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Entre outros assuntos, falo da escalada ao Pico Cão Grande e das minhas aventuras em canoas – Visam defender a teoria de que antigos povos africanos, podiam ter sido os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo da Guiné, antes dos colonizadores – Parti à meia-noite, disfarçado de pescador, ligando a ilha do Príncipe. Para me orientar, uma rudimentar bússola – A canoa era minúscula, à segunda noite adormeci: rolei na escuridão das vagas. No regresso fui distinguido com sopapos da policia salazarista, enviado para os calabouços – Cinco anos depois, numa piroga maior, fiz a ligação São Tomé-Nigéria. Partindo igualmente à noite, 13 dias depois atingia uma praia de Calabar, tendo sido detido 17 dias por suspeita de espionagem. - No mesmo ano, já com São Tomé e Príncipe independente, tentei a travessia São Tomé ao Brasil, usando os mesmos recursos. Além de pretender reforçar a minha teoria, desejava evocar a rota da escravatura e repetir a experiência de Alain Bombard. Porém, quis a ironia do destino que vivesse a difícil provação de um naufrágio de 38 longos dias, tendo aportado numa praia de Bioko (Bococo)onde fui recambiado para a famosa prisão de Black Beach

sábado, 14 de abril de 2012

NÁUFRAGOS DO TITANIC - IN MEMORY OF THE TITANIC WRECK - A Singela Homenagem de quem viveu o sufoco aflitivo das onda


Recordando a dramática tragédia do Titanic - Depois, se puder, não deixe de ler algumas notas do meu diário de bordo dos meus 38 longos dias perdido no mar a bordo de uma piroga Dia 34º - Deitado no fundo da canoa...Não tenho comida... Sinto uma grande dureza no estômago..............35ºDia - Acordei com o barulho de uma enorme baleia aqui próximo da canoa..(...)A canoa está cheia de água!...(..) Há uma fraqueza geral em mim...mas o espírito permanece forte...A confiança é inabalável..  Os meus singelos versos à coragem dos que se salvaram e à saudade dos que lá ficaram 



Perdida  nas brumas do  tempo e das já diluídas trevas... 
Longe vai a noite enlouquecida, centenária, impiedosa!
Longe vai o tumultuoso silêncio  da desolada paisagem!
Longe  vão as solitárias preces na escuridão do ar!
Longe vão os gritos, de assombro, das horas incertas!
Longe  e desvanecidas as escuras e espumosas espáduas!
Longe vai o aflitivo olhar das vidas abandonadas e perdidas!
Sim, longe já vai o vagabundo balouçar da imortal tragédia!
Que atormentou e sepultou e lançou ao escuro fundo
o mais luxuoso navio do mundo  - o lendário Titanic
 - No seu percurso inaugural de Inglaterra à América.
A quatro dias de viagem, em águas geladas mas calmas, 
muito  afastadas do  Ártico,  mas subitamente transformadas 
em aragens de afrontosas ameaças e de arrepio! - Semeadas 
por  flutuantes e perigosos icebergues, cujo brilho azulado

Edward J. Smith 
em latitudes do inóspito e áspero Atlântico Norte. 
onde, na desolada e pálida planície  sonora de cinza 
o noturno espaço se ofusca sob límpido mas negro céu!
 A Primavera tarda, o  dia ainda cintila em névoa fria 
e,  a noite,  sob o longínquo olhar  das suas estrelas,
tem, da cor da fuligem, um sinistro e impiedoso véu!

Porém, eu, náufrago, sobrevivente
em atribulados mares de outras paragens, 

por natural associação às longas horas 

que por mim foram vividas, ainda diviso,
debaixo da treva e do assombro da ímpia 
noite sideral, imponente perfil do luxuoso navio 
que, sulcando o mar em imprudente marcha veloz, 
vai embater e raspar nas gélidas arestas de  erguido
fantasma gelado à superfície das misteriosas águas,
sofre duro rombo a estibordo, e, desamparado,
perde-se para sempre e naufraga, engolido e partido!

- Consequência de monstruoso temporal, casuais fatalidades 
ou flagelos inevitáveis?!.. -  Oh, não,  nada o salvará!... 
Os caprichos do destino são incontornáveis!...
Porém, mais grave que os inesperados perigos e ameaças,
é quando, às adversidades obscuras e incontornáveis, 
súbitas aparições de um flutuante , ínvio bloco marmóreo
de aparência sinistra,  deslumbrante e fantasmagórica,
acresce a negligência, a leviandade e a insensata vaidade!..









Pelo telégrafo surgem avisos e alarmes vários
 a que  não se dá crédito. Aumenta-se até a velocidade
 para se apressar e festejar a chegada -Porém, 
às 23h40, do dia 14 de Abril de 1912, com o navio a navegar  
a 640 km dos Grandes Bancos da Terra Nova, "os vigias do mastro, 
Frederick Fleet e Reginald Lee, avistaram um icebergue bem em frente do navio" 
- Tarde de mais!... Quando o sino de  bordo dá o alerta do alto toca três vezes a rebate, 
embate inviável à vista!...Um rugidor e sinistro  choque  de ferros estala e ecoa nos ares!
Fende e repercute a fatídica desventura através da espectral vastidão azarada e vazia do  mar!


Por isso,  oh tenebroso e perturbador  instante de sofrimento e pranto! - Esquece
do céu a consolação  que não veio do turbado horizonte e das insensíveis águas! 
Esquece a insana e chorosa dor! O lamento ensurdecido de um tormentoso  destino
que te atraiçoou ou maldisse! - Sim, esquece o desmaio de tudo isso e não o lamentes!
Pois haverá maior culpado  que a mente humana
quando  despreza e descura as  hostis 
e adversas   forças da Natura?!..

Todavia, evoco o vosso sofrimento, ó lúgubre navio e lágrimas choradas!

Vivendo a incerteza  e angústia, ainda não sarada, daqueles meus longos e penosos dias,
 cujo lastro  tenho bem presente  na alma  ferida por longas e tormentosas noites de vigílias,
vejo-vos e  ouço-vos, corações atormentados! Escuto  os ais e os gritos aflitos,
as desolações que se afundam! -  Nitidamente descortino, 
no tropel confuso da tragédia humana que vos enlutou, 
e, sob a  capa da mais gélida e sideral atmosfera, 
o imenso poço que vos submergiu e afundou!

Ouço os vossos soluços e claramente  vos revejo e situo ó  almas  perdidas!  
Através da luz sombria que ficou  memorizada nos meus olhos, 
das muitas imagens que a minha retina em desvairadas tempestades fixou,
ainda consigo descobrir,  já engalfinhada  por mãos de terríveis  sacrilégios,
 a majestosa e  iluminada esfinge que vos transportava,  
agora enxague e ferida por  um dos enormes escolhos vítreos 
que boiavam soltos, que tragicamente a romperam e traíram
e que não tardará a desvanecer-se...- Qual sopro de vela 
que flutua acesa e depois se afunda e apaga.    
- Oh imenso vale sacrossanto, sombrio e abandonado!
Oh firmamento nubloso e entristecido de inatingíveis estrelas e astros!
Oh chagas de um Cristo crucificado na cruz e atraiçoado pelos seus!
Oh madrasta e maldita sorte!... Miserável e ímpia morte!
Oh extrema desventura no vasto mar,sob esquecido teto dos céus!
  











 É noite de Lua Nova! Noite mais propensa 
ao ressurgimento dos indiscifráveis mistérios
 que, a  rompê-los ou a desvendá-los - Em redor 
não há claridade alguma. Não se enxerga nada.
- O mar é a imensa planície escura mas tranquila.
A noite é gélida mas aparentemente pacífica e calma.
Os habituais ventos que sopram em noites frias e aziagas, 
parece terem-se apaziguado  ou feito algumas tréguas - Não uivam!
Não há nevoeiros compactos, coalhados de densa maresia, que se enfiam
 pelas narinas, têm o sabor do sal, toldam ainda mais a vista e quase sufocam.
Quem espreitar pelas vigias, não descobrirá os brumosos  novelos que lembram fantasmas, 
as leitosas névoas ensanguentadas que ofuscam o sol poente ou antecedem as noites de agoiro, 
o tumulto das tempestuosas marés em grave e contínuo vai e vém !... - Que envolvem  e afogam!
O mar nem está feroz nem  se encrespa nem cresce!... - E, por onde o imponente navio navega,
vão-se até abrindo, de onde de onde, grandes clareiras,  noturnas janelas escancaradas ao infinito!
Pelas quais até desponta o brilho de ténues ou rutilantes  estrelas!.Não há sinais de sinistros tetos
ou cerradas e  funéreas  abóbadas!...E o mar - qual manto adormecido  pelo enturpecedor frio  
da atmosfera que o cobre,  até parece uma vasta  imensidão  sombria mas tranquila!... 
- A  bem dizer, nem está feroz nem  se encrespa nem cresce!... -  Mas o mar é isto mesmo!...
Com os seus humores e mistérios, que só ele desvenda ou revela!...  Umas vezes, puro e terno! 
Purificadoramente belo e eterno!...Outras, selvagem, indomável, primitivo, violento, terrível ! 
- E até destruidor dos horizontes mais longínquos e infinitos! - Sim, mas tudo isso faz parte
dos segredos, das ciladas ou dos sortilégios!... Esconjuras  e temíveis perigos, 
que se ocultam  e que inesperadamente, quando menos se espera,  poderão  mostrar
todo o esplendor da sua cruel fantasmasgoria  - que só o próprio mar conhece!
Pois, mas nesta noite, e a certas horas, até os telégrafos soltam notícias 
de prudentes avisos mas que se negligenciam e ignoram...


As eternas constelações, aparentemente fixas, 
fazem o seu giro no  longínquo firmamento. 
O sol  ilumina outros cantos da Terra ...E o Planeta gira o seu curso.
E, quem vai ainda acordado no interior do faustoso paquete, 
nem questiona isso  - Espera, que, no dia seguinte, 
a vida continue sob o brilho da  grande luz cósmica..
 - Esta volte a raiar do fundo das águas! - No seu perpétuo ciclo...
Mesmo que as nuvens toldem os céus ou os nevoeiros não se dissipem

Para já, ainda a noite é uma criança e atmosfera 
mantém-se  escura, não completamente toldada.
Aparentemente, sem mostras de qualquer ameaça.
Deixando entre-ver  - a quem se afoite a ir ao convés 
ou espreite pelas vigias - o brilho cintilante ou indistinto de algumas estrelas.

Porém, não tardará, que,  por tão longínquo ser o seu brilho, 
venham a  manter-se friamente alheias ou  indiferentes ao drama e ao infortúnio  
do mais tenebroso caleidoscópio, que, a horas nocturnas e malditas, caladas e surdas,
vai desenrolar-se sob a frieza do mais inesperado  e horrível presságio - Em cenário
desolador  e árido, que ondula rumorejante, quase silencioso, mas escuro e gelado!


Eu, que sozinho voguei  sob noites equatoriais povoadas de assombro e trevas
e habituei  meus olhos e  meu  instinto  a ver o  que as sombras, as névoas,
os nevoeiros nocturnos ocultam ou encobrem,  sim, ainda mesmo agora 
- à distância do espaço e do tempo - ,claramente ainda diviso  o pronúncio sinistro 
das mais trágicas horas de luto!... Distingo o perfil  inconfundível 
 de esbelto  e moderno navio - O seu  vulto ainda navegando 
e sulcando a superfície denegrida das águas! 
Sim, como que a antevendo  o sinistro momento, 
que vai anteceder o brutal choque com o Icebergue,
ao pavoroso afundamento que vai seguir-se por escassas horas.

Entretanto, vendo o desespero dos que saltam para o mar, 
que em vão procuram agarrar-se às bóias  ou dos que são descidos
precipitadamente para as escassas baleeiras que foram arreadas.
Mesmo assim, choram, gritam, gesticulam e imploram protecção divina!

Sim, vendo tão claramente o drama, que até me parece
que esta minha emocionada visão, é  de quem lá esteve,
não fruto da minha imaginação! - Que eu sou também
 um dos seus náufragos que  mergulha no mar e se salva!

Sim, neste momento em que as palavras 
se soltam livre e espontaneamente da minha mente,
eu nem sei se não serei mesmo, mais do que o poeta 
ou a figura encarnada de um feliz sobrevivente, 
alguém que, tendo lá estado, sobrevivido ou morrido afogado, 
porém, passados tantos anos, em vez de ter ficado até uma velhice senil,
tenha cedo partido para a eternidade e ressuscitado - Se calhar é isso mesmo.

Mas, seja como for, ainda diviso, ainda revejo, todos os momentos
 do prenúncio e do seu afundamento - O casco e as  linhas aprimoradas
que lentamente se afundam e suspiram, que lentamente soçobram e  asfixiam,  
que lentamente mergulham, vergam e se  revolvem na líquida massa negra azulada,
movediça, ondulada e informe, coalhada de pedaços de gelo do mesmo icebergue, 
que depois de lhe deferir  duro golpe fatal, ali mesmo o vai sepultar!... 
Com idêntica crueldade e gélido  brilho  ao que espelham as mortuárias águas!...
 O mesmo que é reflectido do sideral firmamento, no qual as estrelas 
mas continuam silenciosas mas rutilam.  

Vejo-o e distingo-o, como se aquela noite de tragédia 
se  fixasse no éter para sempre, perpetuada  na atmosfera vítrea  
da amortalhada imensidade!  Espelhada no rosto dos astros
No calendário programado  dos grandes naufrágios do mar !
 . Oh, sim, o sufoco cruel das águas! Quem o não conhece?!..
Quem ainda não se engasgou até com um copo de água?.
Nem é preciso que seja no mar - Oh, sim!... 
- Afrontosa crueldade marítima, cuja hora idêntica 
ainda hoje perpassa nítida e clarissima pela minha mente!.
Tantas vezes a revi, a revivo, como que renascida
dos confins da memória e da minha adolescência.

Ainda eu era criança, já na escola primária, em minha casa
e na  minha aldeia se falava  do afundamento de um grande navio 
- O mar ficava muito longe e era então para mim um grande mistério.

Por isso, quando alguém embarcava para África ou Brasil, 
todas as noites se rezava, até haver notícias da chegada.
 Talvez por essa razão, quando andei sozinho e perdido no mar, 
muitas vezes me passaram pela mente as aflições dos afogados do Titanic!

Dentro de mim, lateja , pois, o humano sofrimento 
das suas dolorosas angústias e lamentos, as lágrimas perdidas! 
Pelo  meu peito, perpassa ainda o peso das longas horas incertas! 
O calvário dos sofridos tormentos! - E, no meu estômago, sinto ainda 
como que o trago  amargo do sal engolido no remoinho das  trevas! 
Sinto-o ainda como que  a subir-me pela  garganta acima e a vir-me à boca 
um certo sabor vazio das viceras, sentido naqueles dias de sede e sem comida

Oh!  Como eu alguma vez  me poderei esquecer dos infindos momentos, 
vividos,  quando, a horas altas da noite, por ter adormecido, 
rolei da canoa borda fora para o seio negro das águas

Caleidoscópio de memórias que me vai permitindo,
não só mergulhar no meu passado de náufrago, 
transportar as minhas emocionantes recordações marítimas 
e ao mesmo tempo ir descobrindo  na límpida transparência 
de funéreo negrume alvacento e frio, onde o Titanic se vai afundando
todo o pavoroso carrossel dos contornos da sua fantasmagórica e terrível tragédia!

Sim, olhando e revendo a sua imagem,  seu perfil tombado e já meio mergulhado,
mesmo com o olhar de algum toldado por alguma penumbravejo que ainda soluça,
ainda range e balança, rasgado e ferido, mas já sufoca e geme,  o ineviável desenlace!
Arfa e estrebucha moribundo. Já não é a  nave titã marinha
que desafiava afoitada e galhardamente o desconhecido
mas um trágico barco perdido que  se perde e afunda!

Vai resvalando lentamente sobre manto revolto, em leito solto, violáceo e enegrecido.
Já meio afogado e tragado! Resignado e sem qualquer réstia de esperança!..


Devassado por enormes feridas abertas, imerso por ferozes massas líquidas,
que o violam e sufocam - Aprisionado às garras do mar, 
já não navega, está imobilizado, meio afundado e  quase perdido!...

 
  
Oh! mas deixemos por agora o ambiente desolador e de assombro que o vai envolver!
O terrível calvário dos momentos finais que se desenrolará solitário e sombrio 
à superfície da vastidão de gélidas e roxeadas  águas,  que estão prestes a engoli-lo,
 cujo último capítulo não tardará amortalhá-lo e arrastá-lo até ao fundo dos abismos!...

Recuemos a algumas horas atrás, olhemos  a euforia então vivida, 
do mais luxuoso transatlântico do mundo -  Imaginemos o ambiente  
de confiança e de optimismo   que perpassava pelos camarotes e os salões, 
antes de definitivamente  se perder!  - Quando, ainda,  a altiva quilha, 
serenamente vai desafiando e sulcando o azul franjado e profundo!...
Quando, ainda, vai cortando as sempre movediças águas! 
Quando, avançando e singrando, as vai fazendo espumar!
Tanto junto à quilha  da ré, como à  quilha da proa!
Lá vai navegando, sempre fugidio e altivo! - Impulsionado 
pelo movimento de possantes hélices da popa a trabalhar em pleno, 
enquanto, lá no alto do convés - quais barbatanas dorsais de monstro marinho! - 
os hirtos charutos das chaminés, fumegantes e fumegando,  vão expelindo aos ares, 
atrás e aos lados, os negros novelos de fumo, poluindo etéreas transparências!

Todo ele vai balanceado, todo ele vai arfando,  balanceando e navegando!
 Superando até o ritmo do arfar do mar - Porque ainda mais  intrépido, 
destemido e triunfante, que as espumosas ondas azuis no seu eterno cavalgar! 


Recordemos, por breves palavras, as horas de alegria e desprendimento,
as horas passadas ao longo de luminoso dia!  - Que viagem mais maravilhosa!
-  A dos passageiros, tripulantes e do próprio comandante!... Que maior prazer não devia ser!... 
 - Rostos debruçados sobre as amuradas, corpos preguiçando-se, tostando-se 
ao débil sol primaveril, cabelos ao vento, rostos sonhadores, contemplando 
o azul das águas e dos céus!...Bares repletos e salões de festa, 
que  fervilhavam de vida! ...Segredos que se desfaziam e negócios milionários 
que se imaginavam...Jogos de cumplicidades que se trocavam, 
paixões que se ateavam,  lábios que talvez pela primeira vez se unissem.. 
Oh!  quantos sonhos?!..  - Mesmo até nos que faziam do barco, apenas a única via 
em busca de uma nova forma de vida ou do el-dourado americano...
 - Quantos  sonhos e pensamentos ou belos e enamorados sentimentos?!..
- Tudo isso se esfumou e perdeu no tropel aflitivo de umas escassas
 duas horas nocturnas e funestas ! - Terrivelmente  trágicas!...

Oh! mas deixando, ainda por ora, essas horas de horror e de assombro!
- Vejamos ainda (embora perdido no tempo) o perfil do mais  intrépido e  jovem navio!. 
Navegando e aventurando-se em pleno mar fora,  sem receio de nada!  - Como
se todos os perigos e escolhos, lhe passassem ao lado - Navegando,
 sob a quimera azul de um céu límpido,  infinito  e clarinho! 
No qual vogavam alvos novelos de etéreas nuvens  que o pôr do sol iria tingir de lilás,  
de ouro e cor de rosa! - Oh!, sim,  que soberbas e fantásticas não eram as suas formas!...
Como  ele, então, estoicamente navegava! ...  Como ele então singrava,
confiadamente o mar!...Como ele  desbravara o oceano e  avançara
  ao longo  da manhã, ao meio-dia e ao longo  da tarde!
Como ele, galhardamente,  seguia majestoso, sóbrio e seguro!
Sulcando  o imenso círculo ondulado das vagas, 
que mais pareciam ondulantes sulcos e pregas de veludo   
ou drapeados acordes e hinos de águas
do que a antevisão do  cortejo macabro e fúnebre 
para onde,  inexoravelmente, se encaminhava!...
 
Quem diria, pois, que aquele tão  luminoso Domingo de Abril,
 vivido em constante ambiente de confiança e de festa,
daria lugar à noite mais sinistra de todas as noites!...
  Quem?!... Mesmo já com o horizonte  imerso por difusas sombras,
contemplando o mesmo infinito arco celeste, se atreveria a decifrar 
ou a augurar, nos pergaminhos dos astros um destino, tão contrário?!. 
Oh! sim!...Quem diria?!... Que, a esse risonho e alegre dia,
iria suceder um mar esconjurado de gélidos e profundos sepulcros, 
derramados em mil lamentos, em  torrentes de soluços agonizantes e lágrimas! 


 Que arrojo e ousado avanço  para a época!. 
Que pasmo e orgulho!... -  A operários, público anónimo, 
passageiros, técnicos e seu proprietário! 
Quem haveria de pensar que iria terminar os escassos dias de vida,
numa morte tão cruel e tão trágica?!...
 Tantos postais, tantas gravuras!...Tantos filmes e pinturas, 
antes e depois,  lhe foram dedicados e o imortalizaram!
Quem iria  imaginar que aqueles lenços brancos acenando à partida,
haveriam de ser os lenços da sua primeira e última viagem - A sua despedida!..
Oh! que maior infâmia e ignomínia ver-se tragado e consumido 
no reino translúcido das claridades espectrais, sem pompa e sem glória!
Oh! como  tão belo era!... E, como tão frágil,  moribundo está agora!..
- Pois é... mas os mistérios do mar, além de  insondáveis
 são  insaciáveis de curiosidade às fraquezas humanas 
- E não param de as espreitar!..
O mar é um corpo mole mas cego, inteligente e vivo 
e com muitos humores - ora pleno de cólera, ora pacífico.
Nunca  acorda ou se despede da mesma maneira - Por isso,
há que estar sempre atento às suas pérfidas surpresas ou ciladas! 
  
"Vinte minutos após a colisão, a proa já começa  a inclinar"
E  hora e meia  depois, a água 
passa do sexto para o sétimo compartimento
e não pára de alastrar.
À 1h25, a inclinação do convés é grave. Ordens são dadas 
para que os botes sejam arriados  mais cheios. Mas há quem hesite
e perca de vez a única oportunidade de salvar a sua vida


Os pedidos dos SOS  pelo telégrafo são escutados  - E vários  os navios 
 respondem aos desesperados  apelos - Navegam demasiado longe... 
Vão demorar a chegar...Aos foguetes lançados para o alto da atmosfera  
 e, aos sinais luminosos que cruzam os negros ares, 
não surge das imediações qualquer resposta.
 - Perscruta-se o círculo do horizonte  e não  se vislumbra 
a luz de uma lanterna a espreitar a escuridão  à volta e do outro lado de lá.
Para qualquer ponto que se olhe, o mesmo silêncio e a negra vastidão!  - Algures,
porém, descobrem-se umas tímidas luzes que não saem do mesmo sítio, quase disfarçadas
mas vão permanecer misteriosamente em frio silêncio e de costas voltadas....



-  Os botes estão lutados, repletos e  nem mais uma alma comportam!... 
Os primeiros desceram quase vazios mas os últimos  
vão cheios!   - E agora há quem se agarre desesperadamente
e não os largue!...  Agarram-se às mãos da filhinha ou do filho, 
da  chorosa mulher ou da amargurada namorada  por entre as mesmas lágrimas,
os mesmos soluços ofegantes e doridos prantos, suspiros angustiosos e alucinantes!
Não suportam que os corações se apartem e  dilacerem para toda a vida!
Procuram salvar-se a todo o custo ou pelo menos a morrerem juntos e abraçados!
E muitos são os que preferem que a morte os una na eternidade que agora os separe.
Dir-se-á que  não há vida que se agigante mas escombros, pânico, o caos! 
Mas há, todavia, gestos de solidariedade humana, de gritante coragem e heroicidade!
E também os inevitáveis egoísmos - Os  mais inconformados e  temerários 
chegam a ser  repelidos a tiro.- É a lei da sobrevivência!...
É o testemunho dramático, descrito por quem se salva, assiste impotente  
e de olhos não menos chorosos à perda de entes queridos 
ou companheiros de viagem e vai perpetuar aos vindouro,
o inolvidável drama da trágica afronta e narrativa 

.

Oh! como é imensa e fatídica a noite!...
É o mar! Oh Deus!.. É a noite e o mar!!... 
- Ó desumanidade divina!.. Ó cruel desumanidade! 
Oh! maior aflição de quem
sentindo-se definitivamente esquecido e perdido,
  têm plena consciência do infortúnio  que o espera!
Daqueles que sabem que já ninguém lhes poderá valer ou estender a mão! 
Oh! drama horrendo e intraduzível ! - Que só o náufrago protagoniza e bem conhece! 
Perscrutam e olham incansáveis o circular horizonte escuro e silencioso mas tudo fenece!

O tão falado e  anunciado Titanic, já não é mais um barco
 mas  o pálido escombro, o despojo enorme de um terrível fantasma! 
Interrompido, abruptamente, na sua marcha,
agora é o corpo bruto de ferro, amolgado e ferido, que ainda flutua,
mas já  não se desloca! -  Inerte, range e soçobra,  
devassado por turbilhões de massas de água escura 
que o esventram, o inundam o afogam!
Está na iminência, a  que, milhar e meio de vidas, 
ali sejam abandonadas, sorvidas e tragadas 
no mesmo sorvedouro e torvelinho - Ali deixem,
  perpétuamente, o mesmo trágico destino traçado! 
- Resvale  e se afunde a pique, as mergulhe e arraste  
para os abismos mais fundos da mais gélida e funda sepultura!..   
Oh destino atroz! Oh  terrível sorte!...

Ó surda vastidão onde tudo é fugidio e espumoso, a vida se esvai e desprende!
Ai daqueles pobres corações encimados
que, no alto do imponente convés meio tombado, vendo
a morte tão próxima, e cientes de que não lhes escapam, ainda gritam!... 
Que efémero tempo lhes restará de vida?!...
De que  lhes valerá agora alimentar sentida crença ou religiosa fé?!..
Implorar  piedosas súplicas ou sagrada misericórdia!...
Não lograram entrar para o salva-vidas! 


Ó cruel  certeza! - Ó impotência vencida!..
Rostos aterrorizados! Olhos esbugalhados, irradios, perdidos na escuridão!
Olhos pregados na aridez enregelada
do terrível mar, gritam! - Imploram, rezam!.. Suplicam divina protecção! 
que um barco, uma tábua ou uma bóia os venha salvar, os socorra, lhes valha!!... 
- Em vão!... Vendo-se esquecidos, sentindo que  que  já não têm salvação,
em aflitivo desespero, atiram-se e mergulham como suicidas!
Adia-se o último suspiro, a derradeira aflição 
por mais alguns instantes ou momentos,
que, todavia, serão verdadeiras eternidades!


Debatem-se com as águas geladas - Temperaturas mortais! 
Sabem que  o tempo se escoa e vão morrer!
Os coletes que envergam de nada lhes poderão valer!
De nada lhe servirão  as súplicas, os seus gritos e ais,
os destroços que bóiam, a que desesperadamente se agarram e abraçam 
-  Não o salvam! De nada adiantam!
É sobre-humano resistir e lutar  à tona de superfície tão funda e gélida,
 sob atmosfera tão adversa, a condições tão extremas e fatais!
À volta é o deserto e a mais fria e escura solidão!...
O navio - que à luz do dia parecia glorificar
os mares e os céus - agora naufraga e soçobra!...
É menos que um vulto,
a flutuante sombra  amortalhada
que, em dois grandes pedaços disformes 
e indistintos, se verga e dobra!

 
"Às 2h18, as luzes do navio piscam pela última vez, 
depois apagam-se para sempre"  
As bombas, que  continuamente bombeavam  o fluxo das  águas,
 pouco mais fizeram que a retardar o inevitável...
O Capitão Smith e o engenheiro-chefe Thomas Andrews permanecem,
não abandonam seus postos - Procedimento heróico e nobre!...No entanto,
 Bruce Ismay, o milionário armador pira-se num dos últimos botes, impedindo
que uma vida mais jovem se salve em seu lugar - Enfia-se num bote salva-vidas  
destinado a mulheres e crianças - Vai ser duramente criticado
 em vários jornais ingleses e noutros países do Mundo.
Mas que importância terá isso para um covarde
que nem sequer teve o elementar cuidado
de mandar equipar o Titanic 
com as balsas indispensáveis? 
. Foi ele que  pressionou o comandante do navio 
para que as caldeiras atingissem o rubro,
acelerasse a velocidade  e metesse  prego a fundo.



Atmosfera húmida, enregelada! - Gélida negridão!...
Sorvedouro! - Lugar ermo e de abandono!...
Aquele que, há algumas horas atrás, era  a grande novidade, 

o último grito da navegação,
agora é um vulto enorme - Um gigantesco destroço,
que se confunde com a palidez do mar e a pavorosa  noite!
 
Inundam-se totalmente os porões! - As luzes
que feericamente  o iluminavam,
também já não brilham.
Apagaram-se as fornalhas! 
Ouvem-se as  últimas explosões das abrasivas caldeiras,
quando as águas brutalmente as  invadem, as arrefecem
à mistura dos últimos gritos lancinantes e aflitivos!
Enquanto um sopro estridente e agudo!
Um gorgulhar de alarme e de abismos!...
- Estranhamente, tudo sorve engole e emudece,
desmorona, silencia, escurece e consome!
 Quase num abrir e fechar de olhos,
vão para o fundo mil e tantas vidas!
....



Oh! e como recordar o silêncio ensurdecedor dos passageiros da terceira classe
que morreram asfixiados!..Que foram  forçados 
a  permanecer reunidos e trancados
 num  grande salão na traseira do navio!...  Para que o pânico não se alastrasse 
e pusesse em causa a evacuação das mulheres e crianças da  primeira e segunda classe 
- Sabiam  que os botes não chegavam para todos, decidiram-se prioridades -  
Oh, sim, atitude compreensível...  Mas os eternos sacrificados,
são sempre os mesmos! - Os pobres!... Nos menos  afortunados 
não moram os privilégios -  Poucos se salvaram!.... "Revoltaram-se, 
e alguns aventuraram-se pelos labirintos de corredores no interior do navio 
para tentar encontrar outra saída" - Libertaram-nos  quando faltavam
escassos dois botes para abandonarem o navio  - Cruel sina ou suplício!...
De nada lhes serviria abrirem-lhes as portas, quando, lá fora, 
 apenas  os esperava o salto para o abismo...



Mais deles, nem a tanto ousaram...
 O pânico instalou-se e venceu-os: morreram atropelados,
 - Quando a morte bate à porta, difícil é escolher como a receber... 
Poupados  à visão terrífica e gelada
que pairava em torno do barco que os transportava, no qual confiaram 
os seus sonhos e os seus destinos,  sucumbiram  à mesma tragédia, 
que  atingiu  largas centenas de vidas - Sim, a morte
não  distingue classes sociais nem os passageiros ricos dos  pobres
 Todos os que não tiveram a sorte de entrar nos botes
foram tragados!
- Com maior ou menor sopro de vida ou réstia de fôlego, 
sofreram e foram vítimas das mesmas horríveis aflições
 - Não houve  quaisquer distinções  
nas horrendas agonias e lágrimas choradas... 

A mítica cidade de New York, jamais será seu porto de abrigo, 
a terra de promissão!...- Os náufragos que não  foram arrastados,  
envolvidos pelo mesmo remoinho e turbilhão do fantasmal navio,
pouco mais lhes restou de vida que expiar a sua afrontosa aflição!
Transidos e aflitos, debateram-se e nadaram em  vão!
Depressa enregelaram: o coração e os pulmões, sufocaram, 
não resistiram, todos se  perderam e se afogaram! 

Quando ali acorreram os primeiros  socorros,
a madrugada já ia avançada 
mas  ainda era noite, porém, tarde demais!...
Lanternas e holofotes varrem a área e deparam com um cenário macabro 
- Atónitos, os marinheiros, apontam os focos para descobrirem,
possíveis sobreviventes, mas o que vêm é a  morte espelhada!
A morte isolada ou abraçada aos vários destroços. 
 O mar está pejado de corpos que bóiam
à superfície da gélida toalha liquida, dispersos por todos os lados.
abraçados ou isolados! - Horrível imagem! 
Horrenda e desoladora paisagem!


Alegres casais que viajavam
 que  a trágica morte apartou ou sepultou.
Crianças que se salvaram mas que ficaram órfãs de um dos pais ou dos dois.
Finaram-se maravilhosos sonhos, sufocados por horrenda asfixia! - Atroz agonia gelada!
Desfizeram-se ambições e projectos! - Destroçaram-se para sempre
corações que sofreram e morreram na mais bela flor da idade!...

COORDENADAS EM BUSCA DA MEMÓRIA PERDIDA
 
Repousa a 3.800 metros de profundidade - Sob as coordenadas
41º 43' 35" N, 49º 56' 54" W

 



Cem anos depois do seu trágico naufrágio, 
o  Titanic é  hoje um monte de macabros destroços que repousam no fundo mar! 
 -  A esverdeada silhueta num sepulcro aberto, rodeada de despojos humanos e outros,
sob o peso  do mais escuro fundo dos abismos,  quase irreconhecível,
 esventrada, corcomida e enferrujada!
 - Mostras arqueológicas de  quem teve a coragem de iluminar  
o azul sinistro que a rodeia e de a filmar.
Mais lembrando a carcaça de um  simples brinquedo, meio enterrado 
e sepultado em areias finas, quase da cor do sal, 
exposto por detrás da vitrina de um enorme aquário,
 partido em dois bocados,
em permanente degradação,
que a simples miragem do imponente navio,
capaz de  enfrentar a maior distância ou vastidão



DESSACRALIZAÇÃO EM NOME DA CIÊNCIA?

Valerá apenas recuperar-se  (mesmo que de forma parcial) dos lodos e sedimentos,
 o esqueleto afundado e os despojos que ainda por lá se encontram enterrados e dispersos,
 para se conhecerem melhor os contornos das causas da tragédia
ou será demasiada morbidez humana a juntar a tantos outros sacrilégios
que, em nome da ciência, se cometem, com absoluta indiferença
ao repouso inalienável que é devido aos mortos?!...
Não sei... Quem poderia responder, 
já não está cá para fazer ouvir a sua voz -
Eu não fui um dos  malogrados náufragos do Titanic, é bem verdade.
Contudo, só talvez por milagre divino  não sou hoje uma das incontáveis vidas
que se perderam nos mares - Se lá ficasse e mais tarde pudesse responder,
diria que não há  sepultura maior e mais pura que a do mar! - Por isso,
deixem em paz quem tanto sofreu e não escolheu ali morrer e eternamente morar.




A VISÃO DESCONSOLADORA 
QUE ATÉ HOJE PERMANECE UM ENIGMA
- TAMBÉM EU VI UMA QUASE ASSIM
 - E BEM PERTO DE  MIM!...

Dizem que se avistaram  luzes de um barco por perto 
e que o mesmo barco fez ouvidos de mercador  
às continuas mensagens de morse
que heróicos marinheiros, não deixaram de enviar
enquanto puderam --  "A identidade desse navio permanece até hoje um mistério"
Supõem-se que tenha sido o Californian, que, prudentemente,  
teria suspendido a navegação  e parado  as máquinas por causa do gelo,  
mas cujo  operador de serviço, "pouco antes de ir dormir às 23:00 horas, 
tentou avisar o Titanic de que havia gelo à frente", tendo obtido como resposta 
de um tal  indolente Phillips: "Cale a boca, cale a boca, estou ocupado"

Vingança a tão desplante  negligência  e impropério?!... 
É  bem provável....No mar as heresias que se cometem, 
costumam ser bem caras e  ter altos preços em vidas.
Mesmo assim, a  ser verdade, ó insensível cobardia e desamor!
Ó maldita frieza e crueldade! Ó  vil foco de luz 
em negrume-azul silencioso e sidério! 



Que o diga quem  - como eu - passou por esses terríveis momentos de incerteza: 
Na viagem que fiz de São Tomé  à  Nigéria,  ao 12ª dia, 
eu estava já muito  próximo da costa africana - Era noite escura e encontrava-me rodeado
por vários poços de petróleo - Era uma confusão...Havia clarões por todo o lado.
Tendo chegado a navegar por debaixo de uma plataforma sem ser visto
- O que eu não conseguia era localizar onde é que ficava a costa. 
Às tantas, passa um barco de cabotagem perto de mim - Mal o vi
apontei a lanterna para a vela para que me vissem melhor
e não me abalroassem - De nada me valeu - Felizmente, 
apenas me afastou com as ondas da hélice da esteira. 
Ia um vulto de pessoas no convés e toda a gente a falar - 
Eles lá foram à sua vida e eu lá fui à minha até que adormeci...
Na manhã seguinte, quando a canoa se aproximava perigosamente da praia,
tive a felicidade de ser acordado por três pescadores,
que, supondo-me perdido, pegaram nos seus remos
e foram eles que se encarregaram do resto da navegação.
 - Lá me encaminharam a  terra firme e a chão seguro,
onde fui acolhido como um dos seus numa modesta cabana - De tal maneira
que nem sequer cheguei a pousar os pés na extensa e dourada língua da areia 
- Fui recebido com lágrimas e abraços - Foi um fim feliz.
Mas o drama dos passageiros do Titanic 
foi incomparavelmente diferente - Bem dramático e horrível!

Não há pior decepção para um  náufrago que ver  um barco 
à distância ou passar à sua frente e não parar nem abrandar
a sua marcha - É  pior que acenar um rebuçado a uma criança 
e depois jogá-lo fora - Se, naquele momento, vissem o seu rosto, ele espelharia
a tristeza maior do Mundo!...  Mais grave que o suplício de Tântalo.
Mais desesperante de que,  quando eu, naquelas tardes de calor, sem água potável 
ou das chuvas para beber, me tive de valer de alguns goles de água salgada.

Sim, foi na acidentada viagem que pretendia realizar
de canoa de São Tomé ao Brasil, a qual se saldaria por um naufrágio de 38 longos dias.
 - Eram sete de manhã - O Sol nasce às 5.30 e o dia já ia levantado 
Mas brumoso e cinzento, com ameaças de chuva em vários pontos do horizonte.
Nisto, vejo surgir, lá nos confins, na minha direcção,
um enorme cargueiro que vai mesmo passar 
a escassa centena de metros à minha frente - qual fantasma!
Despi minha capa e agitei-a! - E ele ali tão pertinho de mim,  quase me abalroava!..
Como ninguém respondesse, peguei no apito 
que tinha pendurado  ao pescoço e apitei várias vezes... 
Várias vezes levei o apito à boca e apitei..
 Mas o crivo do radar não me apanhava 
e apitar ou gritar naquele vasto mar era inútil... 
A minha voz perder-se-ia  no bruar das águas... 
Apagada pelo cavar do sulco  da proa e  do barulho da hélice à popa.



Meu barco era um pobre madeiro escavado à deriva e à flor do mar...
ao qual tive de arrancar alguns bocados da cobertura para improvisar 
um tosco remo - Era um tronco como outro qualquer,
quase da grossura daqueles paus e troncos de palmeiras 
que se misturavam com os muitos detritos e destroços de toda a ordem, 
quando um cardume de atuns me arrastara durante longas horas a fio 
de uma linda tarde equatorial, que se prolongaram até alta noite...
 E, eu, que a principio até cheguei acreditar 
 - estando o céu tão límpido e não havendo  sinais de temporal -, 
que até fosse alguma força divina, que,  no meio daquele borbulhar intenso
se apiedasse de um pobre náufrago!...Me estivesse levando e arrastando
de algures do mar para algures num ponto seguro em terra...
O pior  é que o inesperado cardume nunca tomava a mesma direcção....
Porém, às  tantas, vendo que já não havia maneira 
de  livrar-me do seu envolvimento,
ergui a vela no tosco mastro e, com o remo improvisado,
(a maioria dos apetrechos perdera-os com o tornado) praticamente 
deixei que o vento me arrastasse 
para onde ele me quisesse levar - E, como não tomei
a mesma direcção do cardume,
finalmente, lá me consegui libertar.
 Por isso,  ao náufrago, quando  todo o mundo o ignora,
de que lhe servirá gritar ou apitar?!..
Mais das vezes só depende dele: senão desanimar,
poderá assegurar a sua salvação: -  O mar  leva tudo para terra: 
nem sequer lá quer os cadáveres: ou os desfaz ou os arrasta.


Não creio que o piloto daquele barco me  visse - Foi há uns anos 
mas já então havia piloto automático e outros instrumentos 
que o dispensariam de olhar continuamente à sua volta.
Eu é que não tinha mais de que uma modesta bússola - Não me dava a posição,
só sabia os quadrantes e mais nada - Mais das vezes, até a dispensava 
- Bastava orientar-me pelo sol, pelas estrelas, pela direcção das correntes e alisios...
 No entanto,  eu vi perfeitamente aquele enorme navio a passar 
a uns escassos cem metros, ali mesmo à minha frente... Gigante, soberbo e nítido!... 
Vi que continuou indiferentemente  a sua rota e o seu caminho...
E, se me viu,  fez que não me viu e não se importou...
Não seria caso inédito - Não se desviou e nem por um momento abrandou... 
A vida de um náufrago é como um destroço à deriva.
Tive muitas vezes esse sentimento - Tantas vezes me senti um zé ninguém..
Mais identificando  com o mar e confundido com as vagas
e até com a curiosidade dos peixes que constantemente me rodeavam 
do que propriamente com o mundo a que pertencia! 
Com a presença dos tubarões é que nunca me senti bem.

No entanto, a inesperada aparição daquele barco, 
foi para mim pior que um balde de água fria. 
Deixou-me, realmente, muito desanimado! ...
Nunca, como naquela manhã  brumosa e de cinza 
me senti tão sozinho, perdido e tão triste! 
Depois resignei-me...Pois  mais me convenci 
que só podia depender de mim e da minha força de vontade...
Ah. sim!..Eu era um mero pontinho no universo inteiro.
Os meus sentimentos oscilavam  entre o vazio e a plenitude.

Naquele vasto deserto de espumosas águas salgadas, 
o apito era estridente mas de nada me valeria...O circular deserto era imenso!...

Mas eu apitei!..Meus Deus!...Tantas vezes  eu apitei!...
 - Sim, nunca como então, me senti tão esquecido e abandonado 
Ainda agora meus olhos, rasos de água
recordam, com clara nitidez, as lágrimas de abandono que então chorei... 
Oh! mas quantas lágrimas não terão chorado  aquelas  infelizes almas 
que se perderam e afogaram no sufoco 
daquela atormentada noite do desastre do Titanic?!... 
De que lhes serviriam também os seus gritos 
e os seus desesperados pedidos de socorro?!...






Nearer My God to Thee" - Também eu o cantei

Será mesmo verdade  que a orquestra do imponente navio, só parou de tocar
- Cremos em Vós ó Deus! -"Nearer My God to Thee" quando as águas inundaram 
todos os comportamentos e as luzes do Titanic definitivamente se apagaram?!...
Pelo menos o meu prof. de religião e moral, na Escola Agrícola, em Santo Tirso(1),
assim nos contou e nos ensinou esse mítico e religioso hino,
que foi justamente o que eu cantei, naquela noite em que acordei 
debaixo da minha piroga, ao deixar-me adormecer e rolar em negras águas...
Na ousada viagem numa minúscula canoa da Ilha de  São Tomé à do Príncipe
- Foi a primeira das três e a mais temerária... Vendo que não conseguia colocá-la a flutuar 
sem ser invadida pelas vagas,  e, sentindo-me já exausto, escarranchei-me no seu costado...
 -  Uma das boas particularidades das canoas de ocá, mesmo voltadas e sem lastro 
é não irem ao fundo  - Por isso, em vez de me resignar,  pus-me a cantar  
aquele religioso coro até recuperar as forças...
Oh, mas quão longa e sofrida não foi também aquela noite!...
Oh! pois não... quão longos os sofrimentos  ou  afrontosas e pesadas 
não são as agonias de todos os infelizes que naufragam à superfície dos mares!...
 

Lisboa, noite de 14 para 15 de Abril de 2012
Jorge Trabulo Marques







TAMBÉM EU FUI UM NÁUFRAGO

Náufragos do desespero!
das inumeráveis viagens inacabadas,
dos inarráveis rumos que foram traçados
e dramaticamente, riscados,
abruptamente destroçados, 
afundados no torvelinho das águas!..

Tal como vós, também um dia parti de um porto,
de um indistinto porto tracei meu rumo,
perdi-me, voguei errabundo, fui náufrago!...
Vivi todas as  sensações e emoções do mundo,
como só talvez as  viva intensamente 
quem se abra de corpo aberto
e coração fundido à pulsação
desse plangente limite,
viscoso, movediço, sorvente!
-  Na tumultuosa e erma vastidão! 




  Naufraguei!...
Vi-me ignorado  de toda a palavra,
irradiado do próprio sonho,
felizmente resisti  e sobrevivi!
Náufragos, irmãos meus!
Afinal, irmãos de todos os homens,
de todos os seres e de todas as coisas! 
Ricos ou pobres - O sufoco do mar não os distingue,
engole-os e traga-os a todos por igual.

Tal como vós, ó náufragos do Titanic,
 fiz do meu pequeno barco
não a mansão luxuosa 
mas o mesmo lar no grande mar!...
e, através das suas ondas,
rugidoras de presságios,
se não tive a  vossa sorte,
quantas vezes naveguei e aspirei,
em cada espuma,
em cada noite cerrada,
em erma bruma,
um perfume salgado de morte!...

Jorge Trabulo Marques


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