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Quem sou eu

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Entre outros assuntos, falo da escalada ao Pico Cão Grande e das minhas aventuras em canoas – Visam defender a teoria de que antigos povos africanos, podiam ter sido os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo da Guiné, antes dos colonizadores – Parti à meia-noite, disfarçado de pescador, ligando a ilha do Príncipe. Para me orientar, uma rudimentar bússola – A canoa era minúscula, à segunda noite adormeci: rolei na escuridão das vagas. No regresso fui distinguido com sopapos da policia salazarista, enviado para os calabouços – Cinco anos depois, numa piroga maior, fiz a ligação São Tomé-Nigéria. Partindo igualmente à noite, 13 dias depois atingia uma praia de Calabar, tendo sido detido 17 dias por suspeita de espionagem. - No mesmo ano, já com São Tomé e Príncipe independente, tentei a travessia São Tomé ao Brasil, usando os mesmos recursos. Além de pretender reforçar a minha teoria, desejava evocar a rota da escravatura e repetir a experiência de Alain Bombard. Porém, quis a ironia do destino que vivesse a difícil provação de um naufrágio de 38 longos dias, tendo aportado numa praia de Bioko (Bococo)onde fui recambiado para a famosa prisão de Black Beach

domingo, 10 de abril de 2016

"SÚBITAS TROVOADAS TEMEROSAS"... COUSAS DO MAR QUE OS HOMENS NÃO ENTENDEM" - É o Mar!... O Eterno Mar! - Mãe!... Se puderes, suspende o teu silêncio!... O eterno descanso…Quero falar-te das minhas histórias!...Que são ainda mais fantásticas das que nos contavas em criança…



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«Contar-te longamente as perigosas
Cousas do mar que os homens não entendem,
Súbitas trovoadas temerosas,
Relâmpagos que o ar em fogo acendem,
Negros chuveiros, noites tenebrosas,
Bramidos de trovões, que o mundo fendem,
Não menos é trabalho que grande erro,
Ainda que tivesse a voz de ferro.

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«Vi, claramente visto, o lume vivo
Que a marítima gente tem por santo,
Em tempo de tormenta e vento esquivo,
De tempestade escura e triste pranto.
Não menos foi a todos excessivo
Milagre, e cousa, certo, de alto espanto,
Ver as nuvens, do mar com largo cano,
Sorver as altas águas do Oceano.

Luís Vaz de Camões



















A VÓS NÁUFRAGOS
DE TODOS OS TEMPOS...

Eu, humilde navegante e aventureiro,
aqui vos evoco, invocando almas
de poetas e marinheiros.
Aqui me associo aos ecos da vossa lira,
juntando à sua voz e a minha voz.
Aqui, elevo aos deuses as vossas preces,
as vossas clamorosas súplicas,
beijando, perdidos,
enlouquecidos, ícones, rosários,
relíquias sagradas.
E choro , choro as mesmas lágrimas
de sal e de dor.
E comungo convosco os eternos instantes,
as horas infinitas de pavor
das vossas aflições.
Sim, porque, o mar não mudou;
o cheiro a maresia é o mesmo,
as ondas continuam sem descanso.
Ao largo, o cenário também é igual - o círculo
estende-se pela mesma solidão,
e, à volta do círculo, é ainda o abandono
de todas as eras.
Além disso,
sei que, ouvindo o grito grave
das gaivotas,
ainda ouço os vossos gritos
à mistura com o uivo do vento e o ronco do trovão;
ainda pressinto o desespero do vosso terror;
ainda me vem à garganta o trago seco
amargo da sede e o sabor vazio a vísceras
da miséria e da fome, em calmas
e longuíssimas horas mortas.


.

Sim, agora estou muito longe do Golfo,
do sol faiscante do equador.
Há muito deixei de ver a vastidão desse mar.
Porém, pela retina dos meus olhos,
ainda perpassam imagens de calmarias lisas,
infinitas e de tempestades assombrosas!
Poentes rubros de purpúrea e sangue,
horizontes pardos, amarelos, desmaiados,
inquietantes, com presságios de luto,
penumbra, incerteza, abandono,
sofrimento, inquietação!



Ainda me sobram visões de fulgurantes relâmpagos!
Nuvens negras que galopam e rodam, em noites de breu!
Tal como galopam e rodam as escuras ondas,
num vertiginoso vai e vem interminável!
- A lua a espaços a iluminar
por entre as brechas que se abrem e fecham! - Oh!
uiva e silva o vento! Caiem fortes bátegas de água
e negro é o mar e o céu! - Eu não sou nada
no meio deste assombroso encareceu,
ondulo na solidão não sei para onde
e para que direcção vou: - só sei
que nem sou poeira
nem sou ninguém!
Fantasma inteiro
da minha imagem.
Sombra da noite a boiar
Pássaro de asas cortadas
pousado num escavado madeiro
sobre a vasta escuridão do mar!

No meu coração, ainda persistem sufocos de ameaças e solidões,
ansiedades infinitas, horas longas de incerteza, angustiantes!
De exaustivos momentos e aflições - e até rasgos das alegrias
que também as tive - e muitas foram também.
Aos meus olhos ainda assomam, nitidamente,
visões de perfis, silhuetas dos temíveis tubarões:
os malditos esquálos fusiformes e verdes, de barbatanas
sempre em riste, logo que as ondulantes águas se aclaravam,
a conturbada noite das trevas se desfazia,
a vasta planície líquida ganhava a mesma cor das alturas,
mal a própria abóbada se iluminava
com o alvor e o romper do dia.

.

Existem porém as horas malditas! - as horas da desgraça,
as que antecedem as tempestades - em que o seu instinto
de depredadores e confessos assassinos - faz
da sua presença a mais temível ameaça:
- torna-os ainda mais selvagens e agressivos! - Logo
que os horizontes se toldam e as águas
ondulam cobreadas de presságios,
aí estavam eles! Inesperados, indomáveis!
Muito perigosos! A rondar a frágil canoa,
em giros contínuos, cada vez mais apertados,
muito próximos!- Até investirem, repentinamente,
da popa à proa, numa fúria brutal e desabrida
ao encontro do costado da tosca piroga, querendo
levantá-la ou destruí-la em sucessivas rabanadas!
- Tal a rapidez com que deferiam os seus ataques,
que só se viam: ou quando rondavam
as proximidades de barbatana em riste
ou, então, quando - cegos de ferocidade -
já vinham disparados como autênticos petardos - Felizmente
que a catana, empunhada numa das mãos,
rapidamente entrava em acção - Afastava-os, sim,
mas depressa voltavam...O mar,
continuamente infestado dessas feras,
pouca tranquilidade me assegurava.

Os pequenos, atraídos aos magotes,
eram inofensivos, porém, os maiores, os solitários,
surgiam isolados, quase sempre investiam,
nem que fosse para se roçar e encostar,
pareciam enormes serpentes!
Nada receavam ou temiam,
rabeando e sulcando a ondulante superfície!
-Gigantes e indesejáveis criaturas!
Sem dúvida, os grandes tubarões no Golfo,
não ficam atrás da ameaça dos tornados,
são a outra face imprevisível
daqueles turbulentos mares!

O mar é um palco vasto e mole, vivo e único!
Com muitas faces, humores e os seus próprios sentidos!
Obcecado pela morte e pela vida.
Na sua vasta superfície azul, ecoam rumores e melodias,
brilham míriades de pérolas, que são o encanto
das românticas e míticas sereias, o pasmo
e o enlevo dos marinheiros e navegantes. Mas também
o sofrimento e a angústia dos náufragos,
ante o vazio infinito das silentes solidões
e a fúria das inesperadas
e retumbantes tempestades.

Muralhas de água, avançam, avançam!..
Avançam e erguem-se, subitamente negras,
até quase tocarem as sumidas estrelas!
Para logo outros grossos novelos, se levantarem e lhe sucederem!
Rolando, rolando de crinas o vento! Espumosos, alvacentos
nas franjas e nas cristas! Agigantam-se,
tomam formas de perfis de montes e montanhas,
em noites varridas e cerradas,
são monstros negros à solta,
turbilhões de poeirada e fuligem:
atormentam barcos solitários, ameaçam e baralham
pensamentos e destinos! Deixam, em cada alma,
em todos aqueles que sentem a imensa tristeza
de se verem perdidos no torvelinho das águas,
recordações pungentes, muito profundas,
que jamais se apagam.

Serão sempre sentidas e lembradas pela vida fora.
Vão até à sepultura. São o manancial inesgotável
de muitos sonhos, de visões deformadas,
trazidas e recuperadas dos fundos do subconsciente,
sob a distorcida ou ampliada lupa nocturna.

.


Sim, ó tu, meu coração e meus olhos, viajantes vagabundos!
Viajantes insaciáveis em desbravarem a luz original
e perene dos mistérios, o tempo impreciso
dos espaços desconhecidos e por habitar, o devaneio, a dor,
todas as sensações e emoções através das quais
o Homem ascende à plenitude e à grandeza da obra do Criador:
colocam o corpo e a mente, em estreita união,
com a linguagem dos peixes, do vento e das águas,
em sintonia com o ritmo harmonioso, extremado e puro
dos ilimitados espaços, em pé de igualdade, com a inexprimível
musicalidade das marítimas vozes que cantam a efemeridade finita
e a eternidade infinita do Universo.

Agora o tempo devia ser mais de pausa e dar largas à memória!
Oh, coração vagabundo das sete partidas,
continuas, como sempre, ansioso e temerário! - Oh!
quantos sonhos de aventuras! - Sonhos de viagens
em que nunca chego a partir. Sonhos de viagens
em que me vejo a largar sozinho, algures de uma praia deserta
e de novo a navegar... sem saber para onde é o meu destino
e aonde aportar... Sonhos, mais das vezes, atribulados,
que desembocam em pesadelos, em sobressalto,
num misto de vigília e de torpor,
como se o leito ou pouso da cama onde durmo,
fosse o fundo da minha própria canoa
e todo aquele enorme bramido e furor,
que ainda hoje perpassa pelos meus ouvidos,
me quisesse repentinamente envolver e sufocar
nas mesmas diluvianas chuvadas
ou no mais fundo das águas
e dos abismos!.

Porém, guardo outras recordações
ainda mais antigas que gostaria de agora contar
à minha mãe se ela me ouvisse e fosse viva.
Partiu muito cedo: - dois anos
depois de eu ter embarcado para São Tomé.
Jamais chegou a saber que o seu filho
haveria de ser um digno
aventureiro do mar:
zarpara sozinho numa casca de noz,
desprendido de tudo, alheio a tudo,
sem nada recear e sem qualquer meio
com quem poder comunicar,
guiado pelo sol e as estrelas,
munido unicamente de uma simples bússola,
apaixonado pelo azul do céu e do mar.
Partindo, tal como faziam os povos primitivos
que ligavam o continente africano e as ilhas,
- aliás, era isso, ó mãe,
que eu pretendia demonstrar:
- Oh! quanto
não foram profícuas as histórias
que, lá em nossa casa, te ouvíamos contar
à roda da lareira. Olha que foi isso
que me fez gostar do mar
e incendiar a imaginação
para toda a vida.


Por isso, se puderes, ó mãe!... Desce lá do alto do céus!
Ou, então, amada mãe!...Sobe do fundo da tua campa
e suspende, por alguns momentos, o repouso
do teu eterno silêncio e vem ouvir
o que o teu filho tem para te contar.

Quero falar-te das minhas histórias!
Que são ainda mais fantásticas,
das que nos contavas em criança
naquelas longas noites de Inverno, quando o vento zunia
através das vidraças ou da nossa sacada, faiscavam
os relâmpagos que ofuscavam
o candeeiro a petróleo e nos cegavam,
quando saímos da cozinha e íamos à corte
dar a beberagem ao vivo - Oh Deus!
com que fulgurantes clarões, se iluminava a rua!
Seguidos de um ribombar que atroava os ares!
Estrondos sinistros e medonhos, repercutiam
de espaço a espaço no negrume da noite! Eocavam
por todos os quadrantes dos céus!

Ainda te lembras, ó mãe?!.. como todos nos assustávamos?!...
"Santa Bárbara Bendita. Que no céu estás escrita.
Entre cálices e água benta. Deus nos livre desta tormenta.

"Eram estas as palavras que logo pronunciávamos.
E, se alguém da nossa aldeia, naquelas alturas,
navegava no paquete para o Brasil ou África,
ao pensarmos que o mesmo cenário se estendesse
por toda a Terra e sobre os mares, rezávamos
para o que o navio não fosse tragado pelas vagas.



Pois bem.. olha que eu julgo que também rezaste por mim,
quando embarquei para São Tomé, do Cais de Alcântara,
naquele já distante dia frio e cinzento de Inverno,
com o pai acenar com um lenço, do lado de lá,
enquanto o navio apitava e largava Tejo fora,
certamente, arrasado de lágrimas, tal como tu as verteste,
quando me beijaste por detrás do postigo da nossa casa
e disseste: "Adeus meu filho! Que já não te vejo mais!
- E , afinal, o teu coração tinha razão: - não te enganaste!

Pois bem, querida mãe, que tão cedo, Deus
chamou para sua companhia! - Oh, que saudades!
Pobre mãe, que tão cedo, partiste: sabes que aquelas ondas
que eu imaginava, ondulantes como as searas no Verão
e tão grandes, em noites de tempestades,
como os rolheiros de trigo nas eiras,
e que eu julgava que ficavam
para lá do horizonte da cordilheira,
que se estende de Sul para Norte, sobre a linha do poente,
onde fica a torre da Meda - qual farol de um porto, das Beiras! -
Sim, quem diria - ó mãe! - que um dia, teu filho, também
acabaria por andar sozinho no meio dessas ondas descomunais,
ainda mais gigantes do que aquelas
que, então, eu próprio as imaginava.

.
Oh! mas aquieta-te! Oh coração angustioso!
 Não vás tão longe...
Quem não sente saudades de sua mãe?!..
Conforta-te com a memória!
- A morte não devolve nada à vida
e tu sabes que até já estiveste
muito próximo do além,
mais perto de lhe ires fazer companhia,
noutra sepultura, imensa e sem fundo,
que a viveres a vida que sorria
 à tua frente e abraçares o mundo.

Cala-te, pois, meu pobre coração!
Deixa fluir a memória livremente
 e que o sonho te acalente.
Pois, de vez em quando,
tu bem me dizes: "Jorge volta ao mar!
Volta a embarcar!"- E tu sabes,
tão bem  como a minha mente,
quanto eu adorava voltar a ver-me solitário
sobre as águas do mar! - Depois de tão longa ausência...

Oh! quanto eu agora não dava por outra oportunidade!...
Poder voltar a contemplar o azul tropical daquelas águas.
Regressar à intimidade daquele imenso mar: - a vogar à superfície
das lânguidas e podres calmarias - Acredita que,
tendo que chegar a hora de adormeceremos,
não me importava nada que lá morrêssemos. Pois o maior susto
que tu apanhaste - ó coração transviado! -já não te lembras?!..
Não foi no mar!... Mas quando, em criança, ias sufocando,
te ias afogando no fundo dum poço, barrento e sem uma pedra,
sem nada na margem onde estender uma mão.

O Fernando encarreirava a água para a horta.
A Conceição tirava-a com o picanço.
Eu estava mais abaixo a desviar os baldes.
O varal rebentou e ela arrastou-me na sua queda para o fundo.
- Valeu-nos a coragem e a valentia do nosso irmão Fernando,
que desceu pela vereda e, agarrando-se a uns juncos
que existiam na margem, lhe estendeu uma cana
que fora buscar a um valado da vinha.
Ele com sete e eu nove anos.
Depois foi ela que, após se haver salvado,
me salvou também a mim...

Lembro-me que ela gritava por Nossa Senhora de Fátima
- aliás, era domingo e dia 13 de Maio. E tentava gatinhar.
Mas eu, quando vim à superfície, mal abria a boca para respirar.
Ainda não sabia nadar: arranhava, arranhava a margem.
Quase bloqueado de aflição e já resignado
ao infortúnio, ao afogamento
que tão claramente se estampava,
aos meus olhos aterrorizados.

E tu, coração quase sufocado:
quando me vi fora daquela aflição,
reparei que, embora já estivesses
mais refeito do susto e mais tranquilo,
eu, nem por isso, queria acreditar
que pertencia ao mundo dos vivos.

Será que, alguma vez, tu, meu coração! -
me vais deixar completamente em paz
e livre dessa terrível recordação?!...
Tão viva ainda hoje está,
que, basta me engasgue
num simples copo de água,
para tu - ó coração danado! -
acelerares o ritmo da tua palpitação - Fazendo
de um simples copo uma tempestade!
E,a final, das tempestades a valer,
como tu as soubeste enfrentar!!
- Mas, com que tormentos e sacrifícios,
só, tu, coração sofrido!, e Deus,
o sabem e o poderão recordar!

Lembras-te, coração atormentado?! - daquela noite, já alta,
em que caí ao mar e, por pouco, aí não foi de vez!...
A culpa era do sono que se sobrepôs ao esforço.
Tinha enjoado de tarde e a noite apanhou-me
muito enfraquecido e debilitado.
Mesmo assim, lá ia de peito ao desconhecido,
e a canoa de vela erguida e navegar
com soberana valentia e galhardia!

Mas era, de facto, demasiado pequena e estreita
para a extensa travessia que me propunha fazer.
Estava mais talhada para a pesca, junto às praias,
não longe da orla e a costa à vista - Foi
a que eu pude arranjar; não tinha dinheiro
para outra. Porém, acreditava, que,
desde que não deixasse de remar ou de navegar,
eu transporia aquele braço do oceano,
de São Tomé ao Príncipe.

Havia largado à meia-noite da Baía Ana Chaves,
disfarçado de pescador para não ser visto
pelas autoridades: de outro modo,
corria o risco de não ser autorizado e ser preso
- e foi o prémio que tive mais tarde.
Mas voltou-se mesmo!

Eu bem tentava... bem tentava, aspergir a cara.
De volta e meia, lançava uns borrifos
com ambas as mãos para afastar o sono.
Mas este pesou mais de que a minha coragem e venceu-me.
Adormeci e voltei-me embrulhado na piroga..
Acordei envolvido em ondas revoltas e negras! - Nunca, até então
havia conhecido um filme de toda a minha vida
e em tão curtos instantes - Pensei que ia morrer
e, em jeito de despedida, pela minha mente perpassou
uma espécie de caleidoscópio das minhas recordações
desde a mais tenra idade. Mas fiz o que tinha a fazer;
fui à luta, perdi quase tudo mas não perdi a vida.

Pois bem, coração! - Meu fiel companheiro das boas e más horas.
Tu sabes muito bem que passamos por momentos horríveis!...
Lá nos safamos, muito a custo e com alguma sorte.
Mas tu nem eu fomos surpreendidos.
Ambos já íamos a contar com esse risco...
Era uma fatalidade que se antevia.
Foram momentos difíceis! - Pois é...mas são estes
que jamais esquecerão.

Oh, sim, guardo tantas memórias do mar,
e já tão misturadas com os sonhos,
que, por vezes, se me confundem
umas com as outras - Esbatem umas e avivam outras.
Mas é um facto, bem verdadeiro: - o mar é generoso
mas. também, por vezes, bem cruel e traiçoeiro!
Então que dizer daqueles medonhos tonados?!..
- Quando me encontrava no meio daquelas tempestades
que assolam inesperadamente aquelas paragens!
Arrastado por fortes ondulações e vendavais!
Vergastado, sem piedade, por enfurecidas ondas infernais!

Vogando, ao deus dará!... Vogando, sem rumo e sem destino!
- Oh quem poderia ouvir a minha voz se pedisse socorro?!...
Quem poderia saber em que ponto eu ia sendo arrastado,
tal como outros madeiros e destroços que encontrei à deriva,
naquelas longas horas em que fui levado pela ondulação
de um enorme cardume de atuns?!...

A bem dizer, não havia qualquer diferença
entre o mísero esquife que me arrastava
e os troncos de palmeiras, paus , porcarias!
A vária poluição vinda das zonas costeiras
ou das plataformas petrolíferas erguidas nas águas continentais!.
Ao cego e descontrolado rumo do cardume, tudo se juntava.
- Também ia eu e a minha pobre canoa: a princípio pensei que fosse
por obra e graça divina, que ia sendo levado
para algum ponto desconhecido mas seguro da costa.
Porém, depois foi a desilusão: era levado
para todos os quadrantes e só via mar agitado à minha volta!
Foi com muita dificuldade que logrei sair do seu envolvimento.
Fui apanhado e arrastado, como simples destroço,
durante uma tarde inteira e ainda pela noite fora,
até perto da meia-noite: no mesmo frenético remoinho e agitação.

Oh! tanta emoção vivida! Ora na mais doce e suave paz do mar e dos céus,
ora na mais perigosa e avassaladora afronta
fúria e festim do Diabo ou da ira ou cólera de Deus! -




Porém, é deveras repousante viajar ao passado,
quando, em noites mais silenciosas e tristes,
em noites de vigília, calmo e introspectivo,
os escaninhos da memória, voam como velas ao largo,
fazendo, subitamente, espraiar o meu olhar
na orla azulínea e branquejante
daquelas paisagens luxuriantes,
praias de finas areias, águas glaucas,
coroadas por flamejantes
anéis de ouro e rubís!

Por isso, quando relembro,
quando penso, medito,
naqueles longos e penosos dias,
no meio daquele casco escavado,
após haver trocado a tranquilidade idílica de uma ilha,
pelos momentos mais incertos e por arriscada aventura,
sim, os meus olhos ainda mourejam de lágrimas,
ainda me comovo de profunda emoção;
sinto que viajo sem viajar. E mal resisto
a erguer os olhos aos céus: não para suplicar divina protecção,
que o náufrago, quando anda por lá sozinho e perdido
- por mais agnóstico que seja, não deixa de implorar -
mas, como se fosse o implícito agradecimento, a sentida emoção,
o reconhecimento, ao sobrenatural,
por me haver defrontado com aquelas longas noites escuras,
longas e tormentosas horas, mas de que
me saí salvo e não derrotado!

Exausto mas vivo! - lá ia eu, não rendido
ao infortúnio ou subjugado aos ditames do desconhecido.
Olhos postos na fímbria das lonjuras do horizonte
ou, pela noite adiante, mais das vezes,
atento e acordado, olhos postos na escuridão! - Vigilante
aos muitos perigos que me rondavam!

Oh! como eram maravilhosas
algumas daqueles noites brancas de luar,
que tanto deliciavam e deleitavam
o meu conturbado olhar!
Devolvendo a paz ao meu espírito,
diluindo algumas das angústias
a permanente incerteza que povoava
a minha tão sofrida e martirizada alma!
.- Indo ao encontro do desconhecido, aspirando,
com inefável gozo, a brisa suave, o ar fresco,
polvilhado da acre salsugem do oceano,
navegando ou indo à deriva,
sob o torvelinho das ondas
que estremecem e rugem..



Sim, tive sorte - . Durante
a maior parte do meu calvário, no interior
da canoa, reinava o caos e um certo vazio:
as águas a chocalhar que lá entravam
e mais umas toalhas e uma peças de roupa,
que cedo se haviam transformados em meros trapos:
já não tinha nada para comer e, quando não chovia,
valia-me da água do mar - Quando a fome
se junta à sede, não há sensação mais terrível! - E, todavia,
tanta água em redor!...E também tanta incerteza!...
"À minha volta reina o caos! - Eu também sou o caos!
Não sou ninguém." - dizia eu algumas vezes.
Mas este ninguém, mantêm-se aqui... firme!...
Não desanima" - acrescentava eu para me conformar..

Não sabia nunca onde estava
nem aonde poderia aportar - Dependia
de uma simples bússola, mais nada!
Sabia para que quadrante me arrastavam
as correntes, as tempestades, as ondulações das águas.
Mas desconhecia, por completo, a que distância
poderia encontrar uma enseada para me abrigar.

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