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Entre outros assuntos, falo da escalada ao Pico Cão Grande e das minhas aventuras em canoas – Visam defender a teoria de que antigos povos africanos, podiam ter sido os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo da Guiné, antes dos colonizadores – Parti à meia-noite, disfarçado de pescador, ligando a ilha do Príncipe. Para me orientar, uma rudimentar bússola – A canoa era minúscula, à segunda noite adormeci: rolei na escuridão das vagas. No regresso fui distinguido com sopapos da policia salazarista, enviado para os calabouços – Cinco anos depois, numa piroga maior, fiz a ligação São Tomé-Nigéria. Partindo igualmente à noite, 13 dias depois atingia uma praia de Calabar, tendo sido detido 17 dias por suspeita de espionagem. - No mesmo ano, já com São Tomé e Príncipe independente, tentei a travessia São Tomé ao Brasil, usando os mesmos recursos. Além de pretender reforçar a minha teoria, desejava evocar a rota da escravatura e repetir a experiência de Alain Bombard. Porém, quis a ironia do destino que vivesse a difícil provação de um naufrágio de 38 longos dias, tendo aportado numa praia de Bioko (Bococo)onde fui recambiado para a famosa prisão de Black Beach

segunda-feira, 16 de março de 2020

Natália Correia – A " MÁTRIA" despediu-se há 27 anos para o reino da invisibilidade - “Quando me derem por morta /de lágrimas nem uma pinga – “Não me chorem, não é morte/ é só invisibilidade”. Recordando a noite, no “BOTEQUIEM” em que declamou e cantou – “O Dilúvio e a Pomba” de “O Livro dos Mortos." - e ”Portugal há-de ganhar! em tom açoriano.


Por Jorge Trabulo Marques -  Jornalista 

Natália Correia – “Quando estou   a escrever um poema é   um ato de comunhão com o Universo!... um ato cósmico!... “ – Diz a autora do poema “Creio nos Anjos que andam pelo Mundo” – Num poema que me leu em 1990, no mítico Botequim, por  ocasião do Prémio da APE  - pelo seu livro “Sonetos Românticos”


 
 Natália Correia, partiu para  o reino da invisibilidade, há 27 anos – De seu nome completo, Natália de Oliveira Correia, , nasceu a 13 de Setembro de 1923 em Fajã de Baixo , Ponta Delgada, São Miguel, Açores e faleceu em 16 de Março de 1993 em LisboaAos 11 anos desloca-se para Lisboa e aqui acaba por passar grande parte da sua vida.. 

Poetisa e activista social portuguesa, bem como autora da letra oficial do "Hino dos Açores", o hino regional da Região Autónoma dos Açores.  Autora de extensa e variada obra, com predominância no ensaio, teatro e   poesia. Deputada à AR;  (1980-1999 – A sua obra atravessou vários géneros da comunicação social portuguesa, tendo colaborado com muitas publicações portuguesas e internacionais.Fez programas de televisão destacando-se o “Mátria” que apresentava o lado matriarcal da sociedade portuguesa


"Mulher de paixões, casou quatro vezes ao longo dos seus 70 anos. Fez televisão, foi dramaturga, poetisa e estreou-se na ficção com o romance infantil «Aventuras de um Pequeno Herói», em 1945. Foi jornalista no Rádio Clube Português e colaborou no jornal Sol. Ativista política: apoiou a candidatura de Humberto Delgado; assumiu publicamente divergências com o Estado Novo e foi condenada a prisão com pena suspensa em 1966, pela «Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica».



 ESTIVE AO LADO DE SUA MESA NO BOTEQUIM, NA NOITE QUE SERIA A ÚLTIMA DO BOTEQUIM E DA SUA VIDA 


 Na última noite, que deixou para sempre o "Botequim", da liberdade, no Largo da Graça, em Lisboa, um pouco mais cedo do que o habitual, dado ter começado a sentir uma certa indisposição, tal como pude testemunhar pela palidez do seu rosto e até por algumas das suas expressões, dado estar sentado numa cadeira ao lado da sua mesa, e, nomeadamente, quando a vi levantar-se e tomar um táxi, na companhia do seu companheiro, grande  amigo e apaixonado, Dórdio Guimarães  (Porto, 10 de Março de 1938 - 2 de Julho de 1997),  poeta, cineasta, ficcionista e jornalista português..   Dórdio Guimarães – Wikipédia, a enciclopédia livre


Botequim, Actualmente

De entre as muitas entrevistas e inquéritos radiofónicos que ali fiz a várias figuras que frequentavam aquele mítico espaço, no bar “Botequim”, onde declamou, polemizou e  cantou durante muitos anos, transformando-o no ponto de reunião da elite intelectual e política nas décadas de 1970 e 80,  pois,, além das entrevistas que me concedeu e de  poemas que lhe pude gravar ,  bem como  de outras que ali foram congeminadas, e que dariam muito que falar, como o caso das entrevistas sobre a (Primeira  Vez) , sim, sexualmente  falando, para o semanário Tal & Qual, como q    Graça Lobo; Afonso Moura Guedes; Carlos Botelho; Raul Solnado; Ivone Silva; Narana Coissoró; Ary dos Santos; Raul Calado; Simone de Oliveira; Vitorino de Almeida e   uma entrevista à  própria  Amália, parte da qual ainda inédita, que teve como epílogo a fuga rocambolesca  de sua casa.  quero aproveitar para, nesta  data que tão triste foi para todos os seus amigos e para quem com ela privara ou a  conhecia, recordar aqui a sua memória, começando por aqui oferecer aos leitores o registo do poema, em 1990, pela sua própria voz,  "O Dilúvio e a Pomba", intitulado “O Livro dos Mortos, ,a cuja leitura aproveitei para acrescentar a sua voz, numa daquelas calorosas noites,  também ali a cantar no tão inesquecível Botequim.


TAMBÉM FUI DOS NAVEGANTES NA  MESMA NAU  - ANCORADA A UM CANTO DO CASARIO DO LARGO DA GRAÇA, Nº 79 - Houve um período de alguns meses, que deixei de frequentar aquele espaço, porque, ao apresentar-lhe um casal meu amigo, a jovem disse-lhe que a gostava de ver como deputada na Assembleia da República. Ela não gostou do elogio, pois já tinha abandonado o hemiciclo, e, virando-se para mim, diz-me, em alta voz: "Então apresenta-me pessoas, que só me conhecem, como deputada e desconhecem a minha obra?!... Podem ir por onde entraram, que têm a porta aberta!" -  E  lá fomos todos embora.

Em todo o caso, salvo essa birra,  tive o grato  prazer de ser um dos participante das acaloradas tertúlias, que ali decorriam  – Do quais guardo as mais  inesquecíveis memórias:  naquele espaço, tão único e tão singular das noites lisboetas, ao  mesmo tempo poético e político, social, sociável e cultural, esotérico, intimista,   amistoso, confessional e familiar. 

Pequeno mas, que, em certas noites, parecia ser a grande aeronave espacial que nos levava nunca se sabia bem a que parte - tanto ao  perto, como bem ao longe: aos enredos e  intrigas de Belém, de S. Bento, no cotejo desta ou daquela figura,  em  conciliábulos conspiratórios acaloradas discussões ou inesperados debates, mostras de pintura, lançamento  de livros, récitas de poesia, música e canto, fazendo-nos divagar, sabe-se lá por onde e por que confins, e a falar de alguém, morto ou vivo,  indo ao fundo da história e da literatura, levando-nos por oceanos a fora, não só ao Brasil, como a Cabo Verde, S. Tomé, Angola, Moçambique, a Macau e a Timor, aos vários pontos do Mundo. Temas não faltavam:  falava-se de tudo, frontalmente  e não em surdina ou de forma brejeira - Falava-se, sem  preconceitos mas sempre de modo vivo, curioso  e interessante, mas com a reverência de que havia ali uma rainha  que exigia vassalagem, culta, multifacetada  e carinhosa, que  adorava o convívio, que encantava e provocava a  curiosidade,   o diálogo, a ousadia, a imaginação,   conquanto não raiasse o palavrão ou o insulto

-Tal como na sua escrita (desde a poesia, narrativa ao teatro) e na suas intervenções públicas,  Natália Correia, era a mulher da insubmissão, que criticava e questionava, abrindo as portas à  indignação e  à rebeldia, num tom mesclado com a tónica do humor, do  sarcasmo. Tinha resposta imediata, tal como ao fingimento ou à sobranceria:
De tal modo incómoda foi, para certos espíritos mesquinhos, que, mesmo depois de ter falecido – diz Fernando Dacosta -  alguém na RTP" convida-me para fazer um programa para a rubrica "letras e Artes" sobre a sua vida. Dias volvidos, a mesma pessoa contacta-me, envergonhada: os responsáveis da estação opunham-se, Natália continuava-lhes (mesmo morta), insuportável.

Foto por mim obtida, à saída de um espetáculo  de gala no Casino Estoril
Foto obtida pelo autor deste site à saída de uma festa de gala no Casino Estoril - Natália Correia e a sua corte - Na qual está também - no primeiro plano à direita, a minha grande amiga e dama, a Elizabeth; vemos Dórdio Guimarães, o fiel companheiro de todas as horas de Natália,  de costas voltadas para o fotógrafo; um pouco mais à esquerda, está  Fernando Grade, e,  quase a servirem de guarda-costas, Francisco Baptista Russo e Fernando Dacosta, agora de novo com mais uma bela surpresa literária  - Não me ocorre o nome das outras suas amigas.


"NATÁLIA CORREIA: O QUE É PARA SI A MORTE?... é O FIM OU O PRINCIPIO DE UMA NOVA VIDA?"  - Esta era a pergunta que  eu lhe tinha ido fazer ao Botequim, a ela e a algumas das pessoas ali presentes, num inquérito radiofónico que estava a realizar para a Rádio Comercial.- Respondeu- com a leitura de um dos seus belos poemas



Natália, começou por me surpreender com esta resposta, que não esperava: "Seria presunção de minha parte, poder dar uma resposta àquilo que ainda ninguém conseguiu ainda dar. A não ser as religiões, através de mitos. Que são respeitáveis, evidentemente, que de certa maneira vêm satisfazer a grande ansiedade dos seres humanos  sobre a questão da morte, que é o grande tema da vida. Mas eu vou responder-lhe em poema. Vou lhe dizer um poema do meu livro: “O Dilúvio e a Pomba, intitulado “O Livro dos Mortos."  

QUANDO ME DEREM POR MORTA, DE LÁGRIMAS NEM UMA PINGA. (Natália Correia
O LIVRO DOS MORTOS

Quando me derem por morta
de lágrimas nem uma pinga:
um trevo de quatro folhas
tenho debaixo da língua.

Está em regra o passaporte.
Venha o Limite da idade.
Não me chorem, não é morte
é só invisibilidade.

Túnel, poço ou espiral
suga a alma. Fica o corpo.
Vai-se a cópia sideral
e isso não é estar morto.
É assombro e estranhez
por não ser o céu ainda.
Há que morrer outra vez.
Demanda de Deus não finda.

Já noutro modo de ser,
Eterna, é contudo breve
a vida! Sempre a ascender
fica cada vez mais leve.

Até que – é esse o endereço –
já não é precisa a alma.
Unido o fim ao começo
Espírito encontra a morada.

De lembrar cessa o sentido
onde está tudo na Glória.
Por isso pelo caminho
foi-se perdendo a memória.

Por favor, em funeral
não me ponham pranto à volta.
Isso do choro faz mal
a quem do peso se solta.

Aqui parecendo cadáver,
indemne à carne, não morta,
já em frente vou na nave
que eu tenho um trevo na boca.

E se a sombra me queimarem,
bem hajam. Não sou católica.
Mas se missa me rezarem
pela alma, não me importa.

Neste  poema "apela-se ao conhecimento oculto: não se deve chorar pela pessoa que partiu, primeiro porque a morte não existe, morrer “é só invisibilidade”, a pessoa continua. Aliás, já o Fernando Pessoa dizia no Cancioneiro: “A morte é a curva da estrada / morrer é só não ser visto.” Segundo, quando ela diz “Não me chorem” (v. 7), “não me ponham pranto à volta. / Isso de choro faz mal / a quem do peso se solta” (vv. 30-32) refere-se, na interpretação de António Macedo, à grande perturbação que se provoca à pessoa que partiu, pois esta precisa de estar três dias e meio numa posição horizontal, numa dimensão suprafísica, em estado descanso para proceder a um certo tipo de trabalho antes de partir para outros túneis mais luminosos e elevados  “Sempre a ascender”, diz a poeta no verso 19. Desde a primeira estrofe, com “um trevo de quatro folhas […] debaixo da língua” (clara referência simbólica ao costume grego de colocar uma moeda, chamada óbolo, sob a língua do cadáver, para pagar Caronte pela viagem), até à sexta estrofe, verifica-se as fases por que a poeta acredita vir a passar, uma vez ultrapassado o “Limite de idade.”



"No livro Instruções Iniciáticas  Ensaios Espirituais (Hugin Editores, 1999), António Macedo chama-a de “sacerdotisa tão pouco descoberta, ainda por encontrar, do enigmático «século XX português»”. E acrescenta, no documentário de 1999 “A Senhora da Rosa (Natália Correia)” realizado por Teresa Tomé para a RTP-Açores: “a Natália Correia era uma sacerdotisa de um sagrado que hoje as pessoas não entendem, porque não é um paganismo, não é um cristianismo… ou talvez seja um certo tipo de cristianismo. Ela tinha uma veneração muito grande pelo Espírito Santo.”

“Natália sentia que era chegada a era do Espírito, que deveria seguir-se à do Pai e à do Filho. Natália não era católica mas não desdenhava da religião pois escreveu num dos seus mais belos poemas [“O Livro dos Mortos”, vv. 38-40] que não desdenhava duma missa rezada por sua alma. Aliás, sempre me pareceu que o seu culto do esotérico era uma janela aberta onde buscou sem parar o mundo espiritual e tentou encontrar sempre as suas fontes últimas buscando a religião perfeita.” (Carlos Melo Bento, “Para uma biografia de Natália Correia: o Reino dos Transparentes”, 2004-07-16) – Excerto de   Para uma biografia de Natália Correia: o Reino dos Transparentes2004-07-16)

 António Vilar - 1981 – Entrevista ao   ator mais célebre do cinema português dos anos 50  - Nas inesquecíveis Noites do Botequim da Liberdade de Natália Correia   http://www.vida-e-tempos.com/2015/05/antonio-vilar-1981-ator-mais-celebre-do.htm



 OS MEUS LIVROS SÃO PROFUNDAMENTE ESPIRITUALISTAS 


Natália Correia – “Quando estou  estou a escrever um poema é   um ato de comunhão com o Universo!... um ato cósmico!... “ – Disse a autora do poema “Creio nos Anjos que andam pelo Mundo” – 1990 – Botequim – Por  ocasião do Prémio da APE  - pelo seu livro “Sonetos Românticos”

“Os meus livros são profundamente espiritualistas!.. Porque o materialismo já deu cabo do comunismo, vai dar cabo  do capitalismo e ainda vai dar cabo de muita coisa!... Dar cabo do homem é que não pode dar!.... O erro foi este: socialismo, sim, mas nunca esquecendo a dimensão existencial e espiritual do ser  humano!... Não estou a falar de igrejas, que são todas iguais!" .

 A POESIA É MÁGICA POR NATUREZA – E a via escolhida por  Natália Correia  - uma Anteriana convicta – foi a do soneto: do neo-romantismo.  


Tal como Antero, foi fazer sonetos em plena época ultra-romântica, quando o soneto estava atirado para o caixote do lixo, ele foi busca-lo e pôs-lhe uma essência, uma mensagem completamente diferente! – E até aparece como pioneiro do existencialismo: pondo, precisamente, a questão da essência, da existência…
Portanto, eu fiz a mesma coisa: ao dizer que o conteúdo é o mesmo!  - embora eu me sinta muito Anteriana!... Mas, não é por acaso que o livro é só de sonetos.
JTM  - Mas esse livro de sonetos…
NC -  É!... Porque eu acho que nós já passamos essa da desconstrução!... Para entrar na época da construção!... E arte… o hermetístico!...  desintegrou todas as formas!... O  que correspondiam a uma atitude!...  A uma descrença humana!... Quer dizer… nos mitos! Nos ideais!... Nos paradigmas!...E hoje é preciso encontrar um novo paradigma!...
Portanto, nós temos que caminhar para uma unidade!... E o soneto é uma expressão de unidade!...  

Estas palavras, fazem parte da entrevista que, Natália Coreia me concedeu, a par da leitura de um dos seus belos poemas, no interior do próprio ambiente do Botequim, sobre a hora da ceia, no dia em que foi distinguida com o Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, pelo seu livro “Sonetos Românticos, – Foram vários os registos que ali tive o prazer de gravar para a Rádio Comercial – Hoje vou aqui reproduzir  um desses muitos registos, em som (video editado um pouco atrás) e o seguinte texto:.

JTM  – Acredita-se que, Natália, vem cultivando a substância mágica da poesia!... Continua nessa linha?
NC – A poesia é mágica, por natureza!... A palavra mágica e a poesia, são consubstanciais!... Porque… vamos lá a ver… O que é a magia, em termos poéticos?!... É precisamente o encantatório!... Que chama!... Que arrebata!... E faz cair num êxtase!... Neste caso  o leitor… Ou o  auditor!...  Para uma mensagem, que, de outra maneira, não chegaria tão facilmente!... E aí é que está precisamente o lado estético-mágico!... E não só!... E não só!...

JTM -Por outro lado, diz-se que  o romantismo é uma corrente ultrapassada: a palavra romantismo!
NT – Quem é que disse que o romantismo está ultrapassado?..  Quem foi esse cretino?!..
JTM – São alguns críticos que o afirmam…
NT – Mas quem?!... Eu não conheço!...  Tudo o que é vanguarda diz que estamos numa época neo-romântica!... Bem, eu digo-o há dez e quinze anos!...
As pessoas já estão fartas!... Já estão fartas  dos pragmatismos!... Dos utilitarismos! De tudo isso!... As pessoas, querem sentimento!.. Emoção!... Amor!... Percebe?!...… Estamos numa época neo-romântica!.. Eu até tiro o neo!… Romântica!... Isso é a sociedade de consumo!...

JTM – Acha que a atribuição do Prémio da Associação Portuguesa de Escritores, é uma forma da sua poesia chegar ao grande público?
NC – Ora!… Muito bem! … Até que enfim que alguém faz uma pergunta a sério! … A pergunta é acertada!...  Eu penso que o prémio, os prémios como é o prémio do nível da  APE (estou a prestar a minha homenagem à APE) têm o mérito de tornar, de dar uma maior expansão à palavra poética!... Que eu considero, hoje, um agente importantíssimo na transformação das sociedades!... Não sou eu!... São os cientistas!... São os cientistas!... São os  filólogos, os filósofos, etc….
Portanto,   é o mérito que eu reconheço mais notório nesse prémio..  E neste prémio, particularmente, que é um prémio que se tem destacado no nosso panorama literário!... Que foi atribuído antes, a dois grandes poetas: ao Eugénio de Andrade e ao Ramos Rosa!... Coube-me agora a minha vez…(sorrindo)  

E também quero fazer notar uma coisa!... De forma nenhuma me parece ser despiciendo que o prémio seja atribuído a uma mulher !... Porque, a grande missão da mulher, é na cultura!... Não no campo da competitividade!... Não exercendo funções  no sentido de competir  com os padrões masculinos.
JTM – Daí o significado, a importância que este prémio tem!.. Por um lado é atribuído a uma poetiza…. E, por outro, vai contribuir para a divulgação da poesia  do grande público.
NC -  Eu não sei o que é o grande público, sabe!..
JTM – Há quem afirme que a Natália é elitista! … Que não tem essa preocupação…
NC – Já sei. Já sei!...  Eu quando tinha 15 anos e comecei a ler o Fernando Pessoa, toda a gente me dizia isso!... Hoje não há ninguém que não o leia… Isto é  o costume!...

JTM – Mas fica satisfeita que o grande público leia a sua poesia ou não tem essa preocupação!... Ou quando escreve…
NC – Ó meu Caro Senhor!... Eu quando faço um poema!... Quando estou a estou a escrever um poema... é   um ato de comunhão com o Universo!!... Percebe!... Se quiser… até é um ato cósmico!...
É um ato que implica o social! Que implica o pessoal!... Mas que exige realmente um envolvimento cósmico!...
A poesia, é integrante!... A poesia vai desde o social ao cósmico!... Incluindo o existencial, etc!...
JTM – Naturalmente que ficará satisfeita se  a sua poesia tiver um maior auditório!...Um maior público, não é?...
NC – Eu não sei… A Virgínia Woolf disse um dia uma coisa muito importante!... Disse que os autores – eu agora estou a colocar-me na posição de autor -  tinham um drama de ambiguidade!... Que ficam muito tristes senão eram conhecidos mas que também ficavam muitos tristes, se eram muito conhecidos! … Eu compreendo-a, muito bem!..
JTM – Naturalmente, que a Natália é uma pessoa conhecidíssima: a questão  é que a sua poesia não é lida pelo grande público!
NC – Como é que você sabe?!... Já fez inquéritos?!...  Sou mas lida pelo povo de que pelos falsos intelectuais!
JTM – Tem a palavra!... Acha que sim?
NC – Bem, pelo menos há gente do povo que chega ao pé de mim … Inclusivamente me entende  melhor de que os mistificadores da intelectualidade!.. …Esses é que não gostam nada de mim!!...
JTM – De Pessoa, diz-se que, tanto se falou que até enjoa!... Acha que o facto de divulgar excessivamente um poeta, também pode ser negativo?...
NC- Naturalmente que tudo o que tenda a vulgarizar ou a banalizar, excessivamente,  evidentemente que as pessoas cansam-se!... Mas isso não quer dizer que o poeta fique prejudicado por isso!... Porque, depois vem outra geração, que descobre!... Depois  encobre!... Depois ressurge!... Esta é a história da arte!...

NC - Os meus livros são profundamente espiritualistas!.. Porque o materialismo já deu cabo do comunismo, vai dar cabo  do capitalismo e ainda vai dar cabo de muita coisa!... Dar cabo do homem é que não pode dar!.... O erro foi este: socialismo, sim, mas nunca esquecendo a dimensão existencial e espiritual do ser  humano!... Não estou a falar de igrejas, que são todas iguais!


Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes;

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o amor tem asas de ouro. amém.

Natália Correia






TOCADA PELO SAGRADO - - Diz Fernando Dacosta "Não se tornava fácil compreende-la, nem amá-la. Fazê-lo, exigia sentimentos, disponibilidades especiais. Era um ser tocado pelo sagrado, um desses seres que não cabem no espaço que lhes foi destinado, nem no corpo, nem nas normas, nem nos modelos, nem nos sentimentos. Chegava a assustar."
"Os que não a aguentavam combatiam-na não pelas suas ideias, mas pelos seus tiques, não pela sua criação, mas pela sua distração, tentando reduzi-la a anedotários de efeitos fáceis e falsos."
"Ao mesmo tempo forte e desprotegida, imponente e indefesa, egoísta e generosa, arguta e ingénua, dissimulada e frontal, sentia-se, ante as coisas rasteiras (e as pessoas, e as acções), perdida; só as grandes a tocavam, galvanizando-a. Então, toda ela era golpe de asa, vertigem

Falava-se, sem  preconceitos mas sempre de modo vivo, curioso  e interessante, mas com a reverência de que havia ali uma rainha  que exigia vassalagem, culta, multifacetada  e carinhosa, que  adorava o convívio, que encantava e provocava a  curiosidade,   o diálogo, a ousadia, a imaginação,   conquanto não raiasse o palavrão ou o insulto

-Tal como na sua escrita (desde a poesia, narrativa ao teatro) e na suas intervenções públicas,  Natália Correia, era a mulher da insubmissão, que criticava e questionava, abrindo as portas à  indignação e  à rebeldia, num tom mesclado com a tónica do humor, do  sarcasmo. Tinha resposta imediata, tal como ao fingimento ou à sobranceria:

De tal modo incómoda foi, para certos espíritos mesquinhos, que, mesmo depois de ter falecido – diz Fernando Dacosta -  alguém na RTP" convida-me para fazer um programa para a rubrica "letras e Artes" sobre a sua vida. Dias volvidos, a mesma pessoa contacta-me, envergonhada: os responsáveis da estação opunham-se, Natália continuava-lhes (mesmo morta), insuportável.

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