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Entre outros assuntos, falo da escalada ao Pico Cão Grande e das minhas aventuras em canoas – Visam defender a teoria de que antigos povos africanos, podiam ter sido os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo da Guiné, antes dos colonizadores – Parti à meia-noite, disfarçado de pescador, ligando a ilha do Príncipe. Para me orientar, uma rudimentar bússola – A canoa era minúscula, à segunda noite adormeci: rolei na escuridão das vagas. No regresso fui distinguido com sopapos da policia salazarista, enviado para os calabouços – Cinco anos depois, numa piroga maior, fiz a ligação São Tomé-Nigéria. Partindo igualmente à noite, 13 dias depois atingia uma praia de Calabar, tendo sido detido 17 dias por suspeita de espionagem. - No mesmo ano, já com São Tomé e Príncipe independente, tentei a travessia São Tomé ao Brasil, usando os mesmos recursos. Além de pretender reforçar a minha teoria, desejava evocar a rota da escravatura e repetir a experiência de Alain Bombard. Porém, quis a ironia do destino que vivesse a difícil provação de um naufrágio de 38 longos dias, tendo aportado numa praia de Bioko (Bococo)onde fui recambiado para a famosa prisão de Black Beach

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Entrevista a Filinto Costa Alegre – Nov. 2014 – A recordar neste 1º de maio 2020 - Então acusando as elites, que estiveram no poder, de terem traído os ideais da independência, embora alimentando sinais positivos de esperança. As sábias, experientes e sempre oportunas palavras de uma figura incontornável no histórico Movimento de Libertação destas ilhas do domínio colonial.

JORGE   TRABULO MARQUES - JORNALISTA 


Aos 22 anos, interrompe os seus estudos universitários em Portugal e regressa a São Tomé  para fundar e dirigir a Associação Cívica Pró-MSTP, no Riboque, o bairro popular  mais antigo da cidade  -  Tornando-se  num dos rostos, mais  carismáticos da que  foi  a  primeira organização nacionalista interna a  mobilizar e a dinamizar várias manifestações e reivindicações, defendendo a independência total e imediata do arquipélago


"O sistema era extremamente injusto e estávamos a ser permanentemente humilhados e então sentimos que era o momento de virmos e darmos o nosso contributo para que nos libertássemos do jugo colonial, que implicava a tal humilhação e até violência" "O que se está a passar em São Tomé é a reprodução do que se passa a nível mundial: «Estamos num regime extremamente injusto para com os mais desfavorecidos, em que um pequeno número de pessoas beneficia de tudo o que o país produz» Apesar desse aspeto negativo diz: «mas nós, cá em São Tomé, ainda  temos razões para ter esperança. Há sinais de que as coisas estão a mudar positivamente


Filinto Costa Alegre, fez parte de um reduzido grupo de estudantes universitários que abandona os estudos, em Portugal e que voluntariamente responde aos ventos de mudança do 25 de Abril. Só por esse corajoso gesto é digno do seu nome se inserir na  galeria  dos valorosos heróis destas ilhas. Mas o seu amor pátrio, a  sua entrega e generosidade à terra que o viu nascer, tais abnegados propósitos, vão ainda  mais longe.

Não só vêm ao encontro da mudança, como, ele próprio,  se afirma como o líder incontestável da Associação Cívica Pró-MLSTP, a primeira Organização Nacionalista efetivamente implantada em São Tomé e Príncipe, através da qual (das constantes e dinâmicas ações de esclarecimento e de reivindicação, sócio-económica e política),  o  então humilhado Povo, libertando-se das malhas opressoras do colonialismo, consegue alcançar a tão desejada independência,  em 12 de Julho de 1975. -




Por Jorge Trabulo Marques - jornalista - Viveu em São Tomé - de Nov.1963 a Outubro 1975



"Há alguma desilusão mas não desesperança"

Na qualidade de jornalista da revista angolana, Semana Ilustrada, tive oportunidade de acompanhar e divulgar, muitas dessas ações, e dialogar pessoalmente com Filinto Costa Alegre, assim, como com outros membros desta dinâmica associação, e, posteriormente, com  os principais dirigentes do MLSTP e outras figuras que entretanto surgiram na ribalta do processo de descolonização e democratização.

Volto a encontrar-me com Filinto Costa Alegre, 39 anos depois! - Tendo o honroso prazer de lhe poder dar um abraço amigo, de estar lado a lado e frente a frente, com um dos mais aguerridos e distintos patriotas da luta democrática pela independência de São Tomé e Príncipe, pois nestas ilhas não chegou haver ações de luta armada, dado o caráter pacifista e tolerante  dos santomenses.

O caloroso e afável encontro decorreu, num dos bancos da antiga avenida marginal de São Tomé, onde se situavam as instalações da Pousada Miramar, que anteriormente haviam servido de central do cabo submarino, uma vez mais graças às amáveis diligências do Coronel Victor Monteiro, então Diretor do Gabinete da Presidência da República de São Tomé e Príncipe,


Filinto Costa Alegre, recorda as razões que o levaram a interromper a sua vida académica:  isto porque  sentiu “uma oportunidade de acabar com a humilhação as injustiças que reinavam, em São Tomé e Príncipe, naquela altura. O sistema era extremamente injusto e estávamos a ser permanentemente humilhados e então sentimos que era o momento de virmos e darmos o nosso contributo para que nos libertássemos do jugo colonial, que implicava a tal humilhação e até violência"
"
Ele revelou-me continuar  a ser a voz frontal e inconformada, sem papas na língua  - Acusando as elites, que estiveram no poder, de terem traído os ideais  da independência, no entanto, é crítico mas não  derrotista, pois considera existirem  sinais positivos de esperança.


 "Recuperámos as terras mas depois não fomos capazes de revalorizá-las"
 Muito se tem falado e escrito acerca do estado em que se encontram as grandes propriedades coloniais, mais das vezes, sem se ir às raízes históricas das condições humilhantes, de escravatura, como eram ali tratados os santomenses e os chamados contratados.

Todavia, Filinto Costa Alegre,  não esconde alguma desilusão. reconhece que, "nós, efetivamente, recuperámos as terras mas depois não fomos capazes de revalorizá-las, sobretudo de partilhar aquilo que se colheu das terras. Porque, o que se está a passar, atualmente, em São Tomé e Príncipe, é a reprodução dos sistema ao nível mundial, em que há um pequeno número que se torna cada vez mais rico, em detrimento da esmagadora maioria da população. «Fomos capazes de nos unirmos e derrotar o colonialismo mas não o novo colonialismo, aquilo a que se chama “coloniedade do poder”. »  Considerando que «estamos num regime extremamente injusto para com os mais desfavorecidos, em que um pequeno número de pessoas beneficia de tudo o que o país produz»

HÁ SINAIS DE ESPERANÇA NA “PÁTRIA DA LIBERDADE”
São Tomé e Príncipe, um dos raros países de África, onde as elites  podem expressar-se livremente, sem receio de represálias.  Embora as  desejadas mudanças ao nível económico e social, estejam muito longe de corresponderem aos justificados anseios do grosso da população, mesmo assim, para  o líder histórico da Associação Cívica, da então frente avançada da MLSTP, durante o período pós 25 de Abril, o sonho de uma sociedade, mais justa, mantém-se vivo

Pois, sublinha, «nós, cá em São Tomé, ainda temos razões para ter esperança. Há sinais de que as coisas estão a mudar positivamente. E o principal fator é a participação. Tem-se vindo a verificar que, os mais desfavorecidos, cada vez  mais assumem o seu papel no processo democrático, sublinhando que, "ninguém dá nada de bandeja seja o que for e muito menos o capitalismo, porque, aqueles que têm não vão abrir mão do que têm, se os  que nada têm não o reivindicarem e não souberem expor as suas reivindicações, se não souberem, sobretudo, sustentá-las, não serão escutados, é o que se passa aqui, conclui para logo acrescentar.  «Eu quero dizer que a razão da minha esperança é que, efetivamente, de eleição para eleição, de ano para ano, que as pessoas mais desfavorecidas, ganhem consciência de que, se souberem juntar e souberem definir os seus interesses, sobretudo, ao nível da liderança, os líderes certos, no futuro  as coisas mudarão”

 São Tomé a Pátria da liberdade no sentido formal, e, sobretudo, no seio da elite. A elite pode expressar-se. Neste aspeto reconhece que “nós temos  a léguas, a milhas à frente de muitos países.



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