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Entre outros assuntos, falo da escalada ao Pico Cão Grande e das minhas aventuras em canoas – Visam defender a teoria de que antigos povos africanos, podiam ter sido os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo da Guiné, antes dos colonizadores – Parti à meia-noite, disfarçado de pescador, ligando a ilha do Príncipe. Para me orientar, uma rudimentar bússola – A canoa era minúscula, à segunda noite adormeci: rolei na escuridão das vagas. No regresso fui distinguido com sopapos da policia salazarista, enviado para os calabouços – Cinco anos depois, numa piroga maior, fiz a ligação São Tomé-Nigéria. Partindo igualmente à noite, 13 dias depois atingia uma praia de Calabar, tendo sido detido 17 dias por suspeita de espionagem. - No mesmo ano, já com São Tomé e Príncipe independente, tentei a travessia São Tomé ao Brasil, usando os mesmos recursos. Além de pretender reforçar a minha teoria, desejava evocar a rota da escravatura e repetir a experiência de Alain Bombard. Porém, quis a ironia do destino que vivesse a difícil provação de um naufrágio de 38 longos dias, tendo aportado numa praia de Bioko (Bococo)onde fui recambiado para a famosa prisão de Black Beach

sábado, 11 de julho de 2020

Lisboa - Do amolador da minha adolescência - Dos meninos escravos das velhas mercearias, a dormir nos jardins (assim me aconteceu) e do pregão das varinas pelas ruas e dos fadistas dedilhando sons nas esquinas

JORGE TRABULO MARQUES





Ao revisitar a Calçada de Santana, em Março passado, onde trabalhei como marçano em garroto, numa das antigas mercearias, para minha surpresa, ali bem perto ao Nº 75, donde partia, aos 12 anos, com caixote ao ombro a levar as compras aos clientes, subindo e descendo as escadas de ferro das traseiras dos edifícios, curiosamente, deparei-me com um velho amolador de facas e de tesouras - Não cheguei a saber se ainda buzina ou faz eco de algum pregão , em todo o caso, deixo-lhe aqui o breve registo e também algumas linhas do que eu recordo desses meus velhos tempos, nomeadamente do Bairro Alto, onde também fui menino escravo de uma leitaria





Conheço o Bairro Alto desde rapaz. Guardo daquelas ruas velhinhas muitas recordações. Mas , desse tempo, pouco mais resta que o seu casario. Está tão descaracterizado! Tão diferente! Sou de uma pequena aldeia nortenha. Mal acabei a instrução primária, vim procurar a vida na cidade alfacinha, como marçano - O meu primeiro trabalho, foi numa mercearia na Calçada de Santana. Depois conheci vários empregos. Era sempre a mesma coisa!... O marçano era o "moleque negro" para todo o serviço - e a custo zero. Tinha que aprender a escola antiga dos patrões. Servir o cliente com subserviência mas ir-lhe ao bolso nas compras.. Todos queriam que roubasse umas gramas e eu não tinha jeito para isso. Andei lá pelos penhascos agrestes atrás das ovelhas do nosso pastor e as minhas mãos não estavam talhadas para maniganças aligeiradas(mas eficazes) nas balanças. Acabavam por me mandar embora ou era eu a despedir-me . E lá voltava andar com o saquito da trouxa às costas até conhecer novo patrão. Dormi muitas noites no desvão das escadas ou nos terraços de cimento dos prédios mais altos(subindo pela escada de serviço para que ninguém me visse. Receava os vadios e envergonhava-me. Além disso, não tinha dinheiro para pagar nas pensões. O pouco que me restava era para as carcaças. E também não me queriam lá. Era menor. Uma manhã acordei de tal maneira enregelado, que, mal me levantei, logo caí! - Oh como eram longas e frias aquelas horas da noite e da madrugada!... Ouvia-as bater nas torres das igrejas... Custavam-me tanto a passar!...  Mas, uns dias depois , lá acabava por arranjar outro patrão. Não pagavam quase nada... Era quase de borla, sempre ao seu dispor e qualquer mercearia gostava de ter o rapaz-marçano.

PERFUME DO FADO – Dee  Euclides Cavaco
Lembrando o fado de outros tempos  - No mês do centenário de Amália o fado está mais vivo.
Das centenas de temas que dediquei ao FADO, partilho hoje este,
adornado pelo video do meu especial amigo Afonso Brandão.



Trabalhei perto da antiga Feira Popular, em São Sebastião da Pedreira. Agora é jardim da Gulbenkian. Na Rua da Graça (na Mercearia Pérola de Lisboa - imagine-se que nome tão pomposo onde era tratado como escravo !) e em noutros sítios onde nada se alterava. Antes de regressar à minha aldeia - desiludido e para encetar outro tipo de vida - (o seminário mas também porque pouco tempo), empreguei-me na Rua da Atalaia. Foi o melhor período que conheci em Lisboa. Gostei de ali viver! - As pessoas familiarizavam-se e conheciam-se rapidamente! Era tudo tão pacato!... que não havia quase grandes diferenças da terra onde nasci. Mulheres da vida também já eu as conhecia: de volta e meia aparecia por lá uma tal "Chucha" desdentada na taberna do "Tio Timóteo"que punha os adultos em alvoroço (e em bicha - esperando impacientes cada um por sua vez) e a canalha num autêntico frenesim a espreitar o que os mais crescidos faziam. Só que, enquanto lá era atrás de um penedo, no velho bairro fadista, era em casas de passe. E podiam passear-se pelas ruas como mulheres fatais!


Mas o Bairro Alto já não é o mesmo bairro típico daquele tempo!... Longe vão esses dias!... Hoje está muito diferente de quando andei por ali a calcorrear as suas calçadas. A subir e a descer escadas com o pesado caixote de madeira sobre o ombro para levar as compras aos fregueses que se haviam abastecido na velha mercearia – Bastava que até comprassem meio quilo de arroz ou meio de açúcar para terem direito a que o menino-escravo lhe levasse as compras a sua casa. Oh onze anos ainda frescos da minha vida! E já a comer o pão que o diabo amassava! - As parcas gorjetas e mais uns tostões ao fim do mês! - Mesmo assim, as saudades são muitas!




Longe as manhãs dos pregões da varina com a canastra à cabeça Há sardinha linda ...olhó carapaaaaauuuu fresquiiiiiinho! E do leite que era vendido de porta em porta. Do apito do amolador das facas e das tesouras, do vendedor das mantilhas e dos capachos. E de tantas outras vozes de venda ambulante da fruta e hortaliça – olha a fava riiica! Olha o par de melancias e melões! Olha os moranngos de Siiintra! Rebuçados caseiros: A tostão, e é cada matacão!!! Era o apregoar dos mais variadíssimos produtos: do pão quentinho, acabado de sair do forno e dos Figos: Quem quer figos!!!, quem quer almoçaaar!!! Cujas vozes ecoavam pelas ruas, ainda o sol estava longe de assomar sobre as colinas da Graça e do Castelo ou de irromper sobre a planície que se estende além do estuário do Tejo. No entanto, já da Praça da Ribeira - onde ainda mais cedo principiara o agitar de um bulício vivo e colorido, por entre os amontoados dos legumes e das frutas que rescendiam de cheiros intensos, frescos e perfumados , num misto de odores de verduras e de outros primores colhidos ou arrancados à fertilidade da lezíria – sim, já a laboriosa gente de vendedores e vendedeiras partira rua acima ( Rua do Alecrim, Rua das Flores ou pela íngreme Calçada da Bica), para se dirigirem ao típico bairro fadista. Fazendo ecoar os primeiros pregões, por entre sorrisos alegres, expressões risonhas , bem dispostas, que o esforço duro e vida pobre, pareciam não toldar!

Imagem extraída de http://lisboanoguiness.blogs.sapo.pt/10349.html


Todas essas vozes e imagens pertencem ao passado. Tudo ali se alterou e está completamente desfigurado. Nem as tascas típicas nem as velhas mercearias! Tudo isso já desapareceu. Até o fado é escasso, mudou de figurino e já é outro! Agora há os bares! - Muitos bares e uma estranha diversão noturna - onde os cheiros que vêm lá de dentro, misturados com os perfumes da moda dos habitués aos pestilentos odores da recolha do lixo, se tornam insuportáveis! Preferia mil vezes os cheiros de então. Não havia muito asseio nas ruas. Mas era tudo mais natural e bem mais tranquilo!... 

Não se corria o risco de ser assaltado por dá cá aquela palha. Não havia liberdade de expressão.Mas isso era lá com os jornais... eu ainda não compreendia muito bem essas coisas. Só me apercebia da escravidão... e dos patrões que me davam umas valentes caneladas - atrás do balcão - sempre a sorrir para o cliente, como quem faz uma finta sem se mexer - se não desse uns toques subtis na balança e desviasse umas gramazitas no peso do cartucho de cada compra ao freguês e à freguesa. Não se roubava tanto como agora mas roubava-se alguma coisa. O pequeno comércio vivia para sobreviver! Não havia a violência e o descaramento de hoje. Confesso que já nem sei muito bem o que vale mais: se a miséria pacífica daquela altura ou se a liberdade de agora onde a pobreza anda à solta com o consumo da droga e a insegurança...Apesar de tudo, não queria voltar a conhecer o tempo do "botas"! - Sobretudo, já em adulto... Não é fácil deixar de me lembrar dos murros da PIDE!... Puta que os pariu!...




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