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Entre outros assuntos, falo da escalada ao Pico Cão Grande e das minhas aventuras em canoas – Visam defender a teoria de que antigos povos africanos, podiam ter sido os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo da Guiné, antes dos colonizadores – Parti à meia-noite, disfarçado de pescador, ligando a ilha do Príncipe. Para me orientar, uma rudimentar bússola – A canoa era minúscula, à segunda noite adormeci: rolei na escuridão das vagas. No regresso fui distinguido com sopapos da policia salazarista, enviado para os calabouços – Cinco anos depois, numa piroga maior, fiz a ligação São Tomé-Nigéria. Partindo igualmente à noite, 13 dias depois atingia uma praia de Calabar, tendo sido detido 17 dias por suspeita de espionagem. - No mesmo ano, já com São Tomé e Príncipe independente, tentei a travessia São Tomé ao Brasil, usando os mesmos recursos. Além de pretender reforçar a minha teoria, desejava evocar a rota da escravatura e repetir a experiência de Alain Bombard. Porém, quis a ironia do destino que vivesse a difícil provação de um naufrágio de 38 longos dias, tendo aportado numa praia de Bioko (Bococo)onde fui recambiado para a famosa prisão de Black Beach

sexta-feira, 15 de março de 2019

Cooperação Portuguesa, em S. Tomé - “A Casa Grande do Patrão” e outros velhos edifícios nas roças poderão vir a ser recuperados - “Oito imóveis em São Tomé ligados à presença portuguesa vão estrear Revive Internacional, que se estenderá a Moçambique, Angola e Marrocos – 44 anos depois da Independência, já não era sem tempo: o importante é que haja um bom começo. – O geógrafo Xavier Muñoz Torrent, ainda recentemente lançava no Téla Nón um brado, bem documentado, “ao desvanecimento dos elementos físicos da memória histórica em São Tomé e Príncipe”

Jorge Trabulo Marques - Jornalista  ERA ASSIM QUANDO O CONHECI, EM 1964, O MAIOR E MAIS BELO HOSPITAL DE STP - NA ROÇA RIO DO OURO - HOJE DESFAZ-SE EM ESCOMBROS



Refere o Expresso que é uma nova fase do programa Revive, que se propõe abrir à concessão turística edifícios de património público que estão ao abandono — e desta vez evoluindo para fora de Portugal. Já foram identificados oito edifícios em São Tomé e Príncipe, designadamente antigas roças de cacau e de café, que irão marcar a estreia do Revive Internacional, um programa que foi possível na sequência do acordo selado esta semana pelo Governo com  a comunidade de Países de Língua Oficial Portuguesa (CPLP), com vista a apoiar a recuperação de edifícios históricos ligados à presença portuguesa no continente africano.


“Avançar com projetos Revive nas roças de São Tomé mostra esta capacidade de internacionalização do programa, chegando a todo o património que fala português no mundo”, salienta Ana Mendes Godinho, secretária de Estado do Turismo, frisando também tratar-se de “um projeto que visa usar o turismo como um poderoso elemento de cooperação entre os países da CPLP”. https://expresso.pt/dossies/diario/2019-03-14-Programa-portugues-de-recuperacao-de-edificios-publicos-chega-as-rocas-de-Sao-Tome-1
2014 - Antiga Roça Rio do Ouro - Atual Agostinho Neto
A cooperação portuguesa, finalmente parece ter despertado de uma certa letargia ou torpor: e, o que se anuncia, parece  ter sido encomendado por atacado. - Porventura, a mediática passagem de Marcelo Rebelo de Sousa, por S. Tomé, deverá ter dado algum impulso: enquanto, os orientais, chineses e japoneses, se desunham em oferecer uns sacos de arroz ou uns quantos computadores ao parlamento, com pompa e circunstância e  promessas de variados projetos, praticamente  não se ouvia falar da cooperação de Portugal:  Pelo que continuo a pensar que, a atual representação diplomática é bastante mais fraca de que a anterior – Deixou-se envolver, até ao último fôlego, com as manobras de um falsário,  com apoios de milhões e de outras importantes oferendas, devendo ter tido o elementar cuidado de saber ver que estava  perante um artista na arte de ilusão e da fraude e não com um governante, minimamente, credível e sério.

Bom, mas essa questão, já lá vai: o importante é o presente e o que este pode ter de significado para o futuro. E é isso que eu venho aqui destacar


Porto Alegre - Téla Nón
Diz o Téla Nõn, que, a cooperação portuguesa em São Tomé e Príncipe, revela a intensidade das suas acções no território nacional, mais concretamente no distrito de Caué, considerado como a região mais pobre do país.

Numa nota enviada à redacção do Téla Nón, o serviço de cooperação da embaixada de Portugal em São Tomé e Príncipe, diz que por volta das 10 horas desta sexta feira, «será inaugurado
Distrito de Caué, o sistema de energia fotovoltaica do Centro de Estudos Educativos (CREF)».


Inauguração de uma infraestrutura, que garante energia limpa, para uma unidade do sistema de ensino de Porto Alegre, fundada pela ONG portuguesa, Leigos para o Desenvolvimento no ano 2012.  «Permite ter energia 24 horas, e alarga assim a sua capacidade horária de funcionamento. O Centro de Estudos Educativos, serve as comunidades de Porto Alegre, Vila Malanza, Ponta Baleia e Ilhéu das Rolas, disponibilizando formação, capacitação e qualificação profissional em diferentes áreas, acesso à informática e prestação de serviços», explica a embaixada de Portugal.  https://www.telanon.info/sociedade/2019/03/14/28844/portugal-inaugura-energia-renovavel-e-polos-de-apoio-social-em-caue-e-cantagalo/?fbclid=IwAR2XaStqtp8iV2RnDlifqFRDFukLNb2Y9KGTg52jnIPp2vtsjMVWXFh2uQA

Património nacional, ruínas e sucata
Património nacional, ruínas e sucata:  O desvanecimento dos elementos físicos da memória histórica em São Tomé e Príncipe   - Por Xavier Muñoz Torrent
 "Os meios de comunicação são-tomenses, as redes sociais e alguns foros acadêmicos especializados estão a denunciar constantemente o avançado estado de degradação (e mesmo a perda) do patrimônio nacional. Paralelamente, os discursos de responsáveis políticos e de expertos consultores estão a sublimar a necessidade de desenvolver o setor turístico utilizando esse ingente patrimônio como elemento diferenciador da oferta.

E, efetivamente, não são poucas as propostas alternativas às atividades de resort que aproveitam a cultura de plantação para oferecer excursões guiadas nas antigas roças ou percursos pelo mato humanizado, ou mesmo ultimamente pelos próprios espaços urbanos, que são especialmente agradecidas pelos visitantes estrangeiros, ávidos de adicionar mais alguma coisa que banhar-se na praia ou tomar o sol ou agüentar aborrecidos entretenimentos de salão (coisas para as quais não é preciso deslocar-se a um destino tão caro como São Tomé).

Contudo, resulta chocante, quando menos incoerente, que nem as autoridades nem os proprietários, nem as pessoas, companhias ou instituições que por acaso tem em concessão roças onde há elementos desse património, não façam nada ou praticamente nada (salvo contadas e honrosas exceções [1]) por manter ou devolver esses elementos ao seu estado original e à atividade, para assim abundar nessa proposta diferente de turismo, baseada na história e na cultura, ou mesmo para dar-lhes novos usos, por exemplo, na sua adaptação a formas singulares de hotelaria e restauração, ou simplesmente a alojar serviços públicos ou, como houvesse sido o habitual, seções de administração de explorações ou cooperativas agrárias.

Há uns anos (2014) nos surpreendeu a todos o desmoronamento do pavilhão esquerdo do monumental Hospital de Agostinho Neto (antiga roça Rio d’Ouro), um dos mais famosos emblemas que foi do país, cuja imagem icônica foi largamente reproduzida em postais e guias turísticas, mesmo nos bilhetes de banco. E mais ainda nos surpreende que depois desse tempo e de um vácuo lero-lero, o edifício continue mal ou pior, sem nenhuma reconstrução, nem também não nenhuma intenção real de fazê-la.

No passado março de 2018, o artista e prezado amigo René Tavares, na sua conta de Facebook, influente, se somava ao espanto, também pontualmente noticiado por Tela-Nón, da queda do edifício da roça Amparo II (magnífico exemplo de arquitetura colonial francesa com toques de barroquismo português nas ornamentações exteriores), que há anos, depois de ser sede de diferentes programas de desenvolvimento e outras atividades de ajuda social, tinha sido concedida à Ordem dos Advogados, para depois ser devolvida [2]. Não sentem imensa vergonha os seus concessionários e os responsáveis do patrimônio do Estado por ter possibilitado, já seja por omissão, a aceleração do processo de degradação e queda final do que foi um edifício único no país?

  
Mas, as suas Excelências: qual vai ser o próximo casarão em cair? Talvez o de Boa Entrada, de Porto Alegre, de Vista Alegre, de Plancas, de Praia das Conchas ou de Uba-Budo, ou mesmo insignes edifícios no centro da Cidade de São Tomé… se vão juntar à perda quase irreversível do Hospital de Ribeira Peixe, do Hospital de Água Izé ou de tantos outros edifícios históricos ruídos dos quais já nem apenas se intui a sua silhueta no chão?
Mais ainda: agora nos chegam comentários preocupantes sobre a degradação das estruturas dos dois imponentes aviões Lockheed L1049H SuperConstellation (“Connies”) que ficam junto ao aeroporto de São Tomé, os que durante tempo se conservaram pela direção do restaurante “As Asas do Avião”, e que constituem o último vestígio da ponte aérea de ajuda humanitária ao Biafra, esforço titânico que empreenderam um punhado de ONGs internacionais no fim dos anos 60, e que emergiam, de fato, como um monumento de memória histórica daquele período, no qual São Tomé teve um papel crucial [3]; mas também de reconhecimento, com a sua preservação, a tantos e tantos outros atos de ajuda humanitária no mundo.

O risco de destruição final nos causa especial tristeza aos que, desde todas as partes do globo, solicitamos a sua preservação e sugerimos a sua conversão num centro para o estudo da memória histórica. Finalmente a ignorância, a absoluta desídia ou a impotência das autoridades, uma atitude negligente ou intencionada, e mesmo os ganhos da sua hipotética venta como sucata podem vencer às súplicas internacionais de manter essas asas em pé, como um elemento desse patrimônio a valorizar na cultura e na história são-tomense, mas também evidentemente como um novo objeto de aproveitamento para essa política diferenciadora da oferta. A sua desaparição constituiria um novo atentado contra a história e a cultura, mesmo contra a memória dos mortos em Biafra, um novo ato de total falta de sensibilidade, e de falta de visão das oportunidades que poderia abrir-se para o desenvolvimento de um novo recurso na oferta de atrativos propícios para articular uma política diferenciada de promoção nacional, particularmente dirigida com especial força ao mercado africano, que é quem realmente poderá converter-se no meio prazo (se não o está a fazer já agora) na alternativa aos clientes europeus.

 
Mas os aviões começam agora por desvanecer-se nas imagens do Google Earth ou no Open Street Map (talvez a sua imagem, outrora nítida, se confunde agora com as construções que lhe foram anexadas, ou por uma lona quiçá, a modo de esticado telhado, e o seu jardim se mimetiza com uma zona de armazenamento de viaturas, similar à que pode ter uma zona industrial), como advertira Volker Schreiner aos membros do projeto “Constellation Survivors Web” [4]. Tal desvanecimento, ainda que virtual, acendeu todas as alarmas.

De fato, a perda desse patrimônio também seria um grave atentado contra a economia nacional: sabe alguém verdadeiramente qual é o seu valor, não apenas em termos monetários (que vai perdendo ano após ano com o abandono e o vandalismo ao que estão submetidos), senão em incomensurabilidade de serem elementos físicos de uma cultura e da paisagem e, por tanto, atrativos diferenciais de um país? Que outro país do mundo tem esse patrimônio e o dilapida dessa maneira? Que governantes se desentendem de manter as heranças da história? Talvez talibãs ou membros do DAESH derribando Budas ou dinamitando complexos arqueológicos inteiros? Os efeitos são os mesmos.

 Ninguém reparou na opção de criar lá, nos Aviões, um espaço de exposição e atividades a dar especial singularidade ao complexo do aeroporto, aproveitando a possível integração desses restos para projetar uma imagem bem internacional da cidade e do país, ao tempo que se recuperavam os vestígios da ponte aérea, e se provocava, além da admiração pela idéia de dar ênfase do apoio à ajuda humanitária, um lugar para o debate aberto da história contemporânea de África, de ágora para a resolução de conflitos, de centro de documentação, sala de exposições, etc, de lugar para a difusão da cultura da paz, da cultura da humanidade por em cima da violência, também para servir de lugar de convívio, de difusão e merchandising de todo o relativo ao fato histórico. Mas agora é preciso atuar antes que o fato seja consumado e a sua perda se adicione à lista dos recursos desperdiçados absurdamente. Onde estão os pró-homens da cultura e da economia a defender de novo esse patrimônio, a criticar, a atuar para evitar essa degradação?
 
Com tudo, o pior de todo isso, dessa desídia e insensibilidade, dessa falta de visão, inadmissível numa governação moderna, é que vai in crescendo, e vai criando na gente um esquecimento pelo que esse povo foi, para que as lembranças dos tempos passados se desvaneçam sem nenhuma piedade, sem nenhum respeito, materializado na queda desses edifícios históricos, com a redução a ferrugem de monumentos da história contemporânea, para que talvez nenhum jovem nem velho possa lembrar-se mais do que os antigos tiveram que trabalhar ou viver para chegar até este ponto, para evitar que, em essência, ninguém possa reagir contra um status quo de alienação mental, que afeta à essência mesma do futuro do povo são-tomense. Talvez seja que a memória histórica são-tomense nos últimos tempos haja sido reduzida também a sucata e vendida a custo zero a tratantes de mediocridade, mestres da destruição ou, pior ainda, a geradores perversos de ignorância e obscuridade.

Os povos ou os países forjam-se a base de valorar e manter viva a sua história, de apreender dela, de identificar-se com todos os seus capítulos, com todos os seus protagonistas, dos que tiveram a sorte ou a desgraça de vivê-la em primeira pessoa, mesmo dedicando-se em corpo e alma, para fundir-se nela, sem os quais a história nunca tinha acontecido e nunca poderiam transmiti-la como herança e aprendizagem, nem menos ainda perguntar-se se algum dia também poderiam ser eles os protagonistas. E agora desalmados espíritos indolentes e destrutivos atentam mais do que terroristas contra essa alma, fazendo-a pedaços.

 
Vamos ter que gritar bem alto um novo “Nunca mais!” e que isso se reflita na agenda política, na implementação das políticas culturais e também nas políticas turísticas, de mãos dadas; também da política econômica, introduzindo uma revisão urgente do sistema de concessões sobre bens públicos e um novo protocolo para a gestão inteligente do patrimônio nacional e um plano para sua recuperação, muito especialmente nas condições estritas para a sua concessão e nos mecanismos de seguimento e fiscalização efetivos e, no seu caso, de revogação; condições que devem transmitir-se aos parceiros e mecenas, aos aliados internacionais, e também às comunidades locais, para que participem conscientemente e decididamente na recuperação e valorização do patrimônio são-tomense, pois além da onda de destruição, também se dão boas práticas, ainda que excepcionais, que, com essa valoração histórica e o respeito pelo ambiente, repercutem positivamente sobre a criação de postos de trabalho e na geração de novos negócios e economias de escala, que deixem rendas no país, e também na regeneração de lugares de residência; práticas que é preciso reconhecer, salientar, promover e facilitar.
Notas
Honrosas exceções como os projetos, em São Tomé, na roça São João, na roça Micondô ou na roça Monte-Forte, ou no seu momento a roça Bombaim ou a aproveitamento do Hospital de Diogo Vaz como escola e centro de formação. No Príncipe, a roça Ponta do Sol, a roça Belo-Monte, e mais recentemente a recuperação da administração de Sundi como hotel. Também é de mencionar que em 2014 o governo de Gabriel Costa também se postulou e anunciou atuações em pró da manutenção do patrimônio, mas em essência pouco ou nada se materializou por parte da iniciativa pública.
A Ordem dos Advogados, em setembro de 2017, ante a incapacidade de disponibilizar recursos para a reabilitação do edifício da administração de Amparo II, o devolveu à Direção do Patrimônio. Já nessa altura o edifício tinha a ameaça de ruína, à vista da total desproteção da casa do freqüente vandalismo e roubo de materiais. Ver os artigos já publicados em Tela-Nón.
A consultar sobre esse tema os artigos da série Biafra e a ponte aérea de São Tomé, recolhidos na web da Associação Caué, Amigos de São Tomé e Príncipe em Barcelona:
Antecedentes na web de Constellation Survivors

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