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Entre outros assuntos, falo da escalada ao Pico Cão Grande e das minhas aventuras em canoas – Visam defender a teoria de que antigos povos africanos, podiam ter sido os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo da Guiné, antes dos colonizadores – Parti à meia-noite, disfarçado de pescador, ligando a ilha do Príncipe. Para me orientar, uma rudimentar bússola – A canoa era minúscula, à segunda noite adormeci: rolei na escuridão das vagas. No regresso fui distinguido com sopapos da policia salazarista, enviado para os calabouços – Cinco anos depois, numa piroga maior, fiz a ligação São Tomé-Nigéria. Partindo igualmente à noite, 13 dias depois atingia uma praia de Calabar, tendo sido detido 17 dias por suspeita de espionagem. - No mesmo ano, já com São Tomé e Príncipe independente, tentei a travessia São Tomé ao Brasil, usando os mesmos recursos. Além de pretender reforçar a minha teoria, desejava evocar a rota da escravatura e repetir a experiência de Alain Bombard. Porém, quis a ironia do destino que vivesse a difícil provação de um naufrágio de 38 longos dias, tendo aportado numa praia de Bioko (Bococo)onde fui recambiado para a famosa prisão de Black Beach

sexta-feira, 10 de maio de 2013

"Invenção dos Mares" na História Trágico Marítima por Carmo Pólvora, na Galerie Thullier, em Paris - Exposição de 10 a 23 de Maio 2013 - A arte de celebrar os enigmas do absoluto, do encantamento, o instante da revelação - Só os céus e os mares, nos oferecem o mistério e a grandeza dessa dimensão.

Se tiver dificuldade em aceder à primeira postagem deste mês, pode fazê-lo através deste linke ODISSEIA BIZARRA 


La galerie Thuillier présent - Carmo Pólvora. 
Vernissage le Mardi 14 Mai 2013 de 18h à 21h - Exposition du 10 au 23 Mai 2013
13 rue de Thorigny 750003 Paris


Carmo Pólvora expõe hoje um conjunto das suas obras numa galeria, em Paris,  subordinadas ao tema genérico a "Invenção dos Mares", tendo  por fonte de inspiração "a narrativa  real e simbólica da História Trágico-Marítima". Tema que também me é particularmente caro, daí achar oportuno, de, ao mesmo tempo ter  o prazer de aqui  fazer a sua divulgação,  homenagear uma grande artista e uma boa amiga, de longa data, neste meu site, dedicado especialmente a temática marítima e às minhas aventuras nos mares do Golfo da Guiné.





Não é a primeira vez que os seus quadros são expostos na grande cidade da luz, do amor e da moda. Em outras cidades de França, Bélgica, Alemanha, Espanha, Macau, Brasil, entre outros países. Nos seus 38 anos de atividade artística, contam-se por inúmeras as exposições, individuais e coletivas, nas mais prestigiadas  galerias nacionais e internacionais, com representação permanente em vários museus e instituições. Trata-se, com efeito, de uma das artistas portuguesas de nome consagrado nas artes plásticas

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Sou amigo de Carmo, desde meados dos anos 80. Tenho pela sua obra e pela sua personalidade um especial carinho e admiração. De vez em quando, mais por obra do caso, lá nos encontramos pela FNAC  do Chiado ou nalguma exposição. Sucedeu neste último Sábado. Estava ela e a Marisa Dias. Foi então que fiquei a saber que ia expor em França para onde ia partir no dia seguinte. Por isso mesmo, e, como já há algum tempo, não nos víamos, fomos tomar um cafezinho à Pastelaria Bernard - Momentos agradáveis e  espirituosos, como acontece quando se convive com a Carmo. Entre nós, há, pois,  um mútuo sentimento de   amizade e de respeito, duradouro,  que emana, desde que nos conhecemos (quando a entrevistei para a Rádio Comercial) e de  um elemento comum,   a enorme paixão pelo mar. Ela nasceu em Leiria. Além disso, é do signo caranguejo, cujo elemento é a água. Teve o seu primeiro batismo na Praia da Figueira da Foz, aos 4 anos. Eu só o teria aos 12 anos na Praia de Algés, mas tendo nascido bem mais longe da costa marítima, do que ela. - Por certo, já em criança, também quantas vezes deslumbrada pela maravilhosa paisagem do verde mar do mítico Pinhal de Leiria, mandado  plantar por D. Dinis, o Lavrador, cujas madeiras  viriam a ter um papel determinante na construção das caravelas  da epopeia  dos descobrimentos marítimos portugueses - Daí esse apego aos temas marinhos, porventura ainda mais reforçado, devido à herança de um certo subconsciente ancestral ou simplesmente fruto dessa vivência tão íntima com um arvoredo que, só por si, se estende por planícies e colinas como um autêntico oceano de verdura.


Imagem regista pela C.M de Loures, aquando  do lançamento do livroViva a República- Loures 1915″ do jornalista António Valdemar ..



Vou passar de imediato a palavra  ao meu camarada e grande amigo António Valdemar , escritor e um verdadeiro mestre do jornalismo, brilhante orador e conferencista, um prestigiado investigador, sócio  efetivo da Academia das Ciências de Lisboa e da Academia Nacional de Belas Artes. Natural de S. Miguel, Açores,  foi jornalista no Diário de Lisboa, Diário de Notícias, Capital, O Primeiro de Janeiro. Autor de vários livros, nomeadamente: "Ser ou Não Ser pelo Partido Ùnico"; "Garrett, vida e obra"; "Chiado: o peso e a Obra"; "Nemésio, sem limites de idade"; "Viva a República - 1915". Organizou dezenas de exposições de escultores, pintores   e ceramistas. Laureado com a medalha de honra da Sociedade Portuguesa de Autores. Ele que é também um profundo conhecedor e admirador da obra de Carmo Pólvora







REENCONTRO SIMBÓLICO DE CARMO PÓLVORA


A obra de Carmo Pólvora pretende, fundamentalmente, cantar o amor, celebrar a vida e interrogar o mundo visível e invisível que a rodeia e nos envolve: a fatalidade da crise, a amplitude das atrocidades e a dimensão da tragédia que estamos condenados a suportar.
Ao concluir, em 2013, 40 anos de carreira profissional, expondo regularmente, nas principais cidades portuguesas e em espaços artísticos de prestígio internacional, de Paris, Bruxelas, Tóquio, Osaka, Berlim, Frankfurt, Carmo Pólvora apresenta, desta vez na Galeria Thuller, em Paris, um conjunto de pinturas subordinado ao título genérico ‘Invenção dos Mares’.
Predomina nesta série de óleos sobre tela a narrativa real e simbólica da História Trágico-Marítima que é, tal como Os Lusíadas, de Luis de Camões, e a Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, uma das referências emblemáticas da cultura portuguesa.
Os Lusíadas refletem, num discurso épico, os grandes problemas do tempo de Camões e as grandes questões dos tempos que o antecederam, a História de Portugal desde a fundação da nacionalidade até à descoberta do caminho marítimo para a Índia.

Despojada da epopeia, a Peregrinação confronta-nos com as proezas e desventuras do andarilho e do marinheiro português. Recupera as torrentes da memória: a evidência da condição humana na sua interminável diversidade. Veio acrescentar, sem papas na língua, à saga dos heróis que ressurgem n’ Os Lusíadas, a velhacaria dos traficantes portugueses, as rábulas, as manhas, a astúcia, os roubos e o ecletismo sexual dos «cães malditos do cabo do mundo».
Obra coletiva de cronistas, poetas e escritores, a História Trágico – Marítima conduz-nos a verificar nos seus relatos a coragem dos que arrostaram «a fatalidade dos perigos», «arriscando vida e fazendas», «dando nome com as viagens e sepulturas a países incógnitos e bárbaros». Mas a leitura da História Trágico – Marítima também deve ser entendida como «escola de cautelas», em face da «ira dos mares ou o descuido dos pilotos». O universo textual não se circunscreve, porém e apenas, à anarquia da organização das armadas, à impreparação dos pilotos, às deficiências na construção das naus, ao excesso de cargas no regresso.
Livro negro de Portugal nos mares, a História Trágico - Marítima ultrapassa a cólera das ventos e das vagas alterosas, a ausência de formação humana e profissional, a falta de um projeto mais amplo do que a mera exigência de precauções a adotar, em matéria de navegação e de transporte. Leva-nos a olhar para dentro de Portugal. Faz-nos sentir, página a página, esta verdade nua e crua: cada naufrágio, é o próprio País que também naufraga. Sempre e cada vez mais.
 A génese da exposição de Carmo Pólvora, na Galeria Thuller, em Paris, tem raízes no conhecimento da História Trágico - Marítima que nos explica a ruína do império e a progressiva decadência de Portugal. Resulta, sem margem para equívocos, de condicionalismos e vicissitudes ancestrais: dos descarados e repetidos atos de corrupção, dos interesses inconfessáveis, do improviso, dum sistema de educação e ensino obsoletos; da implacável dependência da Inquisição (das varias Inquisições que nos amordaçaram e amordaçam em diversas conjunturas), do desperdiçar de energias, das ruturas e desvios na continuidade de um plano nacional de ação política, desinserido de um modelo de sociedade voltado para as necessidades do presente e os imperativos do futuro.
A série ‘Invenção dos Mares’, que denuncia a criatividade e o domínio do ofício de Carmo Pólvora, comprovados em quatro décadas de atividade profissional, integra obras como ‘Invenção da Água’, ‘Caligrafia dos Mares’, ‘Mar Habitado’ e ‘Tempestade Azul’, que estabelecem entre a pintura e o pintor, um diálogo de situações de tensão e forte dramatismo. Mas sem excluir o intenso cromatismo do azul da utopia possível e impossível e dos sinais da esperança, mesmo exígua, que desponta no horizonte longínquo ou próximo, quando as ameaças se tornam mais inquietantes. Por tudo isto, e em face desta exposição de Carmo Pólvora, nos sentimos, quer queiramos, quer não queiramos, participantes ativos e cúmplices obrigatórios.
              
Antonio Valdemar
Presidente da Academia Nacional de Belas Artes
Abril de 2013

NOUVELLE RENCONTRE SYMBOLIQUE
DE CARMO PÓLVORA

L’œuvre de Carmo Pólvora veut, fondamentalement, chanter l’amour, célébrer la vie et interroger le monde visible et invisible qui l’entoure et nous implique: la fatalité de la crise, l’ampleur des atrocités et la dimension de la tragédie que nous sommes condamnés à supporter.
En complétant, en 2013, 40 ans de carrière professionnelle, exposant régulièrement dans les principales villes portugaises et en des locaux artistiques de prestige international, de Paris, Bruxelles, Tokyo, Osaka, Berlin, Frankfurt, Carmo Pólvora présente, cette fois-ci à la Galerie Thuillier, à Paris, un ensemble de peintures subordonné au titre générique « Invention des Mers».
Dans cette série d’huiles sur toile prédomine la narrative réelle et symbolique l’Histoire du Voyage Tragique-Maritime qui est, tel que Les Lusiades de Luiz de Camoens, et le Pèlerinage de Fernão Mendes Pinto, une des références nucléaires de la culture portugaise.
Les Lusiades reflètent dans un discours épique, les grands problèmes du temps de Camoens et les grandes questions des temps qui l’ont précédé, l’Histoire de Portugal depuis la fondation de la nationalité jusqu’au voyage du chemin maritime pour l’Inde.
Dépouillée de l’épopée, le Pèlerinage nous confronte avec les prouesses et mésaventures du coureur et du marin portugais. Récupère les torrents de la mémoire : évidence de la condition humaine dans son interminable diversité. Il a ajouté sans avoir la pépie, à la saga des héros qui résurgent dans Les Lusiades, la vacherie des trafiquants portugais, les pannes, les ruses, l’astuce, les vols et l’éclectisme sexuel des « chiens maudits du cap du monde ».

Œuvre collective de chroniqueurs, poètes et écrivains, l’Histoire Tragique-Maritime nous conduit à vérifier dans ses compte-rendu le courage de ceux qui ont affronté « la fatalité des dangers », « en risquant vie et domaines », « nommant avec les voyages et les sépultures des pays incognitos et barbares » Mais la lecture de l’Histoire Tragique-Maritime aussi désignée comme « école de prévoyances », face à la « rage des mers ou à la négligence des pilotes ». L’univers textuel ne se circonscrit pas, cependant et seulement, à l’anarchie de l’organisation des armées, à l’impréparation des pilotes, aux défaillances dans la construction des vaisseaux, aux chargements excessifs au retour.
Livre noir de Portugal dans les mers, l’Histoire Tragique-Maritime dépasse la colère des vents et des vagues altières, l’absence de formation humaine et professionnelle, le manque d’un projet beaucoup plus ample que la simple existence d’une « école de prévoyances » à adopter, en matière de navigation et de transport. Il nous amène à regarder au sein de Portugal. Il nous fait sentir, page à page, cette vérité nue et crue : à chaque naufrage, c’est le Pays même qui naufrage également chaque fois plus.

La genèse de l’exposition de Carmo Pólvora réalisée maintenant à la Galerie Thuillier, à Paris, a ses racines dans la connaissance de l’Histoire Tragique-Maritime qui nous explique la ruine de l’empire et la progressive décadence de Portugal. Cela a été le résultat, sans aucune marge d’erreur, de contraintes et de vicissitudes ancestrales : des sans vergogne et répétés actes de corruption, des intérêts non avoués, de l’improviste, d’un système d’éducation et d’enseignement obsolètes ; de l’implacable dépendance de l’Inquisition, (des Inquisitions diverses et variées qui nous ont bâillonné en plusieurs conjonctures), du gâchis d’énergie, des ruptures et des déviations dans la continuité d’un plan national d’action politique, sans un modèle de société tourné vers les nécessités du présent et les impératifs du futur.
La série «Invention des Mers », qui dénonce la créativité et le domaine du métier de Carmo Pólvora, prouvés en quatre décennies d’activité professionnelle, intègre des œuvres tels que « Invention de l’eau », Calligraphie des Mers », « Mer Habitée » et « Tempête Bleu », qu’établissent entre la peinture et le peintre un dialogue de situations de tension, de fort dramatisme. Mais sans exclure l’intense chromatisme du bleu de l’utopie possible et impossible et des signes de l’espoir même exigu qui commence à paraître à l’horizon lointain ou proche, quand les menaces deviennent plus inquiétantes. Pour tout cela, et face à cette exposition de Carmo Pólvora, nous nous sentons, que l’on veuille ou on ne le veuille pas, des participants actifs et des complices obligatoires.  
    
Antonio Valdemar
Président de l’Académie National des Beaux Arts
Avril 2013






Nota biográfica

Nasce em Leiria, radica-se em Lisboa, onde vive e trabalha como professora e artista plástica.
É licenciada em pintura, com especialização em gravura artística de metal, pela Faculdade de Belas Artes da Universidade Clássica de Lisboa. Gradua-se em ciências pedagógicas e, no curso de psicologia e psicanálise – Universidade Clássica de Lisboa -, realiza algumas cadeiras, como contributo para a investigação nas artes.
No Instituto de Artes e Ofícios da Fundação Ricardo Espírito Santo desenvolve projectos como professora de desenho e tecnologia de pintura.
Em 1985 constitui o ‘Grupumus’ (de arte). É membro efectivo da Cooperativa de Gravura Portuguesa e da Sociedade Nacional de Belas Artes. É cofundadora da oficina de gravura Grafil/Diferença.  

Expõe com regularidade desde 1973/74 em galerias e museus, portugueses e internacionais, entre os quais Fundação Calouste Gulbenkian - Lisboa, Galeria Arte e Manifesto - Porto, Jeunne Pinture Portuguese - Centre Georges Pompidou - Paris, Fundação Calouste Gulbenkian - Paris e Galerie Thuillier - Paris, Galeria Dedobox - Nice, Galerie La Forge e Embaixada Portuguesa na Bélgica - Bruxelas, International Biennal Print Exhibit - Tóquio e Osaka, Fundação Oriente - Macau, Bienal Den Europaischen Grafik e Galeria Hiedelberg - Berlim, Galeria Rotterstr - Mannhein, Bienal Internacional de Gravura-Cracóvia, Museu de Arte Brasileira F.A.A.P. - São Paulo e MAC - Museu de Arte Contemporânea - Rio de Janeiro, entre outras.
Em 2010 realiza a exposição comemorativa dos 35 anos de actividade artística ‘Invenção da Água’ - Museu da Água, Lisboa e Leiria.
Está representada em museus, colecções e edições de arte. A sua obra é premiada em Portugal (Museu de Setúbal e Cidades Congéneres, Cooperativa de Gravura Portuguesa e Edição/Aquisição Banco do Fomento Nacional), no Brasil (S.E.S.C. Tijuca - Rio de Janeiro), em Espanha (Máximo Ramos - La Corunha).

5/Maio/2013


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