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Entre outros assuntos, falo da escalada ao Pico Cão Grande e das minhas aventuras em canoas – Visam defender a teoria de que antigos povos africanos, podiam ter sido os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo da Guiné, antes dos colonizadores – Parti à meia-noite, disfarçado de pescador, ligando a ilha do Príncipe. Para me orientar, uma rudimentar bússola – A canoa era minúscula, à segunda noite adormeci: rolei na escuridão das vagas. No regresso fui distinguido com sopapos da policia salazarista, enviado para os calabouços – Cinco anos depois, numa piroga maior, fiz a ligação São Tomé-Nigéria. Partindo igualmente à noite, 13 dias depois atingia uma praia de Calabar, tendo sido detido 17 dias por suspeita de espionagem. - No mesmo ano, já com São Tomé e Príncipe independente, tentei a travessia São Tomé ao Brasil, usando os mesmos recursos. Além de pretender reforçar a minha teoria, desejava evocar a rota da escravatura e repetir a experiência de Alain Bombard. Porém, quis a ironia do destino que vivesse a difícil provação de um naufrágio de 38 longos dias, tendo aportado numa praia de Bioko (Bococo)onde fui recambiado para a famosa prisão de Black Beach

terça-feira, 11 de setembro de 2012

23º Dia -Vi uma borboleta! Tudo leva a crer que não deva estar muito afastado de terra... NÃO SEI ONDE ESTOU NEM PARA ONDE VOU MAS SEI QUE OS VENTOS E AS CORRENTES ME HÃO-DE ARRASTAR PARA TERRA

"As borboletas conhecidas como monarcas são migratórias, sendo capazes de atravessar o Oceano" .O Mundo Dos Insetos



"As borboletas são decerto os insetos mais conhecidos e admirados. Fazem parte da ordem dos lepidópteros, uma das mais numerosas da classe dos insetos. Atualmente conhecem-se cerca de 150000 espécies, prevendo-se a existência de um número bastante superior. São insetos bastante cosmopolitas, podendo existir desde o Equador até às regiões polares. No entanto, são as espécies das regiões tropicais as mais exuberantes, quer pelas suas dimensões quer pelos seus tons brilhantes e metalizados" Bailarinas Caleidoscópicas - As Borboletas


 "As borboletas são o grupo mais popular dos insetos. Admiradas desde sempre pela sua beleza e elegância, elas foram colecionadas durante séculos, tendo sido alguns colecionadores os primeiros a dedicarem-se ao seu estudo científico." Origem e Evolução das Borboletas

 Algures no Golfo da Guiné, 12 de Novembro de 1975
 
 "Tive agora a visita de uma avezinha... que vêm aqui pernoitar à proa e à popa.... Há um pormenor curioso: é a existência de uma borboleta... Vi uma borboleta!... Tudo leva a crer que não deva estar muito afastado de terra."Diário de Bordo 7


No dia em que, surpreendentemente, tive a visita de uma pequena borboleta - Mas que graciosa surpresa tremulando e dançando na borda da minha canoa! Nem queria acreditar, que tão frágil inseto ali estivesse a latejar o colorido das suas  etéreas e minúsculas asas.  Que mensagem amiga, ao fim daquela tarde,  teria tão delicada mariposa para me comunicar?!...Sim, para uma pobre criatura humana que andava por ali perdida, ignorada e esquecida de todo o mundo, sem asas e sem saber ao menos em que ponto daquele vasto golfo  se encontrava ou aonde podia ir aportar..  Ainda hoje é a interrogação que persiste no meu pensamento. Pois jamais me esquecerei daquela presença  tão inesperada e tão subtil: só a pernoitar ou para me encorajar? - É um segredo que só ela o poderia explicar.

Hoje presumo que tenha sido a espantosa migradora borboleta monarca, capaz de fazer 100 km de voo e percorrendo milhares de quilómetros .A longa viagem das borboletas-monarca Mas não tenho a certeza. Ou, então, alguma borboleta que fosse pousando nos troncos e noutros destroços que flutuam nos mares. Há, porém, estudiosos que defendem que, mesmo as borboletas vulgares, voam grandes distâncias nos oceanos - Claro que fiquei muito contente com a sua aparição, pois acalentou-me a esperança de que não deveria estar muito longe de terra








Tal como referira em anteriores postagens, estava-se em plena época das chuvas, altura menos indicada para se navegar no Golfo da Guiné. Excetuando a Gravana, na época das chuvas ou há podres calmarias ou súbitos tornados – Tem havido grandes alterações climáticas. Pelo menos era assim o mar há 37 anos. 

Eu não contava navegar de novo por estas águas - voltar a percorrer este vasto braço de mar - pois já fizera os testes que desejava: viagem de São Tomé ao Príncipe, 3 dias e a viagem de São Tomé à Nigéria 13, concluídas com êxito. Mostrara que era possível as canoas terem ligado o continente africano e as ilhas do Golfo, há muitos séculos e feito o povoamento, muito antes de homens de outras civilizações, ali terem desembarcado. Sim, pelos menos nos arquivos históricos, já foram encontrados mapas anteriores à colonização(ver ILHAS ASBEN E SANAM deste site) O meu objetivo era  rumar, agora do sul de Ano Bom para oeste  e deixar esta área do Golfo o mais depressa que pudesse, rumo à costa brasileira, através da corrente equatorial, seguir a antiga rota da escravatura, evocar esses tempos ignominiosos, lembrar que ainda persistem sob várias formas, reforçar a tese de que as canoas são capazes de lograr grandes distâncias e prosseguir a experiência de Alain Bombard



Porém, o comandante do pesqueiro, que se comprometera largar-me nessa zona, fintou-me os planos Ao chegar àquela ilha, colocou-me num dilema: ou abandonava a canoa e ficava a bordo a trabalhar ou tinha que meter-me dentro dela e seguir o destino que quisesse. Na impossibilidade de alcançar a grande corrente, decidi empreender o regresso a S. Tomé e tentar a travessia noutra oportunidade.


Mas, no mar, tudo é imprevisível. Quando menos se espera, a natureza surpreende-nos: um violento tornado, logo na primeira noite, provocar-me-ia a perda da maior parte dos utensílios, água e alimentos. Improvisaria um remo, com alguns bocados arrancados da cobertura nos bordos, fixados a um dos barrotes do estrado da canoa, mas de pouco ou nada me haveria de valer. A maior parte do tempo, era passado à deriva, ao sabor dos ventos e das correntes.



Diário de Bordo .... 15ª dia -  UM GRANDE BARCO PASSOU AO MEU LADO ***** ******.....17ª Dia - Se me perguntassem qual era o meu maior desejo ..... ....;BIOKO À VISTA - ILHA DO “DIABO......***.;NÁUFRAGO - 18ª DIA – MAIS UM BARCO PASSOU A CURTA DISTÂNCIA ......; 19º Dia – Sinto muita sede  ...     ...; 20ª Dia Estou envolvido por enorme cardume,...........;21º DIA – “Sinceramentejá tenho pena de ter ferido aqueles tubarões n............;Náufrago 22.º dia - A canoa esteve há pouco à beira de se virar .....   ..24º Dia - É tubarão!.... Filho da mãe....... 25º diaEstou cheio de sede e de fome............26ª Dia Não tenho comidaÁgua também não. .      . 27ª dia  mar nunca se podem fazer cálculos seguros!...........28º Dia - Grandes vagas alterosas entravam dentro da minha canoa!.        29ª dia - Passei a noite todo encharcado.....       30º Dia - Não comi nada: limitei-me a comer uma das barbatanas do tubarão. .......... 31º Dia - A canoa a meter água cada vez mais!.... .............. .32º Dia -Estou comendo o coco! Avidamente!... Sofregamente!................33º Dia - Estou exausto!.........Dia 34º -  Sinto uma grande dureza no estômago..........35ºDia - Acordei com o barulho de uma enorme baleia aqui próximo da canoa ....36º Dia - Comi a ave que apanhei ontem! (...) Tenho a costa de África muito próxima... É já noite"... Estou a velejar! Estou-me a precipitar como um suicida. Tenho fome! ... Não posso demorar mais tempo!......37ª Dia Estou partido! Tenho o estômago metido para dentro...Estou realmente bastante fraco...

sem destino e a noite por companheira. poema




No interior de um caixote de plástico (igual aos caixotes do lixo) preservara a máquina fotográfica, livros, um pequeno transístor, com o qual poderia ouvir algumas estações de rádio africanas, inclusivamente, a Rádio Nacional de São Tomé e Príncipe– sim, enquanto não se me acabaram as pilhas.

Balanceado para todos os quadrantes, conforme as direções das correntes e da violência das tempestades, perscrutava o horizonte vezes sem conta. Procurando saber se por detrás das nuvens havia algum perfil de terra. Oh, enganei-me tantas vezes!....Nada me passava despercebido. Um dia até agitei a minha capa a um avião que passava, lá bem no alto dos céus e também a um cargueiro que quase me ia abalroando, tendo passado a menos de cem metros de mim, ignorando-me completamente, mais me parecendo um autêntico fantasma. 

Seguia com atenção o rumo dos barcos que via no distante horizonte. Mesmo que ecoasse apenas de lá um simples ruído dos seus motores ou algum leve marulho das suas hélices. Olhava e seguia o voo das aves como o perdigueiro segue o voo das perdizes.
 


Qualquer mudança na cor das águas e vestígio material que surgisse à superfície do mar (mesmo os grânulos de crude - bastantes havia - e manchas de óleo) cocos, ervas, folhas de coqueiros, troncos ou umas simples tábuas, eram, para mim, sempre objeto de atenta observação e ponderada reflexão: procurava saber donde vinham ou para onde iam. Por vezes, constatava que surgiam em pequenas correntes, tão sinuosas, tão estreitas e com tantas curvas, como se fossem verdadeiros rios em terra. Aliás, nas calmarias era nos seus leitos para onde também ia sendo arrastada a minha canoa. Numa ocasião, foi um cardume, que me envolveu e arrastou no meio de toda a sorte de despojos, seguindo a direção que tomava - desde o meio da tarde até altas horas da noite – Sim, ou não fosse eu também um mero despojo ou madeiro ao deus dará - Eis o retrato, por palavras, vertidas espontaneamente, de quando ainda tinha mais 15 penosos dias pela frente, até acostar à Ilha Bioko da República da Guiné Equatorial- suportando a fome e a sede - Pois, à falta de água das chuvas, tive que valer-me da água do mar e, às tantas, também deixei de pescar: várias rémoras fixaram -se coladas ao bojo da piroga, partiam-me as linhas com os seus dentes de lâminas, comiam a isca e deixaram-me sem anzóis, pois não ficavam lá presas. Algum que apanhava - e com infinita paciência - era à mão.

Não tinha quaisquer meios de comunicação com o exterior ou de navegação científica; só de bússola. Nunca sabia onde estava mas a direção  que tomava. Dispunha  de um pequeno gravador, no qual ia fazendo o registo do meu diário de bordo – De seguida, vou transcrever alguns dos excertos, alusivos ao 23º dia, a 12 de Novembro de 1975





Diário de Bordo 1- Já é manhã do 23º dia. O mar manteve-se calmo, não choveu. Dormi mais ou menos tranquilamente, embora tivesse acordado algumas vezes para observar o ambiente. Agora está a trovejar...é capaz de vir uma trovoada, não tardará muito tempo!...O céu, em todo o horizonte, está carregado de nuvens espessas. O mar não tem qualquer ondulação. Está muito calmo...Tudo leva a crer que, dentro de pouco tempo, tenha aí uma trovoada. Só peço a Deus que ela venha de sul para norte – Aliás, eu estou a sentir o trovão lá para o sul. A fim de ser puxado para norte...Não me vá acontecer como ontem que fui arrastado para sul.

Parece que esta noite foi a primeira vez que dormi qualquer coisa, visto que a canoa não fez grandes movimentos, embora estivesse acordado algumas vezes. Mas estou convencido que hoje vou ter muito trabalho.

Não posso deixar de fazer referência aos meus fiéis guardadores (os azuis e os dourados). Aliás, não sei quais são as suas intenções...Mas, enquanto aqui se mantêm, não aparecem aqui os vorazes, aqueles escuros! Que costumam atacar a canoa!...Isto já é uma grande coisa!...Outro pormenor curioso é que, esta manhã, captei a rádio da Nigéria, um posto de Calabar. Já a tenho ouvido mas em más condições.


Diário de Bordo - Parece-me que já era merecedor de chegar a terra..Visto já tantos sacrifícios enfrentei, suportei!...Tantas dificuldades!...Espero que realmente esta força superior, essa força sobrenatural, que até agora me tem protegido, me leve a terra o mais depressa possível...

Sei que a minha canoa agora está mais ou menos seca, mas, dentro de pouco tempo, quando chover, vai ficar uma banheira!...Isso não me importa; o que importa é que ela seja arrastada para bom caminho...



Outro pormenor que desejo ainda acentuar é que, neste momento, não vejo a Ilha de Fernão de Pó. O horizonte, em todo o limite, apresenta-se completamente cinzento. Não sei se por isso ou por estar mais afastado




Mapa das quatro ilhas do Golfo da Guiné - Eu fui largado na ilha mais a sul -. A 350 km da costa oeste do continente africano e 180 km a sudoeste da ilha de São Tomé - Só dependia de mim - Se precisasse de ser socorrido, ninguém mais me poderia valer. Não tardou a que me visse no centro de um círculo a perder de vista: Mar!...Mar!... Céu e Mar!... Era o que os meus olhos tinham sempre por companhia.


Diário de Bordo 2- Tal como previra, surgiu o tornado!...Desta vez veio de nordeste...Mas coloquei a vela, conforme ontem tinha chegado à conclusão, e até agora tem resultado, a canoa em vez de ser arrastada pelo tornado de nordeste para sudoeste, enfrenta o tornado, ou, pelo menos, fica ligeiramente de proa à vaga...É extraordinário!...Até agora tem dado resultado!... As vagas são realmente alterosas!...Algumas têm entrado na canoa mas a canoa tem-nas enfrentado!... Pelo menos com mais facilidade que das outras vezes!... Portanto, é sempre bom colocar uma vela. A canoa, sem ela, fica mais à mercê das vagas!...Com uma pequena vela, porta-se um pouco melhor!...É a conclusão que eu chego... O mar está muito agitado!... Deixou de chover, mas o mar ainda está bastante cavado! O pior, porém, parece já ter passado.



 






De tal maneira resultou a experiência com a vela, que até tenho tido oportunidade, ao mesmo tempo de controlar os movimentos da canoa com o corpo e, simultaneamente, aproveitar alguma água, porque já não tinha nenhuma água das chuvas!... Inclusive, até pude fazer fotografias, num temporal destes!...Coisa que nunca tinha feito até agora.

Diário de Bordo 3 - Devem ser umas nove ou dez horas do 23º dia de viagem de canoa. O mar ainda está muito encrespado, muito agitado!...

A experiência resultou... Quer dizer, prendi a vela numa certa posição e consegui que a canoa não fosse totalmente arrastada pelas trovoadas, pelas vagas...Como disse, ficou mais ou menos de proa à vaga, sem portanto ter necessidade de utilização do remo...Aliás, era impossível, que só com o remo o pudesse fazer...De qualquer maneira, eu sei que a canoa, pelo movimento dela, está sendo arrastada para noroeste...Aliás, também me interessa... é um rumo que me leva também à Nigéria.
Já tive aqui a visita de uma garça!...Ora, uma garça, só anda próximo de terra...Portanto, não devo estar muito afastado de terra...

A canoa está toda alagada em água, e eu também, evidentemente. Mas há um pormenor curioso: tinha ali uma latinha de Nescafé, caiu e tingiu a água toda!... Quer dizer, o fundo da canoa está totalmente escuro!... Eu, há pouco, estava a achar estranho... e verifiquei que era realmente da lata de Néscafé que tinha caído e entornado.

Disponho de pouca comida... Tenho ali uma latinha de flocos de aveia, que aliás aprecio muito... E a água das chuvas que consegui aproveitar...Vamos lá a ver onde eu irei ter...



As nuvens negras fizeram o seu trabalho sobre o meu corpo, descarregando bátegas de  uma forte chuvada. Rodopiaram com os ventos, que terão ido assolar outras áreas  do oceano. O tempo amainou para uma ligeira brisa. É hora da canoa voltar a transformar-se num pacífico estendal: de colocar a roupa molhada a secar – E de voltar a fazer o balanço do dia.


Diário de Bordo 4 - Devem ser neste momento duas horas da tarde. O mar está a ficar mais calmo...Já não há vento, deixou de chover...Mantém-se uma certa ondulação. O pior já passou...

Sinceramente, não sei onde estou!... E não sei para onde vou!... Sinto-me muito cansado!... Tenho os pés e as mãos muito gretadas!....Sinto-me um bocado fraco... de tanto lutar com a tempestade!... Porque, de facto, se não fosse a trovoada...enfim, eu conseguia viver em condições...Talvez agradavelmente!...Mas vêm as trovoadas que me deixam arrasado!... É preciso ter muita calma para enfrentar estas situações!....

Neste momento, tudo voltou à normalidade...Mas... depois não sei o que me volta a esperar!... A terra, para mim, ainda continua a ser uma incógnita!...Eu sei que as correntes me hão-de arrastar para lá, custe ou que custar!... Quando?!...Não sei!...Pode ser logo, amanhã, depois!...Daqui a dez dias, não sei!...Não faço ideia!...Mas continuo a esperar , a esperar e a confiar que possa ir ter a terra...

Entretanto, vou ligar o meu pequeno rádio para escutar um bocadinho de música e me distrair um pouco, visto ser a única distração que disponho





MUITOS PEIXES EM VOLTA, IMENSAMENTE DIFÍCIL A PESCARIA – Farto-me de fazer lançamentos e mais lançamentos para ver se consigo captar alguma dourada e não há meio de as atrair ao anzol. Tentei improvisar um arpão, fixando um anzol na extremidade de um barrote, mas risca-lhe o dorso e não as prende. Portanto, as presas mais importantes, até agora, continuam a ser os esqualozitos. Os grandes, esses, mal veem o brilho do anzol, lançam-se a ele mas depressa trincam a linha e lá continuam no seu contínuo rodopio. 


Diário de Bordo 5 - Quanto às possibilidades de pesca (dourada fêmea e dourada macho) não são pescáveis, pelo menos não vão à isca que eu tenho... Deixei de pescar os tais tubarões perigosos...Quer dizer, eu tenho pescado dos pequenos, mas eles deixaram de aparecer... De qualquer maneira, não tenho saudades deles porque eles são maus!...

A tarde, entretanto, vai descaindo calma e silenciosa. Haverá talvez  ainda uma hora de luz solar. Sento-me no fundo da canoa, a qual mal estremece,  fitando o pensativamente o céu. Apenas uma ou outra névoa branca, de vez em quando passa à deriva diante do sol. A brisa continua suave. É como se nada existisse, tal é a imobilidade em que tudo se concentra. Nem o mais débil ruído. É o absoluto desamparo da nudez azul, plácida, imensa. Onde até os rumores e o silêncio marítimo, denotam a sua ausência. Onde nem a presença de Deus parece derramar já a sua divina graça, mas ascende, expande-se e transborda até os limites do infinito,  um imenso círculo de absorvente abandono e pacífica monotonia. 

Mesmo os peixes, parecem ter desaparecido. O azul do mar perdeu a sua ondulante e voluptuosa juba branca Todavia, eu sei que esta ausência de vida é apenas aparente. Por baixo dos meus pés e a menos de um palmo, há milhões de lutas, que se debatem, ferozmente. Porém, à flor deste imenso tapete líquido, tudo parece morto e silencioso, nem a mais fugidia manifestação dessa tremenda luta pela sobrevivência. Não estou desencorajado mas perpassa-me pela minha mente um turbilhão de pensamentos. Tudo o que me aconteceu nas últimas horas,  absorvo-me e mistura-se com as mais esquisitas ideias. As minhas reações não param de variar. Porto-me como se fosse um termómetro do tempo. Só que agora o tempo, aqui, mantém-se estranhamente parado e inalterável. A calmaria, por tão absurda, torna-se inquietante e as estreitas paredes da minha canoa, são ainda o limite do meu mundo físico - Não há bulício de vida algum. Senão a oferenda da mais despojada e solitária quietude flutuante


Diário de Bordo 6 - Digam lá o que disserem, a experiência do homem solitário no mar é terrível!... É extremamente terrível!... O homem é um ser comunitário!... É um ser social!...Viver isolado, viver entre as vagas, viver nesta solidão!...Não!... O homem não pode viver assim!...O homem!... (choro) Eu sinto-me homem, meu Deus!... É terrível isto!... Como é terrível isto!..





CANOA AMIGA, CANOA MINHA COMPANHEIRA E CONFIDENTE



A minha canoa tem vida própria. Inspira ou expira ofegante e ritmicamente, conforme mergulha mais a fundo ou aflora a superfície a sua proa. Absorve ou expele o líquido em que navega. Fica com o corpo mais quente ou mais frio se chove ou faz sol. Geme ou faz baque-baque se as vagas a tocam de mansinho ou se a ferem ou vergastam com furor. É um ser como outro qualquer. Tranquiliza-se com as calmarias mas padece, enormemente, com as constantes rabanadas e safanões do mar. Suporta com notável estoicismo e resignação todas as adversidades. Os seus gemidos ou baques, nunca refletem desespero mas aquietação. Frágil mas de uma paciência que parece não ter limite. Até agora tenho confiado  nela. Espero que não me dececione.


Diário de Bordo 7 - Agora, falando da minha canoa e do que trouxe: a canoa é feita num tronco de oca, tem a largura de um metro, 60 cm de altura, e, de comprimento, cerca de sete metros. Trazia comigo quatro velas, agora só disponho de duas, por sinal das mais fracas...Trazia um refletor de radar, que é uma chapa de alumínio, muito vulgar, com uma determinada forma, já o perdi...(colocada no topo do mastro). Trazia uma série de alimentos, a maior parte deles, perdi-os...Disponho, apenas, neste momento de uma pequena lata de chouriço (uns restitos para as iscas) e uma lata, já aberta de flocos de aveia (aí uns 200gramas). Tenho um plástico onde trouxe vários livros comigo, mas tenho tido pouca oportunidade de ler, visto o mar não ter deixado fazê-lo. Trazia três remos, perdi os maiores e fiquei apenas com o mais pequeno que não me dá para nada. Trazia um leme, perdi-o. A canoa está pintada de vermelho nos bordos, à proa e à popa, onde tem uma pequena ponte. 

O corpo está pintado de azul (gentileza dos marinheiros do Hornet, nos três dias que passei a bordo). À frente tem a palavra São Tomé e uma inscrição que os marinheiros do pesqueiro Hornet, lhe fizeram e a palavra LOVE, símbolo da paz e do amor...Conservo as barbatanas dos tubarões que tenho pescado. Disponho de duas bússolas e de uma lanterna, um radiozinho com que ouço música e me vou entretendo às vezes. Trazia duas toalhas, já perdi uma. A roupa que trazia (a maior parte em mau estado) ainda a tenho quase toda.



Diário de Bordo - Trazia ainda comigo umas bananas e uns cocos, também já não tenho nada - em troca de algumas latas de conserva com os pescadores na ilha de Ano Bom, quando o pesqueiro esteve fundeado ao largo e subiram ao  convês: uns comi-os, outros, convencido que demoraria pouco tempo, deitei-os fora. Foi uma precipitação minha (sim, quando a canoa foi assolada pelo tornado). Tinha várias coisas...olhando para a minha canoa, está praticamente vazia....dando um aspecto de verdadeiro abandono... tal como realmente me encontro...

O sol já se pôs, creio eu... Pois o tempo continua cinzento, o mar e o céu confundem-se numa cor única.

Tive agora a visita de uma avezinha... que vêm aqui pernoitar à proa e à popa.... Há um pormenor curioso: é a existência de uma borboleta... Vi uma borboleta!... Tudo leva a crer que não deva estar muito afastado de terra.


Não sei, efetivamente, até que distância as borboletas voam sem pousar. No entanto, como têm aparecido vários paus à deriva, pode muito bem ter acontecido ou que tenham vindo pousadas no seu arrastamento ou talvez feito desses despojos, o seu campo de descanso e de aterragem para outros voos, tal como fazem certas aves marinhas. Paira  por todo o lado uma densa neblina. Já não se sabe onde acaba o mar e começa o espaço. É noite no mar.




Diário de Bordo 8- Neste momento é noite do 23ª dia. São oito horas da noite. Estou a ouvir o programa do ouvinte da Rádio Nacional de São Tomé e Príncipe. É uma das estações que aqui se conseguem ouvir em melhores condições....Tive que dar outra posição à canoa, porque a canoa está desequilibrada, não está bem construída e tem que ter determinada posição em relação às vagas e às correntes....A noite, não é muito clara; tem o céu mais ou menos coberto e o luar pouco luminoso, dada a existência de nuvens. O mar mantém-se calmo.


 O sol, no seu esplendor, por vezes é insuportável mas anima e reconforta. E, quando nasce, é pois para onde se encaminha logo o meu olhar. Claro que nem sempre o posso contemplar: umas vezes é porque se esconde por detrás das nuvens, outras, quando está mais brilhante e resplandecente, é porque tenho de me proteger dos seus raios e não o posso fitar. Porém, quando se despede no mar e sobrevém a noite, com o céu carregado de nuvens, oh Deus!... Como negra  e triste é noite!...E que saudades me deixam os seus raios! Que nostalgia, logo  me ocorre e me invade
 "Sou miséria, sou treva e dor sem fim.
Todo eu sou dor e morte. Sou fraqueza.
Sou o enviado da Sombra. Ao mundo vim


Pregar a noite, a lágrima, a incerteza.
A flor que para mim emudeceu,
Neste deserto infinito de tristeza"

Teixeira de Pacoaes - de: A minha dor



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