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Entre outros assuntos, falo da escalada ao Pico Cão Grande e das minhas aventuras em canoas – Visam defender a teoria de que antigos povos africanos, podiam ter sido os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo da Guiné, antes dos colonizadores – Parti à meia-noite, disfarçado de pescador, ligando a ilha do Príncipe. Para me orientar, uma rudimentar bússola – A canoa era minúscula, à segunda noite adormeci: rolei na escuridão das vagas. No regresso fui distinguido com sopapos da policia salazarista, enviado para os calabouços – Cinco anos depois, numa piroga maior, fiz a ligação São Tomé-Nigéria. Partindo igualmente à noite, 13 dias depois atingia uma praia de Calabar, tendo sido detido 17 dias por suspeita de espionagem. - No mesmo ano, já com São Tomé e Príncipe independente, tentei a travessia São Tomé ao Brasil, usando os mesmos recursos. Além de pretender reforçar a minha teoria, desejava evocar a rota da escravatura e repetir a experiência de Alain Bombard. Porém, quis a ironia do destino que vivesse a difícil provação de um naufrágio de 38 longos dias, tendo aportado numa praia de Bioko (Bococo)onde fui recambiado para a famosa prisão de Black Beach

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Ilha do Príncipe - Prá história da igreja católica - Destruídas igrejas e capelas pela fúria anticlerical - Separação da Igreja do Estado, na 1ª República, também atingiu a mais primorosa Ilha Verde do Equador - O extinto jornal “POVO DE FOZ CÔA – Diz o seu diretor, Padre José António Marrana,



Jorge Trabulo Marques - Jornalista e Investigador  - Este um de vários artigos que temos publicado sobre alguns aspetos da história da Igreja Católica nas maravilhosas Ilhas de S. Tomé e Príncipe  . Na imagem seguinte, uma das páginas do relatório de um inspector-escolar - que também era sacerdote -  entregue ao Governador  da Colónia - E até hoje nunca transcrito dos arquivos

Uma das páginas do relatório de um padre e inspector escolar ao Gov. que nunca foi divulgado publicamente - anos 30

Uma das páginas do relatório de um padre e inspector escolar ao Gov. que nunca foi divulgado publicamente - anos 30 
ILHA DO PRÍNCIPE E A INTOLERÂNCIA REPUBLICANA - LÁ E CÁ - Documento inédito prá história da igreja católica - Destruídas igrejas e capelas pela fúria anticlerical - Separação da Igreja do Estado, na 1ª República, também atingiu a mais primorosa Ilha Verde do Equador. - Na “Metrópole”: os dias santos passaram a dias de trabalho; dissolvidas confrarias e irmandades, perseguições ao clero e imposta a censura em jornais católicos – O Jornal Católico POVO DE FOZ CÔA , dirigido pelo Padre José António Marrana, também foi perseguido pelos republicanos, que lhe censuraram textos em várias edições , - A Cidade de Santo António, da Ilha do Príncipe, que já teve Igreja Catedral, Misericórdia e muitas Capelas e várias Confrarias e Irmandades de seculares tradições religiosas, viu os atos de culto da sua Religião, celebrados na dependência de um armazém que o Município, por favor, lhe cedeu



A separação da Igreja do Estado, na 1ª República, também  atingiu  uma das Ilhas Verdes do Equador, com a destruição de capelas e igrejas   -  Na “Metrópole”: os dias santos passaram a dias de trabalho; dissolvidas confrarias e irmandades, perseguições ao clero e imposta a censura em jornais católicos – É o do que lhe vimos aqui recordar

“Como depois do abandono e secularização da igreja, deixou de haver na cidade um templo para os actos do culto, arrumaram-se os objectos, que escaparam à fúria cristianicida da época, num armazém da Câmara, adaptando-se uma das dependências a capela.

Isto é, a Cidade de Santo António, da Ilha do Príncipe, que já teve Igreja Catedral, Misericórdia e muitas Capelas e várias Confrarias e Irmandades de seculares tradições religiosas, viu os atos de culto da sua Religião, celebrados na dependência de um armazém que o Município, por favor, lhe cedeu” – Mais adiante, retomamos a descrição.

Há quem diga, que “Não houve perseguição da I República à Igreja Católica” Que  “essa foi uma ideia construída pela máquina de propaganda do Estado Novo e de Afonso Costa." In  O Portugal católico da I República é um mito 

Mas houve e vimos aqui revelar-lhe alguns exemplos, que se estenderam além-mar: porventura, não comparável  aos dos Cruzados ou perpetrados pela Santa Inquisição, com a intolerância dos seus fanatismos ou hediondas barbaridades ( historicamente bem  documentados)  mas   a verdade é que, a natureza humana, quando o ódio lhe ofusca a mente por via de paixões religiosas ou políticas, não difere substancialmente no seu comportamento e atitudes.

Separação da Igreja e do Estado em Portugal (Iª República) em vez de pacificar gerou conflitos

A separação entre a Igreja e o Estado foi decretada em Portugal em 1911 (20 de Abril), na sequência da instauração da República em 5 de Outubro de 1910. – Sem dúvida, uma media desejada e saudada  pelas forças politicas mais progressistas e também por um significativo sector da população – Pois eram bem conhecidos os exageros a que, um  tal poder absoluto e promiscuidade, vinha conduzindo; - ao misturar-se a religião com a politica - Que é, no fundo, o que  atualmente acontece nos países muçulmanos – Só que, também naquele tempo, mais uma vez  é a  intolerância e o fanatismo a sobrepor-se ao bom senso, dando lugar às mais violentas perseguições

JORNAL DIRIGIDO POR SACERDOTE - CENSURADO PELOS REPUBLICANOS

Dantes, a Igreja de mãos dadas com a Inquisição, desunhava-se na  caça às bruxas, a todo aquele que não professasse a sua doutrina, agora, eram os republicamos, na caça e no ataque ao clero, às suas igrejas, jornais e instituições:

 O Jornal “POVO DE FOZ CÔA – do qual aqui lhe mostramos a primeira página de uma das suas muitas edições censuradas, pelos censores republicanos, instalados na capital, para onde tinha de ser enviado o jornal antes da sua publicação,  sim, é um desses opressores exemplos – Isto ainda longe do golpe militar de 1926 ter desembocado na ditadura fascista de Oliveira Salazar, tendo como um dos seus pilares a aliança com a Igreja Católica.

Veja-se o desabafo  do seu diretor,  Padre José António Marrana, na edição de 11  de Dezembro de 1916, além de mostrar o espaço em branco que os censores lhes cortaram,  a que deu o título: Da Capital  -  Culto à Censura


(…) Podemos atacar os republicanos nos seus maus actos, declará-los sob a alçada dos tribunaes civis ou criminaes.

Mas quando o fazemos, não atingimos com as nossas palavras ou escriptos a figura da Pátria tão espesinhada por excessos e intolerância de toda a ordem.


PARA A HISTÓRIA DA IGREJA CATÓLICA NAS ILHAS VERDES DO EQUADOR
Capela de Nº Srª de Lourdes, na Roça Sundy - Imagem atual - 
É certo e sabido, que, a igreja católica, foi um dos mais fiéis aliados da expansão colonial, em que, numa das mãos, se erguia o crucifixo e na outra se brandia a espada. Mas seja como for, quer se realcem os aspetos positivos ou negativos, faz parte da história – Por certo, que, sem a sua intervenção, dificilmente, Portugal teria também dado ânimo aos bravos navegadores que sulcaram mares nunca dantes navegados, ou pelo menos desconhecidos dos nossos pilotos e marinheiros, indo a todas as partes do mundo – Dando a admirável lição de como, um pequeno país, com reduzido número de habitantes, logrou formar uma das mais arrojadas armadas da navegação marítima e, através dela, ser o pioneiro das mais extraordinárias descobertas  – Pelo menos, trazê-las ao conhecimento da velha Europa

Quis um feliz acaso, que, numa das pesquisas, que a nossa curiosidade e paixão nos move pelo estudo da origem e do povoamento de S. Tomé e Príncipe – inicialmente através de travessias de canoas, entre as ilhas e o continente africano; depois vasculhando arquivos ou palmilhando a orla marítima, em demanda de vestígios arqueológicos – sim, que deparássemos, entre outra abundante informação, que, a seu tempo contamos divulgar (parte da qual, acreditamos nunca ter saído da confidencialidade de velhas prateleiras ou gavetas), como é a descrição que aqui hoje lhe trazemos - Imagem extraída de São Tomé e Príncipe: Ruínas na Praia

Sim, vimos falar-lhe, não apenas sobre o lançamento da primeira pedra da  magnifica igreja, no dia 19 de Agosto de 1937,  edificada  no Largo Maria Correia,  na cidade de Santo António,  como também da vaga anticlerical, que   atingiu esta maravilhosa ilha, vandalizando e  destruindo  os seus mais  belos templos religiosos, obrigando  o culto dominical a ser realizado num velho armazém da Câmara Municipal.

O texto seguinte é de um inspetor escolar, que, por sinal, também era sacerdote, numa vista que efetuou à Ilha do Príncipe, nos anos 30  – No texto, do relatório, batido à maquina de escrever  pelo seu punho,  a que tivemos acesso, não é referido o nome, terminando com uma assinatura, que não logramos descodificar.

COMO DECORREU O LANÇAMENTO DA PRIMEIRA PEDRA DA ATUAL IGREJA DA CIDADE DE SANTO ANTÓNIO – NO PRÍNCIPE – E POR VIA DE QUE NECESSIDADE

"Como depois do abandono e secularização da igreja, deixou de haver na cidade um templo para os actos do culto, arrumaram-se os objectos, que escaparam à fúria cristianicida da época, num armazém da Câmara, adaptando-se uma das dependências a capela.

Isto é, a Cidade de Santo António, da Ilha do Príncipe, que já teve Igreja Catedral, Misericórdia e muitas Capelas e Várias Confrarias e Irmandades de seculares tradições religiosas, viu os atos de culto da sua Religião, celebrados na dependência de um armazém que o Município, por favor, lhe cedeu .

Tornava-se pois necessária a construção de uma igreja, não só para acudir às necessidades dos que reclamavam, mas também para reparar de algum modo o desacato feito às crenças de uma grande maioria e tradições de uma civilização.

Os esforços da actual administração do concelho e a boa vontade de todos, decidiram levar a efeito esta tão suspirada obra, sendo escolhido o Largo Maria Correia

No dia 10 de Agosto, depois dos convites oficiais feitos pelo Senhor Capitão Curado, Administrador do Concelho, foi benzida e lançada a primeira pedra com as cerimónias do ritual

Em seguida foi celebrada Missa Campal, com guarda d’ honra, a que assistiram o Administrador do Concelho, toda a população europeia da Ilha, nativos, muitos serviçais, crianças da Escola,  solados e presos, devidamente uniformizados.

Fiz uma prática alusiva ao acto, enaltecendo as glórias do nosso passado glorioso e as tradições cristãs do Povo Português que levaram a fé e civilização a todos os domínios , cujos estavam bem patentes na grandiosa manifestação de fé  a que se assistia.

À tarde, pelas cinco horas,  foi  organizada uma procissão ao Cemitério,  em que se incorporaram europeus e indígenas, entoando-se no trajecto o salmo “Miserere”. Ali cantou-se o R. Libera-me e as orações do estilo, tendo feito uma alocução sobre a caridade e os deveres que temos d éter para com os mortos.

Muitas pessoas com lágrimas, me respondiam responsos por alma dos seus entes mais queridos, benzendo muitas campas, sendo muito  comovente este espetáculo de luto e de tristeza, mas consolador pela fé e sentimentos que os inspiravam

Era já noite quando a multidão evacuou o cemitério, deixando ali pedaços do seu coração retalhado pela saudade dos que lhes foram caros, mas que ali ficavam alumiados pelos clarões da sua Fé e conformados pela piedade das suas orações.

Por entre soluções e lágrimas, reorganizou-se o cortejo de volta à Capela, tendo-se feito o percurso com o mesmo cerimonial anterior, disparando todos depois, já na cidade, no mais profundo silêncio.

Foi uma das cerimónias mais comoventes que tanto impressionou os que a ela assistiram. Durante outros dias, realizaram-se  também  muitos baptizados e algumas confissões e comunhões. Também devo registar, com muito prazer, que na Roça Porto Real ouvi de confissão dois serviçais, muito conhecedores dos seus deveres cristãos.

Os dois dias que restaram, passeio-os em actos de culto e noutros deveres inerentes à minha função  de Inspector Escolar.”


Contamos voltar a esta questão com imagens de antigas igrejas e capelas destruídas



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