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Entre outros assuntos, falo da escalada ao Pico Cão Grande e das minhas aventuras em canoas – Visam defender a teoria de que antigos povos africanos, podiam ter sido os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo da Guiné, antes dos colonizadores – Parti à meia-noite, disfarçado de pescador, ligando a ilha do Príncipe. Para me orientar, uma rudimentar bússola – A canoa era minúscula, à segunda noite adormeci: rolei na escuridão das vagas. No regresso fui distinguido com sopapos da policia salazarista, enviado para os calabouços – Cinco anos depois, numa piroga maior, fiz a ligação São Tomé-Nigéria. Partindo igualmente à noite, 13 dias depois atingia uma praia de Calabar, tendo sido detido 17 dias por suspeita de espionagem. - No mesmo ano, já com São Tomé e Príncipe independente, tentei a travessia São Tomé ao Brasil, usando os mesmos recursos. Além de pretender reforçar a minha teoria, desejava evocar a rota da escravatura e repetir a experiência de Alain Bombard. Porém, quis a ironia do destino que vivesse a difícil provação de um naufrágio de 38 longos dias, tendo aportado numa praia de Bioko (Bococo)onde fui recambiado para a famosa prisão de Black Beach

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Guiné Equatorial - Aniversário do Presidente T. Obiang Nguema – 78 anos de vida - Recebeu felicitações de vários embaixadores e representações diplomáticas – Numa altura em que o seu país “continua na vanguarda mundial da luta contra a malária - Devo-lhe a vida - Foi ele que ordenou a minha soltura da famigerada prisão Black Beach, há 45 anos, quando ali aportei numa piroga - Seu tio ordenou o meu enforcamento, por me ter tomado por espião.

Nesta dia não podia deixar de prestar o meu simbólico tributo a um grande lifer politico e humanista africano  – Ou, então, apontem-me o país, que, em África, tem a qualidade de vida que o da Guiné  Equatorial – Ou, então, digam-me qual o país africano, onde a democracia é verdadeiramente pluralista 

JORGE TRABULO MARQUES - JORNALISTA 
Voltei à Guiné  Equatorial,   42 anos depois, em Julho  de 2017, em Malabo  e em Bata, para agradecer ao  Presidente Obiang, ter-me salvo da forca,  quando, em finais de Novembro de 1975, ali aportei numa frágil piroga, depois de 38 longos e penosos dias ao sabor das vagas e fui tomado por espião. Tendo sido libertado pelo então jovem comandante das Forças Armadas e Policiais,  Obiang Nguema Mbasogo, que três anos depois  derrubaria seu tio, em 3 de Agosto de 1979, através do chamado   Golpe de Libertad   



Andei à vontade por onde quis e me apeteceu. Não vi as miseráveis e humilhantes barracas, que existem no demais continente africano e proliferam nas preferias das grandes cidades europeias,  asiáticas ou das Américas mas confortáveis e aprazíveis bairros sociais e as cidades mais bastante limpas e com os mais belos edifícios e avenidas, que não é fácil encontrarem-se no chamado velho mundo civilizado


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Os Embaixadores da Guiné Equatorial em Portugal e na CPLP, Congo-Brazzaville e Confederação Suíça, Tito Mba Ada, Samuel Ateba e Lazaro Ekua, entre outros diplomatas, enviaram  mensagen de congratulações ao o Chefe de Estado, Obiang Nguema Mbasogo, por ocasião do seu aniversário, em 5 de Junho, que hoje comemrou..

É  referido em noticias de que, “apesar da ameaça causada pelo aparecimento do coronavírus no mundo, todo o pessoal desta missão diplomática e os cidadãos da Guiné Equatorial residentes em Portugal, Cabo Verde, Guiné-Bissau e Timor-Leste, juntam-se a mim para felicitar Vossa Excelência por ocasião do dia 5 de Junho de 2020", inicia assim a mensagem enviada pelo Embaixador da Guiné Equatorial em Portugal e perante a CPLP, Tito Mba Ada.

Na mensagem assinada por Samuel Ateba Owono, Embaixador da Guiné Equatorial no Congo-Brazzaville, expressa as suas felicitações "em nome do pessoal diplomático afecto a esta Missão, a colónia equato-guineense residente nesta República do Congo e em meu próprio nome, expressamos a Vossa Excelência as nossas calorosas felicitações pelo 78º aniversário do seu nascimento".

Com o Vice-Presidente da GE
- "Cada ano que celebramos é um ciclo que se fecha e outro que se abre, devemos aproveitar este novo começo para lutar pelos objectivos definidos para continuar a sua tarefa sagrada por uma Guiné melhor".
Que Deus salve o povo da Guiné Equatorial face à pandemia da COVID-19", conclui as felicitações enviadas pelo Embaixador da Guiné Equatorial na Confederação Suíça e Representante Permanente no Gabinete da ONU e noutras organizações internacionais com sede em Genebra, Lazaro Ekua Avomo

GUINÉ EQUATORIAL – UM EXEMPLO BEM SUCEDIDO DE COMBATE À MALÁRIA

Recentemente a  OMS alertou  os países  para que não deixem o COVID-19 eclipsar outros problemas de saúde, frisando que “o  paludismo continua a ser a doença infecciosa mais mortal da humanidade”admitindo a possibilidade  de  que os casos poderão chegar a 769.000 devido a essa desconcentração.  

Mas, pelos vistos, quem não precisa deste alerta é a Guiné Equatorial, que até já foi distinguida pelo seu esforço do combate à malária,  tendo sido noticiado que “ a  Guiné Equatorial continua na vanguarda mundial da luta contra a malária, envolvida no  Programa Bioko Island Malaria Elimination Program (BIMEP) - com a sua iniciativa de vacina contra a malária
Tal facto foi citado, recentemente,  num artigo na prestigiada revista de investigação da American Society of Tropical Medicine and Hygiene.

De recordar que "O Programa de Eliminação da Malária na Ilha Bioko (BIMEP) ganhou o Prêmio P3 Impact, que premia os melhores programas no nível mundial, impulsionado por parcerias de negócios público-privado (P3) e que visam alcançar um mundo melhor. Pela primeira vez na história dos prêmios Concordia, um programa vence em duas categorias: Prêmio do Júri pelo melhor Programa e Prêmio doo Ayekaba. https://www.guineaecuatorialpress.com/noticia.php?id=13983

Desde  2012, foram investidos mais de 55 milhões de dólares na iniciativa  Guinea Malaria Vaccine Initiative (EGMVI), a PfSPZ Health Vaccine, e na construção da estrutura de capital físico e humano para a sua implementação. O EGMVI pretende obter uma vacina Plasmodium falciparum sporozoite, juntamente com intervenções normais de controlo da malária, que eliminará a malária da Ilha Bioko, tornando-se um modelo potencial para futuras campanhas de eliminação noutros locais.

Com o Laboratório de Investigação Baney - parte de um projecto mais vasto do Instituto Nacional de Investigação - os progressos no EGMVI estão a progredir a passos largos. A parceria público-privada do programa está a produzir grandes resultados na investigação e desenvolvimento biomédico na Guiné Equatorial e está a desempenhar um papel fundamental na luta contra a COVID-19.

Actualmente, o EGMVI concluiu três ensaios de vacinas na Guiné Equatorial, dois ensaios de vacinas e um estudo de incidência da malária na Tanzânia, tendo-se iniciado os preparativos para um ensaio clínico que envolve mais de 2.100 voluntários. O pessoal técnico está actualmente a receber formação para obter vários diplomas avançados no estrangeiro e a receber formação em boas práticas clínicas e métodos protocolares específicos. https://www.guineaecuatorialpress.com/noticia.php?id=15519


OBIANG SALVOU-ME A VIDA




Conheci este homem há  45 anos - No dia 4 de Dezembro de 1975. Chama-se  )Teodoro Obiang Nguema Mbasogo - É o Presidente da Guiné Equatorial. Salvou-me de ser condenado pelo seu tio,  o auto-proclamado Presidente Vitalício Francisco Macias Nguema, que derrubaria em 3 de Agosto de 1979 - 

Ao cabo de 38 penosos dias, ao sabor das vagas, num simples madeiro escavado, acabo por acostar à Ilha de Bioko (ex-Fernando Pó), onde sou tomado por espião e encarcerado numa cela da Cadeia Central – para ser executado, já que este era o destino de quem ali era condenado: entrar vivo e sair cadáver. Considerada, naquela época, a prisão mais tenebrosa que os famigerados campos de concentração nazis


Felizmente, havia de ser uma mensagem,  autenticada pelo MLSTP, escrita expressamente  para saudar o Povo Brasileiro - admitindo que pudesse fazer a travessia de : Tomé ao Brasil -  que   haveria de  contribuir para me salvar a  vida. 

Mesmo assim, dada a  persistente desconfiança do então Presidente Macias, que nem depois de  enviar o seu barbeiro pessoal (o santomense, Sr. Bandeira) se convencera, nem da veracidade da referida mensagem, nem dos meus argumentos,   quem  acaba por ordenar a minha soltura é o seu sobrinho, o então comandante das Policias e das Forças Armadas, o atual Presidente Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, a quem fico a dever a vida. A ele, pois, nesta datada especial, um caloroso abraço de gratidão.  

"Durante o chamado "reinado do terror", o ditador macias Francisco Macías Nguema liderou quase um genocídio  (...) Nos últimos anos de seu governo,  a Guiné Equatorial, chegou mesmo a ser conhecida como a "Auschwitz da África" - In Malabo 
"Guineans believed their first president had supernatural powers. Using the knowledge of witchcraft he inherited from his sorcerer father, President Francisco Macias Nguema built a huge collection of human skulls at his homestead to beat his subjects to submission" In FRANCISCO MACIAS NGUEMAThe mad man from Equatorial


Nov - 1975 - OUVIA DA MINHA CELA NAUSEABUNDA, OS GRITOS LANCINANTES DE EXECUÇÕES E ESPANCAMENTOS  – ONDE APENAS TINHA UMA LATA PARA FAZER AS NECESSIDADES E UM BANCO COMPRIDO PARA ME DEITAR


"Dizer Black Beach é dizer a morte.Quando um prisioneiro chega a essa prisão, sua família começa a preparar o caixão".


Depois de ter sido encarcerado numa  das mais tenebrosas prisões de África, por ordens expressas do seu tio, o então jovem Obiang, confessava-se extremamente intrigado com o  insólito desembarque clandestino de um português numa canoa e  quis inquirir-me pessoalmente.  A referida cadeia  fora mandada construir no tempo colonial espanhol.  Chamavam-lhe, naquela altura,  a Cadeia Central e situava-se junto à Praia Negra, da cidade de  Malabo,  capital da Guiné Equatorial , Tratava-se, efetivamente, da famigerada Black Beach

Quando um prisioneiro, ali dava entrada, era o sinal dado à sua família de que tinha de preparar  o caixão para o ir buscar. Uns dias depois de ali ter sido encarcerado, fui conduzido ao edifício do Comando da Polícia e das Forças Armadas (aliás, contiguo à cadeia) onde se encontrava, Teodoro Obiang, sendo ele, então, o supremo  comandante,  que me mandou chamar ao seu gabinete - Foi o primeiro gesto de cortesia que eu encontrei a nível das autoridades policiais - Estou ainda hoje persuadido de que foi ele que me salvou de ser condenado.

"Havia todos os tipos de tortura. Eles penduravam os presos pelos tornozelos, amarraram-los em posições improváveis, vencê-los sem aviso prévio e em qualquer momento que eles queriam. Os guardas Black Beach tinham apenas a tarefa de espancar os prisioneiros",  Outro problema era a comida: muitos prisioneiros morreram de fome. "E o cheiro. As células foram eram tão  estreitas que uma pessoa não se poderia esticar, estavam sempre no escuro, e seu cheiro era muito forte, insuportável. Às vezes cheguei a pensar  em me matar."iais - Estou ainda hoje persuadido de que foi ele que me salvou de ser condenado. 


Sei, que este meu gesto, não vai ao encontro do chamado “politicamente correto”, do sectarismo imposto por certos analistas, que fazem tábua rasa do colonialismo europeu, que transformou o continente africano, numa manta de retalhos, não se importando da sua ancestralidade cultural e étnica, escravizando, retalhando, deportando, sem dó nem piedade, milhões de negros, fazendo deles párias nas suas terras de origem – Sim, omitem essa  tragédia, desviando as atenções da opinião pública mundial, desses hediondos crimes contra a humanidade – Por meu lado, não vou nessas modas, nesse juízo fácil e ao correr das modas, porque também fui uma das vitimas do colonialismo: não me mataram, porque não calhou - E aponte-se-me qual o governante, completamente  de mãos limpas e cofres vazios na Europa, na América, Ásia ou  Oceania?  - Só em África? - E o que se diz do atual liberalismo selvagem, neocolonial e  global?...

DEPOIS DE TANTAS INCERTEZAS, PELAS NOITES NEGRAS E ASSOMBRADAS DAS TEMPESTADES, AINDA TER QUE SUPORTAR TAMANHA INSTABILIDADE EMOCIONAL - Mas vá lá que prevaleceu o bom senso e a humanidade de quem era suposto dar a última ordem de Macias.






Mal me arrastava de fraqueza mas sentia-me como se estivesse a viver as aventuras de um inesperado Robinson Crusoe - E, mesmo ainda hoje, não sei se sentiria vontade de sair dali tão cedo. Porém, quando me apercebi de que havia um carreiro, muito batido, que ali desembocava e que poderia ser sinal de que a praia não era totalmente selvagem (de resto, pouco depois do nascer do sol e antes de a abordar, já ali tinha visto, na pequena língua do negro areal, um homem à cata de ovos de tartaruga) pelo que não tive outro remédio senão seguir aquele mesmo careiro, que me levaria a uma finca  - à sede de uma plantação de cacau.  Tal facto, ia-me custando a vida. Tomado por espião e depois de ter passado a primeira noite nos calabouços de uma esquadra, fui transferido algemado para Punta Fernando, onde ainda hoje se "encontra a famosa prisão de Black Beach também conhecida como prisão de Blay Beach onde foram encarcerados e torturados em numerosas ocasiões líderes políticos proeminentes

Travessia - S. Tomé Nigéria 
 A canoa foi carregada a bordo do pesqueiro Hornet, em 15 de Outubro, ao largo da Baía Ana de Chaves.  No dia 18, de manhã,  o pesqueiro fundeou  ao largo da Ilha  de Ano Bom- Próximo daquela que era então a Ilha mais esquecida do Mundo, apenas com uma ligação com Malabo   Ao pôr do sol, inesperadamente,  a canoa foi arreada por ordem do comandante, alegando que a canoa estorvava a pesca e que já não podia deixar-me na zona da grande corrente equatorial, que me arrastaria a oeste ao longo do oceano. Penso que, àquela hora, com a noite prestes a cair, o fez mais para me atemorizar e me convencer a desistir.

Mas enganava-se: eu já havia enfrentado  vários tornados, noites escuras e tempestuosas e, na minha mente, havia uma ideia longamente amadurecida e bem determinada: - Ir novamente ao encontro da imensidade atlântica! Ir ainda mais longe, custasse o que custasse!... Ninguém podia demover-me desse propósito e do significado que lhe pretendia atribuir. -  Estando o mar calmo, não havendo vento, dada a proximidade da Ilha, havia pois o risco de poder  ser assaltado... Praticamente, não consegui sair do mesmo sítio e sempre com os olhos na pequena ilha que tinha ali bem próximo, receoso que alguma canoa saísse de lá.  Até porque as últimas palavras que ouvira do alto do convés, foram bem esclarecedoras: "escapa-te daqui o mais depressa que puderes, senão te roubam!!"... Já com as primeiras sombras do curto crepúsculo e após um  giro em torno do horizonte, o referido barco aproximou-se de mim e voltou a carregar-me a piroga, prometendo largar-me no dia seguinte. Às tantas da noite, já com o pesqueiro de novo fundeado ao largo e envolvido por enorme agitação, varrido de  proa à popa,  pela já habitual tempestade noturna da época das chuvas, que o assolara já nas anteriores noites, sim, depois de muitos dos tripulantes virem junto de mim, tentando persuadir-me a  ficar a bordo com eles ("Jorge! Não vês, como está o mar?!... Vais morrer!!.. Fica connosco!.." ) o imediato veio falar comigo para me apresentar na cabine do Comandante: quis dissuadir-me a desistir da viagem,  convidando-me a trabalhar a bordo.  Não tendo aceite a sua proposta, obrigou-me assinar um termo de responsabilidade.


Na manhã seguinte, a  "Yon Gato", é  finalmente arreada ao largo de Annobón, com rumo de retorno a São Tomé - Mal o  sol equatorial  raiara, como que emergindo do fundo do vasto manto azul circular: à voz de "canoa ao mar"! Lá fui sozinho à minha vida, rumo ao Norte, munido apenas de uma simples bússola! Desiludido por não ter sido largado um pouco mais a sul e a oeste, lá parti, de regresso a São Tomé, pelo desconhecido oceano a fora, a pensar em refazer nova viagem e com o apoio marítimo  de alguém que não me traísse! - . Após um dia de navegação normal, com vento pela popa e à vela - mas sempre perseguido por duas canoas  para me roubarem os alimentos, dada a extrema penúria vivida naquela ilha - surge o inevitável temporal: um violento tornado, ao princípio da noite, vindo do sudeste,  uma súbita rajada de vento seguida por uma enorme vaga, apanha-me desprevenido e ainda com a nova casca de noz,  mal acabada de experimentar,  solta-me o leme (que lhe adaptei - e só por milagre também eu não fui atirado, com a cana do leme, para o seio daquela escurissima confusão, que só a curtos espaços os relâmpagos iluminavam) deixa-me a piroga atravessada à vaga e desgovernada, varrendo-me os apetrechos e forçando-me alijar da maior parte de viveres para aliviar o lastro e não ir ao fundo




- Lá foram mandados ao mar três bidões de água potável  e  as latas de conserva  oferecidas a bordo do Hornet. Apressei-me a enrolar a vela e a colocar o mastro (suplente) de través para lhe conferir alguma estabilidade e a lançar o 4º bidão de plástico, meio de água, preso a uma corda para fazer de âncora flutuante de modo a forçá-la a estar de proa à vaga.. O colchão insuflável, coloquei-o à proa com a lanterna, sobre o estrado) para o que desse e viesse, sim, era a única boia que dispunha e eu não sabia ainda muito bem como a canoa iria resistir e se comportar.. Escusado será dizer que a noite fora pavorosa!...Não há palavras para a descrever..De manhã improvisei um remo com um barrote e uns bocados que arranquei da cobertura, junto à popa..Sim, nunca cruzei os braços, nunca me dei por vencido: foram infinitos os momentos em que a vida esteve sempre presa  por um fio. Mas havia que lutar.


Era o começo de um longo e exaustivo tormento . Encontrava-me no Atlântico Sul , em pleno mar alto,  a 350 km da costa oeste do continente africano  e 180 km a sudoeste da ilha de São Tomé. As chuvas constantes da primeira semana, com o horizonte sempre encoberto, impedir-me-iam de avistar São Tomé. Mais tarde avistei a Ilha do Príncipe e Ilhéu das Tinhosas, mas, a falta de remo adequado, não me permitiram a aproximação. Por fim, a 27 de Novembro, acostei numa praia de Bioko (ex-Fernando Pó) .Onde fui preso e encarcerado por suspeita de espionagem.o condenado levasse.

PIOR DE QUE CELA, AUTÊNTICA LIXEIRA DE RATOS E DE CHEIROS NAUSEABUNDOS

Quem fornecia a comida aos prisioneiros, eram os familiares. Lá dentro não havia cozinhas nem refeitórios. Ao lado da minha cela, situava-se a casa de banho dos guardas prisionais,  que me mandava um pivete insuportável, mas que eu não podia utilizar. Havia baratas e percevejos por todos os lados. As ratazanas entravam na minha cela, chegavam a passear-se por cima de mim e a morder-me nos dedos dos pés, quando me deitava - Por vezes no chão, pois não conseguia estender-me e segurar-me no  banco. Também nem sequer dispunha de uma torneira ou de um lavatório. Para beber um copo de água tinha de  o implorar aos guardas, que só mo levavam quando lhes apetecesse. Por outro lado, também tinha de levar com o cheiro das minhas fezes, pois, só de manhã eram recolhidas. Como se não bastasse o estado de desnutrição, que quase me arruinara, tinha agora que levar com os suores e cheiros do meu corpo, pois não tinha onde me lavar. Daí que, quem ali desse entrada, não tardasse a que, ao fim de alguns dias, tivesse a sensação de que, em vez do prisioneiro se sentir um ser humano, se identificasse como um pária e ficasse assim mais propenso a aceitar a condenação como um castigo justo e inevitável. Felizmente, nunca me deixei abater, porque, as adversidades do mar, me haviam  preparado para todo o tido de dificuldades, no entanto, a passagem por aquela prisão (breve é certo) constitui uma marca negra nas minhas recordações da Guiné Equatorial e na minha vida.

MAS QUE MAL TERIA FEITO EU, PARA, APÓS OS 38 DIAS DE SOFRIMENTO  NO ALTO MAR, DAR ENTRADA NUM PRESIDIO DOS CONDENADOS À MORTE?!... - CHEGUEI MESMO A PENSAR SE NÃO TERIA VALIDO MAIS A PENA TER FICADO NA BARRIGA DE UM TUBARÃO.






Naquela altura, o pior que me poderia acontecer era acostar em qualquer ponto da Guiné Equatorial, ou nalguma das suas Ilhas ou no continente. Eu sempre pensei que os maiores riscos, não eram tanto as dificuldades no mar, mas a grande incerteza das condições em que poderia ser recebido onde fosse aportar. Quando fiz a viagem de São Tomé à Nigéria, depois de 13 dias solitários no mar, eu não fui maltratado mas não me livrei de ter sido privado da minha liberdade durante 17 dias, após o que me repatriaram para Portugal -  Na viagem dos três dias de São Tomé ao príncipe, fui preso e espancado pela PIDE - Ó sorte macaca! Que no mar me protegeste  e em terra me abandonaste!

"QUE ATREVIMENTO É ESSE!!" - QUASE ME IAM MATANDO QUANDO HASTEEI A BANDEIRA DE SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE

Na viagem à Nigéria, levei as duas bandeiras: a de São Tomé e Príncipe e a de Portugal Mas, nesta viagem,  apenas levei o pavilhão do jovem país independente aonde regressei sem um centavo na algibeira, onde encontrei todo o apoio que precisei para mandar construir a canoa e para a aparelhar.- Sim, e donde parti para grande aventura.  No meu cárcere, em Bioko, um de dia resolvi hastear a  Bandeira Nacional de São Tomé e Príncipe,  - Quando o carcereiro, que, de volta e meia vinha  espreitar a minha cela, topou, mas que heresia!... Foi buscar imediatamente a chave da cela e, ao entrar lá dentro, deu-me um empurrão contra a parede, e, ao mesmo tempo que agarrava nela e a amachucava, levando-a, berrava: Su mercenário! ¿Qué descaro!! Qué falta de vergüenza!! - Não posso dizer que fosse  agredido fisicamente, mas humilhado e submetido a uma incerteza psicológica terrível. É que, após ter dado entrada naquele maldito presídio de condenados à pena capital, contava sempre com o pior: de resto, os presidiários que me visitaram pela janela e me levaram comida, avisam-me logo, com esta pergunta: "És político?!..- A que eu respondi: "Não!" Diz um deles: "Então talvez te safes. Mas não digas mal do Presidente, senão... podem decapitar-te!

POUCOS  DIAS DE CATIVEIRO, MAS AUTÊNTICAS ETERNIDADES - QUEM NÃO RECEBESSE COMIDA DO EXTERIOR, MORRIA DE FOME

A cadeia não fornecia  alimentação: tinham de ser os familiares. Nos primeiros três dias, quem me passou alguma comida (massa de mandioca, regada com  óleo de palma, que mais das vezes a vomitava para a lata das necessidades, pois eu estava magríssimo e, o meu estômago, já não estava habituado a comer alimentos sólidos, há muitos dias), sim, quem me deu alguma comida,   foram os próprios condenados, que trepavam curiosos à minha janela gradeada, durante o curto recreio que dispunham, num átrio para a qual a  minha cela estava voltada. Creio que, naquela altura, devia ser o único europeu preso. Agora, depois que houve por lá uma tentativa fracassada de Golpe de Estado, em Março de 2004, estão lá presos alguns dos implicados. Mas nada que se compare às tenebrosas condições daqueles tempos.  

Nos dias seguintes, passei a receber uma cestinha, com frutos e outros alimentos, por parte  do barbeiro do Presidente Nguema, um amável são-tomense, que era também o representante diplomático e que ali tinha ido a seu mando para  recolher informações a meu respeito - E, se não fosse o facto de ter comigo uma mensagem autenticada pelo MLSTP, que lhe entreguei para a mostrar a Nguema, dificilmente de lá sairia vivo - A mensagem  destinava-se a saudar o Povo Brasileiro,  viagem que não consegui realizar, pelo facto do comandante do pesqueiro americano se ter recusado a deixar-me na corrente equatorial, mas junto à Ilha de ANO BOM, onde os ventos e as correntes tomavam a direção Norte, tendo, nessa mesma noite, sido surpreendido por um violento tornado, que me fez perder a maior parte dos alimentos e apetrechos 


Não vês, como está o mar?!... Vais morrer!!.. Fica connosco!..

A canoa "Yon Gato" foi carregada a bordo do pesqueiro Hornet, em meados de Outubro,  de 1975, ao largo da Baía Ana de Chaves para ser largada na corrente equatorial - Porém, contrariamente ao prometido, ao fundear junto à Ilha de Ano Bom (Guiné Equatorial) com o pesqueiro envolvido por enorme agitação noturna, varrido de  proa à popa,  pelas já habituais  tempestades da época das chuvas, que o assolaram nas anteriores noites, o comandante chama-me à câmara de comando para desistir  do meu propósito e coloca-me num dilema:  ou fico a trabalhar a bordo ou tenho que ser largado com a canoa. De resto, este era também  o aviso e a  vontade expressa da  tripulação: "Jorge! Não vês, como está o mar?!... Vais morrer!!.. Fica connosco!.." Não tendo aceite a sua proposta, obriga-me assinar um termo de responsabilidade, antes de arrear a canoa ao mar.


Diário de Bordo .... 15ª dia -  UM GRANDE BARCO PASSOU AO MEU LADO ***** ******.....17ª Dia - Se me perguntassem qual era o meu maior desejo ..... ....;BIOKO À VISTA - ILHA DO “DIABO......***.;NÁUFRAGO - 18ª DIA – MAIS UM BARCO PASSOU A CURTA DISTÂNCIA ......; 19º Dia – Sinto muita sede  ...     ...; 20ª Dia Estou envolvido por enorme cardume,...........;21º DIA – “Sinceramentejá tenho pena de ter ferido aqueles tubarões n............;Náufrago 22.º dia - A canoa esteve há pouco à beira de se virar .......;23º Dia -Vi uma borboleta!    ..24º Dia - É tubarão!.... Filho da mãe....... 25º diaEstou cheio de sede e de fome............26ª Dia Não tenho comidaÁgua também não. .      . 27ª dia  mar nunca se podem fazer cálculos seguros!...........28º Dia - Grandes vagas alterosas entravam dentro da minha canoa!.        29ª dia - Passei a noite todo encharcado.....       30º Dia - Não comi nada: limitei-me a comer uma das barbatanas do tubarão. .......... 31º Dia - A canoa a meter água cada vez mais!.... .............. .32º Dia -Estou comendo o coco! Avidamente!... Sofregamente!................33º Dia - Estou exausto!.........Dia 34º -  Sinto uma grande dureza no estômago..........35ºDia - Acordei com o barulho de uma enorme baleia aqui próximo da canoa ....36º Dia - Comi a ave que apanhei ontem! (...) Tenho a costa de África muito próxima... É já noite"... Estou a velejar! Estou-me a precipitar como um suicida. Tenho fome! ... Não posso demorar mais tempo!......37ª Dia Estou partido! Tenho o estômago metido para dentro...Estou realmente bastante fraco..




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