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Entre outros assuntos, falo da escalada ao Pico Cão Grande e das minhas aventuras em canoas – Visam defender a teoria de que antigos povos africanos, podiam ter sido os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo da Guiné, antes dos colonizadores – Parti à meia-noite, disfarçado de pescador, ligando a ilha do Príncipe. Para me orientar, uma rudimentar bússola – A canoa era minúscula, à segunda noite adormeci: rolei na escuridão das vagas. No regresso fui distinguido com sopapos da policia salazarista, enviado para os calabouços – Cinco anos depois, numa piroga maior, fiz a ligação São Tomé-Nigéria. Partindo igualmente à noite, 13 dias depois atingia uma praia de Calabar, tendo sido detido 17 dias por suspeita de espionagem. - No mesmo ano, já com São Tomé e Príncipe independente, tentei a travessia São Tomé ao Brasil, usando os mesmos recursos. Além de pretender reforçar a minha teoria, desejava evocar a rota da escravatura e repetir a experiência de Alain Bombard. Porém, quis a ironia do destino que vivesse a difícil provação de um naufrágio de 38 longos dias, tendo aportado numa praia de Bioko (Bococo)onde fui recambiado para a famosa prisão de Black Beach

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

São Tomé e a vida escrava nas Roças Coloniais e a vida de fome de Hoje

Jorge Trabulo Marques - Jornalista  - De facto, os santomenses fazem parte de um povo pacífico incapaz de matar um cachorro à nascença, pois entendem que todos os bichos têm direito à vida e que cabe à mãe-natureza fazer a seleção natural, mas os políticos, de modo geral, pelo que me é dado depreender, conquanto não sejam agressivos, são exímios na demagogia – Falam, falam, mas, pelos vistos, as obras vão sendo adiadas para o dia de São Nunca 


AUTÊNTICOS FEUDOS (UM ESTADO DENTRO DE OUTRO ESTADO), ONDE TODO O PODER SOBERANO ERA PERMITIDO –  ATÉ A CHIBATADA! MAS A MELHOR HERANÇA QUE SOBEJOU FOI NACIONALIZADA E DESTRUÍDA –

Todos recordam que as roças eram exploradas por colonos portugueses que conseguiam melhores proveitos à custa da mão-de-obra barata dos nossos ancestrais contratados (que de facto eram escravos, visto que não podiam regressar aos seus países de origem). Em segundo lugar, a maioria das roças funcionava como um autêntico feudo (Estado dentro do Estado), onde o patrão detinha todo o poder sobre as pessoas que nele viviam, onde o poder e a justiça da Metrópole nem do Governador na Colónia não se aplicavam. Nas roças foram cometidas talvez as maiores injustiças da era colonial. Muita gente defende o Marco de Fernão Dias e por vezes esquece que o nosso passado também está marcado em cada pedra das nossas roças. Por outras palavras, cada roça é um monumento e devia ser preservado como tal.” –17 jul. 2009 Tluquí Sun Deçu: Porquê que nós sempre persistimos nos mesmo erros?


Palavras  que subscrevo inteiramente – pois conheci essa negra realidade. Mas também poderia estar de acordo com a sua crítica aos erros que posteriormente se cometeram após a independência E que são apontados no seguimento do mesmo texto: “volvidos 34 de independência, após repetidas tentativas de viabilização falhadas com várias empresas e a famigerada distribuição de terras, os nossos dirigentes e a maioria dos são-tomenses ainda não perceberam que o modelo das roças é um modelo falhado. Nós temos de reinventar as roças e adaptá-las à nossa realidade actual.” E, pelos vistos, era justamente o que deveria ter acontecido: “Não deu os resultados almejados, a reforma agrária não foi acompanhada da  necessária ruptura e substituição do antigo modo de produção por outro mais moderno” – É o que se conclui noutro texto de autoria de Maria da Graça do Espírito  Santo Costa.

Tenho pena que se tivessem cometido tais erros. Não me surpreendem: são erros de um jovem país que parte em busca da sua identidade e da sua afirmação. O colonialismo explorou a terra e o povo durante séculos e nunca se importou em preparar quadros e apontar-lhe o rumo da sua autodeterminação. – A Revolução de Abril, cometeu também muitos erros mas não tem propriamente culpa, pois não fez mais do que  pôr cobro a uma situação caduca e intolerável. Mas como fazer melhor, quando a herança que se tem em mãos, é consequência do obscurantismo e da opressão?!... Era de prever, que, um  dia, à força do Salazarismo querer tudo, nos ia deixar sem nada – Nos lançaria para uma enorme crise social e económica e nos deixaria arruinados – Daí que tenham sido muitos os escolhos, desde que, Portugal e os povos que subjugava, se abriram a novos rumos na senda de uma saudável convivência, tolerância e espírito democrático. . 

Todavia fico profundamente magoado ao ver que, a pujante natureza, tomou conta das instalações das antigas roças. Há quem goste de ver as ruínas cobertas de verdura. Pessoalmente, gostaria que a natureza fosse respeitada, e também não é, nomeadamente no sul, onde as desmatações selvagens têm colocado em risco o seu equilíbrio, e que tudo quanto  que foi obra do esforço humano,  fosse sabiamente preservado.


É verdade que as administrações das grandes propriedades agrícolas nunca valorizaram a mão-de-obra dos forros, dos filhos da terra. É verdade que nunca foram além de capatazes, excetuando alguns mulatos, filhos dos brancos administradores ou feitores gerais. Mas ao menos que, tais antigas propriedades, fossem minimamente limpas e preservadas. E não é isso que acontece, para prejuízo do povo destas maravilhosas ilhas

Almoço no mato Roça Uba-Budo1963

Daí que,  ao  folhear a obra dos dois arquitetos, confesso que sou mais invadido por um sentimento de  tristeza de que pelo encantamento. Já não me refiro às roças onde não estive, mas onde trabalhei, - que deceção! Ver  as instalações, naquele estado ruinoso! Onde nem sequer o capim é cortado, e vivem pessoas,  é desleixo em demasia! Sim, pergunto: onde estão aqueles belos edifícios do  Uba Budo, Ribeira Peixe ou do antiga Roça Rio do Ouro, a que foi dado o nome do herói angolano, Agostinho Neto,  com aquele hospital, no topo da avenida, que quase rivalizava com o hospital da cidade!  Em que estado estão agora, todas aquelas instalações, desde as antigas senzalas,  chalés  dos empregados, armazéns de secagem e oficinas?....  Escombros, simplesmente escombros.  – E, pelos vistos, o cenário repete-se na Boa Entrada, Água Izé, e tantas outras roças que conheci  - Face a essas imagens, que poderei eu confessar  senão um profundo sentimento de desencanto e de  angústia.


TRABALHO DE ESCRAVO NAS ROÇAS DAS BOAS E MÁS RECORDAÇÕES - QUE AGORA ESTÃO IRRECONHECÍVEIS  

1965 -  Na sede da Roça Rio do Ouro - Num domingo
  -  Os filhos da terra - "os forros" - não iam além de capatazes e, geralmente, o trabalho que lhes era destinado era o da capinagem.. - Até os brancos tinham todos de começar de empregado de mato - Foi a categoria que me deram e o  ambiente colonial que eu fui encontrar em S. Tomé. Pagavam mal e trabalhava-se de sol a sol. . Só se tinha direito a férias de quatro em quatro anos. 



Uba Budo 1963
Sede da Roça Uba Budo 2014 -
No mato, o trabalho era todo de empreitada aos serviçais. Estes podiam regressar às sanzalas - angolanos, moçambicanos e cabo-verdeanos - ,  concluídas as tarefas e  depois de apanharem umas quantas ratazanas (principal praga do cacau) mas o empregado do mato continuava até ao fim do dia de machim na mão.. Apanhava-se a chuva no corpo, que acabava também por secar com a roupa, sem se mudar. Não se andava de guarda-chuva. Quanto muito, cortava-se uma folha de bananeira. 


De volta à Roça, em 2014, depois de ali  ter trabalhado em 1963- E alguns meses de 64

REGISTO EM VIDEO NUM CASUAL ENCONTRO  EM JULHO DE 2015 COM OS PRIMOS JOSÉ ABEL E MANUEL LOMBA CAPITO - FILHOS  DE PAIS ANGOLANOS, MAS JÁ NASCERAM EM S. TOMÉ – Na antiga roça Rio do Ouro, atual Agostinho Neto, a maior das propriedades agrícolas, pertencente à Sociedade Agrícola Vale Flor, onde, em 1965,  também conheci a dureza desses tempos,  como empregado de mato  - Pena que hoje as suas instalações estejam irreconhecíveis e os seus heróicos residentes a passarem por tão difíceis privações - Num dia destes, conto divulgar as entrevistas que ali fiz e recordar o período que ali vivi até ir para a tropa




VIDA NAS ANTIGAS ROÇAS  COLONIAIS É MUITO COMPLICADA  PARA GARANTIR A SOBREVIVÊNCIA DO DIA - NÃO BASTAM OS FRUTOS QUE A TERRA DÁ - QUEM OS PODE COMPRAR ?  - Mesmo quase dados.

Salvo alguma assistência fornecida pelas instituições de solidariedade social - Mas para quem vive no isolamento das  antigas roças, embora disponha de frutos e de alguma criação doméstica, o dia a dia ainda continua a ser uma tarefa hercúlea  - Vale-lhes a possibilidade de viverem a meias com a generosa natureza, porém; não basta o que produzem, que é vendido por quase nada  e nem sempre o conseguem; os edifícios dos  antigos hospitais  estão irreconhecíveis; as instalações das creches, e até as senzalas, encontram-se  em ruínas ou bastante danificadas 

DIÁLOGO COM ANTIGAS ESCRAVAS NUMA DAS ROÇAS EM QUE FUI EMPREGADO DE MATO,QUE TEVE 16 FILHOS - 4 MORRERAM   

Jorge Marques - anos 60 - Dependência da Roça Uba-Budo
Uma das mulheres, cabo-verdeanas,  com quem tive o prazer de dialogar, em Outubro de 2014, quando voltei à antiga Roça Rio do Ouro (atual Agostinho Netp , 50 anos depois de ali ter trabalhado, é, de algum modo, o exemplo, das vicissitudes por que continuam a viver os antigos serviçais ou os  descendentes, originários  daquele arquipélago - Teve 16 filhos mas morreram-lhe 4.

- "Então: diga-me uma coisa: há pessoa que tem saudade do antigamente, é verdade?” – "Tenho muitas saudades! Porque antigamente tinha muita comida! Tinha escravatura mas tinha comida à vontade!... Agora que não tem escravatura, não há comida!

Todavia, sempre foi dizendo: “Agora cada um arranjou, seu bocado, bocado! Está a trabalhar para a vida dele  - a gente trabalhava com dendém; trabalhava com filho às costas; trabalhava com tina na cabeça com chuva mas agora está tudo bem!.

"Aqui não havia nada! Nem sequer uma loja para comprar um pão!” 

Comecei por ouvir  uma das  “serventas” da Casa Grande; moradora no lugar do Conde, distrito de Lembá, perto de Gadalupe, a noroeste – Natural de S. Tomé, pois de outro modo nem ela  podia ter correspondido às exigências do Grande Patrão, Sr. Fonseca, que só aceitava meninas bonitas e forras (nativas) para o servirem. 

Confessou-me que até gostava daquele tempo: “eu gostei!” Sim, porque a sua escravatura deveria ser outra, quando o Grande Patrão, se deslocava para a Roça Ponta Figo, da mesma empresa) mas sempre foi acrescentando que “aqui não havia nada! Nem sequer uma loja para comprar um pão!” … Tinha que ir a Santo Amaro”. 

Quando lhe perguntei por que é que agora há mais gente (nascimentos) de que naquele tempo, respondeu: “eu não sei” … Deus é que sabe. 

Mãe de vários filhos,  uma filha que é deputada  - E também avós de  vários netos.

Depois de uma breve paragem, no jipe alugado pelo meu amigo Manuel Gonçalves, junto à berma da estrada, onde a antiga "Governanta tinha uma banca instalada para venda de frutos da terra, cheguei finalmente aos antigos chalés de madeira dos empregados, onde também estive instalado, agora ocupados por quem trabalha na Roça, tal como me pareceu que sucedia na Casa Grande, já que as antigas senzalas, além de estarem em péssimo mau estado, mal dão para atravancar  todos os residentes. - O mesmo se passando com os seus armazéns e demais estruturas tecnológicas para fermentação e secagem do cacau e do tratamento adequado ao café, copra, óleo de palma e coconote - para já nao falar do maior e mais emblemático hospital das duas ilhas, com uma capacidade de 600 camas: edifícios  de todo, irreconhecíveis. salvo a do Jardim botânico, preservado para  conferências e banquetes governamentais   

HÁ QUATRO ANOS – Vídeo do ambiente alegre, descontraído e disciplinado, numa das aulas das várias salas do ensino primário, na  Roça Uba-Budo, em Outubro de 2014, com as crianças envergando suas batas azuis, um pouco a lembrar as batas azuis do tempo colonial, tal como eu as vesti na escola Primária, na minha aldeia, em Portugal, aos 7 anos, mas no tempo das reguadas e das chibatadas, que, em STP, se passaram também a usar com a escravatura nas roças – As instalações da famigerada Casa Grande, ou a Casa do patrão, eram quase esqueletos, tal como outros antigos edifícios, bem diferentes das que eu conheci quando ali fui empregado de mato, em 1963-64  - mas o ensino funcionava muito bem

Só que, a evolução nos vários ramos do ensino,  que, desde a independência, STP, havia conhecido, tornando o pequeno pais, num dos raros exemplos em África,  foi absolutamente subvertida nos últimos 4 anos  com o regime corrupto e autoritário do Governo de Patrice Trovoada
Aquela que fora, além da maior e mais bem tratada e equipada de todas as roças, em STP, com uma área de  3200 hectares de terra cultivada, embora a sua área total andasse à volta dos 5000 hectares. . Cultivando, além das principais culturas de exportação,  pequenas áreas para abastecimento da roça, desde hortas, a vacarias, glebas de bananeiras, de matabala,  mandioca e milho  

- Foi ali que eu conheci o pai do Coronel Victor Monteiro, um contratado caboverdiano fabuloso, responsável pela vacaria  e as hortas - Um homem generoso e bom, sempre prestável, tanto para com os seus compatriotas, como para com os  empregados da roça - 
Quebra do cacau - 2014 - Uba-Budo
Confesso que, o que  mais me  surpreendeu, ao dialogar com um antiga escrava da antiga roça,  foi o facto de ter sido mãe de 16 filhosMorreram quatro e os que estão vidos, já lhe terem arranjado duas dezenas e meia de netos.“Então: diga-me uma coisa: há pessoa que tem saudade do antigamente, é verdade?” – Tenho muitas saudades! Porque antigamente tinha muita comida! Tinha escravatura mas tinha comida à vontade!... Agora que não tem escravatura, não há comida!... Tenho saudades mais de trabalhar com o branco de que com o negro” – Sim no tempo em que “o Sr. Fonseca tinha menina de 15 anos” para o servir. 

 Mas depois do desabafo, compreendereis por parte de quem teve muitos filhos para criar e ninguém para a ajudar a cria-los, lá foi reconhecendo que não há preço que pague a liberdade e até entoou o hino Nacional de STT, com a criançada à sua volta 

AS MINHAS SAUDADES DE S. TOMÉ NÃO SÃO DE MODO ALGUM DA VIDA ESCRAVA NAS ROÇAS -  TAL COMO NÃO PODERÃO SER NEM  PARA OS POBRES TRABALHADORES NEGROS NEM  PARA A MAIORIA DOS MUITOS BRANCOS, EMPREGADOS DE MATO - Que só podiam gozar a graciosa de 4 em 4 anos - Mesmo assim era muito problemático, até porque, muitos deles, não resistiam às insidiosas febres do paludismo. 

Naqueles tempos, um empregado de roça não podia ir a outra dependência da empresa sem autorização do administrador. E o mesmo sucedia para se deslocar à cidade,  ao qual eram concedidas, praticamente autorizações excepcionais, pois corria o risco de ficar mal visto, perante a sobranceria do Patrão, (Administrador)  que ali se deslocasse todos os domingos. 

Era obrigatório ter uma companheira negra, mulata ou bobó, nativa da terra, para lhe fazer a comida, dormir com ele e tratar do chalé - De acordo os  regulamentos  e tradições da  grande propriedade,  dificilmente podia ser com as mulheres da roça, com as serviçais, pois, tais gostos,  pertenciam à lista das proibições, visto ser considerada uma baixeza e  um procedimento interpretado como dar confiança aos escravizados serviçais.  Mas conheci quem  nao resistisse à beleza cabo-verdana.   Nas cantinas da Roça, é que lhe era permitido, a ele, à samou e aos filhos, comprarem os produtos alimentares, que necessitassem, assim  adquirir também alguns cachos de bananas ou comprar outros frutos produzidos no mato 

Também ali conheci duas (impuseram-mas) com uma idade que podia ser quase a da idade de minha mae, que, infelizmente, haveria de falecer dois anos depois, para nunca a mais voltar a ver na aldeia onde nasci. . Confesso que até foi uma experiência  amorosa interessante, sobretudo, mais tarde, com a Margarida, quando passei a viver na cidade e fui convidado a colaborar como operador de rádio, na sequência da publicação, em vários capítulos, na revista Semana Ilustrada de Luanda, sobre a minha arrojada aventurara de canoa de S. Tomé à Ilha do Príncipe, a que dei o título de Viagem Clandestina ao Paraíso - Ainda levei uns sopapos da PIDE e uma pesada  coima  da capitania dos portos mas a minha vida a partir daí mudaria radicalmente.  

Aos trabalhadores negros, além do seu labor diário, nao podiam voltar ao terreiro, findas as empreitadas, só com o machim ou varra de colheita na mão, obrigavam-nos a trazer determinado número de ratos, que eram os grandes devastadores do cacau ou levar pelas costas ou à cabeça, montes de erva para  a vacaria

De vez em quando, alguns dos contratados ou serviçais, sobretudo os que para ali vinham na condição de forçados de Angola, Guiné ou Moçambique, para cumprir até alguns pequenos delitos, não se conformando com o regime duro e esclavagista da roça, abandonavam as senzalas, refugiando-se no interior da selva, ali buscando a sobrevivência, graças à generosidade da natureza, mas enfrentando também os seus rigores e adversidades. 

JÁ SE ME TINHA CONSTADO QUE HAVIA NAS ROÇAS QUEM NÃO SE IMPORTASSE DE VOLTAR A PÔR A CANGA DA SUBMISSÃO NO PESCOÇO -  É fácil de reagir assim  à distância, sobretudo quando há políticos que extremam o seu egoísmo, não se importando de votarem ao desprezo, em mil passeatas fora do país,  o mínimo s garantias de  sobrevivência da  vida do povo simples - Lá que a pequena burguesia dos santomese, que o colonialismo favorecia, para fazer de contas que o regime fascista, até era multirracial, sim, não me surpreende que teçam elogios ao Salazarismo - De resto, vistas bem as coisas, com outra ética que os seguidores do liberalismo selvagem, atualmente não evidenciam; senão, como exclusivo valor, a cor do cifrões: os outros também andavam atrás deles mas ainda pugnavam por ideais que eles consideravam nacionalistas.    Mas o surpreendente é que essa burguesia santomense (que é mais dada ao interesse financeiro, que cultural) apoie figuras, que, além de estrangeiradas,  descaradamente se comportam  como altos mafiosas, despudorados, sem vergonha
  
Sim, confesso que foi para mim uma surpresa dececionante, que, passados tantos anos, ainda ouvisse vozes a dizerem-me que preferiam a escravidão, daqueles temposde que a fome que rapam atualmente – Pese a miséria das malgas de feijão bichoso e furado ou peixe seco, que lhe era distribuído aos fins de semana para confecionaram as suas pobres refeições, com ambos os produtos importados de Moçâmedes, muitos dos quais já deteriorados ou em vias de o serem por força da humidade saturante onde eram armazenados. 

Pessoalmente, a única saudade que tenho é da minha juventude, que não volta mais e que ali fora, também, bastante humilhada e escravizada e do sempre e renovado encanto, que era a invulgar beleza que ia descobrindo, em cada manhã e ao longo do dia, pois levantava-se cedinho, às quatro e meia da manhã e só se entrava no terreiro já com o sol-posto – 

Na verdade, do que  ainda hoje mais me ocorre à memória, sim,  no rol das minhas muitas recordações, é especialmente dos gestos, do olhar amistoso dos  escravizados na roças, que, apesar de sentirem, bem no corpo e na alma. o peso da  pesada exploração,  nao revelavam sinais de ódio ou de crispação para com um jovem, que podia ser seu filho e que  era enviado para o mato para  lhes distribuir  tarefas de trabalho escravo,  por isso mesmo, mais me fazendo lembrar como  servos devotos de  Cristo,  como se a cruz que transportavam, fosse uma imposição acima das suas possibilidades humanas e se resignassem a essa suprema fatalidade, como coisa normal e natural. E, com certeza,  dos meus amigos santomensesm dos que me acompanharam a escalada ao Pico Cão Grande, partilhando dos sentimentos dos mesmos riscos e emoções;  e, também, como não podia deixar de ser do povo santomense, pacifico e espontâneo, como, de resto, ainda hoje é, no seu linguarejar, nos seus sorrisos e expressões, tão singularmente manifestados nas festividades religiosas e nos chamados fundões de música popular.  -  Claro que os costumes estão a mudar em toda a parte, por via da ferocidade do liberalismo egoísta, insensível e  monopolista: em todo o caso, o Povo Santomense, dir-se-á que é único e inigualável  no seu temperamento, na sua  indissiocrassia,  mais dado a falar do que agir - Se assim nao fosse, não suportaria tamanhas aviltações. que parece que só encontrarem paralelo nos famigerados massacres do Batepá perpetrados pelo fascinora Governador Carlos Gorgulho. .  

Oh! E como poderia eu também esquecer-me do  manto multi-verde, os trechos da luxuriante e variada flora, com que me ia deslumbrado com a sinfonia da exótica passarada, que se me ia deparando,  em cada encosta que subisse ou grota que descesse, por mais íngreme e arriscada que fosse, sempre de machim na mão, a conhecida catana africana, que ali toma aquele nome.– Instrumento obrigatório para ir limpando os rebentos dos troncos dos cacaueiros ou para ajudar na quebra do cacau ou para matar alguma serpente venenosa, que não deixavam de deslizar por entre o capim ou dependuradas nalgum galho, especialmente, na Ribeira Peixe, ao sul da Ilha, zona mais quente e pluviométrica, antes de ter vindo a trabalhar para a Roça Rio do Ouro, atual Roça Agostinho Neto, onde, em Outubro de 2014, viria a decorrer parte do diálogo do vídeo, que aqui apresento 

Naquela que fora a propriedade  da Sociedade Agrícola Vale Flor, cujo administrador, o bem conhecido e típico, Sr. Fonseca. que, embora não impusesse a mesma dureza férrea que o Administrador da Companhia Agrícola Ultramarinas, impunha aos empregados para lidarem com os serviçais, tratando-os a todos por tu e por forma prepotente e grosseira,  portava-se, porém, como um predador sexual das meninas, que regularmente lhe eram entregues(por angariadoras ou angariadores) para saciar os seus vícios e apetites de corpos ainda na fase da inocência e da formação

Nunca deu ares de  me humilhar: senao com esta expressão, quando o  chefe de escritórios, o Sr. Menezes, me levou à sua presença, dizendo-lhe: "este é o nosso novo empregado mato"  - "Então passe-lhe já um machim para a mão  - Eu já sei que esteve no Uba-Budo, e na Ribeira Peixe; o Pereira já me contou  que era amigo dos pretos, que lhe dava muita confiança. Não gostava de os tratar por tu.  Pois, por mim, mão importo que até lhe vão ao cu, desde que trabalhem

A bem dizer, nunca ali ninguém me impôs as aberrantes regras da Roça Uba-Budo e Ribeira Peixe, que ali atingiam o extremo do empregado de mato obrigar o capataz o brandir a chibata ou a palmatoada, a quem se recusasse cumprir as empreitadas das formas: não completasse a área marca, pelos lanços de cordel, da capinagem ou enchesse uns quantos sacos nas colheitas, mas também não teve a sensibilidade de reconhecer que eu procurara S. Tomé para ali fazer o estágio final do meu curso de Técnico-Agrícola, atraído mais pelo prazer da descoberta de uma maravilhosa Ilha equatorial e depois retornar a Portugal do que me submeter à categoria de um vulgar empregado de mato e aspirar trepar os escalões do regime colonial da Roça. Só durante o serviço militar, no CTISTP, como furriel miliciano, pude encontrar as condições apropriadas, quando fui nomeado encarregado da quinta da exploração agro-pecuária do quartel, com o reconhecimento do meu relatório assinado pelo Eng Agrónomo, Morbey responsável  pela Brigada de Fomento, Agro-Pecuário  do Pótó-Póto,  onde vi a trabalhar, cerca de dois anos, em  apicultura, quando terminei a Tropa - Organismo do Estado onde haveria de conhecer o Evaristo Carvalho, atual Presidente da República,  que ali desempenhava, com notável competência e admiração de todos os funcionários,  o cargo de chefe de secretaria,  - 

Pois, na verdade, o  trabalho que desenvolvi na quinta do quartel, foi bastante apreciado pelo Comando Militar e comandante da Companhia, a que eu pertence, a ponto de ter sido distinguido por um  merecido um louvor,  visto que, ao fim de escassos meses, graças à minha experiência da roça, além de também ser responsável da messe de oficiais, lograva abastecer os refeitórios de todas as cantinas com os produtos da  pecuária e das plantações de  bananeiras e ananases (estes  comprados na Roça do Eng. Salustino Graçaperto da Trindade, um homem perseguido pela PIDE, devido às suas ideias nacionalistas - Numa das vezes, encontrei-o junto do Dr. Mário Soares e do filho João Soares - Pessoas às quais os colonos das Roças, evitavam falar, dadas as conotações atribuídas ao seu curriculo revolucionário. 

Depois de ter cumprido o serviço militar - parte dele em Angola – graças a Deus que nunca mais voltei ao regime duro e opressor da roça: Mas a verdade é que, só quase doze anos, depois é que voltaria a ver os familiares horizontes das minha aldeia e a pisar o chão que me viu nascer.

No Equador, a noite mata o dia de um só golpe. O crepúsculo começava a cair sobre a ilha e, daí por momentos, a noite desce abruptamente, ou iluminando  tudo com  a claridade branca e puríssima  do luar ou envolvendo as florestas, conjuntamente o imenso mar em redor, com o  mesmo manto enegrecido, sob uma imensa cúpula  cravejada de estrelas, quando o céu está descoberto ou fazendo dele um tecto ainda mais cerrado e fúnebre.. 

Naqueles momentos de sublimidade crepuscular, quando as tempestades ou a fúria dos temíveis  tornados, não assolam inesperadamente a Ilha, facilmente de constata  pelo olfacto e por todos os sentidos despertos, que o  espaço húmido, rapidamente fica impregnado de perfume de rescendentes aromas ou inebriantes sabores e odores das muitas flores exóticas que despontam  do denso  alvoredo, que faz sombra aos cacaueiros ou que brilham  por entre os muitos arbustos, nas suas copas ou debaixo delas.

No entanto, a “Casa do Patrão” , a “Casa Grande” , que se destacava no terreiro, fosse qual fosse a hora, que se olhasse, infundia um temeroso respeito, tanto a negros como a brancos subalternos: um temor que parecia vir de longe, da nebulosidade dos séculos, pois era testemunha muda dos tempos da escravatura Eis, pois, neste registo sonoro, o espontâneo diálogo,  registado numa terra, que, afinal, conquanto não seja aquela onde nasci, me levou a adotar, como se minha pátria fosse. O que eu não esperava é que ali ouvisse vozes com saudades da escravidão – Sinal, de que alguma coisa não tem sido bem feita pelos governantes, depois da independência e que deve ser corrigida para que não correrem o risco de, em vez de passarem por libertadores, passarem a ser lembrados como amaldiçoados. 

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