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Entre outros assuntos, falo da escalada ao Pico Cão Grande e das minhas aventuras em canoas – Visam defender a teoria de que antigos povos africanos, podiam ter sido os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo da Guiné, antes dos colonizadores – Parti à meia-noite, disfarçado de pescador, ligando a ilha do Príncipe. Para me orientar, uma rudimentar bússola – A canoa era minúscula, à segunda noite adormeci: rolei na escuridão das vagas. No regresso fui distinguido com sopapos da policia salazarista, enviado para os calabouços – Cinco anos depois, numa piroga maior, fiz a ligação São Tomé-Nigéria. Partindo igualmente à noite, 13 dias depois atingia uma praia de Calabar, tendo sido detido 17 dias por suspeita de espionagem. - No mesmo ano, já com São Tomé e Príncipe independente, tentei a travessia São Tomé ao Brasil, usando os mesmos recursos. Além de pretender reforçar a minha teoria, desejava evocar a rota da escravatura e repetir a experiência de Alain Bombard. Porém, quis a ironia do destino que vivesse a difícil provação de um naufrágio de 38 longos dias, tendo aportado numa praia de Bioko (Bococo)onde fui recambiado para a famosa prisão de Black Beach

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

São Tomé – 6 de Setembro 1974 – Dia Nacional das Forças Armadas Santomenses - Recordando o conturbado dia em que podia ter havido um banho de sangue: duas vidas perdias: o nacionalista Giovani e um solado português num trágico acidente: colonos das roças, sem as armas nos paióis dos armazém, perturbados e enfurecidos, invadiram o Palácio, insultaram o então coronel Pires Veloso e, então jornalista, só não me esmagaram por milagre

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ONTEM DECORREU O DIA NACIONAL DAS FORÇAS ARMADAS - HÁ 44 ANOS - PODIA TER SIDO UM 2º BANHO DE SANGUE POR COLONOS APÓS INVADIREM O PALÁCIO DO GOVERNO E INSULTAREM O GOVERNADOR MAL ME VIRAM NAS IMEDIAÇÕES, UMA AUTÊNTICA MULTIDÃO DESATOU A CORRER ATRÁS DE MIM  

.. SE ME APANHASSEM,  TERIA SIDO DEGOLADO E DESFEITO!...  - Em toda a parte os jornalistas são sempre as primeiras vitimas da ira popular, da intolerância e do ódio - Em todos as  guerras e conflitos - Mas não só.

Um total de 110 jornalistas foram mortos em todo o mundo em 2015, informou a ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF) nesta terça-feira (29), destacando que a maioria foi vitimada por causa de seu trabalho em países supostamente pacíficos.Mais de 100 jornalistas foram mortos em 2015,....Os países onde mais morreram jornalistas em 2015 -.....Dois jornalistas mortos a tiro em direto nos EUA.................Brasil registra o maior número de jornalistas assassinados ....
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Os jornalistas são sempre as primeiras vítimas. os bodes-expiatórios da ira popular, das guerras e conflitos - Em S. Tomé, só não me lincharam, talvez por milagre - Mas não foi da população nativa que partiram as agressões e ameaças. Aliás, foi no seio desta que eu fui protegido

Por duas vezes todos os pneus à navalhada
39 anos depois
Naturalmente que não posso culpabilizar a generalidade dos colonos portugueses  pelas  suas atitudes intempestivas: - os brancos foram apanhados de surpresa pelo desenrolar dos acontecimentos e andavam muito nervosos, receando pelo seu futuro.   Ninguém os molestou fisicamente  - E a única vida que se perdeu, até foi a de um santomense, com uma bala da tropa: o acidente ocorreu  a 6 de Setembro:  Rodrigues Pinta de 59 anos, estivador, conhecido por Giovani, foi morto "por uma bala perdida" durante uma manifestação acalorada no Bairro do Riboque - 

Nesse mesmo dia, .Paulo Ferreira, um soldado de 23 anos da Companhia de Caçadores de S. Tomé e Príncipe,   morreu num brutal acidente de viação, quando a sua unidade regressava da roça de Santa Catarina.

As constantes manifestações populares, reclamando a independência, causavam-lhes alguma instabilidade. Ora, nestas coisas, como geralmente acontece, nos conflitos, os jornalistas são sempre as maiores vítimas, o bode expiatório da situação  - Enquanto em Angola, havia uma guerrilha declarada, que ceifava já milhares de vidas de parte a parte, em S. Tomé, a luta era diferente - O povo é por natureza pacífico. Em São Tomé e Príncipe, não existia criminalidade, senão esporadicamente e mais do foro passional - Apesar da população ter sido tão sacrificada ao longo dos séculos, à exceção das revoltas do "angolares" (etnia, dedicada especialmente à pesca),  os maiores problemas, com que a colonização portuguesa nas ilhas, se teve de bater, foi com os corsários franceses e holandeses.

 Mas a  verdade é que havia um movimento silencioso mas ativo. O  MLSTP , que começou estar sediado em Fernando Pó e depois se transferiu para o Gabão,  fazia as suas emissões de rádio, em dialeto e  também atuava no interior das ilhas ( em reuniões sob o maior sigilo, a PIDE andava à coca e, de volta e meia, prendia e espancava. - Tais factos estão hoje suficiente documentados e descritos. Os colonos é que desconheciam essas aspirações: julgavam que a guerra, em Angola, não lhes dizia respeito - E, a bem dizer,  do desfecho desta dependia  também o futuro de S. Tomé e Príncipe - E foi justamente o que sucedeu, com a revolução do 25 de Abril  "Nem mais um soldado para a guerra" - E, a partir daí, não havia outra solução que não fosse a dos acordos, em Argel,  para dar a independência às colónias - Há quem diga que foi mal feita - Sim, dito sobretudo por aqueles que, alheios à mortandade dos soldados e dos guerrilheiros, apenas olhavam para os seus interesses pessoais.  

Por conseguinte,  quando o Povo Santomense, teve oportunidade de  sair à rua e se manifestar, exigindo abertamente a independência, fê-lo calorosamente, mas sem atos de violência - No entanto, para os colonos, tais manifestações eram entendidas, como uma ameaça à sua continuidade nas Ilhas. De certo modo, é verdade - as roças, principal fonte da exploração colonial, nunca serviram o povo santomense mas os donos dessas grandes propriedades, que viviam refasteladamente em Lisboa: os chamados turistas da Gravana, que só ali iam a dar umas passeatas e a banquetear-se em lautas jantaradas - Salvo o administrador, o chefe de escritórios e o  feitor-geral, em cada roça, o resto, tanto empregados brancos, como trabalhadores, não passavam de escravos: pessoalmente, passei por esse dura experiência.

ESPALHARAM-SE POR TODAS AS RUAS - O  QUE ME VALEU FOI TER DESCOBERTO A ESCADA DE UMA PORTA ABERTA E REFUGIAR-ME NO TELHADO DESSE PRÉDIO

MESMO ASSIM, QUANDO CORRIA À SUA FRENTE, AINDA LEVEI COM UMA PEDRA NA CABEÇA e outra nas costas - Depois de descarregarem toda a ira e ódio na minha modesta viatura, furando-lhe os quatro pneus à navalhada, arrombara-me a casa, partiram-me tudo: escaqueiraram-me a máquina de escrever, onde nem sequer ficou um simples copo inteiro para beber água - Não satisfeitos com a malvadez, deixaram uma forca pendurada na porta, e, na parede ao lado,  uma cruz desenhada e a inscrição: " a morte sanciona cada traidor".

TIVE QUE ME REFUGIAR, EM CASA DE UM SANTOMENSE: dos pais do Constantino Bragança, que, tendo assistido à perseguição, se deslocou à noite ao local para me colher no seu modesto casebre, algures no mato: Sr. Jorge! Pode descer, que os brancos foram todos para o quartel da Polícia Militar e do Cinema Império e venha para a minha casa"


 
A minha casa ficou irreconhecível, num monte de destroços. Como não me apanharam lá no seu interior,  deixaram-me à porta  o laço da prometida forca de corda. Pelos vistos, em qualquer parte do mundo, os jornalistas são sempre as primeiras vítimas. É neles que descarregam todos as iras e ódios. Ainda hoje, ao escrever estas linhas, se me toldam os  olhos, tal os maus momentos por que passei. Ao meu modesto carro, por duas vezes, lhe furaram os pneus à navalhada.- Não me importo de ser confrontado com os elementos  da natureza mais hostil, mas ser  atingido pelo ódio humano é mil vezes pior!...Não é medo é um sentimento de profunda tristeza e revolta.

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