expr:class='"loading" + data:blog.mobileClass'>

Quem sou eu

Minha foto
Entre outros assuntos, falo da escalada ao Pico Cão Grande e das minhas aventuras em canoas – Visam defender a teoria de que antigos povos africanos, podiam ter sido os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo da Guiné, antes dos colonizadores – Parti à meia-noite, disfarçado de pescador, ligando a ilha do Príncipe. Para me orientar, uma rudimentar bússola – A canoa era minúscula, à segunda noite adormeci: rolei na escuridão das vagas. No regresso fui distinguido com sopapos da policia salazarista, enviado para os calabouços – Cinco anos depois, numa piroga maior, fiz a ligação São Tomé-Nigéria. Partindo igualmente à noite, 13 dias depois atingia uma praia de Calabar, tendo sido detido 17 dias por suspeita de espionagem. - No mesmo ano, já com São Tomé e Príncipe independente, tentei a travessia São Tomé ao Brasil, usando os mesmos recursos. Além de pretender reforçar a minha teoria, desejava evocar a rota da escravatura e repetir a experiência de Alain Bombard. Porém, quis a ironia do destino que vivesse a difícil provação de um naufrágio de 38 longos dias, tendo aportado numa praia de Bioko (Bococo)onde fui recambiado para a famosa prisão de Black Beach

domingo, 7 de abril de 2019

NESTA ILHA DE NOME SANTO, SÃO TOMÉ, NASCEU, JOSÉ DE ALMADA NEGREIROS, HÁ 126 ANOS, NA ROÇA SAUDADE, FREGUESIA DA TRINDADE - 7-04-1893 – 15-06-1970 – Um dos mais destacados artistas do movimento modernista português do século XX., que abraçou todas as artes - desenho, pintura, romance, poesia, ensaio e dramaturgia. Naquele berço encantado, que haveria deixar ainda em criança, por morte de sua mãe, sim, das ruínas e do triste abandono em que se encontrava, foi erguido, há quatro anos, a casa museu, com o seu nome, mercê do abnegado esforço de um empreendedor jovem santomense - Seu filho Afonso, no ano em que ali me quis acompanhar, quis o destino que partisse ao encontro da alma de seu pai

Jorge Trabulo Marques - Jornalista e investigador

"Naquele berço encantado, que era a sede da Roça Saudade, nasceu José de Almada Negreiros, a 7 de Abril de 1893. Da terra da sua naturalidade foi arrancado, na tenra idade de 2 anos, e transplantado para Lisboa, em 23 de Abril de 1895, passando a viver em Cascais, em casa dos avós e tios maternos, da família Freire Sobral" - Padre. António Ambrósio

.Não foi por acaso que o meu sangue veio do sul
se cruzou com o meu sangue que veio do norte
não foi por acaso que o meu sangue que veio do oriente
encontrou o meu sangue que estava no ocidente
não foi por acaso nada do que hoje sou
desde há muitos séculos se sabia
que eu havia de ser aquele onde se juntariam todos os sangues da terra
e por isso me estimaram através da História
ansiosos por este meu resultado que até hoje foi sempre futuro.




"Deus quer, o homem sonha, a obra nasce." – E assim também renasceu das ruínas a casa onde nasceu Almada Negreiros, na Roça Saudade, em São Tomé, graças à corrida solitária de Joaquim Cabangala Victor, guia turístico, natural de São Tomé. 

Certo de que a sua ideia  podia transformar uns já irreconhecíveis caboucos numa Casa de Artes e Museu, em memória do genial pintor, poeta, romancista e dramaturgo e abraçar um apaixonante projeto de vida,  foi o pensamento que norteou Joaquim Victor, mesmo partindo quase de mãos vazias, confiante na sua determinação e no alcance cultural e turístico da sua iniciativa  -A edificação de uma casa de madeira, alpendrada, assente justamente sobre algumas colunas e rebocos do antigo solar, é já uma espantosa realidade

Situada na antiga Roça Saudade, a cerca de 800 metros de altitude, próxima da antiga Pousada Salazar, e também relativamente perto de uma das mais belas cascatas de São Tomé, a cascata de São Nicolau e do Jardim botânico.

Joaquim Victor, que recolheu vários apoios em Portugal, menos oficiais “por se tratar de uma iniciativa particular”, é, com certeza, agora  um homem muito feliz. Teve a gentileza de nos dar a boa nova, há dois anos,  através de um telefonema 

 Já nos havíamos apercebido dessa comovente surpresa, a que neste site fizemos referência, nomeadamente, na visita que ali fizemos em Outubro de 2014, numa fase em que ainda decorriam obras de acabamento, mas, finalmente, aí está a concretização de um projeto cultural e turístico, muito interessante. inaugurado, oficialmente, com a presença de familiares, amigos e admiradores da  vida e obra do autor do autor do “Manifesto Anti-Dantas
 





Arquiteto José Afonso de Almada Negreiros - Filho de José de Almada Negreiros e de Sarah Afonso  

Imagens registadas no ano de sua morte - em 2009

COMO O TEMPO PASSA...

 - Sim, como o tempo passa!... Até parece que foi ontem, que  eu e o meu amigo, o pintor João Neves, tomávamos um café com ele na Calçada do Combro, na Pastelaria Oreon,  com vista a combinar a sua deslocação à Roça Saudade - Era a terceira vez que falava com ele, depois que o conhecera nos habituais convívios do  Botequim  de Natália Correia  situado no Largo da Graça, em Lisboa. 

Na primeira vez, procurei-o para lhe comunicar que ia ser leiloado um importante espólio de  seu pai e de sua mãe, Sarah Affonso, quadros inéditos que ele devia desconhecer, dado terem sido pintados há muitos anos - Talvez, com ele, ainda criança. Um amigo meu, havia-me pedido para tratar desse assunto - A esposa, filha de um casal (português e espanhol) e que mantivera estreitas relações de amizade com o artista, era herdeira de uma vivenda , em Belém, na zona das vivendas dos embaixadores e queria vender a casa, o vitral de Almada e várias obras. A segunda vez, foi para o avisar de que havia deparado com vários desenhos(falsificados)  à venda na Feira da Ladra, como se fossem obras assinadas por seu pai. Pediram-me 120 contos por cada um. Por fim, já me ofereciam vários por 5000$00.  A imitação da assinatura era perfeita. Mas vi logo que só podia ser falsificação. Não era o primeiro caso. Também outros famosos artistas eram ali igualmente pirateados.





 O último encontro foi  casual  e ocorreu na esquina da Calçada do Combro, com a Rua Marchal Saldanha, tendo-o convidado a tomar um café, sugerindo-lhe  a possibilidade de o acompanhar numa visita à Ilha de São Tomé, para ali ir conhecer as instalações (já em ruinas) onde seu pai viera à luz do Equador, sugestão que ele aceitou com muito agrado, acrescentando que era um sonho que alimentava há muito tempo.  Dia para a dia para nos voltarmos a encontrar e acertar essa viagem (pois deu-me um cartão com a sua morada e o contacto) agora é tarde de mais. 




Artista multidisciplinar que se dedicou fundamentalmente às artes plásticas e à escrita, ocupando uma posição central na primeira geração de modernistas portugueses.
Quem gostaria de também ali estar era o seu filho Arquiteto  José Afonso Almada Negreiros, que, no mesmo ano em que falecera, nos chegara a manifestar o seu grande desejo de ir conhecer a Roça onde seu pai nascera 

José de Almada Negreiros nasceu em São Tomé  na Roça Saudade, freguesia da Trindade, às 3 hora da manhã do dia 7 de Abril de 1893.
Da terra da sua naturalidade foi arrancado, na tenra idade de 2 anos, e transportado para Lisboa, em 23 de Abril de 1895, passando a viver em Cascais, em casa dos avós e tios maternos, da família Freire Sobral.

«Aos vinte e quatro dias do mez de Junho do anno mil oitocentos e noventa e três, nesta Egreja Parochial da Santíssima Trindade, Concelho de S. Thomé, Diocese de S. Thomé e Príncipe, baptizei solemnemente um indivíduo do sexo masculino, a quem dei o nome de - JOSÉ- e que nasceu nesta freguesia, na Fazenda Saudade, às três horas da manhã do dia sete do mês d' Abril do anno de mil oitocentos e noventa e tres, filho illegítimo de digo legitimo de António Lobo d' Almada Negreiros, casado, natural de Portugal, proprietário, agricultor e de Dona Elvira Sobral de Almada Negreiros, casada, natural desta freguesia, proprietária, parochianos desta freguesia, moradores na mencionada Fazenda, neto paterno de Pedro d' Almada Pereira e de Margarida Francisca de Almada Lobo Branco de Negreiros. Foi padrinho José António Freire Sobral, casado, proprietário e agricultor e madrinha Dona Marianna Emília de Souza Sobral, casada, proprietária e agricultora, os quaes todos sei serem os próprios. E para constar lavrei em duplicado este assento que depois de ser lido e conferido perante os padrinhos comigo o assignaram”-In Almada Negreiros  Africano - António Ambrósio

Este o poema que, seu pai, lhe dedicaria, no livro Equatoriaes, escrito no dia 7-4-1894  - Ou seja, um ano depois do seu nascimento:

Um anno! Um beijo de luz
Na tua fáce, criança!
Suavíssima esperança
Que desabrócha e seduz!

Nunca se acábe a bonança
Que a tua frônte tradúz,
Como um beijo de Jesus
Da Mãe na virginea trança

António Lobo de Almada Negreiros



Os meus olhos não são meus, são os olhos do nosso século", palavras recordadas na exposição dedicada a um dos artistas mais ativos e completos do modernismo português, que "tentou fixar uma linguagem universal".

– A Fundação Gulbenkian, há dois anos, dedicou-lhe uma exposição especial,  "José de Almada Negreiros: uma maneira de ser moderno", constituída  pelo roteiro artístico de  400 obras do trabalhos,  acompanhada pela edição de um livro, "cujos olhos mostraram o século XX". O próprio Almada Negreiros (1893-1970) admitia que os seus olhos eram grandes, "e que se tornaram uma metáfora para a condição do artista que tem de olhar para o mundo", recordou, no ato inaugural, Mariana Pinto dos Santos, a organizadora da historiadora de arte e investigadora.


Amada Negreiros, o homem que quis comer todas as artes” – Disse, na ocasião, o PÚBLICO
São 400 obras distribuídas por duas grandes galerias, muitas delas inéditas. Pintura, desenho, vitral, cerâmica, cinema, novela gráfica, teatro, dança... Almada Negreiros, “o omnívoro”, numa exposição que quer mostrar que o modernismo pode ter várias caras, é plural

Atravessa-se a exposição com uma sensação de familiaridade – Almada Negreiros faz parte de um certo imaginário colectivo quando se fala da arte do século XX em Portugal – e de descoberta. Os inéditos são muitos e surpreendentes: uns, como o retrato de Tareca, uma das meninas da alta burguesia lisboeta com quem o artista cria os seus bailados, não parecem sequer feitos por ele; outros, como o que terá pertencido a Gonçalo de Mello Breyner, tio de Sophia e amigo de Almada, mostram corpos de género indefinido cobertos por linhas finas e são como um mistério. https://www.publico.pt/2017/02/03/culturaipsilon/noticia/o-homem-que-quis-comer-todas-as-artes-1760305





A ROÇA SAUDADE: UM SONHO E UM BERÇO 

Sim, foi um sonho e um berço para quem lá nasceu e viveu. Mas a vida das pessoas não é eterna, tal como também não são as construções humanas. E a sua longevidade é curta, sobretudo quando desabitada e deixada ao abandono. Foi o que sucedeu ao principal edifício da Roça Saudade, que, muito antes de se falar da independência de S. Tomé e Príncipe,   acabara por ficar reduzida a meras ruínas. irreconhecível - Mas eis a descrição do que chegara a ser

 "A casa  onde Almada nasceu, na sede da Roça Saudade – diz ainda António Ambrósio – “estava suspensa sobre uma profunda grota, e aberta a nascente, por uma varanda corrida, ao estilo tropical, para um mar de verdura, que, depois da primeira quebra, se espraiava, numa ondulação aparentemente suave, por vários quilómetros de extensão, em forma de leque rendilhado, até ao mar-oceano.

(…)Por fora, a Saudade era um mimo. O comendador José António Freire Sobral fizera da sede uma estância modelar: além das instalações para habitação e trabalho, das sanzalas  e dos secadores, e do hospital de boa construção, a Roça tinha um amplo terreiro, onde, como uma bandeira hasteada, se erguia uma elegante palmeira de 54 metros de altura (Veja-se: Almada Negreiros, História Ethnographica da Ilha de S. Tomé, p.272). Na parte superior do terreiro, em zona mais elevada, situavam-se os jardins, dispostos em socalcos. No meio, sobressaía  um artístico  caramanchão, todo coberto de buganvílias e trepadeiras. Junto, uma nascente de água puríssima foi aproveitada para construir  uma pequena  fonte, bem adornada de azulejos  pintados  e com dois grandes jarrões de porcelana envidraçada, aos lados” Im Almada Negreiros Africano”

"Almada, todas as peças da mesma coisa"

"Olhar para Almada Negreiros, O menino d'olhos de gigante, é ver muitos: o Almada das Belas-Artes, o Almada das Letras, o Almada da Geometria, o Almada dos palcos e das performances ... E, dentro destes, tantos outros. Tantos que se torna fácil imaginá-lo dentro do tudo com que ele próprio assinou o Manifesto Anti-Dantas e por extenso (1916): «José de Almada-Negreiros Poeta d'Orpheu Futurista e Tudo». - Por Sílvia Laureano Costa"



OUTROS TRAÇOS DA SUA BIOGRAFIA -
 
(...) "Pela sua obra plástica, que o classifica entre os primeiros valores da pintura moderna; pela sua obra literária, que vibra de uma igual e poderosa originalidade; pela sua ação pessoal através de artigos e conferências - Almada-Negreiros, pintor, desenhador, vitralista, poeta, romancista, ensaísta, crítico de arte, conferencista, dramaturgo, foi, pode dizer-se que desde 1910, uma das mais notáveis figuras da cultura portuguesa e uma das que mais decisivamente contribuíram para a criação, prestígio e triunfo de uma mentalidade moderna entre nós". Assim apresenta Jorge de Sena, no primeiro volume das Líricas Portuguesas, o homem que, com Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, mais marcou plástica e literáriamente a evolução da cultura contemporânea portuguesa 

Órfão desde tenra idade, viajou para Lisboa com sete anos para casa de uma tia materna. Frequentou os estudos primários e liceais em Lisboa, no Colégio Jesuítico de Campolide, Liceu de Coimbra e Escola Nacional de Lisboa. Entre 1919 e 1920, seguiu estudos de pintura em Paris, aí trabalhando como bailarino de cabaré e empregado numa fábrica de velas, redigindo na capital francesa muitos dos textos e grafismos que viriam a ser célebres, como o "autorretrato". Viveu entre 1927 e 1932 em Espanha, onde realizou várias encomendas para particulares e públicos – E
xcerto de
Almada-Negreiros -


A ALMADA NEGREIROS

Voltaste enfim ao regaço das palmeiras
onde serpentes volteiam
e navegam na claridade. Voltaste
porque os teus olhos mitigavam
palavras entontecidas cheias de água fresca
da Cascata. Voltaste trazendo cânticos
de outras terras
cânticos de trovadores desconhecidos
teceste roupas diferentes mas sempre
com as cores das buganvílias da Saudade
apagaste pegadas antigas no
luchan
da tua meninice. Mas voltaste!

esperaste que o ranger da porta
da casa onde nasceste se prolongasse
no júbilo do teu regresso

hoje
sentado no presídio da marginal
onde ninguém nota o teu vulto altivo e belo
só eu sei que voltaste
e por que voltaste

Olinda BEJA in "Água Crioula" Pé-de-Página

Nenhum comentário :