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Entre outros assuntos, falo da escalada ao Pico Cão Grande e das minhas aventuras em canoas – Visam defender a teoria de que antigos povos africanos, podiam ter sido os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo da Guiné, antes dos colonizadores – Parti à meia-noite, disfarçado de pescador, ligando a ilha do Príncipe. Para me orientar, uma rudimentar bússola – A canoa era minúscula, à segunda noite adormeci: rolei na escuridão das vagas. No regresso fui distinguido com sopapos da policia salazarista, enviado para os calabouços – Cinco anos depois, numa piroga maior, fiz a ligação São Tomé-Nigéria. Partindo igualmente à noite, 13 dias depois atingia uma praia de Calabar, tendo sido detido 17 dias por suspeita de espionagem. - No mesmo ano, já com São Tomé e Príncipe independente, tentei a travessia São Tomé ao Brasil, usando os mesmos recursos. Além de pretender reforçar a minha teoria, desejava evocar a rota da escravatura e repetir a experiência de Alain Bombard. Porém, quis a ironia do destino que vivesse a difícil provação de um naufrágio de 38 longos dias, tendo aportado numa praia de Bioko (Bococo)onde fui recambiado para a famosa prisão de Black Beach

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Ismael Sequeira - Artista plástico sãotomense – Coordenador da Plataforma Cafulka – Associação Cultural – Envolvida em exposições e projetos de uma programação diversificada e animada.

Jorge Trabulo Marques - Jornalista 




A Plataforma Cafulka, tem desenvolvido  variadíssimas  acções criativas, sendo justamente considerada como que um autêntico laboratório para as suas pesquisas socio-artisticas, com vista a gerar um movimento artístico capaz de influenciar transversalmente todas as disciplinas criativas santomenses e do universo lusófono em Portugal.

Hoje recordamos-lhe,  além de uma breve entrevista que nos concedeu, em Junho passado, aquando da inauguração,  no Parque dos Poetas em Oeiras,  do conjunto escultrórico do seu compatriota, Zémé, dedicado à poetiza Espírito Santo (1926-2010), bem como algumas imagens que registamos de uma exposição coletiva na Galeria de Arte do Casino Estoril, em Outubro de 2013,  assim como outros aspectos da sua atividade artística



Ismael Sequeira nasceu em Conceição – São Tomé, aos 20 de Julho de 1969. Estudou Artes Plásticas e Escultura na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Mas desde cedo descobriu  a sua veia artística,  influenciado pela leitura precoce, aos quatro anos,  por sua avó materna,  Hilária d’Almeida (Lilí)”, que lhe desenvolveria o gosto em modelar e construir objetos a partir da reciclagem de materiais.

Começou a pintar desde muito novo, tendo participado numa exposição comemorativa do aniversário da independência do país, com 13 anos apenas Em 1982 conheceu Protásio Pina e Cesaltino da Fonseca, expoentes máximos das artes plásticas em São Tomé e Príncipe na época, que dirigiam o sector de produção de cerâmica na olaria de Almerim, onde aprendeu a trabalhar barro e cerâmica. Influenciado por Protásio, começou a pintar a óleo. Mais tarde, trabalhou com mestres coreanos em pintura de cenários e montagem de quadros humanos para espectáculos e jogos de ar livre. 

Vive em Portugal,  há mais de uma década,  para onde se deslocou graças a uma bolsa de estudos para estudar Pintura— Aqui se formou Estudou Artes Plásticas e Escultura na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. E aqui também casou e constituiu  família,  regressando a S. Tomé, sempre que lhe é possível mas  o seu grande sonho é voltar a viver na sua linda ilha.  “Por isso, não perdi contacto com ela e com as pessoas e sistematicamente vou criando iniciativas e pretextos de colaboração profissional para lá ir- Declarou numa entrevista, em Nov de 2016, ao STPDigital, da qual tomámos a liberdade de transcrever alguns excertos. 

“Quando penso em São Tomé e Príncipe o que penso, primeiramente, é na sua exuberante beleza natural com enormes potencialidades a serem exploradas e de tornar-se um território de esperança de boa qualidade de vida para a sua população residente. Penso a seguir na miséria espiritual da classe dominante, num país desorganizado e na pobreza do povo insular que sonha com uma nação digna".

ISMAEL SEQUEIRA - CERAMISTA E PINTOR - PREDOMINÂNCIA DOS AMARELOS E RUBROS SOLARES  NOS SEUS QUADROS  - TALVEZ PELO FACTO DA  SUA  ILHA SER DEMASIADO MARCADA PELOS  VERDES?  - LÁ O CREPÚSCULO É RÁPIDO MAS DEIXA TONALIDADES  QUE INCENDEIAM E PACIFICAM A ALMA  - SERÁ ESTA A SUA INFLUÊNCIA?


"Cores, cores e mais cores"

(...) Ismael utiliza cores muito vivas nas suas obras. Perguntamos-lhe o motivo: “É verdade que utilizo muito nas minhas pinturas cores vivas, mas gosto sobretudo de fazer altos contrastes. Mesmo quando utilizo cores frias. Através das cores manifesto o meu estado de espírito e a psicologia das cores aponta caminhos para bem interpretá-las.” Observar a natureza ou o meio social no universo urbano em que vive, influenciam muito a sua escolha de cores da ideia que pretende comunicar. Nas suas obras, muitas vezes, as cores sobrepõem-se às formas. A utilização de cores vivas servem para comunicar com maior realce a intencionalidade das suas ideias.

(...) Quando pensa em São Tomé e Príncipe o que lhe vem a cabeça?

Ismael vive a paternidade com muita preocupação. “Vivemos num mundo de muitas incertezas. Insisto que os nossos filhos devam estudar e se qualificar o melhor possível para que possam ter várias opções profissionais no mercado de trabalho. Gostaria que o mundo para os nossos filhos fosse de maior estabilidade, maior segurança e de melhor dignidade humana. Um mundo em que se pudesse conviver sem grandes contrastes sociais e com maior solidariedade entre as pessoas.”

O artista disse ao STPDigital que não pode ficar indiferente a falta de sensibilidade do Estado Sãotomense em apoiar a nossa cultura como um pilar estrutural para o desenvolvimento humano, económico e social do país. “Há pessoas interessantes preocupadas com as questões culturais, mas sem influência política não podem fazer nada numa terra onde tudo só funciona na auto-estrada política”. Ismael criticou, igualmente, todos os outros agentes socioculturais que nada fazem para alterarem este ciclo e falou na necessidade de uma revolução cultural. “A Revolução Cultural faz-se sem dinheiro. Faz-se com a consciência da necessidade de mudar tudo o que está mal apelando aos bons valores sociais vitais para o bem colectivo”. Ismael acredita que através da arte e da cultura, os agentes desta especialidade podem exercer influências positivas capazes de transformar o país. “As artes plásticas deram este sinal e que vem crescendo há quase trinta anos. E podemos ir mais longe se tivermos visão e maior ambição. Temos mais artistas no activo desde a Independência Nacional, temos uma Bienal de Arte e Cultura, que ajuda a projectar a qualidade das nossas artes, temos um pequeno movimento artístico-cultural fora do país que dimensiona o melhor que São Tomé e Príncipe tem neste domínio”, acrescentou o artista.

Arte para todos vs “Arte Elitista”
Como artista que é, Ismael admitiu que, infelizmente, a arte é elitista. “Mas é verdade que no nosso quotidiano somos confrontados com diversos objectos de arte e vivemos paralelamente com soluções criativas interessantes. A arte pode ser para todos. A arte pública é uma solução para oferecer ao público a fruição da criação artística através da escultura, instalação, arte urbana, performance, espectáculos de música e dança na rua, fotografia vitrinismo, videomaping, arquitectura, etc.” O artista frisou o papel das galerias e museus, que podem oferecer entrada gratuita uma vez por semana para que o público se interesse mais pela arte. “Para que a arte chegue mais facilmente a maioria das pessoas há que se investir mais nela. Há que se investir muito mais na cultura não só como entretenimento mas como veículo de comunicação e formação do sujeito humano.”

Dá-nos como exemplo, o Projecto URB da Plataforma CAFUKA, que desenvolve projectos efémeros de arte pública com o objectivo de levar a arte ao público comum com mais facilidade. Em 2011, o projecto foi experimentado em São Tomé. Ismael cita também a CACAU como outro exemplo de investimento cultural que merece toda a atenção nacional por oferecer uma produção de bens artísticos e culturais grátis à população em geral, incluindo a formação em algumas áreas artísticas. “Tem aparecido igualmente alguns apoios isolados de individualidades e mecenas do país que o devem continuar a fazer”. O artista sãotomense disse ainda que o apoio do Centro Cultural Português, da Aliance Française de São Tomé e Príncipe e, mais recentemente, do Cento Cultural Brasileiro tem sido um contributo importante na melhoria da produção e difusão dos valores culturais nacionais para que a arte chegue com maior regularidade às pessoas. “E penso que elas devem estar atentas a todas estas ofertas”.
A Cultura Nacional

Para Ismael, o estado investiu mais e melhor na arte e na cultura nos anos 80. “A arte em si continua a cumprir o seu papel de condicionar no observador a reflexão das principais temáticas propostas de que a sociedade vive. O estímulo a produção artística e cultural é feito também dos contextos em que a própria sociedade vive. O ambiente fértil para a crítica, para reflexão e produção artística é o de crise, sistemas fechados e grandes acontecimentos. Estes estimulam a criatividade. Abre espaço para a encenação teatral, em que a literatura, a pintura, a escultura e a música também procuram protagonismo para se afirmar como veículo de comunicação”. O artista disse que a cultura sãotomense fora do país tem alcançado espaço, principalmente em Portugal, enquanto no próprio país tem se mantido estável. “Em Lisboa, a vivência de algumas tradições religiosas e festas regionais cresceram, a afirmação da identidade através dos trajes femininos e hábitos alimentares melhoraram, as artes plásticas e a literatura tem ganho maior protagonismo, surgiram três bandas musicais de matiz musical sãotomense. Isto tem um significado e merece a nossa maior atenção.”

Mas, segundo Ismael, apesar de estável, o estado da cultura não está bem. “Necessita de urgente investimento. Investimento nos quadros humanos especializados, em infraestruturas, na conservação e preservação do património cultural tangível e intangível, na criação de organismos especializados na gestão de bens culturais, criação de equipa e projectos de investigação de bens culturais, paisagísticos e geológicos, etc.” Ismael destacou também a necessidade urgente de cuidados que as roças necessitam para se reerguerem como organização económica e cultural.
Para o artista, a cultura nacional necessita de uma dinâmica que trace novas orientações para que os valores da nossa memória colectiva resistam no tempo e que as futuras gerações deles se beneficiem. Entrevistado por Katya Aragão – Todos os pormenores em https://stpdigital.net/2016/11/09/ismael-sequeira-a-revolucao-cultural-faz-se-sem-dinheiro/



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