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Entre outros assuntos, falo da escalada ao Pico Cão Grande e das minhas aventuras em canoas – Visam defender a teoria de que antigos povos africanos, podiam ter sido os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo da Guiné, antes dos colonizadores – Parti à meia-noite, disfarçado de pescador, ligando a ilha do Príncipe. Para me orientar, uma rudimentar bússola – A canoa era minúscula, à segunda noite adormeci: rolei na escuridão das vagas. No regresso fui distinguido com sopapos da policia salazarista, enviado para os calabouços – Cinco anos depois, numa piroga maior, fiz a ligação São Tomé-Nigéria. Partindo igualmente à noite, 13 dias depois atingia uma praia de Calabar, tendo sido detido 17 dias por suspeita de espionagem. - No mesmo ano, já com São Tomé e Príncipe independente, tentei a travessia São Tomé ao Brasil, usando os mesmos recursos. Além de pretender reforçar a minha teoria, desejava evocar a rota da escravatura e repetir a experiência de Alain Bombard. Porém, quis a ironia do destino que vivesse a difícil provação de um naufrágio de 38 longos dias, tendo aportado numa praia de Bioko (Bococo)onde fui recambiado para a famosa prisão de Black Beach

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Da Guerra colonial na Guiné: Memórias de Santos Oliveira - "A GUINÉ NO MEU TEMPO - Da mobilização ao Regresso" - Quando empalideci, quando chorei com a notícia atroz, acabada de chegar, de que os meus dois únicos amigos de infância e juventude morreram num curto espaço de tempo,


Jorge Trabulo Marques - Jornalista - Imagens de várias proveniências  - Com excertos do livro de Santos Oliveira 


Recebi por email os amáveis votos de Boas Festas, que retribuo,  de Santos  Oliveira, antigo sargento miliciano, com a referência so seu livro de memórias da Guerra colonial, sob o Titulo “A GUINÉ NO MEU TEMPO  - Da Mobilização ao Regresso”   Porfusamente documentado -  - Para cuja colónia  foi mobilizado em  10 de Setembro de 1964 , recordando aqueles seus défices tempos por que passou, tanto ele como os seus camaradas, as vitimas nas duas frente.  Linhas pelas quais perpassam não apenas relatos circunstanciais como também momentos de poesia de sofrimento e de lágrimas, do qual tomo a liberdade de transcrever  alguns excertos, mais à frente.  


A longa e trágica Guerra Colonial durou mais do dobro da Segunda Guerra Mundial, saldou-se por milhares de mortos portugueses e africanos, quer militares como civis, em ambas as barricadas e podia ter sido evitada  se ao menos  se tivesse tomado atenção no exemplo do sangrento conflito que sucedera na Argélia e no Congo Belga, se o regime salazarista e, depois o de Caetano, tivessem sido capazes de reconhecerem que, após a independência da Guiné Francesa, em 1959 e,  a do Congo belga (em Junho de 1960), dificilmente as colónias portuguesas de Guiné, Angola e Moçambique, deixariam de ser envolvidas pelos novos ventos da História, que despertavam para a libertação dos povos africanos pelos jugos coloniais.  E que, no caso português,  não ia ser resolvida ou combatida atavés de meios militares.



Insistiu-se nessa teimosia ou  paradigma de contrainsurgência, e deu no que deu: o movimento revolucinário do 25 de Abril, que começou por simples  reivindicações corporativistas como a luta pelo prestígio das forças armadas, acabaria por atingir politicamente  todo o  regime  e vir a dar o consequente folego ao chamado Movimento das Forças Armada (MFA)  composto na sua maior parte por capitães que tinham participado na Guerra colonial e com o apoio  de oficiais milicianos  – Só que era tarde demais: e  tudo o que depois se passou,  foi precipitado quer para defesa e segurança das populações, quer para o futuro imediato das colónias, que ascendiam à independência.

 O tempo não volta atrás para se corrigirem  erros ou dar os  rumos certos mas importa não esquecer as vítimas e o sofrimento causado aos que foram atingidos, aos que nela andaram envolvidos e que ficaram marcados para o resto das suas vidas.

Concordo com estas palavras: "Junta as tuas às nossas fotos, divulga e salvaguarda os teus aerogramas, cartas, relatórios, diários, documentos militares ou papéis esquecidos guardados no sótão, num velho baú, reconstitui as tuas memórias, recorda os sítios por onde passaste, viveste, combateste, sofreste... Ajuda os teus ex-camaradas a reconstituir o puzzle da memória  da Guiné (1963/74)... Faz-te bem, a ti e a eles, a todos nós, ex-combatentes, portugueses ou guineenses... Além disso, prestas um pequeno serviço à geração dos teus filhos e dos teus netos... Para que eles, ao menos, não possam dizer, desprezando teu sacrifício: "Guiné ?... Guerra do Ultramar https://www.ensp.unl.pt/luis.graca/guine_guerracolonial_tertulia.html

 "A GUINÉ no meu tempo… Da Mobilização ao regresso."
(...) Santos Oliveira, Sargento Mil.º de Armas Pesadas e de Operações Especiais, nasceu a 29 de Junho de 1942.

Na Escola Prática de Infantaria (EPI - Mafra) e Centro Militar de Educação Física e Desportos (CMEFD - Mafra) fez o Curso de Sargentos Milicianos (CSM) e Tirocínios Ranger, que foram completados no Regimento de Infantaria 9 / Centro de Instrução de Operações Especiais (RI9/CIOE - Lamego) e Batalhão de Caçadores de Pára-Quedistas (BCP - Tancos).

(...)  De Portugal apenas se captavam a Emissora Nacional e a Rádio Clube Português, em onda curta e com interferências continuadas, o que as tornava quase inaudíveis. Outrossim, ouvíamos alternadamente e em quase todo o tempo as Rádio Moscovo, Rádio Portugal Livre [instalada em Praga] e a Rádio Voz da Liberdade [a partir de Argel] e desde data recente, apresentada por um ex-militar português que havia desertado, segundo informações oficiais da altura. Oficialmente, era proibido escutar estas emissoras, mas o facto é que ali se ouviam algumas verdades; era só separar o trigo do joio.


O ATAQUE QUE NINO VIEIRA, COM APOIO DE CUBANOS, REPUTOU DE RADICAL E DECISIVO Pelas 19:25 de 16 de Novembro de 1964, estampados no escuro do céu, avistei, de forma difusa, dois charutos que aparentavam cigarros acesos, atirados ao ar desde o fundo do aquartelamento. Como que acordei. - Fogo! Rápido! Foi a Ordem. Os objectivos estavam todos planeados para obstar a continuação do fogo de morteiro IN. E assim foi. Mas o caso era muito mais sério. Haviam deslocado para a orla da mata muitas metralhadoras pesadas [incluindo quádruplas destinadas a tiro antiaéreo], que nos fizeram lembrar que o pior estava para vir. A densidade de fogo era tamanha, que a iluminação e as antenas do posto de transmissões foram destruídas. Conseguiram introduzir metralhadoras pesadas dentro do perímetro interior do arame farpado [30 e 60 metros, onde havia barreiras]. Os nossos Morteiros estavam a esquentar. Chuva miudinha molha-tolos e as calças completamente secas. Demos o nosso melhor fazendo tiro, a olho [e ouvido], para os locais em que as pesadas “cantavam” e chegámos ao incrível e perigoso, fazendo fogo para as “pesadas” que já estavam dentro do nosso perímetro de segurança. Tinha os morteiros sobreaquecidos, alaranjados… E o esperado aconteceu: uma granada não percutiu. Despi o blusão do camuflado para retirar a Arma do espaldão e logo fui substituído pelo Cabo e dois Soldados, que me pediam para continuar com os outros dois morteiros

A munição foi retirada com sucesso; no entanto, por precaução, mandei colocar a arma fora de serviço. Quando arrefecesse, logo se veria. Durante os 72 dias da Operação Tridente, a maior operação das Campanhas de África, foram disparadas um total de 550 granadas. Nas 2h20m deste ataque, ao Cachil, foram disparadas 216 granadas... Pode imaginar-se o como será o Inferno? Naquele ritmo de fogo, não fôra a “batota calculada”, apenas nos restariam munições para uns 15 minutos. Repentinamente, o silêncio expectante e caricato na noite africana. Aguardámos algum tempo e tentámos, no meio de escuro e sepulcral silêncio, retomar o nosso ritmo normal, mais vigilantes pela falta da iluminação, que havia sido destruída. Voltamos ao noticiário da Rádio Voz da Liberdade prestes a começar quando uma gargalhada monumental ecoou no escuro da noite. …Afinal, a maioria das nossas Tropas escutava as Rádio proibidas! Manuel Alegre (o tal locutor) declamou: ”A Ilha do Como acaba de ser libertada. As tropas colonialistas foram completamente derrotadas. Não há sobreviventes.” …Era para rir? Estou Morto? Estamos todos Mortos? Nino Vieira comunicou mal o resultado do seu ataque ou estava mesmo convicto que nos arrasaria. Naquele dia, a Rádio Voz da Liberdade, havia sido extremamente suave e comedida no seu estilo linguístico. Isso fez-me estar mais atento e resultou.

(…) CACHIL - O DIA SEGUINTE No dia seguinte [manhã de 17Nov64], o balanço da flagelação IN era dantesco. Massa humana do atacante por entre fragmentos de armas, pedaços de armas, ausência do arame-farpado nas duas fiadas, a orla da mata tinha recuado 30-40mts (as palmeiras ou não tinham ramagem ou estavam partidas), apenas um corpo mais ou menos inteiro de um elemento IN, em muito mau estado, uma PPSH e, o mais espantoso, entre três Poilões dispostos em triângulo e que formavam uma espécie de salão inexpugnável (a Morteiros) e que denominávamos Enfermaria, um Unimog recolheu duas cargas de ligaduras sanguinolentas (para queimar) e alguns apetrechos médicos. Mais nada, porque o IN conhecia a mata e teve a noite e madrugada para efectuar a sua limpeza de corpos, feridos e armamento. Do resto, os Jagudis (Abutres) se encarregaram em muitíssimo pouco tempo. Nas rotações das Subunidades, as coisas ficavam um

(…) A guerra que travamos era uma guerra de capitães, Oficiais Subalternos, Sargentos e Praças, quase todos, uns 99%, Milicianos. A guerra dos Oficiais Superiores era outra. (…) Claro que um Furrielzito, (desculpa o termo) chega à Guiné a meio da Comissão de uma (PU) Subunidade, integra-se com competência e arrasta atrás de si o querer e a confiança dos seus homens, não iria cair nas boas graças da Brigada (…) Houve, de facto, várias mensagens trocadas e que eram relacionadas com o sucedido, entre o Cmdt do BCaç 619, o Cmdt do Agr 17 e o CEMFA. Acredita que, nas várias situações, estivemos sempre convosco, sofremos a incerteza e choramos de alegria com o desfecho da situação. (…) 

A MINHA VIDA MORREU; MORRERAM OS MEUS AMIGOS (Poema)

Num escasso tempo, somente
Amigos de toda a Vida
 Partiram, sem despedida…
 E a minha Alma dormente
 Sentiu-se só e perdida.

A Guerra nos separou
No tempo ou no viver
E para, assim, nos perder. ..
.E o Guerreiro chorou
Até ao amanhecer.

Quisera ter um abraço
Sussurro ou peito amigo
Mas só silêncio restava.

O Grupo deu-me o espaço
De Filhos. Mas não consigo
Esquecer a quem amava.

 Santos Oliveira Fur Mil AP Inf.ª/Ranger

Quando empalideci, quando chorei com a notícia atroz, acabada de chegar, de que os meus dois únicos amigos de infância e juventude morreram num curto espaço de tempo, julguei não aguentar mais. A Homenagem possível ao José Nuno G G dos Santos e ao Manuel Couto Ferreira dos Santos, agora bem mais distantes.

O AMIGO INIMIGO QUE ME VIA CHORAR Cachil, Ilha do Cômo, Finais de Dez 64 Tinha acabado de receber notícias trágicas acerca da morte de dois amigos de infância. Isolava-me e chorava e este sentimento de perda prolongou-se por alguns dias. Os meus Militares iam-me vendo (e fotografando) na sua incompreensão natural. O meu poiso escolhido era o topo da paliçada, onde fingia fazer a vigilância habitual, embora perfeitamente exposto. Só desejava morrer. Foi um tempo terrível. Pelos últimos dias de Dezembro, tomei G3, umas quantas Granadas, “adornei-me” com a minha Boina negra, o meu Cinto e Lenço (azuis) Ranger, informei os meus militares de que iria dar uma espreitadela pela orla da Mata, pelo que entregava o Comando ao Cabo Gomes (nº1916/63) com a informação exacta de fazer fogo como estava previamente estabelecido. Não havia mas, nem meios mas. Seria uma Ordem para cumprir.

Um dos Soldados, o Júlio Batata (nº 2032/63), questionou-me se podia ir comigo. Resisti mas perante tanta insistência acabei por anuir. Informei que íamos por nossa conta e risco. Outros se prestaram a acompanhar-me mas recusei com o argumento de ser necessário guarnecer os Morteiros de gente porque eles (Morteiros) não se disparavam sozinhos, etc. mas acabei por aceitar um outro soldado que não recordo quem tenha sido.

Informamos o Plantão da Companhia CCAÇ 728 do que íamos fazer e partimos, com as precauções necessárias. Chegados próximo da Orla da Mata, encontramos um carreiro de formigas com mais de um palmo de largo, ainda a tentar refazer o seu percurso com grande afã e numa estranha confusão. Percebia-se, por baixo daquele caos, a marca duma pegada de pé descalço que havia despoletado tal desalinho. Foi, de imediato, assumido o regresso, pois as evidências eram demasiado claras de que estaria alguém adiante e a curta distância. Chegados ao Quartel, eu constatei que havia perdido o meu Lenço. No amanhã se veria o que fazer

Ao raiar do dia seguinte, o mesmo Grupo, com mais cautelas procurámos os pontos onde nos havíamos agachado ou rastejado e encontrámos o meu Lenço com uma folha de Caderno onde se lia (em Português correcto):”TENHO-TE VISTO CHORAR”. Fiquei paralisado por instantes. Voltei o papel e escrevi: OFEREÇO-TE O MEU LENÇO”, que lá deixei ficar. Custou-me imenso descansar aquela noite pela ansiedade que de mim se apossou. Tinha a infantil curiosidade de tentar adivinhar o que se passava, pois era incompreensível. Por outro lado já havia tomado consciência do risco desnecessário que havia corrido e fizera os meus Soldados correr. Era uma lotaria, um jogo…e o jogo vicia. A curiosidade matou o rato, diz o ditado. Eu estava por tudo.

Queria saber se o lenço tinha sido levantado. Recusei, sem resultados, a companhia dos Soldados. Bem mais à vontade (um erro que podia ter sido fatal) dirigimo-nos ao local. Estava lá um daqueles pingalins, ou chicotes, muito elaborado, com uma mancha de sangue no punho e um novo papel que dizia: “EU QUERIA ERA UMA BANDEIRA TUA”. Atónito e já muito inquieto, voltei o papel e escrevi: ”VOU VER SE O CONSIGO”. Regressámos mais apressados que o habitual. Era necessário ter os acontecimentos sob controlo porque doutro modo iria resultar coisa grossa. Os restantes elementos do Pel Mort 912, começavam a questionar sobre o que íamos fazer todos os dias. Passou a ser difícil segurar o segredo. Mas dizíamos que íamos ver se havia qualquer possibilidade de haver caça. Na mala tinha uma bandeira de Portugal, tipo galhardete, das que se usavam, na época, nos vidros dos automóveis. Fui buscá-la, apertei-a no peito e lá retornámos, com a promessa que seria a última vez que sairíamos, se não se encontrassem indícios de caça. Lá chegados, fui surpreendido por um Galhardete e um Crachá do PAIGC e um papel que dizia: “GUARDA E LEVA ESTA PARA A TUA TERRA”. Petrifiquei. Acho que fiquei imóvel tempo demais porque os Soldados me perguntavam: “O QUE SE PASSA, MEU FURRIEL?”. Rapidamente, retirei a Nossa Bandeira, Coloquei-a na estaca, escrevi por trás do papel: ”EM NOME DA PAZ”. Fiz Continência e todos desatámos em corrida mais ou menos desordenada para o Quartel. Tudo se ficou por segredo solene até haver falado com o Soldado Júlio Batata que concordou fosse contado esta História.- Excertos  - O Livro pode ser visto  gratuitamente   em  PDF para baixarA Guiné, no meu tempo.
http://ultramar.terraweb.biz/Livros/SantosOliveira/A_Guine_no_meu_tempo_Da_Mobilizacao_ao_regresso_Santos%20Oliveira_Edicao_final.pdf

Algumas imagens foram extraídas de
http://bart1914.blogspot.com/2019/10/


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