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Quem sou eu

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Entre outros assuntos, falo da escalada ao Pico Cão Grande e das minhas aventuras em canoas – Visam defender a teoria de que antigos povos africanos, podiam ter sido os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo da Guiné, antes dos colonizadores – Parti à meia-noite, disfarçado de pescador, ligando a ilha do Príncipe. Para me orientar, uma rudimentar bússola – A canoa era minúscula, à segunda noite adormeci: rolei na escuridão das vagas. No regresso fui distinguido com sopapos da policia salazarista, enviado para os calabouços – Cinco anos depois, numa piroga maior, fiz a ligação São Tomé-Nigéria. Partindo igualmente à noite, 13 dias depois atingia uma praia de Calabar, tendo sido detido 17 dias por suspeita de espionagem. - No mesmo ano, já com São Tomé e Príncipe independente, tentei a travessia São Tomé ao Brasil, usando os mesmos recursos. Além de pretender reforçar a minha teoria, desejava evocar a rota da escravatura e repetir a experiência de Alain Bombard. Porém, quis a ironia do destino que vivesse a difícil provação de um naufrágio de 38 longos dias, tendo aportado numa praia de Bioko (Bococo)onde fui recambiado para a famosa prisão de Black Beach

sábado, 2 de maio de 2020

Ó Solidão Purificadora da Terra, dos Mares e dos Céus!... Em noite alta, solitária e cerrada, escura é a noite, escuros serão os caminhos que se me abrem em todas as direcções!......E também escuros serão certamente os caminhos que me conduzirão a Deus...

Jorge Trabulo Marques 

Imagem registada com a máquina fixada ao mastro e disparada com um barrote
Jorge Trabulo Marques. Recordando os meus 38 dias à deriva numa canoa no Golfo da Guiné , pelos mesmos mares    que o épico de  “Os Lusíadas! Cantou

"Sempre enfim para o Austro a aguda proa
No grandíssimo gólfão nos metemos,
Deixando a serra aspérrima Leoa,
Co'o cabo a quem das Palmas nome demos.
O grande rio, onde batendo soa
O mar nas praias notas que ali temos,
Ficou, com a Ilha ilustre que tomou
O nome dum que o lado a Deus tocou"


 
O tormento no meu coração me dá alegria; que a esperança enganosa fique longe de mim”



Si dolce è’l tormento

Si dolce è’l tormento
Ch’in seno mi sta,
Ch’io vivo contento
Per cruda beltà.
Nel ciel di bellezza
S’accreschi fierezza
Et manchi pietà:
Che sempre qual scoglio
All’onda d’orgoglio

Versos de Claudio Monteverdi


Por aqueles que sulcaram mares nunca dantes navegados e conhecidos - Sons épicos e versos de Euclides Cavaco, evocando Vasco da Gama - O grande marinheiro português, aquele que abriria a primeira rota marítima entre os Oceanos Atlântico e Índico, vídeo, com sons dos mares, em que, arrojados navegadores, partindo em frágeis caravelas, desbravando os sete oceanos, foram dando a conhecer novos mundos ao mundo;



Ó Solidão Purificadora da Terra, dos Mares e dos Céus!...
Em noite alta solitária e cerrada,
a sós com Deus e com minha alma,
mais taciturna que tranquila ou alvoroçada,
sinto, escuto e medito quão medonho e triste
é o manto escuro que ondula e me envolve!
Como, se em cada vaga que espuma e me sacode,
em cada inesperado golpe penúmbreo e volúvel
que cruelmente investe sobre o casco instável
e tombaleante do meu frágil e penoso esquife,
no dorso do tosco madeiro em que resisto e vogo,
subitamente rolasse comigo, inteiro e vivo
e, sem poder sequer pronunciar uma palavra
ou implorar uma prece ou gritar um simples ai
- Oh! Quem me socorre! Ai! Quem me acode! –

Sim, imediatamente descesse até ser envolvido
pelos lodosos e talvez florescentes limos
dos  escombros ou despojos de outros desgraçados
esquecidos nas mais negrissimas cavernas abissais
para ali meu corpo se decompor e diluir para sempre
ofuscado completamente da  luz solar  ou do luar!
Perdido  e esquecido para um nunca mais
no fundo do mais abissal  e fantasmagórico sepulcro!

Todavia, enquanto assim quiser o meu ínvio  destino,
vou indo sem rumo, não sei bem para que outro mundo!
Açoitado e arrastado por montões de sinistro brilho!
E na iminência constante de ser tragado e engolido!
Na liquidez da vasta superfície de um agoiro escondido!

Um caixote de lixo a servir de baú 

Mas esta é também a vasta e sombria noite que habito!
que silenciosamente perscruto e me faz companhia!
Num permanente reencontro, entre o cismo e o pasmo !
A noite de todas as eras, silêncios, marulhos e rugidos!
A noite assombrosa que vou prosseguindo sempre
no seu movimento e ritmo constante mas renovado!
Perpetuadamente instável, fluídico e inacabado!
Sob um espesso teto de pardas ou brancas névoas,
ou buracos, que ora se entreabrem ora cerram
no infinito azul profundo e estrelado
que não me inibe, intimida ou apavora,
por tão familiar eu lhe pertencer,
mas que também não me deslumbra
nem  conforta meu ser ou me consola!


Na viagem dos 3 dias de S. Tomé e Principe 





Sim, vogo por este imenso vale despido !

Alheio a  tudo que é vivo e floresce!
Através deste  ermo deserto noturno,
que ora reaparece ora se me ofusca!
Aberto e livre a todos os instante e marés!
Mesmo quando a arcada das minhas pálpebras
descai e soçobra vencida ao sono e à fadiga
mesmo assim, ao mais leve estremeção
ou mais agreste báte-báte de violenta vaga,
estertor a fustigar o casco da  frágil piroga,
abro logo meus espantados olhos,
como que em sintonia ao pulsar
mais acelerado do meu coração,
tendo de imediato a nítida percepção,
de quão sozinho vou indo continuamente
arrastado pelo hálito das correntes e  ventos
vogando à flor de revolto mar
ou de perturbadora e podre calmaria
triste e desamparado,sentindo,
porém, em mim, não propriamente o tolhedor medo
mas a vital necessidade de um acolhedor abrigo ou afago,
de encontrar neste imenso circulo de turvos brilhos de mar
a tão desejada e justíssima aspiração à paz e plenitude,!
Sim!.. Mesmo na vastidão do distorcido e turvo espelho
da ondulante toalha líquida que se expande e não tem fim!
Sinto em mim, o hálito salgado com que me entonteço e respiro!


Vou indo  assim à deriva, sereno e grave, 
sem precisar de auxilio de ninguém!
Pois, mesmo que dele precisasse, 
ninguém me estenderia a meu lado ou do alto a sua mão!
Atento e indiferente  ao estrondo  e à luminescência de tudo 
ao silêncio que cintila ou à surdina do ecoar do surdo marulho!
Vestido com as vestes da nocturna e translúcida solidão!
Absorto  à crua e nua verdade transfigurada de assombro!

As trevas adensam-se na atmosfera e,  por tão habituais,
quase  já não me impressionam, não me comovem mais.
Fazem o seu percurso. Eu  vou  fazendo sinuoso o meu!
Embora não sabendo qual o destino que Deus me deu!...


Alguns dos tubarões pescados

Sim, as sombras estão por todo o lado,
flexíveis e em sagrado âmago e comunhão!
Espalham-se em círculos  de tingida água de luto,
em cintilante matéria alada de arcos de estranho veludo
sobre mim, em qualquer ponto ou aérea linha ou direçao!

Vagueio sem destino  com a coragem e o medo que ainda não sei vencer.

Não recuo a nada....Porque, enquanto tiver algum medo é sinal de que vivo....
Vou indo com o soooar do mar! Com o mar que soa! Com o mar que brâaame!..
Vou indo, derivando com o mar que voa!... Com o mar a bramaar!

Sou o cavaleiro andante sonhando acordado!... Sonhando cavalgando
este vasto largo, este imenso ondular.. Sonhando e cavalgando o mar!...
Porque, ao sonho, não há limites, depurações nem outras barreiras!
A noite atormenta corações solitários, ante um mudo firmamento! 
Ou quando espessas névoas ofuscam o sono luminosos do sonho!
Mas esta é a pupila e o aroma fluido do meu  ilimitado tormento 
bem longe das vistas do mundo, dos ocultos e longínquos astros!
E agora que o silêncio é submerso pelo rugido do vento e do mar,
Vestindo as  roupagens da noite, tendo-as por únicas companheiras!..





Mas, ó  piedade impiedosa dos céus!..
Nenhum sinal de vida! Ninguém...Nem vivalma!
Este é o nervo desta desmaiada e violeta evidência!
Só as vagas.... e atrás das vagas, outras vagas ainda!
O vento soluça e geme. Perpassa-me pelos meus ouvidos
como um fino acorde quando menos se exaspera ou aquieta!
- Estou continuamente envolto  pela lividez da sua fulgência!



Sonâmbulo abandono o meu, estranha vida esta a minha!...
Onde irei eu numa noite de breu assim e por este mar fora?!.. 
A que distância haverá um qualquer porto ou cais de abrigo? 
- Praia de areia fina dourada ou grossa e negra em costa rochosa 
onde possa eliminar as sombras dos meus olhos e ali possa repousar!...

As nuvens vão correndo  escuras e velozes no tropel da sua marcha,
 galopando lívidas, enroladas de novelos, quase sobre a minha cabeça 
fazendo-me confundir  com o cenário do mesmo sombrio e caótico  tumulto! 
Quase me sentindo esmagado e sufocado pelo  pelo seu corrido e alado peso. 


Em que ponto do mar ou do céu poderei pousar o meu olhar?!..

Bravio e deserto! Espectral cenário!  - Estranha e cruel beleza!
Quem se compadece de mim?!... Tão prolongado já vai
o sofrimento, a angústia que me aplaca e não se esvai,
que, de tanto penar neste deserto varrido, cinzento e sombrio
e, dos céus cerrados, vir somente a indiferença e a imanente  frieza,
sim, tamanha já  é a minha dor, a amargura intensa que não se me apaga,
que, esta contínua incerteza, este permanente amargo e continuado penar,
este resignado sentimento na sua dinâmica dureza que me fustiga e perturba,
se transforma, simultaneamente, não só em persistente,  profusa e sentida dor
mas também num misto de sereno, doce e balsâmico alívio e vão contentamento!
Como se eu fosse - mesmo diluído e  errante como as sombras desta agitada vastidão
o Deus de mim próprio e das escuras névoas, o meu próprio Senhor e Génio Criador!



De peregrino nos mares a peregrino da terra e da luz

















É o vento, são as vagas!...
No tropel desta imensa e negra vastidão!...
Encadeadas umas atrás de outras vagas! 
E de outras que invisivelmente lhe vão sucedendo, 
no interminável movimento do seu infatigável carrossel!...
Neste tumulto de esquecimento, talvez só meio silenciado ou apagado  
nas covas da  sua tumultuosa e espumante e nocturna ímpia ondulação 
ou  então quando raiar a alvorada a mostrarão ao iodo acre estampado 
nos meus olhos, à  minha face  e ao meu coração talvez em ruínas e devassado!

Sim! Há  um marulho a toda à volta que tumultua, se levanta, blasfémia e uiva!...
Sob o teto de um firmamento  escuríssimo, cobrindo-se de desumana imensidade!
Mais cerrado e  debaixo dos longínquos astros, ofuscado das estrelas, como nunca!
Que põe nas cadências da minha alma e na angústia do meu peito magro e dolorido,
um estremecimento estranho e inexplicável, uma dor aguda, vazia e árida,
que, na eternidade dos timbres  dos remoinhos deste negro mar,
na  volúpia de uma caótica e desarmoniosa modulação,  
sobre a tosca tábua onde vagueio e sem qualquer refúgio,
 faz sobressaltar  ainda mais o palpitar meu pobre coração!



Soergo-me ajoelhado, tímido levanto o húmido oleado
com que cubro a piroga, envergando ainda a capa 
com que durmo e debruço-me sobre a  frágil borda,
espreito por uma nesga o que vai lá fora,
olho a noite de olhar turvo e arregalado
para descortinar o que vai ao largo....

É o fuzilar de relâmpagos e mais relâmpagos a rasgar negridão.
Fico preocupado…Além dos sinistros raios a incendiar o mar,
que fulgurantemente rasgam a espessa vastidão que me cobre
e  a turbulência do turvo horizonte em todo o circulo, além de mim,
nada mais  ouço que o uivar do vento e, nos  sombrios confins, 
também agora a trovejar o  ribombar de um sinistro trovão!..

Nada mais enxergo que manchas fugidias e difusas!
Vultos disformes!...Vultos diluídos e montanhosos!
E, atrás desses vultos, alterosos, difusos e escuros,
outros maiores, e sem tréguas, se  enrolam fugidios
à superfície  vestida de  imensa e negra vastidão!..

Manchete da travessia S. Tomé -Nigeria 


















Ameaçado por constantes e cruéis  sacudidelas
cambaleando como um ébrio mas vigilante e lúcido
em vão perscruto o denso horizonte e nada enxergo,
senão  manchas de massas desconformes e gelatinosas,
acima da ondulante vastidão que  meus olhos cega e turva..
.
Em vão, vogando, lúcido e atento, sulcando as  movediças águas.
mais  como espírito pairando de que como ser humano  vivo e perdido,
talvez como o profeta jesus pilotando a sua barca em demanda da sua cruz! 
Em cuja imensa cúpula nem a lua nem as estrelas, dão sinais da mais ténue luz!
Só farrapos  de cinzas e penumbras esfarrapadas, pairam do alto ou vindo debaixo
vão correndo à superfície das penumbras viscosas da erma vastidão lívida e líquida.
Sobre a qual emergem  novelos  de névoas fantasmagóricas,  formas vagas e  fugidias!
Movendo-se  e avançando  na crina do vento  e do mesmo manto fúnebre e ondulante !
Descendo ou subindo a crista da vaga ou  desaparecendo, tão subitamente
como se lembrassem dispersos navios fantasmas cavalgando, avançando e ondulando!

Nenhum raio de luz vem do alto!.. E, no entanto,
as águas enrolam-se e refletem um brilho lívido e baço!
Acima de mim e  deste meu vagabundo e solitário vaguear 
Não há uma aberta, um devaneio à dor ou  assomo de  claridade!..
Por isso, sinto-me agora ainda mais recolhido e desolado. 
sozinho, triste, perdido e abandonado!  - Mas com fé!
Entregue às mãos de um milagroso e germinador Criador!
Imerso numa paz podre e angustiante, tendo por cenário,
um quadro que tem tanto de sombrio, como de horrível e belo!
Traz nas pastosas vagas que se revolvem e quebram ao meu lado,
o timbre  iminente de mais umas longas e atribuladas horas de vigília! 
De sonos perdidos, enfrentando as sucessivas ameaças e investidas!
Durante o dia ainda  se vê donde vem o perigo e como enfrentá-lo.
Porém, quando à escura  noite, sobrevém a violência dum tornado
ou a inesperada tempestade, tudo é medonho!...- Não há palavras!.

Os humores e os remoinhos do mar são um permanente catavento!
Variam subitamente  e  mudam-se como o vento e  sem desfalecimento!  


Remando com o remo improvisado

Vento e vagas! negros estão os mares e os céus!
Dentro de mim, onde vogo, em redor ao largo e ao alto
reina a solidão e o peso da noite mais funda! - Estou só!
Angustiado, face ao abandono do mundo e de Deus.
Estômago a dar horas, encolhido e vazio como um fole!
Em vão aperto o cinto, martirizado por fome atroz!
Sequioso de água potável - Corroído e atormentado
pela sede  - No equador o sol é a pino! Agora que eu faço?!..
Água potável, só a das chuvas ou recurso à do salgado mar!
Oh, sim!..Dorido das chagas, as feridas da muita humidade,
das pústulas  que me cobrem as partes! Vogando enfim
por caminhos ínvios que eu não sei - Silente e prostrado,
taciturno no fundo  de mísero esquife que flutua- Deste caixão
vergastado vogando na solidão de escuras águas de espuma!
Solitário e silencioso, nem um murmúrio balbucio mas sofro.
E choro por vezes as lágrimas sofridas da minha cruel sorte.
Errando na confusa superfície, derivando à toa e sem norte!
Qual vida sem rumo ou névoa que se esbate, esvai desfaz ou apaga.
Qual moribundo! Qual Cristo que espia descido da cruz do calvário!

Não desesperado, não rendido mas já mais inseguro e menos calmo,
sem que alguém me responda, inquieto, pergunto ao meu coração:
- Serei apenas a onda fugidia que se ergue franjada e se desfaz?!..
O espectro diluído e esfumado, a alma  errante de outro mundo?!..
Afinal, o que serei eu à flor deste mar negro fugidio e encapelado?!...
Serei o homem só no vasto oceano revolto vogando perdido
à espera de cair  no tumultuoso negrume da  mais horrível tumba,
envolvido pelos dedos crespos do mais insondável poço ou abismo?!..

Ó negros e opacos céus, ó negros e corridos mares!...
- Longe já vão essas noites nas densas trevas envolto
pelo bafo  permanente da aragem viscosa da morte,
as vergastadas  ou os salpicos violentos da salgada espuma!
Todavia, quão perto os tenho ainda na minha memória!
Quão posso agradecer a Deus e aos Céus, a minha sorte!

Jorge Trabulo Marques 



(...) Devem ser  oito horas... É noite do 30º dia. Choveu, como previra, no fim de tarde. Por acaso apenas foram os reflexos de uma trovoada que deve ter ocorrido, lá para longe, lá para o sul... Mas as vagas estão demasiado fortes!... O que veio realmente dar um certo desequilíbrio à canoa.

Há formações de nuvens negras a norte, noroeste...Vejo que algumas estão realmente a deitar chuva.Noutras bandas....vê-se a escuridão. E, para o sul, não sei se ainda terão chuva....Espero...Só peço a Deus que a noite não seja chuvosa.....Porque é muito chato...

Não comi nada...Quer dizer, limitei-me a comer as barbatanas do tubarão que tenho aí. Tentei pescar mas não consegui absolutamente nada!... Hoje, digamos, é um jejum limitado a água.... Não pude arranjar mais nada, visto ter estado ocupado quase todo o dia com o remo improvisado para dar a direcção à canoa..." Excertos do meu diário de bordo  - registado para um pequeno gravador que preservei no interior de um antigo caixote do lixo  - O meu baú - imagem ao lado

A terminar ocorre lembrar-me de uns poemas de Henri Michaux  - Sim, houve noites e dias, em que cheguei a desejar o fim do meu calvário:

"Náusea ou é a Morte que se Aproxima"

Rende-te, coração.
Lutámos tempo de mais,
Que se acabe a minha vida,
Não fomos cobardes,
Fizemos o que pudemos.

Oh! Alma minha,
Ou ficas ou vais,
Tens de te decidir,
Não me apalpes assim os órgãos,
Ora com atenção, ora com desvario,
Ou vais ou ficas,
Tens que te decidir.

Eu, por mim, não posso mais.

Senhores da Morte
Nem vos aplaudi, nem blasfemei contra vós.
Tende piedade de mim, viajante de tantas viagens sem
bagagem,
Sem amo, sem riqueza, sem glória,
Sois de certeza poderosos e ainda por cima engraçados,
Tende piedade deste homem transtornado que antes de
saltar a barreira já vos grita o seu nome,

Apanhem-no no ar,
E, se for possível, que se adapte aos vossos
temperamentos e costumes,
Se vos aprouver ajudá-lo, ajudai-o, peço-vos.
Henri Michaux - In Equador

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