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Entre outros assuntos, falo da escalada ao Pico Cão Grande e das minhas aventuras em canoas – Visam defender a teoria de que antigos povos africanos, podiam ter sido os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo da Guiné, antes dos colonizadores – Parti à meia-noite, disfarçado de pescador, ligando a ilha do Príncipe. Para me orientar, uma rudimentar bússola – A canoa era minúscula, à segunda noite adormeci: rolei na escuridão das vagas. No regresso fui distinguido com sopapos da policia salazarista, enviado para os calabouços – Cinco anos depois, numa piroga maior, fiz a ligação São Tomé-Nigéria. Partindo igualmente à noite, 13 dias depois atingia uma praia de Calabar, tendo sido detido 17 dias por suspeita de espionagem. - No mesmo ano, já com São Tomé e Príncipe independente, tentei a travessia São Tomé ao Brasil, usando os mesmos recursos. Além de pretender reforçar a minha teoria, desejava evocar a rota da escravatura e repetir a experiência de Alain Bombard. Porém, quis a ironia do destino que vivesse a difícil provação de um naufrágio de 38 longos dias, tendo aportado numa praia de Bioko (Bococo)onde fui recambiado para a famosa prisão de Black Beach

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

São Tomé - “Museu Almada Negreiros”, na Roça Saudade – Um sonho e um Berço - Das ruinas, onde nasceu o autor do “Manifesto Anti-Dantas se fez roteiro turístico e memorial obra cultural - Joaquim Victor esteve em Portugal onde recolheu vários apoios - Inauguração para breve



Por Jorge Trabulo Marques - Jornalista - Neste post pode também ler um poema de Olinda Beja, dedicado a Almada Negreiros, e ainda um outro de António Lobo Almada Negreiros (pai), ao poeta Costa Alegre - Numa das próximas postagens, tencionamos editar (com fotos) a única entrevista que o escultor e pintor eugenista Pascoal Viegas Vilhete (Canarim)  deu em sua vida - Outro filho ilustre santomense -De quem muito se fala mas de que se lhe desconhece a imagem Mas nós temo-la, pois, neste site, também se faz história.







Almada Negreiros

"Deus quer, o homem sonha, a obra nasce." – E assim também renasceu das ruínas a casa onde nasceu Almada Negreiros, na Roça Saudade, em São Tomé, graças à corrida solitária de Joaquim Cabangala Victor, guia turístico, natural de São Tomé. Certo de que a sua ideia  podia transformar uns já irreconhecíveis caboucos numa Casa de Artes e Museu, em memória do genial pintor, poeta, romancista e dramaturgo e abraçar um apaixonante projeto de vida.

Isto porque "O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem.  Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis” – O pensamento também é de Fernando Pessoa e  bem podia aplicar-se  ao projeto  que pretende restaurar os passos perdidos e os mais longínquos de um dos principais mentores do modernismo português e contemporâneo do poeta da Geração de Orpheu 

Nós, que tivemos oportunidade de o conhecer pessoalmente na emocionante visita que efetuámos à Roça Saudade, quase ao fim da tarde do dia 22 de Outubro,

  pedimos-lhe que, quando viesse a Portugal, nos telefonasse – 


E assim fez: podendo assim inteirar-nos das diligências que aqui efetuou e até de o acompanharmos à Galeria de Arte do Casino Estoril, onde foi recebido pelo Dr. Nuno Lima de Carvalho, a quem deu igualmente a conhecer os objetivos do seu projeto, praticamente já em vias de estar concluído e de ser inaugurado em breve

Outros contatos se seguiram, nomeadamente com a filha de Almada Negreiros, bem assim junto de várias entidades, donde recolheu alguns apoios ou a promessa de lhos virem a conceder - Pena já não ser vivo o seu filho José Afonso de Almada Negreiros, que tanto desejava ir conhecer a roça onde seu pai  e avó materna nasceram. A foto, ao lado, foi registada no ano em que faleceu 


SALAZAR E OS FAMOSOS PAINÉIS DE ALMADA - A ARTE É UM CONCEITO DE BELEZA QUE O ARTISTA OFERECE AO MUNDO MAS QUE NEM TODO MUNDO ENTENDE

Até Duarte Pacheco se foi queixar a Salazar da arte de Almada
 "11 de Outubro de 1955 - 

Veio o Duarte Pacheco queixar-se dos painéis que Almada Negreiros está a pintar na Estação Marítima de Alcântara. Acha-os exagerados e de mau gosto.

Chamei o Ferro. Afiançou que Pacheco não os entendia. A obra era magnífica.

Perguntei-lhe se estava certo disso.

Responsabilizou-se por eles. Ficaram.

Dar uma alfinetada ao Pacheco é um dos poucos prazeres que admito a mim próprio. Quanto aos painéis, ainda não os vi. " – In Diário de Salazar . António Trabulo

MUSEU E  CASA DE ARTES – PROJECTO CULTURAL E TURÍSTICO


Transformar as ruínas da casa onde nasceu Almada Negreiros, numa Casa de Arte, foi o pensamento que norteou Joaquim Victor, mesmo partindo quase de mãos vazias, confiante na sua determinação e no alcance cultural e turístico da sua iniciativa  -A edificação de uma casa de madeira, alpendrada, assente justamente sobre algumas colunas e rebocos do antigo solar, é já uma belíssima realidade.

Tal como anunciara,  neste site, em 16 de Novembro passado, a propósito da minha revisitação à Roça Saudade, confirma-se, pois,  a conclusão do espaço destinado ao restaurante – A área destinada ao Museu de Almada Negreiros e à Casa das Artes, um pouco mais atrasada, espera-se que esteja pronta  em breve.


UM ESQUECIMENTO COM RAÍZES NO TEMPO

 
Após, a publicação, deste post, recebi um e-mail da poeta Olinda Beja, acerca do estado de abandono das ruínas da antiga sede da Roça Saudade. acompanhada de um lindo poema a Almada Negreiros, publicado em Água Crioula, que teve a amabilidade de me enviar, que vem reforçar as minhas palavras sobre a indesculpável negligência a que, Portugal, tem votado a memória de Almada Negreiros, em São Tomé - Olinda, que, logo a seguir me vem dizer ter-se esquecido de referir que esteve na Roça Saudade em Abril passado, tendo voltado  lá agora em Dezembro mas que não teve " a sorte de encontrar o responsável pois gostaria de o felicitar"

Mas no primeiro diz o seguinte: “desde 1985 que visitei pela primeira vez as ruínas da casa onde nasceu Almada que falei com várias pessoas para que a sua memória fosse reabilitada na terra onde nasceu. Naquela altura ainda havia uma linda buganvília vermelha que entretanto teria acabado por ser cortada, penso; eu e a Alda Espírito Santo pedimos até ajuda a uma embaixada (não foi à de Portugal!) mas nada se concretizou; é claro que Almada nunca mais voltou ao seu berço e pouco ou nada o publicitou mas foi um homem das artes único no seu tempo, um nome incontornável"

Fico feliz pelas notícias vindas a lume e envio esse poema que faz parte do meu livro "Água Crioula" publicado pela primeira vez em 2002 e depois com várias edições (vai na 6ª)

Um forte abraço e muitos parabéns pelo trabalho que tens feito por essa ilha maravilhosa! - Olinda Beja

A ALMADA NEGREIROS

Voltaste enfim ao regaço das palmeiras
onde serpentes volteiam
e navegam na claridade. Voltaste
porque os teus olhos mitigavam
palavras entontecidas cheias de água fresca
da cascata. Voltaste trazendo cânticos
de outras terras
cânticos de trovadores desconhecidos
teceste roupas diferentes mas sempre
com as cores das buganvílias da Saudade
apagaste pegadas antigas no luchan
da tua meninice. Mas voltaste!

Esperaste que o ranger da porta
da casa onde nasceste se prolongasse
no júbilo do teu regresso

hoje
sentado no presídio da Marginal
onde ninguém nota o teu vulto altivo e belo
só eu sei que voltaste
e por que voltaste                         

Olinda BEJA  in  “Água Crioula”

ALMADA NEGREIROS  - AFRICANO

José de Almada Negreiros nasceu em S. Tomé, na Roça Saudade, freguesia da Trindade, às 3 horas da manhã cio dia 7 de Abril de 1893.



Da terra da sua naturalidade foi arrancado, na tenra idade de 2 anos, e transplantado para Lisboa, em 23 de Abril de 1895, passando a viver em Cascais, em casa dos avós e tios maternos, da família Freire Sobral. – Estes são os primeiros pormenores biográficos daquele que viria a ser considerado uma figura decisiva na cultura portuguesa do século XX -  Foi em Portugal, com passagens por Madrid e Paris, que ele, embora  essencialmente autodidata (pois não frequentou qualquer escola de ensino artístico), que atingiria a notoriedade artística e literária, como figura ímpar na primeira vanguarda modernista."

Todavia, é em S. Tomé, como diria, o Padre António Ambrósio, autor da biografia Almada Negreiros Africano: filho de S. Tomé e neto de Angola, que ele abriria os olhos à luz do dia. E, aconteça o que acontecer pela vida fora, o torrão natal é marcante para o resto da vida. E, então, sobretudo, num ambiente,  tão maravilhoso e paradisíaco, como é o da Ilha de s. Tomé, e, muito particularmente, o da Roça  Saudade, já que, segundo descrição de seu pai, António lobo Almada Negreiros, também ele poeta e escritor, ali «A Natureza gigante , sugestiva, nova, eleva a alma menos contemplativa. Há um não se quê de misterioso  e de sobrenatural em tudo isto, que se vê e  não se descreve  com facilidade. Altas serras cortadas a pique, em perfeitas paralelas, tapetadas d'alto abaixo de alguns fetos gigantes e outros muitos arbustos coloridos, apertam em baixo, onde a vista a custo alcança, as águas sussurrantes  dos riachos que vão correndo para o mar”

A ROÇA SAUDADE: UM SONHO E UM BERÇO
"A casa  onde Almada nasceu, na sede da Roça Saudade – diz ainda António Ambrósio – “estava suspensa sobre uma profunda grota, e aberta a nascente, por uma varanda corrida, ao estilo tropical, para um mar de verdura, que, depois da primeira quebra, se espraiava, numa ondulação aparentemente suave, por vários quilómetros de extensão, em forma de leque rendilhado, até ao mar-oceano.



(…)Por fora, a Saudade era um mimo. O comendador José António Freire Sobral fizera da sede uma estância modelar: além das instalações para habitação e trabalho, das sanzalas  e dos secadores, e do hospital de boa construção, a Roça tinha um amplo terreiro, onde, como uma bandeira hasteada, se erguia uma elegante palmeira de 54 metros de altura (Veja-se: Almada Negreiros, História Ethnographica da Ilha de S. Tomé, p.272). Na parte superior do terreiro, em zona mais elevada, situavam-se os jardins, dispostos em socalcos. No meio, sobressaía  um artístico  caramanchão, todo coberto de buganvílias e trepadeiras. Junto, uma nascente de água puríssima foi aproveitada para construir  uma pequena  fonte, bem adornada de azulejos  pintados  e com dois grandes jarrões de porcelana envidraçada, aos lados


Aliás, as nascentes de água potável , na Roça Saudade, são óptimas e abundantes. Ali é feita a captação que abastece a Vila da Trindade. Ali mesmo nasce o rio Água Grande, que fornece a cidade. E, próximo, mais acima, nasce também o Manuel Jorge (um dos maiores rios de S. Tomé), que se transforma nas lindíssimas cascatas de S. Nicolau e do Blu-Blu, e constrói, na sua passagem, as maravilhosas «pontes que Deus fez»

Mais acima da Saudade, a caminho do Pico, localizam-se as roças Nova Moka, S. Nicolau e Santa Maria. Esta última pertencia também  a José António Freire Sobral. Era uma dependência rica, sobretudo, em boas madeiras.

Não há dúvida que a Roça Saudade, na sua geografia acidentada e vegetação luxuriante, possui algumas das  lindas paisagens da lindíssima Ilha de S. Tomé. Deixemos ao próprio Almada Negreiros que nos descreve in loco o que era para ele a Roça Saudade: um sonho, um berço encantado para os seus filhos.
FILHO DE S. TOMÉ E NETO DE ANGOLA



Valendo-me ainda do estudo biográfico, de autoria do saudoso Rev. P. António Ambrósio, com quem tive o grato prazer de me encontrar, por várias vezes, tanto em S. Tomé, onde foi sacerdote da paróquia da Trindade, como já após o seu regresso a Portugal, tomo a liberdade da aqui transcrever, alguns extratos do seu livro Almada Negreiros Africano, à semelhança do que fiz com na primeira postagem

De recordar que, António Ambrósio, era possuidor da melhor coleção de livros sobre a história de São Tomé e Príncipe, bem como a mais importante coleção  de moedas e selos destas ilhas. Tudo isso ardeu no incêndio do Chiado. Vivia num dos últimos  andares, fazendo esquina com os Armazéns do Chiado, e, quando se apercebeu, mal teve tempo de fugir - Foram anos de uma vida que se perderam, que o deixaram profundamente triste.  Padre Ambrósio, tal como o Monsenhor Moreira das Neves, que tive o prazer de entrevistar para a Rádio Comercial, eram dos tais sacerdotes que, a par da sua dedicação às causas da fé e da sua religião,  cultivavam um imenso gosto pela cultura. 

“Da terra da sua naturalidade foi arrancado, na tenra idade de 2 anos, e transplantado para Lisboa, em 23 de Abril de 1895, passando a viver em Cascais, em casa dos avós e tios maternos, da família Freire Sobral.

A mãe, Elvira Freire Sobral, morreu na Ilha de S. Tomé, ano e meio depois, a 29 de Dezembro de 1896. O pai, António Lobo de Almada Negreiros, zeloso funcionário e escritor fecundo, sendo Administrador do Concelho, continuou em S. Tomé, totalmente devotado à Administração Colonial. Deixou finalmente a Ilha de S. Tomé, a 22 de Dezembro de 1899, e seguiu para Paris, quase sem passar por Lisboa. O mesmo vapor Loanda levou pai e filho para a Europa ( demais pormenores deste capítulo, encontra-se publicados na nossa primeira postagem que editei no dia 8 de Abril de 2013, e. ,http://www.odisseiasnosmares.com/2013/04/almada-negreiros-comemoracoes-dos-120.html

O NASCIMENTO DE JOSÉ DE ALMADA NEGREIROS

"Naquele berço encantado, que era a sede da Roça Saudade, nasceu José de Almada Negreiros, a 7 de Abril de 1893.

Filho de pais católicos, a criança logo foi levada à igreja da freguesia, para ali ser baptizada, conforme o costume tradicional. A cerimónia teve lugar na paroquial da Vila da Trindade, no dia de S. João Baptista, 24 de Junho, desse ano de 1893, ou seja, dois meses e meio após o nascimento.

Com o menino José, além dos pais, desceram à vila outros familiares, nomeadamente os avós materno, José António Freire Sobral e D. Mariana Emília de Sousa Sobral, os quais foram apresentar o neófito e servir de padrinhos.
A povoação da Trindade fica situada a meio caminho, na descida da Roça Saudade para a cidade, ainda a uns 300 metros de altitude. Por isso o seu clima equatorial é menos rigoroso e a sua paisagem panorâmica lindíssima. 
A fundação do primeiro aglomerado populacional neste lugar, data ainda do século XV, depois que João de Paiva iniciou o povoamento da ilha em 1485, quando Álvaro de Caminha, em 1493, fundou a capital de S. Tomé na Baía de Ana de Chaves. 
Embora situada já na encosta montanhosa e quase no centro geográfico da ilha, tinha por um lado acesso relativamente fácil à cidade, e por outro lado à zona alpina, onde alguns outros renovos se davam melhor. Já desde o século XVI que a Trindade se tornou o mais importante centro populacional e comercial da Ilha de S. Tomé, fora da cidade. Ainda no alvorecer do século XVI, se levantou o primeiro templo, no «morro» ou colina mais próxima da povoação, mirando a cidade e o mar. Consagrado à Santíssima Trindade, o orago originou o toponímico, e mais tarde deu também o nome à Vila da Trindade.

Este templo foi testemunha de algumas das mais importantes cenas da história antiga da Ilha de S. Tomé. Lembremos, por exemplo, que foi dentro dos seus muros sagrados que o Rei Amador, em 9 de Julho de 1595, declarou a sua revolução. Também quando, em 1640, a cidade de S. Tomé foi tomada e saqueada, e a Sé Catedral profanada pelos piratas holandeses, o governo civil e eclesiástico do arquipélago instalou-se na Trindade. Assim, no dia 1 de Dezembro de 1641, a igreja paroquial começou a servir de Sé, ali permanecendo o Cabido até que a cidade foi libertada, -por Lourenço Pires de Távora, em 1644. Desde esses remotos tempos, pois, que a Trindade se orgulha de ser a residência ocasional e habitual dos bispos e governadores, como ainda hoje o é do primeiro chefe do Estado da nova República.

O templo paroquial da Trindade, segundo cremos, esteve sempre no mesmo lugar: porém, tantas vezes foi reparado e reconstruído, que hoje pouco ou quase nada conserva da traça dos primeiros séculos. No Museu Diocesano e no Cartório Paroquial estão guardadas algumas imagens antigas, juntamente com valiosos peças de prata e outros objectos de culto. Devemos notar, todavia, que as imagens antigas hoje ao culto na igreja da Trindade já lá existiam quando José de Almada Negreiros ali foi levado a baptizar. Mais: conserva-se perfeitamente bem, e continua a desempenhar a sua função ministerial. a pia baptismal onde Almada recebeu o primeiro sacramento dos fiéis cristãos (1).

A comitiva vinda da Roça Saudade foi recebida à porta do templo paroquial pelo então prior da freguesia da Trindade, Padre Francisco José Fernandes (2). Seguiu-se a cerimónia religiosa, na sua forma solene.

Uma vez realizado o baptizado, o prior Francisco José Fernandes, de seu próprio punho, lavrou em duplicado a acta do acontecimento, e que depois também assinou juntamente com os pais e padrinhos da criança. 

Neste documento histórico, as assinaturas de António Lobo de Almada Negreiros e de Elvira Sobral de Almada Negreiros são a prova máxima da naturalidade africana do seu filho José de Almada Negreiros (3). 

Era de lei fazer-se a acta em duplicado, pelo que, nos arquivos de S. Tomé, possuímos, hoje, dois livros paralelos com o mesmo registo de nascimento e baptismo de José de Almada Negreiros. Um deles foi já guardado no Arquivo Histórico e o outro continua ainda na Conservatória do Registo Civil.
É do teor seguinte a leitura do registo, conforme o livro guardado no Arquivo Histórico de S. Tomé e Príncipe:

«Aos vinte e quatro dias do mez de Junho do anno mil oitocentos e noventa e três, nesta Egreja Parochial da Santíssima Trindade, Concelho de S. Thomé, Diocese de S. Thomé e Príncipe, baptizei solemnemente um indivíduo do sexo masculino, a quem dei o nome de - JOSÉ- e que nasceu nesta freguesia, na Fazenda Saudade, às tres horas da manhã do dia sete do mcz d' Abril do anno de mil oitocentos e noventa e tres, filho illegítimo de digo legitimo de António Lobo d' Almada Negreiros, casado, natural de Portugal, proprietário, agricultor e de Dona Elvira Sobral de Almada Negreiros, casada, natural desta freguesia, proprietária, parochianos desta freguesia, moradores na mencionada Fazenda, neto paterno de Pedro d' Almada Pereira e de Margarida Francisca de Almada Lobo Branco de Negreiros. Foi padrinho José António Freire Sobral, casado, proprietário e agricultor e madrinha Dona Marianna Emília de Souza Sobral, casada, proprietária e agricultora, os quaes todos sei serem os próprios. E para constar lavrei em duplicado este assento que depois de ser lido e conferido perante os padrinhos comigo o assignaram”- Excerto

 (') Esta pia baptismal é a mesma, na qual Elvira Freire Sobral, mãe de José de Almada Negreiros, foi também baptizada, exactamente 19 anos antes, no dia 23 de Junho de 1874. 





ELVIRA FREIRE SOBRAL FILHA DO COMENDADOR, ESTÁ NOIVA

"A mãe de José de Almada Negreiros, D. Elvira Freire Sobral, nasceu na Roça Saudade, freguesia da Trindade, na Ilha de S. Tomé, a 4 de Setembro de 1873. Era filha natural do Comendador José António Freire Sobral e de Leopoldina Amélia de Azevedo.

Segundo o costume tradicional da religião católica, a criança foi logo levada a baptizar à igreja paroquial, cerimónia que se efectuou a 23 de Junho de 1874. Recebeu o nome de Elvira. Lavrou-se acta do acontecimento.

Naquele tempo, como é sabido, o assento do baptismo servia também, civilmente, de registo de nascimento e, por conseguinte, a acta era também a base primeira da identificação pessoal. Daí, o duplo valor - religioso e civil - do documento passado na igreja.
É do seguinte teor o termo do registo de baptismo e nascimento de ELVIRA, assinado, por lapso, somente pelo oficiante, P.º Pedro José da Costa Quaresma, eclesiástico indígena, prior da freguesia da Trindade, e pelo pai, José António Freire Sobral.

«Aos vinte e três dias do mez de Junho de mil oito centos e setenta e quatro, n'esta freguezia da Santíssima Trindade, da Ilha de S. Thomé, baptizei com imposição dos Santos óleos "de more", a criança de nome - ELVIRA - filha natural de José António Freire Sobral e de Leopoldina Amélia de Azevedo, neta paterna de António Pereira e de Joana Maria, naturais de Sobral de Monte Agraço, freguezia de Santo Quintino, e materna de Manuel de Azevedo Pereira e Luzia, sendo o avô natural de Santarém e a avó de Benguella. Sendo seus padrinhos João da Costa Guimarães e D. Amélia da Glória Carlota de Azevedo. A criança nasceu em quatro de Septembro de mil oito centos e setenta e tres. na Roça Saudade, pertencente a esta freguezia. E para constar fiz o prezente termo, que vai por mim assignado, pae da criança, padrinhos e testemunhas assistentes a este acto. 11 P.º Pedro José da Costa Quaresma 11 José Ant.º Freire Sobral.» (1) 

Deste importante documento, desde já, queremos sublinhar, primeiramente, uma dupla curosidade: Elvira Freire Sobral nasceu na Roça Saudade e na mesma casa onde também ela dará à luz o seu filho primogénito José de Almada Negreiros. Igualmente, os dois, mãe e filho, foram baptizados na mesma igreja e na mesma pia baptismal, que ainda hoje existe.
Por outro lado, notemos a afirmação ele que a avó materna de Elvira era natural de Benguela. A este propósito, mais adiante veremos que não somente a avó Luzia, mas também a mãe Leopoldina Amélia de Azevedo, nasceu em Angola, se bem que estava a residir em S. Tomé (2).

José António Freire Sobral procurou dar aos filhos uma boa educação literária. Mandou os rapazes a estudar para o Colégio de Campolide, em Lisboa, e as filhas tiveram, igualmente em Portugal, a sua formação escolar, no Colégio das Ursulinas, em Coimbra. Assim, mais uma curiosidade que a história nos oferece: na Lusa-Atenas, onde Almada, em 1910, vai complementar os seus estudos, na mesma cidade, vinte anos antes, a mãe dele tirou o curso liceal.

No Colégio de Coimbra, portanto, como interna, estudou Elvira durante vários anos. Ali completou o Liceu em 1891, com 17 anos de idade, indo então morar para casa do pai, na vila de Cascais, durante o Verão.

Ora foi nesse Verão de 1891, que Elvira Freire Sobral encontrou António Lobo de Almada Negreiros, chefe dos Correios de Cascais, e pela primeira vez se falaram. A filha do comendador era de rara beleza, e António Lobo, jovem de 22 anos, era também muito prendado. Começou o namoro.
António Lobo de Almada Negreiros, chefe dos Correios, escrevia para os jornais de Lisboa, e até já tinha publicado um livro de versos: Lyra Occidental. Era jornalista e poeta.

Impregnado de romantismo, fez a sua declaração de amor, à bela mulata da Ilha de S. Tomé, no seguinte soneto:

Para amar-te sou triste como um monge;
Tão triste que decerto meto dó!
Desejava viver contigo longe,
N'um descampado, só contigo ... só!

Que apenas para nós o Céu sorrisse,
E do campo sem fim alguma flor. ..
 Nenhum olhar do mundo ali nos visse;
Ninguém soubesse d'este nosso amor ...

Amo-te tanto, ó tanto! que cheguei,
Por causa d'este amor que nunca finda,

ANTÓNIO LOBO ALMADA NEGREIROS – DE LISBOA PARA SÃO TOMÉ


António Lobo de Almada Negreiros - pai do poeta e pintor José de Almada Negreiros- nasceu cm Aljustrel, distrito de Beja, a IS de Agosto de 1868. Foram seus pais Pedro de Almada Pereira, natural de Vila Nova de Mil-Fontes, concelho de Odemira, e Margarida Francisca Camacho de Negreiros, natural de Aljustrel. 

Pedro de Almada Pereira, que era jornalista, fundou na vila de Aljustrel um periódico intitulado O Campo de Ourique.
O filho, António Lobo de Almada Negreiros, feitos os estudos preparatórios no Liceu de Beja, foi para Lisboa, onde seguiu o curso do Instituto Comercial e Industrial. Terminado o curso com aproveitamento, foi nomeado, logo em 1884, ajudante-chefe da Estação Telegráfico-Postal de Ferreira do Alentejo. Em 1887, chefe dos Correios, cm Monchique, no Algarve. Em 1889 estava interino em Portimão. Em 1890, era já chefe cfecrlvo dos Correios de Cascais.




O filho, António Lobo de Almada Negreiros, feitos os estudos preparatórios no Liceu de Beja, foi para Lisboa, onde seguiu o curso do Instituto Comercial e Industrial. Terminado o curso com aproveitamento, foi nomeado, logo em 1884, ajudante-chefe da Estação Telegráfico-Postal de Ferreira do Alentejo. Em 1887, chefe dos Correios, cm Monchique, no Algarve. Em 1889 estava interino em Portimão. Em 1890, era já chefe efectivo dos Correios de Cascais.





Poema ao poeta

COSTA ALEGRE
Passou inteira a perscrutar a Morte,
N’um anseio cruel, minaz, sempre ignorado!
A sua alma era branca, e o corpo negro… Ó sorte
Que até n’isto o fizeste um grande desgraçado!

Poeta amou, fremente; - e amou sem ser amado!
Porque não há mulher nenhuma que suporte
As carícias d’um preto; o ignívomo transporte
D’um ente que recorda um pária, condenado!

António Lobo de Almada Negreiros

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