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Entre outros assuntos, falo da escalada ao Pico Cão Grande e das minhas aventuras em canoas – Visam defender a teoria de que antigos povos africanos, podiam ter sido os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo da Guiné, antes dos colonizadores – Parti à meia-noite, disfarçado de pescador, ligando a ilha do Príncipe. Para me orientar, uma rudimentar bússola – A canoa era minúscula, à segunda noite adormeci: rolei na escuridão das vagas. No regresso fui distinguido com sopapos da policia salazarista, enviado para os calabouços – Cinco anos depois, numa piroga maior, fiz a ligação São Tomé-Nigéria. Partindo igualmente à noite, 13 dias depois atingia uma praia de Calabar, tendo sido detido 17 dias por suspeita de espionagem. - No mesmo ano, já com São Tomé e Príncipe independente, tentei a travessia São Tomé ao Brasil, usando os mesmos recursos. Além de pretender reforçar a minha teoria, desejava evocar a rota da escravatura e repetir a experiência de Alain Bombard. Porém, quis a ironia do destino que vivesse a difícil provação de um naufrágio de 38 longos dias, tendo aportado numa praia de Bioko (Bococo)onde fui recambiado para a famosa prisão de Black Beach

sábado, 3 de janeiro de 2015

Pascoal Viegas Vilhete (Sum Canarim): “antes de perder a vista eu tinha muitos amigos. Agora as Pessoas já não me ligam nada” – A única entrevista dada há 44 anos pelo maior pintor ingenuista de São Tomé e Príncipe – Que ao sentir-se cego e desprezado, se isolou ainda mais no seu mundo desenhado a tinta “robbialac”


- Entrevista conduzida por Jorge Trabulo Marques - Jornalista e autor deste site - Em Julho de 1971 - Não perca o curioso diálogo, neste post, mais à frente.


Era conhecido por  Canarim ou Sum Canalim. Desenhava a lápis e a tinta de madeira, e a sua marca preferida era a Robbialac . Por isso mesmo, muitos dos seus desenhos ou estão já degradados ou não vão ter vida longa. Mas ele também não pintava para eternizar o seu nome mas para viver intensamente o  momento: como quem não quer perder a liberdade da inocência, o lastro mais belo da memória.

Em parte também era escultor: pois também pintava as esculturas que desenhava para o carpinteiro cortar. De “songués” e  “sanguês” da sua terra natal, bonecos de homens e mulheres, em posturas de moleques ou de trajes típicos. As cores da sua preferência eram os verdes e os vermelhos e o azul  - Nos quadros gostava sempre de lhe colocar a bandeira da república, que foi aquela que ele viu desfraldar, em 1910, quando foi estudar para Lisboa - mas por pouco tempo. Pensamos que, fazendo-o, mais como sinónimo da liberdade que o símbolo então profetizava de que propriamente como veneração ao colonialismo, pois ele sabia muito bem quem usurpara a   Roça das Laranjeiras, onde nasceu.

PARA QUEM NÃO LEU A S.I. HÁ QUATRO DÉCADAS, FICA A CONHECER  UM POUCO MAIS O PERFIL DO GENIAL ARTISTA- De quem muito se fala mas de cuja  personagem pouco se lhe conhece - Não havendo sequer registos de fotos pessoais na Internet e parece-nos que até do dia da sua morte, que certamente terá passado despercebida.

A sua biografia não necessitava  de catálogo, reduzia-se a umas breves palavras, que geralmente eram impressas nas legendas dos seus quadros:

Tais como. Desenho do curiôso artista (artista Nativo da Província Portuguêsa S. Tomé) Pascoal Viana de Sousa Almeida Viegas Lopes Vilhete; que nasceu em Santana a 3 de Maio de 1894. O infeliz Bisnéto do 1º Barão d’Água-Isé. Foi aluno interno do Colégio Universal Calçada de Santana Nº 180, Lisboa, no ano 1908 pª 1912, do mêz de Fevereiro.”


Além das escassas  linhas, em caligrafia desenhada, ao lado das legendas em que sintetizava  a biografia e  explicava os temas dos seus quadros, como se fossem personagens de uma autêntica comédia:

 Tchiloli", o "Danço Congo", o "Fundão", o "Socopé", a "Santana", o "Cortejo Religioso" e o "Piadô Zaua"*.»entre outros  assuntos que ia  buscar ao fundo da sua memória mais  longínqua, diz-se,  atualmente, que, de Pascoal Viegas, o Canarim, pouco se sabe, a não ser que era um grande pintor que nasceu em São Tomé, com um quadro num museu de Nova Iorque – Sim, isto , porque, mesmo no período colonial, tal como o Mestre Diogo de Macedo, afirmara acerca dos artistas em geral, “nós os portugueses continuamos e continuaremos, fora do nosso sonho , a não saber nada… e a perceber menos ainda deste mundo que andamos há séculos a revelar ao próprio mundo”

Também se diz  nas considerações que se faz à vida e à  obra do genial artista “curioso” que “ o nome que se tem como referência no país e na época colonial é o de Pascoal Viana de Sousa Almeida Viegas Lopes Vilhete"  - É verdade. Embora de reconhecido mérito, é certo,  mas o que o tornou famoso foi sobretudo o aproveitamento dos seus quadros pelas entidades coloniais, quando se deram conta que era interessante (sob o ponto de vista político) associar as culturas locais como elementos de propaganda turística do regime. De outro modo, quer o folclore, quer a expressão pictórica nativa, era menosprezada. Era tida como  distração de negros. 



De resto, nos africanos, a expressão artística (pintura, escultura e música) comportou sempre um lado mais lúdico e sensitivo, que as pesadas lucubrações intelectualistas,  assim o assume e o  reconhece, Pascoal Vilhete, na legenda com que descreve o “Danço Congo” ao dizer que  “Essa dança não é verdadeira de S. Tomé. Dizem que foi um Nativo desta Ilha que andava no Congo é que veio plantar essa brincadeira em S. Tomé; há muitos anos”.



Sim, também os desenhos de Canarim, foram sempre tomados como sua brincadeira que o transportava à adolescência  E só não chegou a pintar “o carnal de Lisboa, que foi o que mais adorou, porque, também lá esteve pouco tempo, e havia na sua terra de origem carnavais bem mais genuínos e que tinham a ver com a sua verdadeira identidade

CAMÕES PERDEU UMA VISTA MAS CANARIM DEIXOU DE PINTAR QUANDO JÁ QUASE NÃO VIA DAS DUAS  - POBRE E ABANDONADO

Foi nos finais de Julho de 1971, que me dirigi a casa de Pascoal Vilhete para o entrevistar – A entrevista, que a seguir vou reproduzir na íntegra, foi publicada na Revista Semana Ilustrada, de que era seu correspondente nestas ilhas

Começava assim:  -"Vive em S. Tomé, nos subúrbios da pequena cidade da paradisíaca Ilha Verde, lugar de arraial, numa modesta casa de madeira escondida entre tufos de colorida e luxuriante vegetação, praticamente arredado do ambiente buliçoso e palpitante que o cerca, entregue a si próprio, à sua arte que é o seu· refúgio, a sua quase única razão de se sentir feliz num mundo que é para si o dia-a-dia, devido a persistente surdez e perda de vista, que o vai isolando cada vez mais.

"Chama-se Pascoal Viana de Sousa Almeida Viegas Lopes Vilhete, bisneto do 1º. Barão de Água lzé. Homem de uma grande simplicidade, Pascoal Vilhete é um autêntico artista, cuja virtude permanece oculta, debaixo de uma timidez e de uma desconfiança de tudo quanto é real na vida ''  - Mário de Oliveira

"Pois foi justamente com esse homem simples e humilde com quem há dias tivemos o prazer de conversar. Não o conhecíamos, nunca o havíamos visto pessoalmente, e, portanto, até então, ainda nunca tínhamos com ele dialogado. Sabíamos porém da sua existência, não pelo que dele ouvíssemos falar, porque, apesar  do muito valor que encerram as suas obras, é quase desconhecido em S. Tomé  e Príncipe. Mas, amigos da leitura que somos, dele nos demos conta através de escritos, sobretudo do conhecidíssimo e categorizado crítico de arte, Arquiteto Mário de Oliveira, do qual inserimos algumas passagens.

Por isso, foi com vivo entusiasmo que fomos ao encontro desse grande artista, quase ignorado das gentes de São Tomé e Príncipe. Pois disso tivemos ocasião de constatar, sobretudo do povo, que o devia conhecer e  acarinhar, ou, pelo menos, saber da sua existência, porque ele, afinal, sintetiza o povo, pertence a ele e é dele que as suas pinturas nos falam. Mário de Oliveira, confirma-nos  que sim:

“As figuras humanas que Pascoal Vilhete representa, são possivelmente  os seus amigos da juventude, porque o artista sentiu e viveu  em S. Tomé, com uma verdadeira nostalgia. Aí a pintura tem sido o seu refúgio - um verdadeiro paraíso terreal. Este fenómeno, aliás, pode apreciar-se em todos os pintores ingenuístas,  pela simples razão de que nestes pintores não existe “batota”,  a intenção subconsciente está sempre a descoberto. A recordação dum mundo que não existe nunca, senão aquele pedaço de terra perdido na infância, onde Pascoal Vilhete, com os seus  amores, ia ver o Tchilôli, o Danço Congo, o Fundão, etc., etc. , temas· que hoje o artista continua a pintar numa absoluta quietude , contraditoriamente conciliada com uma pavorosa sensação de mistério”

E lá o fomos encontrar em sua casa, na companhia de sua filha, uma alegre e  bonacheirona negra de certa Idade, completamente absorto e entregue à execução-de alguns dos seus famosos quadros.

Não nos conhecíamos, por isso – artista e repórter -, iam encontrar-se pela primeira vez frente a frente num franco e agradável diálogo. Recebeu-nos com simplicidade, mas recebeu-nos muito bem.

Vimos nele, logo de início, um sorriso aberto, como que a desejar-nos as boas-vindas. Pareceu-nos ter ficado satisfeito com a nassa visita inesperada. Pois, Pascoal Vilhete, confessou-nos  que as pessoas já não o cumprimentam, já não lhe falam. Daí, o desabafar-nos com certa amargura:

“Antes de perder a vista eu falava muito. Tinha muitos amigos. Agora as Pessoas já não me cumprimentam, Já não me ligam nada”

Mas será mesmo assim ou serão os efeitos da implacável surdez e cegueira que o ameaçam? Ninguém por certo saberá responder. Talvez um pouco de tudo, cremos nós.

Daí, que, Lisboa, para onde partiu quando jovem, com 14 anos, seja agora recordada na sua mente com profunda saudade.

Gostava de voltar a Lisboa - em Lisboa, tinha lá muitos amigos. Tinha lá um rapaz chamado Augusto dos Reis Sá Nogueira, e um rapaz de Setúbal, mas esse rapaz não sei se ainda existe ou não.

E a verdade é que até os próprios vizinhes de Pascoal Vilhete mal o conhecem. Disso tivemos oportunidade de verificar. Pois, para conseguirmos encontrar a sua casa, foi-nos mesmo bastante difícil. As voltas que demos e as pessoas a quem perguntámos por ele, não têm conto. E, afinal, ele mora tão pertinho de nós!

Passa-se assim normalmente com os grandes génios. Quando são votados ao abandono, são desprezados ou humilhados, se possível for”.

SERVIRAM-SE DELE POR OCASIÃO  DAS COMEMORAÇÕES DO 5º CENTENÁRIO DOS DESCOBRIEMNTOS DE SÃO TOMÉ E PRINCIPE  - Mas depressa o votaram ao esquecimento

As entidades oficiais – Câmara e Turismo – compraram-lhe alguns desenhos para lhe fazerem as reproduções, serviram-se dele  mas depois viraram-lhe as costas -

(mas afinal, enganámo-nos) ao dizermos que,  pelo menos as entidades oficiais estão atentas: a  Câmara Municipal tem alguns quadros. Pelo Centro de Informação e Turismo foram já tomadas diligências no sentido de Pascoal Vilhete ser operado à vista. Aguarda-se, apenas, cirurgicamente, a altura própria. O Dr. Sousa Dias prontificou-se a operá-lo gratuitamente. E ainda bem que assim é, pois senão corre-se o risco de se vir a perder, segundo afirma, Mário de Oliveira, o nosso primeiro grande pintor ingenuista.

A ENTREVISTA COM PASCOAL VILHETE – ATRAVÉS DA QUAL É POSSÍVEL COMPREENDER MELHOR O HOMEM E O ARTISTA

“E eis agora, caros leitores, em linguagem simples, algumas passagens da curiosa conversa havida com Pascoal Vilhete, ou Sr. Canarim,  que nos dão um retrato fiel do homem e do artista - era assim como, na edição da revista angolana, Semana Ilustrada, iniciava a única entrevista que, o singular pintor santomense, deu em sua vida, a um órgão de comunicação social – Do qual também não existem fotos pessoais, que não as que lhe fizemos em sua casa

J.M. – Senhor Canarim: porque pinta? Qual o motivo que o levou a pintar?
P.V – Foi uma coisa a calhar… não aprendi.
J.M. – Então você não aprendeu mesmo nada?
P.V. – Eu aprendi mas foi quando tirei o 2º grau. A  gente fazia desenho mas  fazia uma cadeira… ou uma coisa qualquer.
J.M. – Mas o Sr. falou-me há pouco de Lisboa: que foi lá a fazer?
P.V. – Foi o meu padrinho, Sr. Luís Carlos, que me mandou ir.
J.M. – E porque é que o mandou ir? Vivia lá em Lisboa?
P.V. – Sim. Tinha lá um escritório. Queria que eu fosse tirar o curso de guarda-livros. E mandou-me ir para lá. Depois, quando fui, estive no hotel Frankfurt
J.M- Esteve hospedado ou a trabalhar?
P.V. – Não, não estive a trabalhar. Estive lá até arranjar um colégio.
J.M. – Quanto tempo?
P.V. – Pelo menos dois meses.

J.M. – Depois foi estudar para onde?
P.V. – Para o Colégio Universal na Calçada Santana, defronte à Igreja da Pena.
J.M. – E então o que estudou?
P.V. – Tirei o 2º grau. Depois do 2º grau comecei a estudar francês, inglês, etc. Depois aprendi a trabalhar à máquina. Queria tirar o curso de guarda-livros  mas depois o meu padrinho mandou dizer ao meu pai… e mandou-me embora.
J.M. – Mas o Sr. não chegou a frequentar as Belas-Artes?
P.V. – Quê?!... Não conheço essa casa.
J.M. –  E quanto tempo é que esteve em Lisboa?
P.V. – Fui em Fevereiro de 1908 e vim em Janeiro de 1912.
J.M. – E porque é que voltou para S. Tomé e Príncipe?
P.V.- Voltei, porque meu padrinho não queria que eu continuasse o estudo. Porque, se eu continuasse o estudo, não deixava ele intrujar meu pai. Porque essa Roça de Santana das Laranjeiras, foi de meu pai.
J.M- Como se chamava ele?
P.V. – João Viegas de Abreu Pascoal  Vilhete.

COMEÇOU POR BRINCADEIRA A DESENHAR – BONECOS, CAVALOS, DANÇO CONGO… PEGAVA NUM LÁPIS E FAZIA QUALQUER COISA…

J.M.- Então explique-me lá: como é que o Sr. começou a pintar? O que é afinal o levou a procurar a pintura?
P.V- Pegava num lápis… fazia qualquer coisa. Depois… calhou. E pronto!
J.M. – E primeiro começou a pintar o quê?
P.V. – Bonecos. Cavalos. Danço Congo.Tchilôli, Cirurgião. Enfim… brincadeiras da terra.
J.M. – E esses desenhos, os bonecos que o Sr. tem feito, são de coisas de São Tomé, da sua terra, ou também de Lisboa?
P.V. – Só são coisas da minha terra. Olhe. Uma coisa até está aqui. – E Canarim apressa-se acto contínuo, a mostrá-la, ao mesmo tempo que no-la identifica: - É um boneco de madeira, é um “songue”.
J.M. – Então o Sr. também faz bonecos de madeira? – Interrogamos de imediato.
P.V. – Sim, Senhor. Faço manequim de “sangue” com filho às costas e de “songue” com cinzeiro na mão. Mas só risco e pinto. O carpinteiro é que corta.
J.M – E quanto é que leva por cada peças dessas?
P.V. – Comecei a vender por 150#00.
J.M. – Não é caro, Sr. Canarim. É barato.
P.V. – Sim. E isso dá-me muito trabalho.  E tenho gasto muito dinheiro, porque também tenho que pagar ao carpinteiro. Tenho que primeiro andar cortar isto. Depois é que faço desenho e tudo.
J.M. – Muito bem. Então o Sr. Canarim desenha, depois, o carpinteiro trabalha a madeira e por  fim você pinta a figura, não é assim?
P.V. Pois. Eu faço o risco. Depois ele vai com a serra rodear.
J.M – Nesse caso, o Sr. a ter que pagar ao carpinteiro, pouco lhe deve ficar. Vive então com muitas dificuldades, não é verdade?
P.V. – Ah! Mesmo muitas!
J.M. – Quantos filhos tem?
P.V. Tinha seis .Morreram quatro, e fiquei com um rapaz e uma rapariga.
J.M. – É casado?
P.V. – Não. Não casei. Tive uma amiga. Mas agora…
J.M. – Seu pai tinha uma roça?
P.V. – Sim, senhor. Com sino e tudo.
J.M – Mas, agora…

MAS AGORA….

Mas agora…  Achamos que está tudo dito. Uma frase áspera e sombria na via de um homem, que não vale a pena activar. Resta-nos apenas variar o tema. E foi mesmo isso que fizemos. E com igual força de curiosidade de que vínhamos precedidos, a mesma incontida ânsia de penetrarmos nas profundezas recônditas da via do homem e do artista, prosseguimos:
J.M – Então, Sr. Canarim. Conte-nos lá mais coisas da sua pessoa. Estamos desejosos de ouvir. Diga-nos lá, por exemplo quais as melhores recordações de Lisboa?
P.V- Ah! Tenho muito boas recordações. Lembro carnaval de Lisboa. Carnaval de Lisboa é muito bonito!... Trem, da Avenida da Liberdade. Mas agora já deve ser outro carro fino.
J.M. – Se lhe mandassem fazer uma pintura de Lisboa, ainda era capaz?
P.V. – Não. Já não era capaz. Já não tenho bem na ideia.
J.M – Dos seus quadros que tem feito, de qual é que gostou mais de pintar?
P.V. – Eu gosto de todos. Mas Tragédia e Danço Congo é que  gosto mais.

UTILIZA TINTA ROBBIALAC

J.M. -  Já reparei que nas suas pinturas, o Sr. Canarim utiliza muito verde e o vermelho. Porque será? Tem algum gosto especial por essas duas cores?
- E Canarim, como que apanhado de surpresa, respondeu-nos:
P.V. – Ah! É tinta da república. É da bandeira. E também gosto de fazer  com tinta azul e tinta branca, que é a bandeira portuguesa de antigamente. Mas também gosto do encarnado porque sobressai mais. Fica mais bonito e faço o verde, de vez em quando, devido às folhas das bananeiras, das palmeiras. Da paisagem.
J.M – O Sr. Canarim, desenha normalmente a bandeira portuguesa  nos seus quadros. Com que sentido?
P.V. – Para ficar uma coisa bonita. Eu quando estive em Lisboa, havia lá a república e eu vi lá essa bandeira. Foi em 1920. Eu estava lá ainda.
J.M- Quanto tempo é que você leva a pintar um quadro?
P.V. – Conforme. Às vezes quinze dias, e mais. E agora cada vez pior. Não vejo. A vista começa a arder.
J.M. – Gostava de ser um bom pintor? De ter aprendido a arte de pintar?
P.V. – Ah! Tinha habilidade; se meu pai me deixasse….
J.M – O Senhor utiliza tinta vulgar, tinta das portas. Que marca é gasta?
P.V. –  Tinta Robbialac.
J.M.- E pinta sobre cartolina?
P.V. – É sim senhor.

J.M. – Sabe, Sr. Canarim: os pintores geralmente utilizam tintas especiais. Nunca ninguém lhe ensinou a empregar outras tintas?
P.V. – Nunca ninguém me ensinou nada. Tintas outras não conheço. Faço só.
J.M – Pois bem, Sr. Canarim. E aqui é que está o valor. Não concorda connosco?
P.V. – Sim, de facto. Dá-me muito trabalho. É muito difícil. Cai um pingo de tinta e estraga tudo. Mas agora dizem que há outra de uma forma não sei de quê!
J.M – Quantos quadros calcula ter pintado em toda a sua vida?
P.V. – Oh! Não sei. Não me lembro ao certo.
J.M – Que preço faz normalmente por cada quadro seu?
P.V. . Trezentos escudos.
J.M. – Isso é muito pouco, Sr. Canarim. Não deve compensar o trabalho que lhe dá, não acha?
PV – Mas, que se há-de fazer.  Ninguém dá mais, mas a vista é que me mata , senão!…

J.M – Senão o quê, Sr. Canarim?
P.V. – Fazia mais desenhos. Ou então ia para Lisboa, que lá é melhor.
J.M- Tem apenas trabalhado na pintura, ou também tem feito outros trabalhos?
P.V. – Só nas pinturas. Nas pinturas e nos bonecos. E também tenho pintado bandeiras nas freguesias, dado cor às imagens na igreja de Santana, e outras mais.
E com isto pusemos ponto final às nossas perguntas pois que para o nosso bom homem, para a sua débil saúde, passaria a ser abuso a mais.
Restava-nos, unicamente e uma vez mais, agradecer-lhe a sua tão justa solicitude  à nossa entrevista. E ficámo-nos, portanto, por aqui, esperançados de que tenhamos dado a conhecer, aos nossos leitores, todos os pormenores de um verdadeiro artista.

DOIS ANOS DEPOIS – NUM ARTIGO DA S.I. RECORDANDO A ENTREVISTA E O PINTOR – JÁ QUASE CEGO E CADA VEZ MAIS SÓ E AMARGURADO

Parece-me que foi há  dois anos que me desloquei a casa do  curioso pintor ingenuista de S. Tomé, e o entrevistei para a Semana Ilustrada. No entanto, conservo bem vivo na memória o interessante diálogo que mantive, demoradamente,  com este autêntico artista, um dos maiores pintores ingenuistas contemporâneos; no dizer do conhecido e reputado critico de arquiteto Mário  de Oliveira.

Guardo desse agradável encontro as melhores impressões, ,quer da sua arte, quer mesmo a impressão humana colhida da sua pessoa. Não posso esquecer os seus belos quadros, plenos de riqueza de cor e expressividade, de pitoresco e gracioso do folclore santomense dos seus tempos de rapaz. Quase todas ou mesmo todas as suas pinturas remontam ao seus tempos de juventude. E mostram-nos, de facto, alegre e bizarros quadros, preenchidos na sua totalidade por cenas e motivos da vida e do folclore da Ilha.

Também sempre que o vejo tenho-lhe perguntado como tem ido a saúde, mormente a recuperação da sua vista que está  em vias de perder por completo. Os seus óculos, de lentes graduadíssimas, parece que já pouco lhe podem valer. As melhoras não têm  sido animadoras. 
E é pena, realmente, que ninguém lhe acuda, que ele não encontre os recursos necessários para o tratamento da sua vista. E que este” curioso pintor”, aliás, como  ele próprio se define, mas grande artista de S. Tomé, não possa continuar a proporcionar-nos a sua agradável e apreciada arte. A muita arte que de facto ainda teria para nos oferecer.

USADO COMO INSTRUMENTO DE PROPAGANDA COLONIAL

Tal como dizíamos nesta entrevista, que nos concedeu, quem primeiro se referiu a Canarim, foi Mário de Oliveira, arquiteto, urbanista, pintor e crítico de arte português, autor do projeto  da Escola Técnica Silva e Cunha, atual Liceu Nacional de São Tomé e Príncipe – 

A bem dizer foi ele que o notabilizou.  A revista PANORAMA (arte e turismo, editada pelo regime),em Setembro de 1967, consagra-lhe a capa com um dos seus desenhos, servindo de chamada de atenção a um artigo sobre o Tchiloli, de autoria de Fernando Reis; no ano seguinte, em 1968, portanto, dois anos antes das comemorações dos 500 anos destas ilhas, Amândio César, na antologia “Presença do Arquipélago de S. Tomé e Príncipe na Moderna Cultura Portuguesa, edita-lhe vários desenhos (mas a preto e branco), entre os vários textos da referida obra, repescados de “O Mundo Português”, 1936, tendo no verso da reprodução, unicamente a breve resenha descritiva que o artista costumava fazer – como legenda - em cada dos seus quadros, mas dir-se-ia que o ignora ao mesmo tempo, visto não o incluir na antologia  dos pintores, desenhistas e aguarelistas  que, no período colonial, “melhores quadros” proporcionaram de S.Tomé e Príncipe.

Fala de Fausto Sampaio”, dizendo, nomeadamente, que “só ele  encontrou as cores e os motivos que deram amplitude maior à sua arte” (…) “Se me debruço no tempo vejo as cores gárrulas de Fausto Sampaio a gravarem para o mundo dos sentidos a “Ponta do Cossaco”, a “Cascata” da Roça Guégué, a “Represa de Água da Roça Boa Entrada, o “Pico de S. Tomé”, da Roça Lembá, um retrato natural do “Tonga”, o “Cão Grande” na Roça Novo Brasil” (…) “Fausto Sampaio  foi um pintor que todo se entregou ao Ultramar. Mas é verdade que, em S. Tomé, ele encontrou as cores e os motivos que deram amplitude maior à sua arte”. Alude a Jorge Barradas, a um Neves de Sousa e uma  Rachel Roque Gameiro, que “soube dar , na sua arte filigranada, alguns aspectos únicos de S. Tomé”. Não esquecendo as 20 aguarelas  e 27 desenhos de autoria do  arquitecto Mário de Oliveira, “o apaixonado paisagista” que, “em 1961, apresentava no Salão do Palácio Foz , uma mostra de pintura toda dedicada a S. Tomé”. Contudo, de Canarim, tanto quanto me apercebi,  destaca-o nas ilustrações que reproduz mas não o comenta.

Mas é, sobretudo, em 29 de julho de 1970, que o nome de Canarim é catapultado para a fama, conforme diz Luciana Éboli, , com o lançamento “de  um impresso das suas pinturas para retratar aspectos da cultura de São Tomé, entre eles a já conhecida representação do Danço Congo – “em prol das comemorações dos quinhentos anos do descobrimento de São Tomé e Príncipe, que evidenciou a iniciativa de cooptar e integrar as culturas locais e torná-las participantes de uma nova identidade “sincrética-luso-são-tomense”, conforme palavras de Valverde, iniciada pelos governantes na década de 60 - que passou a divulgar a cultura através do caráter folclórico estritamente turístico. In identidade e memória cultural em São Tomé e Príncipe

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