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Quem sou eu

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Entre outros assuntos, falo da escalada ao Pico Cão Grande e das minhas aventuras em canoas – Visam defender a teoria de que antigos povos africanos, podiam ter sido os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo da Guiné, antes dos colonizadores – Parti à meia-noite, disfarçado de pescador, ligando a ilha do Príncipe. Para me orientar, uma rudimentar bússola – A canoa era minúscula, à segunda noite adormeci: rolei na escuridão das vagas. No regresso fui distinguido com sopapos da policia salazarista, enviado para os calabouços – Cinco anos depois, numa piroga maior, fiz a ligação São Tomé-Nigéria. Partindo igualmente à noite, 13 dias depois atingia uma praia de Calabar, tendo sido detido 17 dias por suspeita de espionagem. - No mesmo ano, já com São Tomé e Príncipe independente, tentei a travessia São Tomé ao Brasil, usando os mesmos recursos. Além de pretender reforçar a minha teoria, desejava evocar a rota da escravatura e repetir a experiência de Alain Bombard. Porém, quis a ironia do destino que vivesse a difícil provação de um naufrágio de 38 longos dias, tendo aportado numa praia de Bioko (Bococo)onde fui recambiado para a famosa prisão de Black Beach

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Em S. Tomé – A subida do mar e o aquecimento da atmosfera – Tem provocado alterações climáticas significativas – Praias que deixaram de ser frequentadas e povoações que, em certas alturas, têm de ser abastecidas por autotanques – Chafarizes da água da montanha, deixaram de ser suficientes


PLANETA AZUL AMEAÇADO  - Comparem-se as duas imagens e vejam-se as alterações a nível de subida das águas, - Esta foto - de minha autoria - registada em Março de 2016  - é da vista geral da Praia S. Jerónimo, já com o Hotel Pestana e a Fortaleza menos exposta  


Foto de António Vaz

Esta fotografia  - de autoria do antigo militar português, António Vaz (1967-69)  - retrata a mesma praia mas com uma maior língua de areia, sem necessidade de quebra-mar - Na altura, era a praia preferida da comunidade portuguesa - Hoje raros são os banhistas que a frequentam: as ondas já avançam até ao muro da avenida e a praia tornou-se demasiado perigosa

Nível do mar subiu mais nos últimos cem anos que nos três milênios anteriores

O nível dos oceanos subiu mais rapidamente ao longo do século XX do que nos três últimos milênios, devido às alterações climáticas, indica um estudo publicado na segunda-feira.
Praia S. Jerónimo - Março 2016 
Entre 1900 e 2000, os oceanos e os mares do planeta subiram cerca de 14 centímetros, sob o efeito do degelo, sobretudo no Árctico, revelaram os autores de investigações publicadas na revista científica norte-americana Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).
Os climatólogos estimaram que sem o aumento da temperatura do planeta observada desde o início da era industrial, a subida dos oceanos teria correspondido a menos metade no século XX.
O século passado "foi extraordinário em comparação com os últimos três milénios e a própria subida dos oceanos acelerou nos últimos 20 anos", sublinhou Robert Kopp, professor do departamento de Ciências da Terra da Universidade Rutgers (Nova Jersey, Estados Unidos).

Fossas provocadas pela erosão da subida do nível do mar
Segundo este estudo, que assenta numa nova abordagem estatística concebida pela Universidade de Harvard (Massachusetts, EUA), os oceanos baixaram cerca de oito centímetros entre o ano 1000 e 1400, período marcado por um arrefecimento planetário de 0,2 graus Celsius.
Actualmente, a temperatura mundial média é um grau mais elevada do que a do final do século XIX.. - Excerto de Subida do nível do mar nunca foi tão rápida em três mil anos

NA BAÍA ANA DE CHAVES - OS ESTRAGOS DO AUMENTO DO NÍVEL DO MAR SALTAM AOS OLHOS 

Quem der um passeio pela marginal da cidade de S. Tomé, facilmente se aperceberá do efeito demolidor das águas da baía Ana Chaves, sobre os muros que a contornam  - pese o facto de serem bem tranquilas  - Em alguns casos, tratam-se de verdadeiros alçapões - É certo  que as raízes das árvores, nos passeios,  contribuem para o levantamento da calçada, dificultando a passagem dos peões mas não menos verdade é o facto de que, a subida das marés, no seu constante vai e vem, tem deixado sinais bem visíveis do seu poder erosivo e destruidor. 


Não é o calor seco e asfixiante do pino do Verão, nas zonas do interior de Portugal, mesmo assim é um calor de vapores saturados, que nos fazem encharcar a camisa de suores – São Tomé e Príncipe tem um elevado potencial hídrico composto por mais de 50 cursos de água alimentados por índice de  precipitação  relativamente elevados , que varia entre  1000 a 7000 mm de chuva por ano, mas as alterações climatéricas, estão a deitar por terra,  estas estatísticas – Pois há estudos que concluem que, entre os anos 1951 e 2010, a precipitação diminuiu para uma taxa anual média de 1,7 mm por ano

FEVEREIRO APONTADO COMO O MELHOR MÊS DE FÉRIAS 

Vista parcial da Baía do Clube de Santana
O período mais frio e seco (designado por Gravana) acontece entre Junho e Setembro. A época das chuvas vai de Outubro a Maio. Nos meses de Janeiro e Fevereiro regista-se igualmente um período de abrandamento da temperatura e de menor precipitação, designado por Gravanito - Mas este gravanito tem sido escaldante. - E assim também o comprova um estudo dirigido a turistas e viajantes, que  previa que, “em todo o Fevereiro, o turista podia esperar a onda de calor com clima tropical e temperatura média acima de 29. Tempo quente pode ser perigoso.

Geralmente a primeira semana é o mais quente em Fevereiro. São Tomé e Príncipe em Fevereiro experiências dias quentes. Normalmente a temperatura varia em torno de 20
e vento é ar de luz.

Fevereiro é um dos melhores meses do ano em termos de tempo em São Tomé e Príncipe. Se o tempo para você é a principal premissa para viajar, Fevereiro será uma boa altura para os feriados. Isso pode ser bom momento para caminhar ao redor da área e explorar as principais atracções. A humidade relativa normalmente varia de 50 ( Desconforto perigoso ) para 59 ( Provável de insolação ) ao longo de um Fevereiro típico. Ponto de orvalho é frequentemente uma da melhor medida de quão confortáveis são as condições meteorológicas para um viajante. Quando você viajar para São Tomé e Príncipe Lembre-se que pontos de orvalho inferiores sentir-se mais secos e mais elevados pontos de orvalho sentir mais húmidos. Durante uma típica Fevereiro ponto de orvalho muda de 19 ( Um pouco desconfortável para a maioria das pessoas na borda superior ) para 24 ( Muito úmido, muito desconfortável. ).
Comprimento do dia e horas de sol

Ao longo do Fevereiro típico, o comprimento do dia gradualmente começa a aumento por aproximadamente 1 minutos. O dia mais curto é Sábado - 1 de Fevereiro de e 12 horas 4 atas para oferecer luz do dia, o nascer do sol é 05:44 e pôr do sol é 17:48. Dia mais longo é Sexta-Feira - 28 de Fevereiro de com 12 horas 6 atas da luz do dia, o nascer do sol é 05:43 e pôr do sol é 17:49. – Excerto de São Tomé e Príncipe clima - Guia Viagem

ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS RESSALTAM À VISTA DESARMADA

As alterações climáticas é um fenómeno global mas as suas consequências afetam sobretudo as áreas costeiras baixas e é nas ilhas que o seu efeito se tem revelado mais demolidor  

 Em São Tomé, há mais calor e  passou a chover menos, a bruma seca do Sara, que era um fenómeno episódico, é notoriamente sentida: em muitas manhãs e tardes, tinge ou tolda os céus de uma cinza cintilante: - mistura-se nas maiores altitudes com os nevoeiros e produz um autêntico efeito de estufa, impedindo que as nuvens cumpram o seu ciclo, a tão necessária precipitação atmosférica

Há localidades, como a Santana, distrito da Cantagalo, a 15 km da cidade de S. Tomé, onde os chafarizes deixaram de correr e que passaram a ser abastecidas através de autotanques  – Esse fenómeno, não só tem afetado as populações, como as próprias unidades turistas, nomeadamente a nível de piscinas de água doce – Água do mar, não falta, quente, azul, convidativa, transparente e cristalina, em baías que é um regalo de tentação aos  olhos e à imersão do corpo, mas não da água da nascente da montanha.

Tal como referi neste site, no principio do ano passado: 

A Ilha de São Tomé, afunda-se: a desflorestação  a sul, e queimadas na zona da savana, a noroeste,  a par do efeito de estufa a nível global, provocam profundas alterações climáticas, de consequências imprevisíveis, colocando em risco  a biodiversidade e  as condições vida das populações – Não bastam os  milhões de dólares” doados, se internamente nada se modificar.

Já conhecia a desflorestação através de vídeos e de fotografias - Porém, longe de imaginar que a sua extensão fosse tão  avassaladora - Pelo que me foi dado observar,  a área devastada, ao sul da ilha de S. Tomé,  pareceu-me duplicar ou mesmo triplicar os tais 4000 hectares que  foram concessionados  pelo Estado santomense a um grupo privado

 Troços de estradas onde a maré cheia invade o asfalto

Vi que existem graves ameaças ambientais, tanto à beira mar como no interior. 

Por exemplo, vi uma baía, quase  sem margem, com a maré cheia a invadir a estrada e, nalgumas áreas,  com mais cascalho de que areal.  

Bem diferente daquela que fora uma das mais aprazíveis praias – Ornada de coqueiros, por um extenso e suave areal, junto à qual surgiam inúmeros caranguejos verdes, vindos das tocas que esburacavam no mato para capturarem as suas presas.  Eram tantos a atravessarem a estrada, que havia quem se divertisse a esmagá-los com os pneus do carro, sobretudo à noite. Agora, o que se descobre é uma curta língua de cascalho, que entretanto o asfalto vai protegendo, comida pelo avanço do mar, alguns troncos de esguios coqueiros e de outras árvores, que ameaçam ser arrancados a todo o momento, devido às investidas das ondas na própria estrada, também já esta, de onde em onde, bastante comida e esventrada. 

Orlas costeiras comidas pelo mar, colocando em risco habitações, caminhos ou estradas. Então, na estrada das Neves, depois da Lagoa Azul, por mais paredões que ali se façam – e vimos que havia importantes obras em curso – não tarda, que o troço existente, acabe  por ficar submerso e de se tornar intransitável. E se torne necessário  romper as veredas e fazê-la noutras curvas de nível, mais alto. O pior é a insegurança para  as pequenas comunidades  piscatórias, que vivem as suas vidas, intimamente com o mar,  junto de encostas, tão abrutas, e ao mesmo tempo já tão ameaçadas pelo avanço das águas,  as quais, não tendo  outra alternativa onde se alojar, só restará a possibilidade de virem a  transformar-se em aves.  Pois, mas é gente que vive com um pé em terra e outro no mar – E, este, além de ser adverso, lá fora, nas fainas do seu dia, agora, ainda por cima, lhes ameaça o próprio lar, a humilde cubata de madeira.  Antevê-se, pois,  um futuro algo incerto e inseguro. 

A caminho do sul, ao chegar-se à Ribeira Afonso, até há  porcos que, na fase da maré-vazia,  tranquilamente invadem a margem do escasso areal negro que resta para se  refastelarem de marisco, contudo, um observador mais atento, nota que, uns metros mais ao nível do arruamento,  facilmente se apercebe que já  nem as obras de proteção,  igualmente ali levadas a cabo,  poderão  assegurar que as canoas, ali empoleiradas, deixem de ser  arrastadas por um temporal mais agressivo. 

AS ILHAS SÃO AS PRIMEIRAS  PARCELAS DA TERRA A SOFREREM OS PIORES IMPACTOS


Dizem especialistas que “os moradores de regiões costeiras estão ameaçados em todo o planeta – seja em Nova Orleans (EUA), em Roterdã (Holanda) ou em Daca, a capital de Blangadesh, onde a cada ano as águas obrigam 100 mil pessoas a se mudarem”

Mas é  nas ilhas que o  aumento do nível das águas, mais se faz sentir: quer nas ilhas de origem vulcânica, por natureza mais elevadas, quer  nas de formação coralinea  - Muitas destas, já se toraram praticamente inabitáveis.

“A causa é o aquecimento global e o consequente aumento do nível do mar. Desde 1993, o avanço foi de 40 centímetros na região das Ilhas Carteret, cuja altitude mal chega a um metro. Estudos do Instituto de Pesquisa de Impactos Climáticos, de Leipzig, na Alemanha, prevêem um aumento do nível do mar, em termos globais, de um a dois metros até o fim deste século. Ilhas correm risco de afundar - Deutsche Welle

MILHÕES PARA TUDO FICAR COMO DANTES

Referem as últimas notícias que “O financiamento previsto para cobrir o período de 2015 à 2019, no valor de 1 milhão de dólares por ano, está a ser preparado numa altura em que se encontra em São Tomé e Príncipe, uma equipa do CADRI-capacidade para redução de riscos e catástrofes. A equipa veio avaliar o desempenho nacional na prevenção de catástrofes e as capacidades de resposta. 4 Milhões de dólares para combater efeitos das mudanças .


De nada servem uns velhinhos, e umas velhinhas,  sorridentes e de máquina fotográfica ao tiracolo, andarem a dar umas passeatas pelas praias, fotografando aqui, fotografando acolá, arvorados em especialistas quando o objetivo dessas ditas comissões, mais não é de que justificar subsídios – Formalizar toda uma engrenagem de formalidades: de chorudos empregos, a que acedem uns afortunados  e umas migalhas para o essencial


Ainda se ao menos os fundos das ajudas externas, fossem bem aplicados!.... Mas, pelos vistos, tanto em S. Tomé, como em Portugal – e não só – constata-se que, em matéria de subsídios  os exemplos não têm sido os mais edificantes. Vivemos num mundo de ostentação, de egoísmos e de aparências. Os vícios neoliberais espalharam-se como erva daninha por toda a Terra, privilegiando o privado em detrimento do interesse coletivo


Memórias de São Tomé e Príncipe – Colonial, anos 50 e 60 - A cadeia é um espetáculo arrepiante; quando lá entrei, estavam todos a comer de cócoras no corredor – Estas as condições que, cerca de 150 santomenses, encontraram na cadeia da Ilha do Príncipe, na sequência dos Massacres do Batepá - Tomé Agostinho das Neves, 97 anos, um dos sobreviventes mais antigos do Campo de Concentração Fernão Dias

Por Jorge Trabulo Marques - Jornalista e Investigador 

1963 - Relatório do Inspector do Ministério do Ultramar

Vos de Sao Tomé - 1953

Em 3 de Fevereiro de 1953, Tomé Agostinho das Neves, vivia no Pantufo,  atual vila  a curta distância  da cidade de S. Tomé – E foi da sua casa, situada  na então pequena povoação, que o foram levar para o Campo de Concentração de Fernão Dias – Local de sofrimento e morte para milhares de santomenses: não através das famigeradas  câmaras de gás,  criadas pelo nazismo hitleriano para a matança de milhões de judeus, mas de outras formas de tortura e de espancamento, não menos cruéis – O que ali se passou, na sequência dos trágicos acontecimentos de 3 de Fevereiro, são das paginas mais negras de colonização portuguesas, nestas maravilhosas ilhas, episódios e sobejamente conhecidos   da sua população

 A data de 3 de Fevereiro é dia de Feriado Nacional, em S. Tomé e Príncipe – As comemorações decorreram há quase um mês, oportunidade para recordar os que tombaram e homenagear os sobreviventes – Este ano foram assinaladas com a inauguração de um memorial , tal como referi neste site http://www.odisseiasnosmares.com/2016/02/s-tome-e-principe-homenageou-hoje-os.html


Hoje vou aqui falar de um homem que, já não via há mais de 40 anos -  É do Sr. Tomé Agostinho das Neves – Um dos santomenses, que, no tempo em que o conheci,  trabalhava na Câmara Municipal de  São Tomé, como 2º oficial, muito estimado e respeitado, tanto pelos seus compatriotas e colonos, como  no interior da instituição – Falei com ele várias vezes. 

Quis agora um feliz acaso que me pudesse cruzar com ele – E também com o seu filho, Edgar Agostinho das Neves, Diretor do programa “Saúde para Todos,  organização não governamental portuguesa Instituto Marques de Valle Flôr (IMVF  - Encontro este que ocorreu, justamente à porta de sua casa, quando acabavam de chegar de um passeio dominical e no momento em que conversava com o português, Nuno Miguel Fazenda Bruno, professor de inglês, vizinho do prestigiado médico.


Sofreu imenso mas prefere não avivar o pesadelo de  tais memórias – Pois 97 anos têm o seu peso e o coração já não está talhado para suportar tão duras recordações – Por isso, o mais importante, neste reencontro, era dar-lhe um abraço e vermo-lo vivo à nossa frente 
– Sim, porque longe também vão os dias das primeiras entrevistas que fizemos para a revista angolana, Semana Ilustrada,  com vários sobreviventes do Batepá, entre os quais  o chamado “Homem Cristo”, nome pelo qual ficou conhecido, um dos mais heróicos sobreviventes,  que não só  logrou sobreviver à asfixia de uma estreita cabine, entre as três dezenas de seus compatriotas, encurralados,  como resistir às rajadas de metralhadora, quando, ao abrirem a porta, começou a fugir. – Tendo-me mostrado as suas calcas, ainda esburacadas pelo crivo da metralha.

Cadeira de choques eléctricos 
Tomé Agostinho das Neves, não estava nesse exíguo espaço nem chegou a estar a bordo do barco, António Carlos,  dos cerca de 150 homens da elite santomense, que iam ser atirados ao mar, caso a tripulação não se rebelasse, mas foi um dos mártires do campo de concentração de Fernão Dias – Memórias inarráveis, que, mesmo quem por lá passou, dificilmente encontrará palavras para as descrever

AS MACABRAS OPERAÇÕES DO NAVIO ANTÓNIO CARLOS NO PERÍODO COLONIAL -


Em Fevereiro de 1953, cerca de centena e meia  de santomenses, iam ser largados no mar  por ordem do Governador Carlos Gorgulho- Tal não aconteceu porque a tripulação, liderada pelo imediato Bernardino Lopes Monteiro,  se sublevou - Porém, alguns anos mais tarde, no caso de prisioneiros de guerra guineenses, persistem  fortes suspeições, de, que o crime tenha mesmo sido consumado, com uma parte da carga humana, engaiolada nos porões e da qual apenas chegou metade ao seu destino - Quem levanta a questão é  um tripulante, que acusa o comandante como uma figura odiada:  "Foi ainda a bordo deste mesmo navio que nos deslocámos de Bissau a Cabo Verde (Tarrafal) na Ilha de Santiago) para ali embarcar supostamente 88 ex-prisioneiros de guerra, mas por razões que nunca cheguei a saber apenas 44 voltaram para a Guiné .Era então Comandante do António Carlos o conhecido e odiado pelas gentes da outra banda, o  "Herói do Barreiro"... Estou a falar-vos do longínquo ano de 1964. (***). - Pormenores em. Luís Graça & Camaradas da Guiné: Guiné 63/74

sobrevivente
"António Carlos" - navio  de carga e passageiros,  que, anos mais tarde, ainda durante o salazarismo colonial também foi usado  para transportar presos do Tarrafal, como se poderá concluir mais adiante – E, pelos testemunhos, que aqui exponho,  também depreender-se que era através dele  que, o Governador Carlos Gorgulho, em Fevereiro de 1953, quis  levar a cabo mais uma das suas macabras operações de liquidação da elite santomense, que apelidara  de “comunistas” 

sobrevivente
Quem evitou a tragédia de cerca de centena meia de nativos santomenses foi o valoroso Bernardino Lopes Monteiro,  que era então o imediato e que, com outros elementos africanos da tripulação, obrigou o comandante a deixá-los na Ilha do Príncipe, após o que o forçou também de deixá-los no Senegal. Mais tarde, tendo regressado a Cabo Verde, donde era natural, mesmo com outra identificação, foi detido pela PIDE  e levado para o presidiu do Tarrafal.  

FORAM SALVOS DE SEREM AFOGADOS  E DEVORADOS PELOS TUBARÕES MAS  DEPOIS ESPERAVA-OS  UMA CADEIA ONDE ERAM TRATADOS COMO ANIMAIS  - É o que pode depreender-se do relatório de um inspector do  Ministério do Ultramar, na passagem que a seguir passo a transcrever, com data de 1963 – Mesmo 10 anos depois


1963
"Só é de salientar o estado deplorável do edifício  da “cadeia”, principalmente as suas divisões internas,  de compartimentos exíguos e em condições miseráveis de higiene A cadeia, estava com muitos presos e,  quando lá entrei, estavam todos a comer de cócoras no corredor que dá ingresso às celas e em cujo topo existem, vedados por um biombo-parede, uma imunda latrina e um chuveiro para banho. É um espectáculo a todos os títulos lastimoso e a  própria limpeza de tudo aquilo e o cheiro de classificar de afrontoso.

Só no maior compartimento-cela há uma tarimba a toda a largura. Nas restantes celas os presos dormem no chão. As paredes todas de uma negridão suja  e, cá fora, uma guarita em estado de ruína e toda inclinada, junto da qual uma sentinela da policia, armada de espingarda. A casa da guarda, logo á entrada da cadeia, do lado direito, também em estado de desmazelo completo, vendo-se duas camas de ferro desmanteladas.



É esta a cadeia dos presos do Julgado Instrutor  e da Administração do Concelho do Príncipe, incluindo os da Agência da Curadoria.  É um espectáculo arrepiante e, certamente, V.Exa. , mandará tomar imediatas providências para uma radical transformação, de modo a ser possível no mínimo admissível este conjunto de desmazelo e desumanidade.

O Sr. Administrador do Concelho disse-me  pensar propor a V.Exa, a remodelação do mesmo edifício

116 - A grande maioria destas queixas não tem qualquer despacho ou outro indício do andamento que tiveram, nos respectivos registos, ou então os despachos são imprecisos, incompletos, dando bem a sensação do desprezo com que estes assuntos, que tanto calam no espírito da população, são acolhidos por funcionários cheios de tédio, ou, como eles alegam, que têm tanto que fazer que não chegam a fazer nada.


Um despacho diz assim - "Ouvidos e harmonizados"  sem que ninguém possa saber ao certo o que se passou; outra "sentença" em queixa por desvio e retenção de uma máquina de costura diz: 

"Prometeu entregar a máquina no dia 20 de Janeiro"; a queixa era de 3 de Dezembro, e naturalmente não foi cumprida, como em casos idênticos tive ocasião de constatar, mandando comparecer os queixosos que foram encontrado., "Intime-se o queixoso para o dia 29" e nada mais se sabe; num requerimento arquivado com uma queixa, lês e escrito a lápis, sem data nem assinatura. "Chame-se o gajo" e fica por aí, pelo que é fácil de calcular o que seria o julgamento, que parece poder atribuir"\ um subalterno do Corpo de Polícia que substituía na data o comandante,

120 - Ouvi também referências á execução de trabalho compelido para serviços públicos, imposto aos nativos, do que não há conhecimento na Inspecção Superior dos Negócios Indígenas, nos termos do artigo 295• do Código do Trabalho do Indígena , de 6 de Dezembro de 1928.( Do c , 3.4 -,)

Constou-me também que na execução desses trabalhos e do trabalho correccional os trabalhadores são entregues á condução de outros presos, mui tas vezes criminosos de nomeada, que sobre os trabalhadores exercem grandes violências, o que já provocou a intervenção dos médicos do hospital em vista de ali aparecerem gravemente feridos ou contusos dos naus tratos e até por esse estabelecimento correu um processo por estupro na pessoa de uma menor de 11 ou 12 anos, presa ou filha de uma presa, que obrigou a tratamento hospitalar da vitima, praticado por um desses capatazes, preso por assassinato de um filho, tendo o processo sido mandado arquivar, sem qualquer procedimento. Estas casos são para averiguar um dia, dentro do prazo de prescrição de tais crimes. quasi todos os ~ovos selvagens suportam estas contrariedades por tempo mais ou manos longo, n:as a certa altura aparecem os actos de violência  e atentados individuais ou coletivos a , cuja culpa e costume atribuir a quem tenha denunciado os males, pelo que já fica a prevenção. A investigação que o inspector tencionava fazer sobre este assunto partiria de interrogatório dos presos a trabalhadores entregues á Po Lí.c í.e ;o que não se fez, a ninguém mas se arrisca a dar testemunho.”

 Aliás, assim o documentam as palavras de um alto funcionário do Ministério do Ultramar, em  1956, dois anos depois do massacre de Batepá, a 3 de Fevereiro de 1953, ao referir-se aos santomenses e contratados cabo-verdianos  (colocados sob a fiscalização da Curadoria Geral dos serviçais e indígenas por comodidade da administração, em face de trabalharem nas roças em igualdade de circunstâncias com os indígenas serviçais sujeitos  à tutela  curatorial) referia que ele que “no caso dos cabo-verdianos, isto não tem importância de maior, dado que a sua permanência em massa nesta colónia  é sempre

Porém, já quanto aos nativos de S. Tomé (embora advogasse outra solução, continuavam na condição do indigenato), “tratando-se de um povo em adiantado estágio de crescimento na civilização do colonizador a quem não pode impor-se um regresso ao estágio inferior, afigura-se-nos que a via mais adequada para resolver este problema, e a mais legal, será a promulgação de medidas destinadas a reconhecer ao nativo, individualmente, a sua capacidade de cidadania portuguesa, e nessa cidadania fazer entrar logo de início a grande maioria da população, impondo-lhes a  satisfação    de certos mínimos de sociabilidade, em especial, a comprovação de meios de vida e de trabalho, admitindo de entrada uma maioria, mais ou menos reduzida,  de nativos que ficariam sujeitos à tutela curatorial e regime de indigenato , até á comprovação para entrada no grémio do civilizado. Isso seria o caminho para a civilização nítida, perante a lei. 

UMA QUESTÃO DE JEITO E DE FORÇA

Era o que sugeria ainda a o dito servidor do regime colonial, citando “o grande António Eanes que a política indígena era a política de conduzir a população indígena com dosagens de “jeito” e “força” custa forma exacta custa muito a determinar”

Mas quanto aos nativos de S. Tomé  já assim não é, tratando-se de um povo em adiantado estágio de crescimento na civilização do colonizador a quem não pode impor-se um regresso ao estágio inferior, desmentindo-se com isso o objetivo máximo da nossa obra da colonização. Afigura-se-nos que a via mais adequada para resolver este problema, e a mais legal, será a promulgação de medidas destinadas a reconhecer ao nativo, individualmente, a sua capacidade de cidadania portuguesa, e nessa cidadania fazer entrar logo de início a grande maioria da população, impondo-lhes a  satisfação    de certos mínimos de sociabilidade, em especial, a comprovação de meios de vida e de trabalho, admitindo de entrada uma maioria, mais ou menos reduzida,  de nativos que ficariam sujeitos à tutela curatorial e regime de indigenato , até á comprovação para entrada no grémio do civilizado. Isso seria o caminho para a civilização nítida, perante a lei. 

sobrevivente
sobrevivente
Assim os trabalhadores cabo-verdianos foram transitoriamente colocados sob a fiscalização da Curadoria Geral dos serviçais e indígenas por comodidade da administração, em face de trabalharem nas roças em igualdade de circunstâncias com os indígenas serviçais sujeitos  á tutela  curatorial , e que podem acarretar algumas complicações no meio dos agregados dos trabalhadores. Por outro lado, os nativos de S. Tomé foram considerados sob a lei do europeu. Isto é,  retirados sob a tutela curatorial , quando perante a carta Orgânica do Império Colonial Português, artigo 246 $ único, devem estar sujeitos ao regime de indigenato, na sua ascepçao legal