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Entre outros assuntos, falo da escalada ao Pico Cão Grande e das minhas aventuras em canoas – Visam defender a teoria de que antigos povos africanos, podiam ter sido os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo da Guiné, antes dos colonizadores – Parti à meia-noite, disfarçado de pescador, ligando a ilha do Príncipe. Para me orientar, uma rudimentar bússola – A canoa era minúscula, à segunda noite adormeci: rolei na escuridão das vagas. No regresso fui distinguido com sopapos da policia salazarista, enviado para os calabouços – Cinco anos depois, numa piroga maior, fiz a ligação São Tomé-Nigéria. Partindo igualmente à noite, 13 dias depois atingia uma praia de Calabar, tendo sido detido 17 dias por suspeita de espionagem. - No mesmo ano, já com São Tomé e Príncipe independente, tentei a travessia São Tomé ao Brasil, usando os mesmos recursos. Além de pretender reforçar a minha teoria, desejava evocar a rota da escravatura e repetir a experiência de Alain Bombard. Porém, quis a ironia do destino que vivesse a difícil provação de um naufrágio de 38 longos dias, tendo aportado numa praia de Bioko (Bococo)onde fui recambiado para a famosa prisão de Black Beach

domingo, 3 de maio de 2020

Tributo às mães escravas de Cabo Verde - Nas antigas platações de cacau e de café

Jorge Trabulo Marques - Jornalista

As roças de má memória - Fala-se muito mas desconhece-se o essencial: que eram campos de escravatura. Trabalhei nesses feudos e conheci bem a dureza da vida, nessas grandes propriedades, quer para os chamados serviçais, quer para os nativos que ali iam fazer os mesmos trabalhos, mas também para os empregados de mato, que eram igualmente escravizados, mal pagos e que apenas tinham direito à chamada graciosa, de quatro em quatro anos  

 Desembarquei, ao largo da Baía Ana de Chaves, do navio Uíge,  em Novembro de  1963 para ir fazer um estágio na Roça Uba-Budo,  propriedade da Companhia Agrícola Ultramarina,  de um curso que tirei na Escola Agrícola, Conde S. Bento,  em Santo Tirso. Não tendo condições, devido à forma desprezível como ali eram encarados os técnicos, por indivíduos que ascendiam apenas à custa dos anos de serviço  e de uma certa brutalidade; acabei por concluí-lo na tropa, quando ali fui encarregado do sector da  Messe dos Oficiais e da  Agropecuária do quartel . 


Na verdade,  não guardo da roça, as melhores recordações senão o facto de ter apenas 18 anos, ser um jovem  e da surpreendente beleza daquela paisagem, que todos os dias se me revelava, pese a humilhação a que era submetido desde a alvorada  até ao escurecer -  Pois não posso esquecer-me de como era difícil e dura a  vida na roça, tanto para os empregados de mato como para os trabalhadores - E foi esta a categoria que me foi dada, pelo Administrador da Roça Uba-Budo, quando fui para ali estagiar - 





  O que recordo do meu primeiro contacto com a Roça Uba-budo, é realmente de muito má memória. O administrador, que era praticamente um analfabeto, tinha ódio a quem tivesse mais instrução académica de que ele; por isso mesmo, para me humilhar deu-me a categoria de empregado de mato: pouco tempo depois chamou-me à "Casa Grande" e disse-me: prepare a sua mala, tem ali um jipe à sua espera para o transportar: vai fazer o seu estágio na Ribeira Peixe. Você dá confiança aos pretos e já lhe tinham dito que tem que tratar os serviçais por tu.


Como não obedeceu às minhas ordens, vou mandá-lo para o Sul - E é para o não o pôr imediatamente fora da Roça - E então que é eu fui fazer com um pobre de trabalhador cabo-verdiano, que também tinha sido mandado para lá de castigo? ... Contar cacaueiros velhos numa zona abandonada, coberta por um enorme capinzal e infestada de cobras pretas. 

A vida na roça era boa  para o administrador,
o chefe dos escritórios  e o feitor-geral - E não tanto para o médico,
o enfermeiro do hospital: - a remuneração dificilmente pagaria
o trabalho e o contacto directo com as múltiplas enfermidades. 
-  Mas fortemente penalizadora,  repressiva e escrava para os demais!
Os trabalhadores negros que se recusassem a cumprir
as ordens do empregado de mato ou do capataz
eram severamente castigados  à chibatada e a palmatória
Os empregados brancos que tivessem tido algum desentendimento
com o feitor, o administrador, depressa eram desterrados
para as dependências da roça mais isoladas!

São Tomé, um pequeno rincão de Deus a flutuar
no oceano e no centro do Mundo,  mas um enorme feudo colonial
repartido apenas  por uns quantos abastados proprietários
que viviam, noutras paragens, a milhares de milhas de distância:
entregues aos seus caprichos,  fantasias e gastos superfulos,
longe das doenças endémicas, do paludismo, das chuvas copiosas,
alheios aos imensos sacrifícios dos seus mais humildes servidores,
de costas voltadas  ao enorme sofrimento de todo um povo,
aos filhos do qual haviam saqueado as suas terras
e se apoderado de todas as suas riquezas,
já não falando dos primórdios da colonização
mas da introdução da cana sacarina e do cacau,
após lhes ser concedida a alforria 
e num tempo em que existia
uma consciente e próspera
 elite negra na ilha.

Mas, dessa verdade, inconveniente,
não quisera saber o regime colonial
quanto mais os gananciosos roceiros,
que se achavam donos absolutos
das centenas e centenas de hectares,
administradas por uns tais senhores,  
muitos deles prepotentes e estúpidos,
quase analfabetos, escolhidos a dedo pelos seus patrões
( depois de indicados por outros administradores que os antecederam)
não pela sua formação mas pela rudeza e  prepotência,
despotismo e mão de ferro como subjugavam
empregados e  trabalhadores!
Sim! como impiedosamente os exploravam!
- Esta era a crua realidade
que jamais poderá ser ocultada!
 
Felizmente, esses tempos, já pertencem ao passado!
Mas, eu, que ali passei também os dolorosos passos
de um penoso calvário, não mais os esquecerei!
E bem deles me recordo! - Nitidamente, e de tudo!
Tal qual, como se acabasse agora mesmo de chegar




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