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Entre outros assuntos, falo da escalada ao Pico Cão Grande e das minhas aventuras em canoas – Visam defender a teoria de que antigos povos africanos, podiam ter sido os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo da Guiné, antes dos colonizadores – Parti à meia-noite, disfarçado de pescador, ligando a ilha do Príncipe. Para me orientar, uma rudimentar bússola – A canoa era minúscula, à segunda noite adormeci: rolei na escuridão das vagas. No regresso fui distinguido com sopapos da policia salazarista, enviado para os calabouços – Cinco anos depois, numa piroga maior, fiz a ligação São Tomé-Nigéria. Partindo igualmente à noite, 13 dias depois atingia uma praia de Calabar, tendo sido detido 17 dias por suspeita de espionagem. - No mesmo ano, já com São Tomé e Príncipe independente, tentei a travessia São Tomé ao Brasil, usando os mesmos recursos. Além de pretender reforçar a minha teoria, desejava evocar a rota da escravatura e repetir a experiência de Alain Bombard. Porém, quis a ironia do destino que vivesse a difícil provação de um naufrágio de 38 longos dias, tendo aportado numa praia de Bioko (Bococo)onde fui recambiado para a famosa prisão de Black Beach

terça-feira, 20 de outubro de 2015

São Tomé – Lembrando a memória de Ayres Beirão da Casa Beirão – O antigo comerciante português, tão famoso como o Licor Beirão, em Portugal




Por Jorge Trabulo Marques - Jornalista - Reunião de antigos comerciantes 

 



Falar da Casa Ayres Beirão, em S. Tomé, é já uma lenda: é quase o mesmo que, associá-la ao famoso Licor Beirão “O licor de Portugal». Que  marcou a história da publicidade em Portugal. O «Beirão de quem todos gostam" – Cujos cartazes, colocados em grandes painéis, no alto das colinas ou dos  montes, chegaram a ser proibidos pela  Junta Autónoma das Estradas, sob o pretexto que a publicidade distraía os condutores e causava acidentes – Sim, esse ainda é hoje o licor mais conhecido e mais vendido, em Portugal, e  para o estrangeiro. Tudo graças a esta simples expressão, recordada numa entrevista ao DN, por um dos filhos, dita ao seu pai: “Houve um professor primário aqui na Lousã que lhe disse: «Oh Carranca, não é o beirão de quem todos gostam, é o beirão de que todos gostam, o "que" refere-se a coisas e o "quem" refere-se a pessoas». E ele respondeu: «Mas é isso mesmo que eu quero, que se refira a pessoas! Dn 27/01/2012- O dono do licor mais irreverente de Portugal



Ayres Beirão

Neto de Ayres Beirão

Ora bem, aí está um exemplo que podia perfeitamente ajustar-se à vida do lendário Ayres Beirão – O comerciante mais popular do século XX em S. Tomé, no período colonial  -   O  português, natural de Freixeda do Torrão, uma pequena aldeia do concelho de Figueira de Castelo Rodrigo, que, ainda muito novo, havia de deixar com destino à Ilha de S. Tomé – Quando eu cheguei, a esta ilha, em 1963, já ele ia entrado na idade, já então existia uma casa, mesmo no centro da cidade, com o seu nome – E que ainda hoje é uma referência no comércio local. Mesmo depois das várias vicissitudes, com que se deparou,  nos anos seguintes  pós a independência, tanto ele como, depois, os filhos que tomaram o leme do “barco” na gerência e atender os clientes  por detrás ou  à frente do comprido balcão de madeira. 

Um dos filhos com a esposa 
Casa Beirão

Era o velho Beirão de quem toda a gente simpatizava. Pai de sete filhos – e vários netos. Que todo o colono, não ignorava. E todo o santomense conhecia – até porque também falava o seu dialeto. 

O  comerciante, altura mediana, que usava suspensórios, porque os suspensórios são sempre mais confortáveis que o cinto e aos gordinhos os suspensórios ficam sempre muito bem  - Era das tais figuras, carismáticas, afável mas ao mesmo tempo muito prático, de quem não gosta de perder tempo inutilmente e conta os trocados até ao último centavo:  quem falasse com ele, mesmo que uma só vez, jamais lhe esquecia o andar, a expressão, a singular maneira de ser e de conviver.  Tinha sempre um sorriso para toda a gente, entre o sério, perscrutador e o tolerante,  mesmo para os caloteiros, que não lhe pagassem a venda a fiado  - Ele teria apreendido,  certamente, na filosofia simples  de uma  família rural, que a vida é uma corrida passageira, que se perdem mais energias, quando uma pessoa se zanga, de que pôr a chatice ou contrariedade, de lado e  passar adiante.  Que eu me recorde, nunca o vi discutir com ninguém. No seu rosto, nunca desaparecia a afável ironia ou a  boa disposição.

Dois dos filhos, com o neto ao centro
Quando era correspondente da Semana Ilustrada, de Luanda, e, nomeadamente, quando esta revista dedicava alguma edição especial às Ilhas, era costume, as principais lojas comerciais ou empresas, colaborarem com anúncios das suas firmas, porém, ele nunca aceitou dar um anúncio, com o pretexto de que a sua casa, não precisava de publicidade: “ Não, não dou anúncio!... A minha casa, toda a gente a conhece e sabe onde fica” – Via-se que nele ainda havia como que aquela herança ancestral de que o dinheiro custa a ganhar ou  talvez de quem aprendeu que a melhor lição da vida, é a do trabalho, o qual,  desde que bem feito, promove-se a si mesmo. 

Todos os seus filhos (mestiços) se destacaram na sociedade santomense ou optaram por  ir para Portugal: desde o ensino à atividade empresarial.  – José Beirão, Alice Beirão, Aníbal Beirão, Ricardina Beirão, Augusta Beirão, Margarida Beirão.

Comerciantes na FIL - Em Lisboa
O mesmo sucedendo aos netos – Todos eles não deslustram a gênese patriarcal.  – Um dos filhos,  chegou a ser administrador da Ilha do Príncipe. Mas não se pense, que, Ayres  Beirão, era um dos colonos subservientes do regime. Fazia a sua vidinha e via-se nele um grande sentido de autoconfiança  e independência  – Ocupava-se com o negócio da sua casa e  não queria saber de mais nada. Quando fosse preciso representá-la, chamava um dos filhos, e foi justamente o que sucedeu, por exemplo, numa digressão de comerciantes e industriais, à FIL, em Lisboa, que aqui recordo numa das imagens

Na sua loja, que não era mercearia,  vendia-se um pouco de tudo – Desde os panos mais garridos a linha a metro. Sim, porque, também na farmácia, ainda hoje se vende comprimido a avulso. Há que estar preparado para satisfazer clientes de todas as bolsas. Quando, agora ali voltei a S. Tomé, não quis deixar de dar lá uma vista de olhos para ver se, além da fachada, cujo traço arquitetónico ainda se mantém, pelo interior se passava a mesma coisa: - Não estava lá o antigo proprietário mas fui amavelmente recebido por dois dos seus filhos e um neto  - E o que constatei,  é que, de facto,  para a Casa Ayres Beirão, não há concorrência que lhe faça frente, isto porque, tal como nos anos em que foi comandada pelo “ velho Beirão”,  continua perfeitamente a  adaptar-se aos novos tempos. A ser uma referência na arte de bem vender e de bem servir os seus clientes. 

A terminar, uma palavra amiga e de parabéns aos filhos e netos, dessa inconfundível família, que mantém viva a memória de quem lhe deu a razão de ser  – E porque não também um aceno de evocação  àquela avozinha, cujo retrato lá continuava na parede, de seu nome Maria Augusta Carrapatoso, de Freixeda, mãe de Ayres Beirão.  

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