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Entre outros assuntos, falo da escalada ao Pico Cão Grande e das minhas aventuras em canoas – Visam defender a teoria de que antigos povos africanos, podiam ter sido os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo da Guiné, antes dos colonizadores – Parti à meia-noite, disfarçado de pescador, ligando a ilha do Príncipe. Para me orientar, uma rudimentar bússola – A canoa era minúscula, à segunda noite adormeci: rolei na escuridão das vagas. No regresso fui distinguido com sopapos da policia salazarista, enviado para os calabouços – Cinco anos depois, numa piroga maior, fiz a ligação São Tomé-Nigéria. Partindo igualmente à noite, 13 dias depois atingia uma praia de Calabar, tendo sido detido 17 dias por suspeita de espionagem. - No mesmo ano, já com São Tomé e Príncipe independente, tentei a travessia São Tomé ao Brasil, usando os mesmos recursos. Além de pretender reforçar a minha teoria, desejava evocar a rota da escravatura e repetir a experiência de Alain Bombard. Porém, quis a ironia do destino que vivesse a difícil provação de um naufrágio de 38 longos dias, tendo aportado numa praia de Bioko (Bococo)onde fui recambiado para a famosa prisão de Black Beach

quarta-feira, 1 de maio de 2019

MARES DE S. TOMÉ E PRINCIPE - MARES SULCADOS DE SOFRIMENTO E DE ENCANTO


 


MARES DA MINHA VIDA..DA MINHA INFINITA ANGÚSTIA, DOS MEUS TORMENTOS, ENCANTOS E AFLIÇÃO - POUPASTE-ME À MORTE MAS OUTROS INFELIZES NÃO TIVERAM A MESMA SORTE

A vós, lendários mares do sul, eu vos saúdo
com todo amor e bondade do meu coração!
Eu vos bendigo em exaltação ao génio Criador!
Eu vos evoco pelos momentos de rara beleza e de imensa alegria,
e também de outros de não menor tristeza e dor, por mim vividos,
durante dias e dias a fio, no meio da vossa vastidão!
- Obrigado por haverdes compreendido a minha temeridade.
a minha intenção!... Fui um homem de sorte!... - Obrigado, também,
por, antes de mim, haverdes poupado outras vidas às garras da morte!

 

 Embora, já muito longe de vós, na distância e no tempo
(pois, há quantos anos  vos não vejo? ó mares da minha  vida,
ó mares da minha perdição! - nem por isso deixo de perscrutar
os vossos chamamentos, de escutar os vossos rumores e rugidos!
-  Ouço-os, claramente! - Sobretudo nos momentos
mais meditativos, mais pensativos,
à semelhança do que me acontecia, quando,
na solidão do caos tempestuoso, sozinho me debatia
por entre a fúria das enormes vagas - Ó imensidade!
Ó pálido e brumoso mar!... Ó noites de mar tenebroso e bravo!
Noites fosfóricas, de assombrosa aparição!...




Recordo e choro, às vezes, ainda o pesadelo,
a angústia sentida desses cruciais instantes!...
Relembro-os e perscruto-os de olhar triste e magoado,
como se estivesse ainda a ver as cristas brancas
a ondularem ao largo, a levantarem-se do fundo das sombras,
tão altas que até quase tocavam as difusas estrelas,
e subitamente estrondearem e a desfazerem-se ao meu lado!
- E eu, pobre de mim, vagueando, nesse horror alucinante!...
Rolando, rolando, pela noite adiante, só e desamparado! 
Errando, errando, na pequena piroga, sem rumo e sem destino,
no meio do tumulto avassalador, no centro rodopiante,
do turbilhão fervente e ameaçador! - Transido
pela humidade! Ensopado como um trapo. Mortificado
pela sede e esfomeado Um verdadeiro farrapo!
Todavia, lutando, resistindo,
não resignado, não vencido!

 




Ó ondas lívidas e soluçantes! Ondas lúgubres
e agrestes dos trágicos  naufrágios, ainda hoje
aos meus ouvidos, vão ecoando, vão soando, repercutindo,
os ecos de todos os estrondos, sílvios e ruídos 
da vossa portentosa orquestra! Ainda agora ouço o ressoar
de todos esses sons! - No marulhar de vós, distingo - ó impiedosa
negridão! -, por entre o rebentar e o estertor dos vossos rugidos,
o imenso clamor dos gritos, os rumores dos milhentos gemidos,
choros e suplicas, os ecos das imensas vozes aflitas,
perdidas, já agonizantes, moribundas, das pobres almas
que foram tragadas! - Sim, dos inumeráveis desgraçados
que se perderam, que foram esquecidos, abandonados,
no louco torvelinho das águas!

 
 













Ai de vós, ó pobres náufragos!
Ai de vós, desventurados! - Foi horrível
o vosso sofrimento - eu sei! Também experimentei o mesmo drama!
Porém, se estais em paz no outro mundo, continuai em paz, nesse mesmo limbo!
Esquecei o vosso infortúnio! Não o choreis!...  Ninguém
mereceria as vossas lágrimas! - Nem Deus, certamente,
que, naqueles momentos fatídicos, permaneceu impassível,
vos abandonou e vos esqueceu!

Jorge Trabulo Marques
12 de Julho de 2005 

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