lá chegar, antes que anoiteça!... Tenho de me embriagar com os aromas e as fragâncias da sua luxuriante verdura!...Vamos!...Coragem!

E lá vou remando, esforçando-me o mais que posso, dando tudo por tudo. Só Deus sabe com que inaudito esforço. Ora tombaleando a bombordo, ora a estibordo. Encurtando,  pouco a pouco, a distância que me separa do recorte da íngreme encosta verdejante, que se eleva aos meus olhos. O arvoredo já não é propriamente um emaranhado denso e uniforme, de um verde escuro. Por entre a brenha densa do espesso manto arbóreo,  que se ergue desde a orla até perder-se nas névoas de  uma elevada montanha, notam-se, de onde em onde, vários matizes coloridos, que vão do amarelo ao vermelho,  a contrastar a uniformidade verdejante. Ouço perfeitamente o marulho da rebentação espumosa. Mas ainda não consegui divisar um palmo de areia. 



Entretanto, o sol vai descaindo no ocaso, vai pousando sobre o horizonte, como que despedindo-se de mim através de um rasto luminoso, que se estende à superficie das águas e parece querer envolver-me por um brilho nostálgico, místico, algo tranquilizador e sobrenatural.  Será este o prémio do meu esforço, da minha vitória sobre tantas e tão enormes adversidades?!... Sim, creio  que posso alimentar essa consoladora esperança.   O chão firme, já não é um desejo ardente mas uma certeza que  se me abre de forma tão esplendorosa!... Não sei que lugar é este que tenho à minha frente; não faço a menor ideia como vou ser recebido, que riscos ainda me aguardam. Até porque já me apercebi que a costa é abrupta e não vou poder acostar. O crepúsculo, nestes mares, é muito rápido e a noite está já quase a cair sobre mim. 


Ainda não parei de remar. Ando para aqui de um lado para o outro a tentar descobrir uma qualquer língua de areia mas é tudo aprumo. A floresta é já uma mancha negra. Ainda bem que o tempo está calmo, quando não era atirado de encontro às rochas. Na viagem que fiz de S. Tomé à  Ilha do Príncipe, ao pôr do sol, encontrava-me junto a um promontório. rochoso e escarpado. - Impossibilitado  de me aproximar, lá tive que me escapar para o mar para não ser atingido pelo tornado, que estava a formar-se àquela hora no horizonte.  Com a costa, ali a dois palmos!... Que noite mais horrível, meu Deus! Mar tumultuoso e negra escuridão, que os relâmpagos iluminavam e me deixavam quase cego.Não há palavras!...



 Não tenho a certeza se a floresta é habitada. Pareceu-me ter visto alguns focos de luzes por entre o arvoredo. Mas deve ter sido ilusão minha. Embora, apenas já se distingue  uma massa escura, - , sim, agora só se ouvem os sons da floresta, o piar da passarada  e o vai e vem das águas, batendo e recuando não se sabe aonde, contudo, os perfumes inebriantes de toda esta atmosfera, rica e acolhedora que me envolve,  a pujança e a sua beleza que se adivinha, misturados com a doce e quente   marezia, transmitem-me uma serena paz, uma tranquilidade que há muito não sentia. Porém, com muita pena minha, tenho que ficar mais uma noite no mar. A costa é profunda. Tive que lançar várias vezes a âncora até encontrar a profundidade a que pudesse chegar a corda que amarra. Mas, por fim, lá descobri, junto a uma espécie de ilhéu, o sítio onde a âncora se prendeu. Tenho o estômago um bocado rijo, devido ao coco, às folhas e frutos, que andavam a boiar e que comi.Certamente que não vai ser fácil adormecer. Espero é que não surja mau tempo e possa retemperar um pouco as minhas forças.- Mas, antes  de me deitar, ainda vou verter para o gravador o meu primeiro testemunho, junto a esta encosta paradisíaca.

 É já noite do 27º dia! Estou à beira de uma praia!... De uma floresta virgem!...Floresta maravilhosa!... Tive imensas dificuldades!... Foi um bocado exaustivo!...Para conseguir...utilizei todas as minhas forças!... Já não tinha água!...Não tinha nada!...Depois encontrei alguns cocos... próximo aqui da praia!... Com os quais mitiguei a fome!... Estou  muito fraco! Mas ao mesmo tempo reanimado! porque estou próximo...Tenho aqui a canoa fundeada!....esperando o dia da amanhã!...Não sei, efetivamente, que terra é esta!... Mas é terra!... Uma terra que me parece fértl, rica e  maravilhosa!




"Mãe: Venho de longe e cansado
(...) Que me resta da fluata que inventei?" - Fernando Grade 

(...)"É noite, mãe: aguardo, olhos fechados, 
que uma qualquer manhã me ressuscite!...  António Salvado, in "Difícil Passagem"




Diário de Bordo .... 15ª dia -  UM GRANDE BARCO PASSOU AO MEU LADO ***** ******.....17ª Dia - Se me perguntassem qual era o meu maior desejo ..... ....;BIOKO À VISTA - ILHA DO “DIABO......***.;NÁUFRAGO - 18ª DIA – MAIS UM BARCO PASSOU A CURTA DISTÂNCIA ......; 19º Dia – Sinto muita sede  ...     ...; 20ª Dia Estou envolvido por enorme cardume,...........;21º DIA – “Sinceramentejá tenho pena de ter ferido aqueles tubarões ............;Náufrago 22.º dia - A canoa esteve há pouco à beira de se virar .......;23º Dia -Vi uma borboleta!    ..24º Dia - É tubarão!.... Filho da mãe....... 25º diaEstou cheio de sede e de fome............26ª Dia Não tenho comidaÁgua também não. .      . 27ª dia  mar nunca se podem fazer cálculos seguros!...........28º Dia - Grandes vagas alterosas entravam dentro da minha canoa!.        29ª dia - Passei a noite todo encharcado.....       30º Dia - Não comi nada: limitei-me a comer uma das barbatanas do tubarão. .......... 31º Dia - A canoa a meter água cada vez mais!.... .............. .32º Dia -Estou comendo o coco! Avidamente!... Sofregamente!................33º Dia - Estou exausto!.........Dia 34º -  Sinto uma grande dureza no estômago....35ºDia - Acordei com o barulho de uma enorme baleia aqui próximo da canoa........36º Dia - Comi a ave que apanhei ontem! (...) Tenho a costa de África muito próxima... É já noite"... Estou a velejar! Estou-me a precipitar como um suicida. Tenho fome! ... Não posso demorar mais tempo!....

sexta-feira, 10 de maio de 2013

"Invenção dos Mares" na História Trágico Marítima por Carmo Pólvora, na Galerie Thullier, em Paris - Exposição de 10 a 23 de Maio 2013 - A arte de celebrar os enigmas do absoluto, do encantamento, o instante da revelação - Só os céus e os mares, nos oferecem o mistério e a grandeza dessa dimensão.

Se tiver dificuldade em aceder à primeira postagem deste mês, pode fazê-lo através deste linke ODISSEIA BIZARRA 


La galerie Thuillier présent - Carmo Pólvora. 
Vernissage le Mardi 14 Mai 2013 de 18h à 21h - Exposition du 10 au 23 Mai 2013
13 rue de Thorigny 750003 Paris


Carmo Pólvora expõe hoje um conjunto das suas obras numa galeria, em Paris,  subordinadas ao tema genérico a "Invenção dos Mares", tendo  por fonte de inspiração "a narrativa  real e simbólica da História Trágico-Marítima". Tema que também me é particularmente caro, daí achar oportuno, de, ao mesmo tempo ter  o prazer de aqui  fazer a sua divulgação,  homenagear uma grande artista e uma boa amiga, de longa data, neste meu site, dedicado especialmente a temática marítima e às minhas aventuras nos mares do Golfo da Guiné.





Não é a primeira vez que os seus quadros são expostos na grande cidade da luz, do amor e da moda. Em outras cidades de França, Bélgica, Alemanha, Espanha, Macau, Brasil, entre outros países. Nos seus 38 anos de atividade artística, contam-se por inúmeras as exposições, individuais e coletivas, nas mais prestigiadas  galerias nacionais e internacionais, com representação permanente em vários museus e instituições. Trata-se, com efeito, de uma das artistas portuguesas de nome consagrado nas artes plásticas

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Sou amigo de Carmo, desde meados dos anos 80. Tenho pela sua obra e pela sua personalidade um especial carinho e admiração. De vez em quando, mais por obra do caso, lá nos encontramos pela FNAC  do Chiado ou nalguma exposição. Sucedeu neste último Sábado. Estava ela e a Marisa Dias. Foi então que fiquei a saber que ia expor em França para onde ia partir no dia seguinte. Por isso mesmo, e, como já há algum tempo, não nos víamos, fomos tomar um cafezinho à Pastelaria Bernard - Momentos agradáveis e  espirituosos, como acontece quando se convive com a Carmo. Entre nós, há, pois,  um mútuo sentimento de   amizade e de respeito, duradouro,  que emana, desde que nos conhecemos (quando a entrevistei para a Rádio Comercial) e de  um elemento comum,   a enorme paixão pelo mar. Ela nasceu em Leiria. Além disso, é do signo caranguejo, cujo elemento é a água. Teve o seu primeiro batismo na Praia da Figueira da Foz, aos 4 anos. Eu só o teria aos 12 anos na Praia de Algés, mas tendo nascido bem mais longe da costa marítima, do que ela. - Por certo, já em criança, também quantas vezes deslumbrada pela maravilhosa paisagem do verde mar do mítico Pinhal de Leiria, mandado  plantar por D. Dinis, o Lavrador, cujas madeiras  viriam a ter um papel determinante na construção das caravelas  da epopeia  dos descobrimentos marítimos portugueses - Daí esse apego aos temas marinhos, porventura ainda mais reforçado, devido à herança de um certo subconsciente ancestral ou simplesmente fruto dessa vivência tão íntima com um arvoredo que, só por si, se estende por planícies e colinas como um autêntico oceano de verdura.


Imagem regista pela C.M de Loures, aquando  do lançamento do livroViva a República- Loures 1915″ do jornalista António Valdemar ..



Vou passar de imediato a palavra  ao meu camarada e grande amigo António Valdemar , escritor e um verdadeiro mestre do jornalismo, brilhante orador e conferencista, um prestigiado investigador, sócio  efetivo da Academia das Ciências de Lisboa e da Academia Nacional de Belas Artes. Natural de S. Miguel, Açores,  foi jornalista no Diário de Lisboa, Diário de Notícias, Capital, O Primeiro de Janeiro. Autor de vários livros, nomeadamente: "Ser ou Não Ser pelo Partido Ùnico"; "Garrett, vida e obra"; "Chiado: o peso e a Obra"; "Nemésio, sem limites de idade"; "Viva a República - 1915". Organizou dezenas de exposições de escultores, pintores   e ceramistas. Laureado com a medalha de honra da Sociedade Portuguesa de Autores. Ele que é também um profundo conhecedor e admirador da obra de Carmo Pólvora







REENCONTRO SIMBÓLICO DE CARMO PÓLVORA


A obra de Carmo Pólvora pretende, fundamentalmente, cantar o amor, celebrar a vida e interrogar o mundo visível e invisível que a rodeia e nos envolve: a fatalidade da crise, a amplitude das atrocidades e a dimensão da tragédia que estamos condenados a suportar.
Ao concluir, em 2013, 40 anos de carreira profissional, expondo regularmente, nas principais cidades portuguesas e em espaços artísticos de prestígio internacional, de Paris, Bruxelas, Tóquio, Osaka, Berlim, Frankfurt, Carmo Pólvora apresenta, desta vez na Galeria Thuller, em Paris, um conjunto de pinturas subordinado ao título genérico ‘Invenção dos Mares’.
Predomina nesta série de óleos sobre tela a narrativa real e simbólica da História Trágico-Marítima que é, tal como Os Lusíadas, de Luis de Camões, e a Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, uma das referências emblemáticas da cultura portuguesa.
Os Lusíadas refletem, num discurso épico, os grandes problemas do tempo de Camões e as grandes questões dos tempos que o antecederam, a História de Portugal desde a fundação da nacionalidade até à descoberta do caminho marítimo para a Índia.

Despojada da epopeia, a Peregrinação confronta-nos com as proezas e desventuras do andarilho e do marinheiro português. Recupera as torrentes da memória: a evidência da condição humana na sua interminável diversidade. Veio acrescentar, sem papas na língua, à saga dos heróis que ressurgem n’ Os Lusíadas, a velhacaria dos traficantes portugueses, as rábulas, as manhas, a astúcia, os roubos e o ecletismo sexual dos «cães malditos do cabo do mundo».
Obra coletiva de cronistas, poetas e escritores, a História Trágico – Marítima conduz-nos a verificar nos seus relatos a coragem dos que arrostaram «a fatalidade dos perigos», «arriscando vida e fazendas», «dando nome com as viagens e sepulturas a países incógnitos e bárbaros». Mas a leitura da História Trágico – Marítima também deve ser entendida como «escola de cautelas», em face da «ira dos mares ou o descuido dos pilotos». O universo textual não se circunscreve, porém e apenas, à anarquia da organização das armadas, à impreparação dos pilotos, às deficiências na construção das naus, ao excesso de cargas no regresso.
Livro negro de Portugal nos mares, a História Trágico - Marítima ultrapassa a cólera das ventos e das vagas alterosas, a ausência de formação humana e profissional, a falta de um projeto mais amplo do que a mera exigência de precauções a adotar, em matéria de navegação e de transporte. Leva-nos a olhar para dentro de Portugal. Faz-nos sentir, página a página, esta verdade nua e crua: cada naufrágio, é o próprio País que também naufraga. Sempre e cada vez mais.
 A génese da exposição de Carmo Pólvora, na Galeria Thuller, em Paris, tem raízes no conhecimento da História Trágico - Marítima que nos explica a ruína do império e a progressiva decadência de Portugal. Resulta, sem margem para equívocos, de condicionalismos e vicissitudes ancestrais: dos descarados e repetidos atos de corrupção, dos interesses inconfessáveis, do improviso, dum sistema de educação e ensino obsoletos; da implacável dependência da Inquisição (das varias Inquisições que nos amordaçaram e amordaçam em diversas conjunturas), do desperdiçar de energias, das ruturas e desvios na continuidade de um plano nacional de ação política, desinserido de um modelo de sociedade voltado para as necessidades do presente e os imperativos do futuro.
A série ‘Invenção dos Mares’, que denuncia a criatividade e o domínio do ofício de Carmo Pólvora, comprovados em quatro décadas de atividade profissional, integra obras como ‘Invenção da Água’, ‘Caligrafia dos Mares’, ‘Mar Habitado’ e ‘Tempestade Azul’, que estabelecem entre a pintura e o pintor, um diálogo de situações de tensão e forte dramatismo. Mas sem excluir o intenso cromatismo do azul da utopia possível e impossível e dos sinais da esperança, mesmo exígua, que desponta no horizonte longínquo ou próximo, quando as ameaças se tornam mais inquietantes. Por tudo isto, e em face desta exposição de Carmo Pólvora, nos sentimos, quer queiramos, quer não queiramos, participantes ativos e cúmplices obrigatórios.
              
Antonio Valdemar
Presidente da Academia Nacional de Belas Artes
Abril de 2013

NOUVELLE RENCONTRE SYMBOLIQUE
DE CARMO PÓLVORA

L’œuvre de Carmo Pólvora veut, fondamentalement, chanter l’amour, célébrer la vie et interroger le monde visible et invisible qui l’entoure et nous implique: la fatalité de la crise, l’ampleur des atrocités et la dimension de la tragédie que nous sommes condamnés à supporter.
En complétant, en 2013, 40 ans de carrière professionnelle, exposant régulièrement dans les principales villes portugaises et en des locaux artistiques de prestige international, de Paris, Bruxelles, Tokyo, Osaka, Berlin, Frankfurt, Carmo Pólvora présente, cette fois-ci à la Galerie Thuillier, à Paris, un ensemble de peintures subordonné au titre générique « Invention des Mers».
Dans cette série d’huiles sur toile prédomine la narrative réelle et symbolique l’Histoire du Voyage Tragique-Maritime qui est, tel que Les Lusiades de Luiz de Camoens, et le Pèlerinage de Fernão Mendes Pinto, une des références nucléaires de la culture portugaise.
Les Lusiades reflètent dans un discours épique, les grands problèmes du temps de Camoens et les grandes questions des temps qui l’ont précédé, l’Histoire de Portugal depuis la fondation de la nationalité jusqu’au voyage du chemin maritime pour l’Inde.
Dépouillée de l’épopée, le Pèlerinage nous confronte avec les prouesses et mésaventures du coureur et du marin portugais. Récupère les torrents de la mémoire : évidence de la condition humaine dans son interminable diversité. Il a ajouté sans avoir la pépie, à la saga des héros qui résurgent dans Les Lusiades, la vacherie des trafiquants portugais, les pannes, les ruses, l’astuce, les vols et l’éclectisme sexuel des « chiens maudits du cap du monde ».

Œuvre collective de chroniqueurs, poètes et écrivains, l’Histoire Tragique-Maritime nous conduit à vérifier dans ses compte-rendu le courage de ceux qui ont affronté « la fatalité des dangers », « en risquant vie et domaines », « nommant avec les voyages et les sépultures des pays incognitos et barbares » Mais la lecture de l’Histoire Tragique-Maritime aussi désignée comme « école de prévoyances », face à la « rage des mers ou à la négligence des pilotes ». L’univers textuel ne se circonscrit pas, cependant et seulement, à l’anarchie de l’organisation des armées, à l’impréparation des pilotes, aux défaillances dans la construction des vaisseaux, aux chargements excessifs au retour.
Livre noir de Portugal dans les mers, l’Histoire Tragique-Maritime dépasse la colère des vents et des vagues altières, l’absence de formation humaine et professionnelle, le manque d’un projet beaucoup plus ample que la simple existence d’une « école de prévoyances » à adopter, en matière de navigation et de transport. Il nous amène à regarder au sein de Portugal. Il nous fait sentir, page à page, cette vérité nue et crue : à chaque naufrage, c’est le Pays même qui naufrage également chaque fois plus.

La genèse de l’exposition de Carmo Pólvora réalisée maintenant à la Galerie Thuillier, à Paris, a ses racines dans la connaissance de l’Histoire Tragique-Maritime qui nous explique la ruine de l’empire et la progressive décadence de Portugal. Cela a été le résultat, sans aucune marge d’erreur, de contraintes et de vicissitudes ancestrales : des sans vergogne et répétés actes de corruption, des intérêts non avoués, de l’improviste, d’un système d’éducation et d’enseignement obsolètes ; de l’implacable dépendance de l’Inquisition, (des Inquisitions diverses et variées qui nous ont bâillonné en plusieurs conjonctures), du gâchis d’énergie, des ruptures et des déviations dans la continuité d’un plan national d’action politique, sans un modèle de société tourné vers les nécessités du présent et les impératifs du futur.
La série «Invention des Mers », qui dénonce la créativité et le domaine du métier de Carmo Pólvora, prouvés en quatre décennies d’activité professionnelle, intègre des œuvres tels que « Invention de l’eau », Calligraphie des Mers », « Mer Habitée » et « Tempête Bleu », qu’établissent entre la peinture et le peintre un dialogue de situations de tension, de fort dramatisme. Mais sans exclure l’intense chromatisme du bleu de l’utopie possible et impossible et des signes de l’espoir même exigu qui commence à paraître à l’horizon lointain ou proche, quand les menaces deviennent plus inquiétantes. Pour tout cela, et face à cette exposition de Carmo Pólvora, nous nous sentons, que l’on veuille ou on ne le veuille pas, des participants actifs et des complices obligatoires.  
    
Antonio Valdemar
Président de l’Académie National des Beaux Arts
Avril 2013






Nota biográfica

Nasce em Leiria, radica-se em Lisboa, onde vive e trabalha como professora e artista plástica.
É licenciada em pintura, com especialização em gravura artística de metal, pela Faculdade de Belas Artes da Universidade Clássica de Lisboa. Gradua-se em ciências pedagógicas e, no curso de psicologia e psicanálise – Universidade Clássica de Lisboa -, realiza algumas cadeiras, como contributo para a investigação nas artes.
No Instituto de Artes e Ofícios da Fundação Ricardo Espírito Santo desenvolve projectos como professora de desenho e tecnologia de pintura.
Em 1985 constitui o ‘Grupumus’ (de arte). É membro efectivo da Cooperativa de Gravura Portuguesa e da Sociedade Nacional de Belas Artes. É cofundadora da oficina de gravura Grafil/Diferença.  

Expõe com regularidade desde 1973/74 em galerias e museus, portugueses e internacionais, entre os quais Fundação Calouste Gulbenkian - Lisboa, Galeria Arte e Manifesto - Porto, Jeunne Pinture Portuguese - Centre Georges Pompidou - Paris, Fundação Calouste Gulbenkian - Paris e Galerie Thuillier - Paris, Galeria Dedobox - Nice, Galerie La Forge e Embaixada Portuguesa na Bélgica - Bruxelas, International Biennal Print Exhibit - Tóquio e Osaka, Fundação Oriente - Macau, Bienal Den Europaischen Grafik e Galeria Hiedelberg - Berlim, Galeria Rotterstr - Mannhein, Bienal Internacional de Gravura-Cracóvia, Museu de Arte Brasileira F.A.A.P. - São Paulo e MAC - Museu de Arte Contemporânea - Rio de Janeiro, entre outras.
Em 2010 realiza a exposição comemorativa dos 35 anos de actividade artística ‘Invenção da Água’ - Museu da Água, Lisboa e Leiria.
Está representada em museus, colecções e edições de arte. A sua obra é premiada em Portugal (Museu de Setúbal e Cidades Congéneres, Cooperativa de Gravura Portuguesa e Edição/Aquisição Banco do Fomento Nacional), no Brasil (S.E.S.C. Tijuca - Rio de Janeiro), em Espanha (Máximo Ramos - La Corunha).

5/Maio/2013