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Entre outros assuntos, falo da escalada ao Pico Cão Grande e das minhas aventuras em canoas – Visam defender a teoria de que antigos povos africanos, podiam ter sido os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo da Guiné, antes dos colonizadores – Parti à meia-noite, disfarçado de pescador, ligando a ilha do Príncipe. Para me orientar, uma rudimentar bússola – A canoa era minúscula, à segunda noite adormeci: rolei na escuridão das vagas. No regresso fui distinguido com sopapos da policia salazarista, enviado para os calabouços – Cinco anos depois, numa piroga maior, fiz a ligação São Tomé-Nigéria. Partindo igualmente à noite, 13 dias depois atingia uma praia de Calabar, tendo sido detido 17 dias por suspeita de espionagem. - No mesmo ano, já com São Tomé e Príncipe independente, tentei a travessia São Tomé ao Brasil, usando os mesmos recursos. Além de pretender reforçar a minha teoria, desejava evocar a rota da escravatura e repetir a experiência de Alain Bombard. Porém, quis a ironia do destino que vivesse a difícil provação de um naufrágio de 38 longos dias, tendo aportado numa praia de Bioko (Bococo)onde fui recambiado para a famosa prisão de Black Beach

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Rute Norte - Príncipe - Quarto Dia, a Caminho da Praia Sundy - 550 K a pedalar nas duas Ilhas


Fiz ao todo 550 km de bicicleta nas duas ilhas: 205 na ilha do Príncipe (onde estive onze dias) e 345 na ilha de São Tomé (onde estive dezoito dias). São Tomé tem uns 50 km de comprimento e 30 de largura, e o Príncipe tem uns 30 km de comprimento e 6 de largura.  Distam entre si 160 km. Sendo as ilhas tão pequenas, bem que podem perguntar-me como consegui fazer tantos quilómetros. Andei às voltas?

Outras imagens da atleta portuguesa, Rute Norte, que pedalou por estradas, caminhos e trilhos das duas maravilhosas ilhas de S. Tomé e Príncipe – Uma maneira diferente de olhar a paisagem natural e admirar os rostos sorridentes das suas gentes e o seu peculiar modo de vida

Referindo-se  ao 4ª Dia a caminho da Praia Sundy – Diz o seguinte:

Efetivamente mudei de padrão, nesta minha viagem por São Tomé e Príncipe. Não ando com um carro de apoio. Comprei os voos e a estadia na internet, e vim sozinha, sem agências de viagens desta vez. Instalei-me num ponto fixo, o mais possível no centro das ilhas, e a partir daí saio todos os dias para um ponto diferente. Vou fazendo percursos em forma de estrela, digamos. Todos os dias vou – e regresso. Daí a repetição de quilómetros. Além de que sendo ilhas montanhosas, os quilómetros propagam-se nas curvas e contra-curvas. E subidas e descidas, pois claro.

Sendo o meu estilo de viagens lento, com muitas paragens e conversas pelo caminho, e ainda uns mergulhos de vez em quando, não consegui mesmo assim conhecer todos os pontinhos. Ficaram a faltar-me umas coisas aqui e ali. Vinte e nove dias não foram suficientes. Mas a maior parte do país ficou vista – e bem vista, com toda a calma. Quem tiver pressa de conhecer São Tomé e Príncipe bem que pode sair já destas crónicas, mais vale mudar já de website, porque estas vão decorrer ao ritmo das minhas pedaladas lentas e cheias de paragens e fotos. E sorrisos.

Sobre São Tomé e Príncipe não se encontra quase nada na internet. Há muitas fotos de praias, de crianças sorridentes, edifícios da época colonial, e pouco mais. Mas São Tomé e Príncipe não é só praias e crianças sorridentes, tem de haver muito mais do que isso. É esse o desafio a que me proponho: pegar na bicicleta, embrenhar-me pelos caminhos de terra e florestas, e ver o que há aqui. Onde estão vocês, meus amigos? O que andam a fazer? O que são as vossas vidas?

Vou espreitar tudo. E sou convidada a entrar em suas casas. Vou ter longas conversas, pausadas, sem pressas. Leve-leve. Esta expressão “leve-leve” é típica de São Tomé e Príncipe, e significa “suavemente, sem pressas”. Sem esforço desnecessário. Pedalar com calma. Vai leve-leve, dizem-me, acenando-me com um sorriso. Vou sim, vou leve-leve.

O povo santomense é tímido. Já estão habituados a turistas a circularem de jipe, já nem ligam. As caras pálidas passam nos seus jipes, às vezes tiram fotos da janela do carro, e na maioria das vezes só vão às praias bonitas e turísticas. Eu optei por caminhos alternativos – literalmente – pois estou a seguir trilhos para bicicleta de BTT (“bicicleta de mato”, como dizem os santomenses). Instalei a app “Maps.me” – uma maravilhosa app gratuita; fiz download do mapa de São Tomé e Príncipe, et voilà! Por vezes nem sigo por estradas, sigo por trilhos. Esta aplicação indica quatro tipos de caminhos: carro, pedestre, comboio (quando existe) e trilhos de BTT. A ponto de perguntar-me por vezes se isto é mesmo um caminho que vai dar a algum lado. Com arbustos cerrados dum lado e de outro, a roçarem em mim e na bicicleta. Só cabe uma pessoa, carros não entram, nem sequer motas. “O caminho é por ali”, diz-me um homem, apontando para a estrada. “Não, o GPS está a indicar-me que é por aqui”, respondi eu. “Sim, este caminho vai lá dar” – elucidou uma mulher. E desapareci no meio do mato. E que belas surpresas tive nesse dia, tanta gente que se encontra a trabalhar no meio do mato. Lá chegaremos.

Pelo que nestas circunstâncias, quando as pessoas se deparam com uma mulher sozinha de bicicleta pelos cantos mais recônditos e inesperados (aqui estou eu!) a surpresa é significativa. Mandam-me parar, chamam-me, querem saber mais. Não sou só eu que quero bisbilhotar, o povo santomense também tem curiosidade e enche-me de perguntas mal a timidez inicial se vai. O facto de falarmos todos português é fulcral. Fala-se português em todo o lado, não há dificuldade de abordagem.

Sendo assim, vamos partir. Levo-vos a todos sentadinhos no meu ombro, e talvez em cima do meu capacete, pequeninos, escondidos, para verem tudo com os vossos próprios olhos. Têm de colocar uns óculos de proteção e um pequenino capacete também, por segurança.

Vamos então.

As pessoas foram apanhadas de surpresa, com a minha chegada. São 6 e meia da manhã. Cumprimentámo-nos, trocámos meia dúzia de palavras. Deixaram-me à vontade para observar e fotografar. Um rapaz acordou agora e foi urinar atrás da casa. Rapidamente vou perceber que habitualmente não existem casas de banho nas habitações.
Existem muitas “roças” em São Tomé e Príncipe. São antigos edifícios do tempo do colonialismo português, grandes propriedades rurais onde se produziu cacau e café, nos finais do séc. XVIII e inícios do séc XX. Atualmente a maioria está em avançado estado de degradação, e alguns dos edifícios são habitados pela população.

Contamos editar outras imagens e textos, por estradas, caminhos e  trilhos de STP,  desta extraordinária alteta portuguesa 



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