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Entre outros assuntos, falo da escalada ao Pico Cão Grande e das minhas aventuras em canoas – Visam defender a teoria de que antigos povos africanos, podiam ter sido os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo da Guiné, antes dos colonizadores – Parti à meia-noite, disfarçado de pescador, ligando a ilha do Príncipe. Para me orientar, uma rudimentar bússola – A canoa era minúscula, à segunda noite adormeci: rolei na escuridão das vagas. No regresso fui distinguido com sopapos da policia salazarista, enviado para os calabouços – Cinco anos depois, numa piroga maior, fiz a ligação São Tomé-Nigéria. Partindo igualmente à noite, 13 dias depois atingia uma praia de Calabar, tendo sido detido 17 dias por suspeita de espionagem. - No mesmo ano, já com São Tomé e Príncipe independente, tentei a travessia São Tomé ao Brasil, usando os mesmos recursos. Além de pretender reforçar a minha teoria, desejava evocar a rota da escravatura e repetir a experiência de Alain Bombard. Porém, quis a ironia do destino que vivesse a difícil provação de um naufrágio de 38 longos dias, tendo aportado numa praia de Bioko (Bococo)onde fui recambiado para a famosa prisão de Black Beach

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

17º Dia- Odisseia no Golfo da Guiné numa piroga: Esta manhã o trovão continua ainda a fazer-se sentir no horizonte. O mar está um bocado agitado!…Voltei avistar, lá longe, já muito afastado de mim, a sul, contornos da Ilha do Príncipe.


“Se me perguntassem neste momento qual era o meu maior desejo, eu responderia que era tomar um banho!.. Impossível!.. Pois estou rodeado de tubarões!.. Era tomar um banho e  beber qualquer coisa fresca, gelada! E, também, diga-se de passagem, falar com alguém”.- In Diário de Bordo


Lá ao fundo e a sul, ia ficando longe a Ilha de Ano Bom


Pesqueiro fundeado junto Ano Bom

Jorge Trabulo Marques   - Algures no Golfo da Guiné, 6 de Novembro de 1975 -  
Dezassete dias depois de ter sido largado a escassa distância e a Norte da Ilha de Ano Bom pelo pesqueiro  Hornet, que me transportara a canoa de S. Tomé, com a condição de me largar no braço da corrente de Benguela, https://pt.wikipedia.org/wiki/Corrente_de_Benguela - rumo ao Brasil


Depois da tempestade
Na noite e dia seguinte da tempestade
.Quando o navio se aproximou desta pequena Ilha, convidou-me a abandonar a canoa e a trabalhar a bordo, alegando que era arriscado fazer essa aventura. Não tendo aceite a sua proposta, a canoa é arreada, depois de ter assinado um termo de responsabilidade, decidindo voltar a S. Tomé, aproveitando, então,  os ventos e as corretes favoráveis rumo a norte

Depois de um dia de navegação normal, se bem que tendo, durante a manhã e a tarde, sempre duas canoas atrás de mim, possivelmente para se apoderarem dos meus mantimentos, sou confrontado por um violento tornado, vindo do sul, que me faz perder o leme, que havia adaptado à popa, bem como o remo principal e alijar-me de bidões de água potável e a maior parte dos alimentos enlatados  por forma a evitar que a canoa se afundasse, quando um vagalhão quase a encheu. A partir daí, começaram os tormentos:  mais 21 dias de incerteza, ainda pela frente improvisei um remo com bocados da cobertura no extremo de um barrote, mesmo assim, era-me muito dificil e  penoso navegar. Logrei salvar a máquina fotográfica e o gravador (registo do diário de bordo) graças a um contentor de plástico, igual aos do lixo.

Com um barrote logrei disparar a máquina presa no mastro
Diário de Bordo  1 -É manhã do 17º dia: faz hoje precisamente 17 dias que navego numa canoa  em pleno Golfo da Guiné. A noite foi tempestuosa. Trovoada. Relâmpagos e trovões. O mar muito agitado!... Apanhei ainda muita chuva. E tive necessidade de aproveitar alguma para beber. Foi uma noite bastante chata.

Esta manhã o trovão continua ainda a fazer-se sentir no horizonte. O mar está um bocado agitado!... O céu de um modo geral carregado de nuvens cinzentas, escuras!...Voltei avistar, lá longe, já muito afastado de mim, a sul, contornos da Ilha do Príncipe. Tenho imensa pena, pois se realmente eu sabia que era a Ilha do Príncipe, eu teria talvez conseguido abordá-la... Pelo menos, parece-me que estive muito próximo do Ilhéu das Tinhosas. Era para mim fantástico!... Agora, eu vou ter a Fernando Pó (Bioko), à Nigéria  ou aos Camarões. Vamos ver... Talvez mais um dia pela frente...

Diário de Bordo  2-  Espero que os tubarões não me chateiem como ontem... Eles continuam aqui a voltear-me...Ontem, houve um que investiu contra a canoa. Andava aqui às voltas às rabanadas contra a canoa e se não fosse a intervenção do machim (catana), estou convencido de que a voltava! Espero que isso não volte acontecer.


Diário de Bordo  3 - Já tomei o pequeno almoço: constituiu de uma farinhazita e fiquei mais ou menos bem disposto. A água que apanhei das chuvas não é assim muito agradável... Enfim, vai-se aguentando, enquanto se pode




Nesta manhã volto a ter a sensação  de ter a terra à vista, a Norte, o que tudo indica que seja a ilha de Fernando Pó (Bioko)... Ainda está muito longe mas já há uma perspetiva encorajadora. Oxalá que sim!... 

É terra!... De facto, é terra!.... Andam aqui umas aves que tenho a impressão que se dirigem para lá!... Meu Deus! Já chega de sofrimento!...Realmente, tenho passado muito mal!....É realmente incrível as condições em que navego! A canoa sempre nesta dança tomboleando! constantemente!... Os tubarões em volta! O mar agitado!...Enfim, é uma situação para a qual é preciso ter muita calma, muita paciência e nunca desanimar!...Pois, por exemplo, aquele tubarão de ontem!... De um momento para o outro um tubarão gigantesco!!... Começa ali às rabanadas, às rabanadas! em volta da canoa!!... Três, quatro vezes!... Eu, com o remo, com o remozito que aqui tenho e que é a única coisa que me sobrou (da tempestade) e que não dá nada! a dar-lhe no dorso! e ele nada!... Depois, agarrei no machim e, quando lhe dei em cheio é que o gajo desapareceu de uma vez para sempre





Diário de Bordo  4- Deve ser cerca da uma da tarde a bordo da canoa São Tomé. Pois acabei de acordar de um pequeno repouso. Fiquei deitado no fundo da canoa, visto estar bastante cansado.Perscrutando o horizonte verifico que a Ilha de Fernando Pó já está a ficar para Leste. As correntes estão agora a arrastar-me para Norte, Nordeste. Portanto, para a Nigéria. Estou convencido que o lugar onde eu irei dar é a Nigéria.

O mar tem uma certa calema!... Não sei como é que se porá ao fim da tarde. Normalmente, o fim da tarde é sempre pior, é quando o mar está mais agitado!...Hoje notei, sobretudo a presença do tubarão azul e do martelo, em bastante quantidade!... Estou ligeiramente indisposto do estômago, talvez da água. Pois a água que trouxe de São Tomé, já a gastei. Tive que utilizar água das chuvas, que não é tão boa, evidentemente!

Diário de Bordo  5 - Hoje o moral não é mau....Espero talvez amanhã atingir a Nigéria. As correntes estão-me arrastar.. Verifico que é realmente uma força enorme que me arrasta!... O mar apresenta-se de um azul muito escuro, talvez devido ao céu, que está muito cinzento!... As aves continuam aqui às voltas à procura de peixes.Este mar é riquíssimo em peixes!... Só me faz confusão não haver aqui nenhum barco de pesca. Já vislumbrei nuns mastros, muito ao longe!...Apercebi-me, devido a uns ruídos estranhos....Estava deitado na canoa e, às tantas, verifiquei que eram uns mastros de um barco qualquer numa distância muito grande de mim...Quanto, à segurança da canoa, ela tem as rachas muito mais abertas mas parece que deve aguentar até chegar a terra.... A canoa  de ocá, embora leve e frágil, ao mesmo tempo é resistente à força das vagas.

Com pescadores santomenses
Ouvindo-khe as suas histórias

Diário de Bordo  6 -Neste momento, gostava de registar uma palavrinhas a todos quantos me ajudaram, e foram tantas as pessoas que tão amavelmente me prestaram a sua colaboração. A essas pessoas, eu quero aqui deixar uma palavra de simpatia e de muito apreço. Não vou referir-me a uma por uma que isso seria moroso. Mas apenas focar este aspecto. Por outro lado, quero também lembrar, aliás nunca me saíram do pensamento, os meus familiares e amigos. Todos quantos me são queridos têm estado no meu pensamento e no meu coração.

Diário de Bordo  7 -- Se me perguntassem, neste momento, qual seria o meu maior desejo, digamos assim, ah! era tomar um banho!... Impossível tomá-lo na água do mar, pois estou rodeado de tubarões! Era isso que eu gostava mais!...E, também, diga-se de passagem, falar com alguém!... Já estou saturado... (gracejo) Sim, é preciso ter muita pachorra!...Sei lá!... Muita tolerância, muita paciência! para se aguentar tanto tempo... Este isolamento!.... Esta solidão!.


ESTE DIÁRIO SÓ FOI POSSÍVEL GRAÇAS À TRANSCRIÇÃO DO REGISTO NUM PEQUENO GRAVADOR - QUE PUDE RESGUARDAR DO MAR NO CAIXOTE DE PLÁSTICO, QUE SE SE VÊ NA IMAGEM - IGUAL AOS DO LIXO






 Diário de Bordo  8 -  - Imagine-se, por exemplo, se esta minha canoa se virasse agora!... O que é que me acontecia?!...Não tinha hipóteses nenhumas!.... A canoa ficava ao de cima, é certo, não ia ao fundo. Eu ficava agarrado a ela....não sei por quanto tempo!... Mas o pior eram os tubarões que aqui andam e me limpavam o sebo! Essa é que era a verdadeira hipótese. A única alternativa.... Quer dizer, não tinha nenhuma alternativa... Estou aqui ao sabor de tudo! À mercê de todos os imprevistos!... Espero que isso não aconteça.... Mas, efetivamente, a canoa, às vezes, dá-me toda a sensação de se virar!... Mas eu já vou confiando nela!... A princípio não estava muito crente. Pus-lhe aqui uns paus, que aliás ainda mantenho – quer dizer, um mastro e mais um pau atravessado – e por acaso até tem dado jeito, porque, a canoa, está um bocado torta. Tem mais peso dum lado de que do outro. Porque, às vezes, a água galga-a, chega a galgá-la! E eu até já tenho tomado vários banhos!... Portanto, a segurança aqui é muito reduzida! As minhas hipóteses de salvação não são nenhumas, digamos assim...Confio, sei lá, em Deus! Confio numa força qualquer que  me leve por bom caminho...

Diário de Bordo  9 -- Espero que desta vez chegue à Nigéria e não vá a ter aquelas burocracias, os trâmites, as dificuldades que tive da outra vez com os nossos amigos nigerianos!... Espero que sejam mais amáveis para comigo, pois já me conhecem!... Estou convencido, pela direção das correntes, que vou lá ter outra vez!






UM FIM DE TARDE FELIZ

(imagem obtida com a máquina fotográfica amarada ao mastro e disparada com auxílio do pequeno remo, tal como a primeira imagem deste post)


Diário de Bordo 10  - Esta é uma tarde realmente maravilhosa! Um fim de tarde maravilhoso!... A canoa desliza suavemente! As aves parecem também seguir  a canoa!... Os peixes igualmente! Todos caminham!... Os peixes ao lado da canoa e as aves à frente!... Curioso este espetáculo!....

Mar azul! com espuma de alva!... Tudo tem vida neste momento!... A canoa desliza! Desliza suavemente!... É maravilhoso!...  Para mim, é um dos períodos da tarde mais interessantes....O sol, de vez em quando, encobre-se com as nuvens, mas volta novamente a dar a sua luz sobre este magnífico cenário!...

(No registo do meu pequeno gravador, ouve-se bater da água da  canoa, enquanto navego)



Como é doce e suave navegar ao sabor das correntes e dos ventos!... O remo é fraco, é um remo improvisado! Mas agora está a dar muito jeito!


Diário de Bordo 11 - Aproxima-se o fim da tarde do 17º dia. Já ando à deriva. Já deixei de velejar... Neste momento, voltei a ver contornos, julgo que da Ilha de Fernando Pó... E a direção que a canoa está a tomar é precisamente para lá... Esperemos!... Amanhã se verá!...

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