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Entre outros assuntos, falo da escalada ao Pico Cão Grande e das minhas aventuras em canoas – Visam defender a teoria de que antigos povos africanos, podiam ter sido os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo da Guiné, antes dos colonizadores – Parti à meia-noite, disfarçado de pescador, ligando a ilha do Príncipe. Para me orientar, uma rudimentar bússola – A canoa era minúscula, à segunda noite adormeci: rolei na escuridão das vagas. No regresso fui distinguido com sopapos da policia salazarista, enviado para os calabouços – Cinco anos depois, numa piroga maior, fiz a ligação São Tomé-Nigéria. Partindo igualmente à noite, 13 dias depois atingia uma praia de Calabar, tendo sido detido 17 dias por suspeita de espionagem. - No mesmo ano, já com São Tomé e Príncipe independente, tentei a travessia São Tomé ao Brasil, usando os mesmos recursos. Além de pretender reforçar a minha teoria, desejava evocar a rota da escravatura e repetir a experiência de Alain Bombard. Porém, quis a ironia do destino que vivesse a difícil provação de um naufrágio de 38 longos dias, tendo aportado numa praia de Bioko (Bococo)onde fui recambiado para a famosa prisão de Black Beach

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Viagem Clandestina ao Paraiso - São Tomé ao Príncipe, numa minúscula piroga- A 1ª das minhas aventuras marítimas - 3 dias - Na 2ª noite adormeci e voltou-se -Como prémio, oito dias nos calabouços da PIDE-DGS e uns valentes sopapos -


Nestes dias de alguma incerteza e depressão, faz bem recuar no tempo e viver épicas memórias  - No dia 21 de Dezembro, vão completar-se 550 anos que, João de Santarém e Pero Escobar,  desembarcaram em São Tomé - Eu estive lá, há 50 anos,  no Padrão a homenagear os nossos destemidos navegadores – E voltei ao mesmo sitio em 2014 - Veja as imagens  - Jorge Trabulo Marques

21 de Dezembro de 1970
Outubro 2014

   “Contar-te longamente as perigosas
  Cousas do mar, que os homens não entendem,
   Súbitas trovoadas temerosas,
    Relâmpagos que o ar em fogo acedem,
      Negros chuveiros, noites tenebrosas,
           Bramidos de trovões que o mundo fendem,
                  Não menos é trabalhos que grande erro,
                       Ainda que tivesse a voz de ferro.”

                                      Camões


No reinado de D. Afonso V (1469-1481),   vinte e oito anos antes de Vasco da Gama, navegar ao longo de toda a África ocidental, contornar  o Cabo da Boa Esperança e a alcançar o caminho marítimo para a Índia, foi consolidada a presença de navegadores portugueses no golfo da Guiné,
Fernão Gomes ganhou um contrato para que descobrisse terras a sul da Serra Leoa, e, nesse entretempo, os navegadores portugueses foram descobrindo todas as ilhas que ali se erguem das profundidades oceânicas.  que haveriam de percorrer – admite-se -  pelas suas naus mais de vezes as dimensões de norte a sul de Portugal
Não é consensual a data da descoberta da Ilha de São Tomé, pois há historiadores que admitem que tenha sido descoberta em 1471 por Vasconcelos no dia de S. Tomás. Mas há outras versões sendo a mais usual a de que estas “ilhas que estavam desabitadas até 1470, foram descobertas pelos navegadores portugueses João de Santarém, Pedro Escobar e João de Paiva. Esses três navegadores, parece que descobriram em 21 de Dezembro de 1470 a ilha de S. Tomé e em 1 de Janeiro de 1471 a Ilha de Ano Bom (Pagalu). No regresso descobriram a Ilha de Príncipe a que puseram o nome de S. Antão, talvez a 17 de Janeiro de 1471” – No ano seguinte, o primeiro europeu a alcançar a maior ilha setentrional, é Fernando Pó, atual Ilha de Bioko, então batizada pelo seu nome. Chegou também à foz do rio Wouri a que chamou de Rio dos Camarões que depois deu o nome ao actual estado africano dos Camarões.
E, também não foi em Anambô, que chegaram os primeiros navegadores, mas onde iniciaram a colonização
Seja como for, o dia 21 de Dezembro, tem sido o dia das comemorações - A que me referi em várias reportagens da  revista angolana Semana ilustrada -  E, tal como também  é dito na antologia de Amândio Cesar, houve que escolher uma data e convencionou-se o 21 de Dezembro

Depois de ter realizado uma viagem costeira desde a Baía Ana de Chaves (onde se situa a cidade), até à praia onde se encontra o padrão que assinala a chegada dos primeiros navegadores portugueses, precisamente no dia em que se comemoravam os 500 anos da descoberta das ilhas (experiência que serviria também de teste para outras viagens mais arrojadas), parti então para a primeira aventura, que foi a travessia de São Tomé ao Príncipe. Larguei à meia-noite, clandestinamente, pois sabia que, se pedisse autorização, esta me seria recusada, dada a perigosidade da viagem, levando comigo apenas uma rudimentar bússola para me orientar. Fui preso pela PIDE, por suspeita de me querer ir juntar ao movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe, no Gabão, o que não era o caso. Levei três dias e enfrentei dois tornados. À segunda noite adormeci e voltei-me com a canoa em pleno alto mar .Esta era minúscula e vivi um verdadeiro drama para me salvar, debatendo-me como extrema dificuldade no meio do sorvedouro denegrido  das águas. 


Olho à volta e olho para dentro e para fora de mim.
À minha volta é o mar, o eterno mar a bramar!
Para onde me levará a escura noite e a voz do vento?
O meu coração palpita, palpita muito mas não me responde.
Prefere deixar-me mudo, suspenso e angustiado.
Mas, apesar de tudo, no meio do silêncio, sinto
uma luminosa tristeza subindo, subindo  dentro de mim.
Ouço-me, porque, nada digo, nada falo; só me escuto!
Estou comigo intimamente, estreitamente.
Comigo e com este mundo tenebroso e vazio.
Sei que necessito de muito equilíbrio, de muito cuidado
Para não ser apanhado pela vertigem do abismo.
Boiam farrapos de novelos de névoas, de figuras medonhas
que exalam  um aroma intenso, esquisito,  salgado de maresia.
Vindo das profundezas ou do largo, da negra vastidão!
Que, de tão húmido, tão condensado me asfixia,
Entorpece-me, corta-me e afoga a respiração!
Na verdade, tudo parece dissolver-me, desintegrar-me, ~
num autêntico dilúvio de poeira e som.

Respiro fundo, como se quisesse aspirar  
todo o mundo e extrair do ar
uma outra vida que não à que me prendo
e a que me ligo neste vasto mar
bravio e selvagem e a que não me rendo!

Enquanto o mar cresce, não para de crescer .
Cresce o mar e cresce o vento,
E cresce também o meu desejo de viver
Cresce  um tempo trazido de um tempo de desolação!
De violentas vozes, violentos uivos e gritos de cólera e destruição!

Em resumo, direi que sou autor de várias travessias em pequenas pirogas primitivas, nos mares do Golfo da Guiné, por força de muitos treinos, sempre que me era possível, de praia em praia, nas frágeis canoas dos corajosos pescadores de São Tomé, aos quais desejo aqui expressar um abraço de reconhecimento e de admiração, não apenas pela dureza e risco das suas vidas, em que se expõem, sempre que partem para o mar, como também pelos ensinamentos que me prestaram, já que foram eles os meus melhores mestres.

Depois de me sentir suficientemente preparado, que simplesmente empreender as habituais saídas de canoa, na praia Maria Emília ou ir até à Fortaleza S. Jerónimo, na piroga que ali comprara a um velho pescador por 200$00, decidi fazer um teste um pouco mais ousado, indo de canoa desde a Baía Ana de Chaves até à praia de Anambô. Este é o local onde se encontra o padrão que assinala a chegada dos primeiros navegadores portugueses, justamente no ano em que se realizavam as comemorações do V centenário do seu desembarque, em destemidas e frágeis caravelas, filhos de um pequeno país, mas que, graças à sua notável valentia, à grande gesta destes e de outros navegadores portugueses, haveriam de mudar a história e a geografia do mundo, em admiráveis epopeias marítimas, cantadas nos épicos versos de Luís de Camões, corajosas façanhas que muito admiro, contrariamente a vários aspetos da colonização, cuja dura realidade também a senti no corpo e no espírito. A viagem de ida e volta, foi bem sucedida, não me oferecendo grandes dificuldades, concluindo que estava habilitado a outros desafios mais arriscados.

Um mês depois, aí estava eu, tal como aqueles intrépidos navegadores, e à semelhança dos arrojados pescadores destas maravilhosas ilhas, quando o tornado os arrasta para o desconhecido, a desafiar a vastidão do mar, num simples madeiro de ocá escavado.

Larguei à meia-noite, clandestinamente, pois sabia que se pedisse autorização esta me seria recusada, dada a perigosidade da viagem, levando comigo apenas uma rudimentar bússola para me orientar. No regresso de avião a São Tomé, fui preso pela PIDE, por suspeita de me querer ir juntar ao movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe, no Gabão, o que não era o caso. Levei três dias e enfrentei dois tornados. À segunda noite adormeci e voltei-me com a canoa em pleno alto mar. Esta era minúscula e vivi um verdadeiro drama para me salvar, debatendo-me como extrema dificuldade no meio do sorvedouro denegrido das águas.


Cinco anos depois, numa piroga um pouco maior, fiz a ligação de São Tomé à Nigéria. Uma vez mais parti sem dar a conhecer os meus propósitos, ao começo da noite, servindo-me apenas de uma simples bússola. Ao cabo de 13 dias chegava a uma praia ao sul deste país africano, tendo sido detido durante 17 dias por suspeita de espionagem, após o que fui repatriado para Portugal. Os jornais nigerianos destacaram em primeira página o feito.

Os objetivos destas travessias visavam demonstrar a possibilidade de antigos povos africanos terem povoado as ilhas, situadas no Golfo da Guiné, muito antes dos outros navegadores ali terem chegado, contrariamente ao que defendem as teses coloniais, que dizem que as ilhas estavam completamente desabitadas. E a verdade é que, entretanto, já foram encontradas antigas cartas em arquivos, com nomes árabes que testemunham esses contactos. Contributos esses que, de modo algum, poderão pôr em causa o mérito dos ousados feitos dos navegadores portugueses.

Regressado a São Tomé, ainda no mesmo ano, e já com São Tomé e Príncipe independente, tentei empreender a travessia ao Brasil, com o propósito de reforçar a minha tese, evocar a rota da escravatura através da grande corrente equatorial e contribuir para a moralização de futuros náufragos, à semelhança de Alan Bombard. 

Segundo este investigador e navegador solitário, a maioria das vítimas morre por inação, mais por perda de confiança e desespero, do que propriamente por falta de recursos, que o próprio mar pode oferecer. Era justamente o que eu também pretendia demonstrar. Navegando num meio tão primitivo e precário, levando apenas alimentos para uma parte do percurso e servindo-me, unicamente, de uma simples bússola, sem qualquer meio de comunicar com o exterior, tinha, pois, como intenção, colocar-me nas mesmas condições que muitos milhares de seres humanos que, todos os anos, ficam completamente desprotegidos e entregues a si próprios. Porém, quis o destino que fosse mesmo esta a situação que acabasse por viver. 

A canoa foi carregada num pesqueiro americano para ser largada, na corrente equatorial, um pouco a sul de Ano Bom. Porém, à chegada a esta ilha, o comandante propôs-me abandonar a canoa e ficar a trabalhar a bordo, alegando que a mesma estorvava e que a aventura era muito arriscada. Na impossibilidade de ser levado para a dita corrente, decidi-me pelo regresso a São Tomé para tentar a viagem noutra oportunidade. Foi então que uma violenta tempestade me surpreendeu em plena noite, tendo perdido a maior parte dos víveres, os remos e outros apetrechos. Ao sabor das vagas, num simples madeiro escavado, é difícil imaginar pior situação. Mesmo assim, com a canoa completamente desgovernada, não cruzei os braços e nunca me dei por vencido. Peguei num dos mastros e coloquei-o de través para garantir algum equilíbrio. Um dos bidões foi amarrado a uma corda e largado para servir de âncora flutuante. No dia seguinte improvisei um remo com um dos barrotes do estrado da canoa e pedaços da cobertura, a fim de conseguir dar alguma orientação. Mas de pouco me haveria de valer face à fúria dos constantes tornados. Como bóia de salvação utilizei o resto do estrado e adaptei-lhe um pequeno colchão de ar; frágil recurso para forças tão descomunais!



Foram momentos de extrema aflição, que me pareceram verdadeiras eternidades, durante 38 longos e difíceis dias, 24 dos quais a beber água do mar e das chuvas, e duas semanas sem alimentos que não fosse algum peixe que ia apanhando (e quando acontecia) ou ave que, entretanto, pousando, sacrificava. Enfrentando tempestades, sucessivas, incluindo ataques de tubarões. Ainda cheguei a pescar alguns de pequeno porte, enquanto tive anzóis. Mas, até estes, mais tarde, me haveriam de faltar.



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