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Entre outros assuntos, falo da escalada ao Pico Cão Grande e das minhas aventuras em canoas – Visam defender a teoria de que antigos povos africanos, podiam ter sido os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo da Guiné, antes dos colonizadores – Parti à meia-noite, disfarçado de pescador, ligando a ilha do Príncipe. Para me orientar, uma rudimentar bússola – A canoa era minúscula, à segunda noite adormeci: rolei na escuridão das vagas. No regresso fui distinguido com sopapos da policia salazarista, enviado para os calabouços – Cinco anos depois, numa piroga maior, fiz a ligação São Tomé-Nigéria. Partindo igualmente à noite, 13 dias depois atingia uma praia de Calabar, tendo sido detido 17 dias por suspeita de espionagem. - No mesmo ano, já com São Tomé e Príncipe independente, tentei a travessia São Tomé ao Brasil, usando os mesmos recursos. Além de pretender reforçar a minha teoria, desejava evocar a rota da escravatura e repetir a experiência de Alain Bombard. Porém, quis a ironia do destino que vivesse a difícil provação de um naufrágio de 38 longos dias, tendo aportado numa praia de Bioko (Bococo)onde fui recambiado para a famosa prisão de Black Beach

domingo, 11 de outubro de 2015

São Tomé - Há 42 anos o brutal acidente de automóvel que ceifou a vida ao Jovem português, Emídio Correia, o hippie modelo dos estudantes da altura – Causou profunda consternação geral, unindo no mesmo funeral a solidariedade de milhares de santomenses - Hoje, são as motas – a nova profissão de jovens sem emprego - que provocam o maior número de acidentes mortais e mutilados.



Os moto-taxistas, ou motoqueiros - como são conhecidos nas ilhas - têm sido as principais vítimas. Imprudência no trânsito e falta de carta de condução são apontadas como principais causas dos acidentes.” – E, no tempo colonial, como era? – Eram e continuam a ser a grande atração dos jovens. Mas, naquele tempo, havia boas marcas e boas motos, mas só uma minoria as podia comprar. Hoje são o meio de transporte mais popularizado – Porém, o acidente, mais brutal e espetacular, aquele que mais chocou a sociedade colonial e também a população santomense, foi o que ocorreu num carro ligeiro, que  ceifou a vida do Jovem Emídio Correia, estudante liceal, nascido no Algarve, mas que ali residia, com os seus pais, desde adolescência 
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O LEVE-LEVE NÃO CIRCULA NAS ESTRADAS

A vida em São Tomé decorre ao pacífico ritmo do leve-leve ou do moli-moli mas não naqueles que conduzem por caminhos ou estradas – Sempre foi assim, desde o tempo colonial e assim parece continuar a ser. Claro que a condução desabrida e perigosa, acontece por todo o lado. Os acidentes rodoviários são uma tragédia constante, desde a invenção do automóvel. É o que se pode dizer a atração do irresistível fascínio da vertigem, que faz subir a adrenalina e convida até à própria aventura. 

Todavia, o fenómeno, em São Tomé, desde que surgiu a profissão de “motoqueiro”, como forma de ganhar uns trocados, como forma de subsistência, constituída maioritariamente por jovens, que são o grosso da população, muitos dos quais impreparados e sem carta de condução, ganhou forma de alarmante  tragédia e perigosidade  - E também de enorme preocupação para as autoridades, quer a nível da segurança nas estradas, quer para as entidades sanitárias

"Uma problema de saúde pública"

Referem noticias que "O cirurgião e diretor dos cuidados da saúde, Pascoal d’Apresentação, já perdeu a conta aos casos de acidentes lhe chegaram as mãos. Este médico diz que, tendo em conta que os mortos ou mutilados são, na sua maioria, jovens, esta situação afeta também a produtividade do país: “Por essa razão consideramos este um problema de saúde pública” 04/09/2013. Aumento de acidentes de viação preocupa São Tomé e ..

O PORQUÊ DOS BRUTAIS ACIDENTES NA ESTRADA – QUE O HOMEM  DA PEDRA LASCADA AINDA NEM SEQUER IMAGINAVA

O fenómeno é deveras inquietante, em qualquer país do mundo, onde circulem carros nas estradas, tem sido objeto de estudos e análises, as mais díspares, com as mais diferentes explicações e respostas 

– O próprio Vaticano, também, já por várias vezes, manifestou a sua preocupação e fez a sua análise – Numa das quais numa mensagem dirigida aos leitores do «L’Osservatore Romano» pelo padre Gino Concetti« - que questiona e diz:   Não se podem transformar as estradas, meios de comunicação e solidariedade, de desenvolvimento e civilização em lugares de luto e de lágrimas».

(…) Por que há tantos acidentes nas estradas? O diário vaticano revela que «inicialmente se pensou que uma das causas principais era a inexperiência das novas gerações, a facilidade e a superficialidade que as pessoas enfrentavam as diversões».

Mas, «pouco a pouco o fenômeno foi objeto de uma reflexão mais profunda. Da evolução cultural, dos evidentes traços secularistas e utilitaristas, se constatou uma “filosofia” diversa, que entrou nas novas gerações, como “fonte inspiradora” de sua atuação e de seu comportamento no respeito à vida»

Deu-se uma fratura ética que mudou a situação: «Enquanto o horizonte antropológico estava unido estreitamente à visão da pessoa humana (...) as opções em relação à vida conservavam” 

O ACIDENTE – QUE HÁ, 42 ANOS, IMPRESSIONOU BRANCOS E NEGROS – E OS LEVOU A SOLIDARIZAREM-SE NO MESMO FUNERAL 

Foi notícia, na revista Semana Ilustrada, cujo relato e imagens, hoje trago aqui, em mais um episódio das minhas antigas memórias de jornalista, naquelas Ilhas – Acidente esse, que, em minha opinião,  além do grande impacto e consternação geral que provocou,  transversalmente, desde brancos a negros, se revelou como um dos mais profundos testemunhos de convivência, entre colonos e os santomenses, nomeadamente, nos meios urbanos, que progressivamente passou a existir nos anos  seguintes ao terrível e conturbado período do Governador Carlos Gorgulho.

Sim, é uma verdade inegável, que, no tempo colonial, a  vida nas roças era dura e escrava  para os negros e também para a quase generalidade dos brancos (eu conheci essa escravatura aos 18 anos) , salvo para os administradores e feitores-gerais e chefes de escritórios, porém, fora desses feudos, começavam a registar-se alguns passos significativos – Especialmente, a partir dos anos sessenta,  a nível de diálogo e convivência, entre os portugueses e os negros das diversas etnias Principalmente, no comércio, pescas, indústria  e funcionalismo público, se bem que ainda continuassem a subsistir profundas desigualdades sociais. 

E, se houve alguns avanços, foi mais a nível das mentalidades – Não tanto pela evolução do sistema colonial, porque, este, há muito estava condenado pela história e, mesmo assim, teimava persistir sob diferentes roupagens, aprisionado por uma politica incapaz de ler os sinais dos novos tempos, de perspetivar o futuro, cega e tacanha, divorciada do nos ventos que sopravam, a favor da liberdade e da independência dos povos colonizados.

O ACIDENTE NA ESTRADA QUE FOI QUASE UM DIA DE LUTO GERAL EM S. TOMÉ 

Eis o que então escrevi: "Fim-de-semana marcado a sangue e molhado com lágrimas. Eram cerca das vinte horas de sábado quando o jovem Emídio de Jesus da Conceição Correia, com apenas vinte anos de idade, estudante liceal, sétimo ano, natural de Estombar  - Algarve, filho de Alvarina de Jesus Correia e David da Conceição Correia, tripulava uma viatura “Datsun” ma estrada que liga a Pousada Salazar à cidade de São Tomé. Naquele estabelecimento estivera em alegre convívio com pessoas amigas e alguns turistas estrangeiros, após o que se propusera regressar à urbe. Numa das poucas rectas a escassos quilómetros de São Tomé e em local devidamente iluminado , foi embater, sem esboçar sequer a travagem, com uma camioneta que estava estacionada à berma da rodoviária, tendo dois terços da carroçaria sobre o passeio,
Presume-se  que o condutor do automóvel, o infeliz Emídio Correia,  viesse distraído e a certa velocidade, poia que o embate fez ligar o motor da camioneta que marchou alguns metros. A viatura do Emódio ficou literalmente desfeita, e, do acidente brutal, resultou a morte deste  jovem. O companheiro que com ele seguia ficou em estado grave.

Emídio Correia gozava de gerais simpatias na cidade e o seu passamento foi altamente sentido por parte dos seus colegas e é como é lógico pelos pais e parentes mais próximos.

O funeral que se realizou na tarde de segunda-feira, pelas quinze horas, constituiu enorme manifestação  de pesar e congregou centenas de pessoas e inúmeras viaturas automóveis no cortejo  fúnebre,

Mais uma acidente que na sua brutalidade ceifou uma vida em pleno desabrochar. Os ímpetos da juventude e uma menor responsabilidade transformaram a alegria repousante de um fim-de-semana numa tragédia para a família da vítima.
Que todos os jovens – e aqueles que já o não são – meditem nestas repetidas  e lamentáveis ocorrências  e vejam nos outros a imagem que as loucuras de “carregar no prego” podem acarretar. E quase sempre assim acontece, mais cedo ou mais tarde








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