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Entre outros assuntos, falo da escalada ao Pico Cão Grande e das minhas aventuras em canoas – Visam defender a teoria de que antigos povos africanos, podiam ter sido os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo da Guiné, antes dos colonizadores – Parti à meia-noite, disfarçado de pescador, ligando a ilha do Príncipe. Para me orientar, uma rudimentar bússola – A canoa era minúscula, à segunda noite adormeci: rolei na escuridão das vagas. No regresso fui distinguido com sopapos da policia salazarista, enviado para os calabouços – Cinco anos depois, numa piroga maior, fiz a ligação São Tomé-Nigéria. Partindo igualmente à noite, 13 dias depois atingia uma praia de Calabar, tendo sido detido 17 dias por suspeita de espionagem. - No mesmo ano, já com São Tomé e Príncipe independente, tentei a travessia São Tomé ao Brasil, usando os mesmos recursos. Além de pretender reforçar a minha teoria, desejava evocar a rota da escravatura e repetir a experiência de Alain Bombard. Porém, quis a ironia do destino que vivesse a difícil provação de um naufrágio de 38 longos dias, tendo aportado numa praia de Bioko (Bococo)onde fui recambiado para a famosa prisão de Black Beach

sábado, 6 de julho de 2019

VITORINO NEMÉSIO E O MAR - O poeta açoreano, recordado por seu filho Manuel Nemésio - Meu Pai é tudo isto: poeta-ilha, poeta-mar, poeta-navio, poeta-sempre, poeta-tudo!

Jorge Trabulo Marques - Jornalista e investigador 



 Vitorino Nemésio,  nascido na ilha da Terceira, em 1901, faleceu em Lisboa, em 1978, há 41 anos   - Publicou dezenas de obras . Poeta, romancista, cronista, dramaturgo, académico e intelectual açoriano que se destacou como autor de Mau Tempo no Canal, e professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.



"NEMÉSIO E O MAR " - Título de um artigo, de autoria de seu filho, Manuel Nemésio, publicado na Revista da Armado, em 2002

Vitorino Nemésio, meu Pai, açoriano dos quatro costados, nascido de sua Ilha Mãe, a Ilha Terceira, feito sobretudo de terra e mar, “porventura mais de mar do que de terra”, como ele próprio se afirmava; criador do termo “açorianidade”, a exemplo da “hispanidade” de Unamuno; é lava de ilhéu feito ilha, é navio, arquipélago, continente, mundo cósmico saído do ovo, qual navio à deriva, perdido e achado na meia distância atlântica no mito do avante devagar, sem retorno, com garantia de piloto na rota helicoidal do Poeta:

 Ah, ovo que deixei, bicado e quente,
Vazio de mim, no mar,
E que ainda hoje deve boiar, ardente
Ilha!
E que ainda hoje deve lá estar! (1)

Em Nemésio, a sua ligação ao mar mede-se profunda (mais de mar do que de terra). Seu Pai, Victorino Gomes da Silva, músico amador de fina sensibilidade artística, foi seu búzio de mar, feito patrão de costa no cantante de sua ilha:

Meu Pai! meu Pai! minha luz!
Meu génio! (nanja ruim!)
Ó meu sangue alvoraçado
Dos espantos de onde vim!
..........................................
Meu Pai andava queixoso,
Fechou-se comigo e deu
Uma pancada na música
Que nunca me esqueceu!
Os motetes que meu Pai
Me ensinou quando fugiu
Estão cantados no meu sangue
Como a água está no rio. (2)




Vitorino Nemésio, meu Pai, açoriano dos quatro costados, nascido de sua Ilha Mãe, a Ilha Terceira, feito sobretudo de terra e mar, “porventura mais de mar do que de terra”, como ele próprio se afirmava; criador do termo “açorianidade”, a exemplo da “hispanidade” de Unamuno; é lava de ilhéu feito ilha, é navio, arquipélago, continente, mundo cósmico saído do ovo, qual navio à deriva, perdido e achado na meia distância atlântica no mito do avante devagar, sem retorno, com garantia de piloto na rota helicoidal do Poeta:

Ah, ovo que deixei, bicado e quente,
Vazio de mim, no mar,
E que ainda hoje deve boiar, ardente
Ilha!
E que ainda hoje deve lá estar! (1)

Em Nemésio, a sua ligação ao mar mede-se profunda (mais de
mar do que de terra). Seu Pai, Victorino Gomes da Silva, músico
amador de fina sensibilidade artística, foi seu búzio de mar, feito
patrão de costa no cantante de sua ilha:
Meu Pai! meu Pai! minha luz!
Meu génio! (nanja ruim!)
Ó meu sangue alvoraçado
Dos espantos de onde vim!
..........................................
Meu Pai andava queixoso,
Fechou-se comigo e deu
Uma pancada na música
Que nunca me esqueceu!
Os motetes que meu Pai
Me ensinou quando fugiu
Estão cantados no meu sangue
Como a água está no rio. (2)



No “Corsário das Ilhas”, Nemésio afirma-se, metaforicamente “tartaruga que puxa sempre para o mar”.. “Feio e teimoso bicho! (diz Nemésio). Mas bicho firme, de um só rosto e de uma só fé — a fé refeita e salgada do fundo do Oceano Atlântico.” (3). Mais adiante, a bordo do Santa Maria, o Corsário confessa-se, como que num ritual muito puro de oração matinal: «Sou ilhéu; e, tanto ou mais do que a ilha, o ilhéu define-se por um rodeio de mar por todos os lados. Vivemos de peixe, da hora da maré e a ver navios... Na infância e na adolescência era o meu mais belo espectáculo.

Quase todas as casas abastadas, nos Açores, estavam munidas de um velho óculo de alcance, e algumas de binóculos, com que se seguiam as chaminés dos paquetes e as árvores dos veleiros molhadas na linha do horizonte. Na nossa casinha de campo, na Vinha do Mão Roxa, sobre os vinhedos e lavas ambidas ao longe pela ressaca, meu pai, — músico e um pouco poeta, — trepava à varanda do telhado, sacava do grande búzio, ao pôr do sol, e metendo e tirando a mão direita na rosca corada do calcário, tirava-lhe dois aulidos alternos e melancólicos, intencionalmente repetidos, sinal de vida isolada dado à vizinhança do longe. (4)

A seu filho Manuel, cedeu-lhe, o Poeta, a fardinha-maravilha do marinheiro que não foi, pela modéstia de não ter sido encartado, — (mas foi-o, lhe asseguro, meu Pai): — (marinheiro genuíno honoris causa... pescador... valente homem do mar):

O teu filho é um peixe de metal:
Vai ao fundo das águas recolher
O lugre ardido, os sinos, o coral,
Ou a morte em flores de fogo, se morrer.

Uma vez por outra, Nemésio, exibia-se com o bonézinho do filho: aprumava-se e fazia-lhe a continência, sorrindo embevecido: — “Dá licença, senhor comandante?” — Certo que sim, meu querido Pai.
Nemésio nega-se e afirma-se: 

« Não sou marinheiro (por incontável modéstia, insisto eu), mas sou ilhéu e portanto embarcadiço. Além de que a vida é em si mesma uma verdadeira derrota, uma vasta e tremenda singradura. » (6)
Para meu Pai: « os navios são femininos, capciosos e ligeiros. Talham a linfa e o vento: umas vezes embalam como berços, outras abraçam nos de amor. E, pouco a pouco, têm--nos na sua mão estrangeira e inconstante. Mas nenhum cavername deste Mundo me pareceu valer o barquinho em que Manuel do Luís e o Bicho iam de madrugada à cavala, para voltarem à tarde a dormir no sossego e na paz dos seus casebres. » (7)

Meu Pai, feito Corsário, hesita, balançando-se: 

« “Vou! Não vou?” Umas vezes: “Vou!” Outras: “Não!” Maldita condição e do gratuito...
Mas já vou mesmo!... Despedi-me. Embarquei. Parti. Fiz, enfim, um par de pretéritos perfeitos e próprios das viagens...
Já o meu próprio escrever é fluido como o mar e, como ele, ilógico. Uma cinza húmida e fresca tornou-se comum às águas, ao céu, à alma, à cabeça. Só o coração vigia inteiro e saudável nas primeiras derrotas do mar. (Eu durmo e o meu coração vigia.) Navegamos ambos, o coração e eu... » (8) — e mais adiante o Poeta acrescenta:

« O navio, aliás, navega pelos seus próprios meios, sem reboque mecânico ou animal, e é com o seu verdadeiro ambiente — a vida de bordo — que consegue enfim prender e domar a minha imaginação vagabunda. Sinto-me enfim situado. Há aqui bombordo e estibordo, proa e ré, deck e porão. E, diante de nós, uma linha imaginária a que chamamos horizonte.» (9) Mais adiante ainda, Nemésio, preocupado no exacto dos termos náuticos lembra que: «No tempo do Açor dizia-se, a ré: cuidado com as hélices, e as pessoas curiosas e instruídas discutiam na casa de fumo sobre se se devia dizer “os hélices” ou “as hélices”, e se era conveniente aguentar o h no começo da palavra... 

Como este, outros santos e eruditos costumes se perderam. Já a menina “bem” não dá a volta ao convés, de pé atado à calça daquele afoito senhor. Que é do binóculo matutino, sensível à toninha emergente e ao fumo do petroleiro? » (10). E mais, sempre mais, avança Nemésio: « Vejamos agora o mar. Chamar suave e bela a uma coisa destas, chata, mexida, com bocados brancos metidos no meio do cinzento! Gostar da água estendida como se fosse um solo, — mas sem árvores, a não ser a árvore seca de algum pobre iate em calmaria...! A hipocrisia lavrou a terra e o mar como um verdadeiro escalracho. Já não se dizem as coisas directamente; todos fingem o que não são e armam ao que não têm. » (11)... Et encore plus, logo nos adianta o autor: «A verdade
que só amo o mar rebentado e colérico, principalmente o das praias e dos recifes: 

Detesto cordialmente este mar enrolado, como massa a folhar pelo pasteleiro de bordo, — esta coisa estranha e estólida como um olho sem pálpebra, que já não tem nada que olhar. Ao menos,um veleiro é belo; um couraçado é belo! Mas o alto mar parrana não é belo. Tudo se esvai e se esfuma nesta extensão sem referência. Cheira a tinta de óleo e a corda cozida por toda a parte. Sei bem que isto é da entranha do paquete, como o fartum a rato é do ninho de rato. Mas atiro as culpas para cima do mar sem limites.» (12) Meu Pai é tudo isto: poeta-ilha, poeta-mar, poeta-navio, poeta-sempre, poeta-tudo! Assim o digo e o sinto. Em Nemésio a humanidade está no homem, alapardada na intimidade do Poeta num up-to-date de doação gratuita, e não fora do homem, desgarrada na sua perplexidade, inútil e inacessível por não se querer agasalhar. O mar de Nemésio é o mar onde o Poeta é:

A Concha A minha casa é concha. Como os bichos

Segreguei-a de mim com paciência:
Fachada de marés, a sonhos e lixos.
O horto e os muros só areia e ausência

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
 O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal e os santos esboroou nos nichos.

E telhados de vidro e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
 Lareira aberta ao vento, as salas frias.

A minha casa... Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
 Sentado numa pedra de memória. (13)

E assim — perante tudo — no mar, Nemésio é Ilha, “Ilha Flutuante” à deriva com piloto atento e precavido, repito, daí, que mesmo em terra, tenha consigo o seu sinete: V.N. de (Valente Navio): (Mestre e Patrão de Salva-vidas): (15)

Não subo ao Monte Brasil,
Não sou facheiro nem facho:
 Tenho o navio no peito,
Quando o quero sempre o acho. (14)

Notas (1) O Bicho Harmonioso: O Canário de Oiro:O/C VOL.I POESIA(pg.138). (2) Festa Redonda: Cantigas por alma de meu Pai: O/C VOL.I POESIA (pg.327). (3) Corsário das Ilhas: A Tartaruga: O/C VOL.XVI (pg.117). (4) Corsário das Ilhas: Pressentimentos: O/C VOL.XVI (pg.167). (5) O Verbo e a Morte: Missão: O/C VOL.II POESIA (pg.294). (6) Corsário das Ilhas: Embarques: O/C VOL.XVI (pg.121). (7) Corsário das Ilhas: Embarques: O/C VOL.XVI (pg.124). (8) Corsário das Ilhas: Vida de Bordo: O/C VOL.XVI (pg.67). (9) Corsário das Ilhas: Vida de Bordo: O/C VOL.XVI (pg.68). (10) Corsário das Ilhas: Vida de Bordo: O/C VOL.XVI (pg.69). (11) Corsário das Ilhas: Vida de Bordo: O/C VOL.XVI (pg.69). (12) Corsário das Ilhas: Vida de Bordo: O/C VOL.XVI (pg.70). (13) O Bicho Harmonioso: A Concha: O/C VOL.I (pg.131). (14) Festa Redonda: Cantigas à Ilha Terceira, à Cidade, à Praia, e aos Montes: (pg.275). (15) V.N.M.P.S. : Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva.
Manuel Nemésio - REVISTA DA ARMADA • JANEIRO 2002

MANUEL MONJARDINO DE AZEVEDO GOMES NEMÉSIO (n. 1930)
O Comandante Manuel Monjardino de Azevedo Gomes Nemésio é filho do escritor Vitorino Nemésio e de Gabriela Monjardino de Azevedo. Reside em Castelo de Vide. 

Foi um dos fundadores do MUD Juvenil em Coimbra e por "vocação e paixão" entrou para a Escola Naval, seguiu a carreira militar como oficial da Marinha de Guerra Portuguesa e participou activamente no movimento das Forças Armadas (MFA), em Abril de 1974. 

Cursou Filosofia, tendo sido professor cooperante em Cabo Verde, e pertenceu à Comissão de Redacção dos Anais do Clube Militar Naval. 

Colaborou em inúmeras revistas e livros evocativos de seu pai.

Publicou "Construção da Casa do Ser (ou Roteiro Sentimental de Castelo de Vide)" (1996, Colibri), "Caligramas Electrónicos- Poesia" (2001, Ed. Moura Pinto) e "Vitorino Nemésio- Centenário do Nascimento - 5 Poemas de Vitorino Nemésio (2001, ed. ilustrada com gravuras e litografias de Alberto Péssimo, José Emídio, José Rodrigues e Ruy Anahory.  - Biografia escrita por Alberto Ferreira




BIOGRAFIA  - Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva GOSE • GCSE • GOIH (Praia da Vitória, 19 de dezembro de 1901 — Lisboa, 20 de fevereiro de 1978) foi um poeta, romancista, cronista, académico e intelectual açoriano que se destacou como autor de Mau Tempo no Canal, e professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

(…) Em 1934 doutorou-se em Letras pela Universidade de Lisboa com a tese A Mocidade de Herculano até à Volta do Exílio. Entre 1937 e 1939 leccionou na Vrije Universiteit Brussel,[4] tendo regressado, neste último ano, ao ensino na Faculdade de Letras de Lisboa.

Em 1958 leccionou no Brasil. A 19 de julho de 1961 foi feito Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique e, a 17 de abril de 1967, Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada.[5] A 12 de setembro de 1971, atingido pelo limite legal de idade para exercício de funções públicas, profere a sua última lição na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde ensinara durante quase quatro décadas, passando a ser Catedrático Jubilado.
Foi autor e apresentador do programa televisivo Se bem me lembro, que muito contribuiu para popularizar a sua figura e dirigiu ainda o jornal O Dia entre 11 de dezembro de 1975 a 25 de outubro de 1976.
Foi um dos grandes escritores portugueses do século XX, tendo recebido em 1965, o Prêmio Nacional de Literatura e, em 1974, o Prémio Montaigne.

Faleceu a 20 de fevereiro de 1978, em Lisboa, no Hospital da CUF, e foi sepultado em Coimbra. Pouco antes de morrer, pediu ao filho para ser sepultado no cemitério de Santo António dos Olivais, em Coimbra. Mas pediu mais: que os sinos tocassem o Aleluia em vez do dobre a finados. O seu pedido foi respeitado.
A 30 de agosto de 1978 recebeu a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada, a título póstumo.[5] Em 1978, a Câmara Municipal de Lisboa homenageou o escritor dando o seu nome a uma rua na zona da Quinta de Santa Clara, na Ameixoeira.[6]
Obra
Vitorino Nemésio foi ficcionista, poeta, cronista, ensaísta, biógrafo, historiador da literatura e da cultura, jornalista, investigador, epistológrafo, filólogo e comunicador televisivo, para além de toda a actividade de docência. O seu nome consta da lista de colaboradores da Revista dos Centenários[7] publicada por ocasião da Exposição do Mundo Português e nas revistas, Panorama [8] (1941-1949) Conímbriga [9] de 1923, Renovação (1925-1926) [10] e Litoral [11] (1944-1945).
Levou a cabo, na sua obra, uma transformação das tendências da Presença (que de certa forma precedeu), que garantiu a eternidade dos seus textos. Fortemente marcado pelas raízes insulares, a vida açoriana e as recordações da sua infância percorrem a obra do escritor, numa espécie de apelo, revelado pela ternura da sua inspiração popular, pela presença das coisas simples e das gentes, e pela profunda humanidade face à existência e ao sofrimento da vida humana  - Excerto de  https://pt.wikipedia.org/wiki/Vitorino_Nem%C3%A9siomana.

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