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Entre outros assuntos, falo da escalada ao Pico Cão Grande e das minhas aventuras em canoas – Visam defender a teoria de que antigos povos africanos, podiam ter sido os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo da Guiné, antes dos colonizadores – Parti à meia-noite, disfarçado de pescador, ligando a ilha do Príncipe. Para me orientar, uma rudimentar bússola – A canoa era minúscula, à segunda noite adormeci: rolei na escuridão das vagas. No regresso fui distinguido com sopapos da policia salazarista, enviado para os calabouços – Cinco anos depois, numa piroga maior, fiz a ligação São Tomé-Nigéria. Partindo igualmente à noite, 13 dias depois atingia uma praia de Calabar, tendo sido detido 17 dias por suspeita de espionagem. - No mesmo ano, já com São Tomé e Príncipe independente, tentei a travessia São Tomé ao Brasil, usando os mesmos recursos. Além de pretender reforçar a minha teoria, desejava evocar a rota da escravatura e repetir a experiência de Alain Bombard. Porém, quis a ironia do destino que vivesse a difícil provação de um naufrágio de 38 longos dias, tendo aportado numa praia de Bioko (Bococo)onde fui recambiado para a famosa prisão de Black Beach

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Memórias do Bate-Pá (1) - Auschwitz, em S. Tomé também existiu: no campo do extermínio de Fernão Dias e nas cadeias da morte lenta das duas Ilhas. Governadas por "um ditador à maneira da gestapo no tempo de Hitler " - Acusações do seu ajudante de campo e comandante da Policia .

Não deixe de ler  - Sobre o mesmo assunto - Por Jorge Trabulo Marques - Jornalista  -1º de uma série de artigos
"Tudo começara na vila da Trindade, com a população nativa a ser perseguida há meses com rusgas permanentes e arrebanho de pessoas para as obras do Estado. Ao anoitecer do dia 3 de Fevereiro de 1953, o tenente Ferreira e o Zé Mulato, acompanhados de soldados armados de espingarda e baioneta, apareceram num jipe em atitude provocatória. Um homem que passava, descuidadamente, na rua principal abatido pelas costas. A população, aterrada com o tiroteio, corre a refugiar-se no mato. E, no dia seguinte, principiaram as prisões em massa, as rajadas de metralhadora, morte de gente indefesa. Com a desculpa, disparatada, de que os nativos, armados machins, se preparavam para marchar sobre a cidade para matar o Governador. E, por fim, nomeariam como  governantes  personalidades desafetas  ao Governo, como o Engº Graça , os professores Januário e Maria de Jesus, os chefes e mentores da revolta. E também alguns brancos-forros, Vergílio Lima, Carlos Soares, Américo Morais  - In Crónica de uma Guerra Inventada – por Sum Marki



.(...) "Desconhecem o lealismo dos filhos de um Império, desconhecem os aviões e os navios, e todo um arsenal de história, de espírito humano e real metralha, que Deus pôs à disposição dos portugueses"  - In FORROS, PRETOS E BRANCOS,  do jornal A VOZ DE SÃO TOMÉ -  12 de Fev. 1953 - Um dos artigos sobre o MASSACRE DO BETEPÁ






Recentemente, completaram-se os 70 anos sobre a data da  libertação do campo dos horrores de Auschwitz, pelo exército soviético, em 27 de janeiro de 1945 -  Lugar da morte de cerca 1,1 milhão de pessoas, entre elas 1 milhão de judeus de vários países europeus.  - Através de entrevistas a alguns dos 300 sobreviventes, constatou-se que ainda perdura, no coração e no seus olhos, um imenso rosário de sofrimentos e de lágrimas, que não estão saradas

O mesmo se pode dizer em relação aos santomenses, vitimas de igual infâmia, no dominado Massacre do Batepá  (não em câmaras de gás ) mas igualmente sujeitos a idênticos horrores e barbaridades, espancamentos e atrocidades, que, não obstante toda a hedionda ignominia, heroicamente lograram resistir e sobreviver, acarretando, ainda na memória dos dias de hoje, a dor sofrida (no corpo e no espírito) as lembranças de tão inarrável como assombroso pesadelo   - Trágico saldo  de centenas de mulheres e homens, e até adolescentes e crianças, gente pacifica e indefesa, sob a alegada tentativa de conspiração comunista.

 O QUE DIZEM AS "MEMÓRIAS  DE UM AJUDANTE-DE-CAMPO E COMANDANTE DA POLICIA" . Capitão Salgueiro Rêgo - No tempo de um dos Governadores mais odiados em S. Tomé e Príncipe 

"A forma como o Governador durante o tempo do meu Comando tratava e dirigia a sua obra, "com dinamismo - que o tinha -sob os aspectos de desenvolvimento material e económico era, sendo bem observado, em vários detalhes, como um ditador à maneira da gestapo no tempo de Hitler na Alemanha. Era ele e só ele quem tudo mandava. sentindo que a minha outra função de Administrador do Concelho inerente ao meu comando da Polícia iria ser toda subordinada às suas firmes e despóticas vontades em acionar as suas obras que dia a dia se faziam por toda a parte. Assim, o Governador determinava ao Administrador do Conselho que mandasse apresentar na Repartição das Obras Públicas a quantidade de trabalhadores que desejava para qualquer obra. Mas, como se me tornava impossível por falta de ficheiros e registos de elementos a convocar e a chamar pelos diversos Regedores das Freguesias da Ilha, comunicava isso mesmo - em geral pessoalmente ao Governador - que se admirava da minha ingenuidade nestas coisas já tão sabidas em S. Tomé! ...

Como ir arranjar- trabalhadores?!...Muito  facilmente pá: como já do antecedente: forma que era já do tempo em que ele tinha tomado posse daquela Grande Propriedade que era do Estado mas que .ele governava à sua maneira de conseguir homens para  trabalho, E como era ? Por meio de RUSGAS! Tratando-me por TU, como aliás a toda a gente daquela terra, dizia-me abrindo o mapa, a planta, da Ilha. Tratas de cercar com os teus soldados a zona' tal e tal ... e de manhã vais apertando o cerco e trazes-me para a Cidade essa gente que for saindo de suas casas. Assim se fazia e se entre as mulheres vinha alguma cachopinha bonitinha em isca para o homem grande ... E o resto da caçada era entregue pelos meus soldados sob prisão ao comandante das prisões -miseráveis barracões imundos onde os pobres dormiam pelo chão-um tenente Santos Ferreira que se dizia parente do Ministro do Exército, natural de Viseu" - Excerto - Em próximo post conto retomar as suas memórias.

 A  MÁRTIR POVOAÇÃO DE BATEPÁ

Batepá, hoje uma pequena vila, porém, há 62 nos, era apenas um conjunto de algumas modestas casas de madeira –  Mas foi justamente aí, pelo facto dos santomenses se haverem recusado  a trabalharem à força, como escravos,  nas obras públicas e nas plantações do Cacau e do Café das grandes roças, que começaria uma das páginas mais negras da história da colonização portuguesa neste arquipélago – Mas também, por outro lado, a lembrança de um período que haveria de ser marcado pelas mais nobres e corajosas provas de resistência ao repressivo domínio esclavagista. 

 O DIA QUE S. TOMÉ E PRINCIPE NÃO ESQUECE

Daí que, todos anos, o 3 de Fevereiro, seja declarado feriado nacional e, um dos locais onde ocorreram os extermínios em massa, que mataram centenas de santomenses, seja palco de sentida peregrinação e evocação, com missa solene, deposição de ramos de flores,  e a  presença das vitimas sobreviventes, povo anónimo e  as principais entidades das Ilhas, que é que se espera venha a decorrer, nas cerimónias, previstas para  a próxima terça-feira, dia 3. 
 20 anos depois, ainda havia quem tivesse feridas nas pernas por cicatrizar das pesadas grilhetas - Fora as que sangravam no coração!....que dificilmente se apagam...

 SOBREVIVENTE - A DOR QUE O TEMPO AINDA NÃO APAGOU - ESPANCADA À CRONHADA DEPOIS DE LHE METEREM A CABEÇA NUM TANQUE DE  ÁGUA - Era menina e estava grávida.



Ainda  jovem, e  mesmo grávida, não foi poupada à brutalidade facínora das ordens do então Governador Carlos Gorgulho: arrastada à força de sua casa, levada para um calabouço na então Vila de Trindade, espancada barbaramente, Primeiro deu-se o saque às casas: carregaram o que puderam dos modestos teres e haveres, após o que as incendiaram.

Maria dos Santos, mais conhecida por Mena, agora com 80 anos,  é um  dos rostos debilitados, que ainda hoje espelha o testemunho do incomensurável sofrimento, angústia e lágrimas, por que viveu há 62 anos, - É uma das mártires, ainda sobrevivente dos hediondos massacres de Batepá, que tiveram inicio nos horrores da longa e pavorosa noite de 2 para 3 de Fevereiro de 1953 e que iriam prolongar-se nos ignóbeis espancamentos e torturas,  até à morte, infligidos  a centenas de santomenses, em terríveis interrogatórios, desde brutais choques elétricos, à violenta palmatoada, ao chicote, cacetada e cronhada, a soco e a pontapé,  quer  no afrontoso cárcere da prisão local,  onde os presos, coabitavam  exíguos e afrontosos espaços, em deploráveis e nauseabundas condições higiénicas, quer numa das salas da Fortaleza S. Sebastião (a capitania dos Portos), transformada em laboratório   ao estilo da Gestapo hitleriana, sob a batuta do  famigerado médico Aragão, locais donde partiam para o Campo de Concentração Fernão Dias   

NÃO LANÇARAM 12O HOMENS AO MAR PORQUE A TRIPULAÇÃO SE OPÕS




Memórias do hediondo Massacre do Batepá 

Imagens e palavras de um abominável massacre. O pai de Teresa, esposo de Maria dos Santos, , também vitima da mesma barbárie, depois de lhe terrem queimado a casa e o carro (que saquearam antes de a incendiarem) ainda procurou refúgio no mato mas foi apanhado, preso e enviado para o Campo de Concentração de Fernão, onde acabaria por embarcar, com mais 120 homens para serem lançados ao mar, no barco António Carlos. Tal porém não sucederia por  a tripulação do navio se ter oposto, tal como vim  a saber através de outro depoimento, que obrigaram o comandante a deixar os prisioneiros na Ilha do Príncipe, onde acabariam por ficar presos   – Um desses  homens era o cabo-verdiano, Bernardino Lopes Monteiro, pai  do Coronel Victor Monteiro Dias,  chefe do Gabinete do Presidente Manuel Pinto da Costa, de cujo episódio  conto vir a referir-me neste site.

Agora,  ao voltar a S. Tomé, 39 anos depois de ter partido numa canoa solitária, não podia deixar de passar pela martirizada  vila do Batepá, que, embora não tendo crescido muito, no entanto, já tem mais algumas casas de que no meu  tempo. E foi ali que tive oportunidade de falar com uma antiga sobrevivente, que, juntamente com a filha e netos, ainda teve a amabilidade de me franquear o portão de sua casa e me mostrar o que resta do carro que ardeu quando atearam o fogo a sua casa - a única loja comercial que ali havia, naquela altura, a qual fora saqueada antes de lhe deitarem o fogo -  Penso que esses objetos deviam ser guardados no museu e que não acabassem  por se desfazer com a ferrugem. 

Sim, lá estava ainda a mola de um velho chassi calcinado, assim como a carapaça do motor, junto às raízes da árvore da fruta pão.  E, pelo que me apercebi, não me mostravam tais memórias como meros souvenires (que julgo, o terão feito pela primeira vez a um jornalista), dado  tratarem-se de peças que têm muito a ver com um período, muito sofrido, do casal que ali vivia, e que depois passaram  também a ser, como que um relicário sagrado para os filhos e netos., pelo que não deixei de ver nos olhos e nos rostos de todos, quantos ali se encontravam presentes, como que o perpassar  um sentimento, misto de dor, frieza e de  angústia, difícil de apagar e de esquecer. 

No termo desta visita à Vila do Batepá (que também tinha como destino  uma peregrinação à Roça Saudade, onde nasceu Almada Negreiros,  na companhia de Manuel Gonçalves, o português a quem devo a simpatia de me  acompanhar no jipe que alugou) ambos passámos pelo Mercado Municipal, onde fomos bem recebidos, pudemos almoçar comida típica e  um refrescante vinho de palma, confraternizando e vivendo  momentos de franco e amistoso diálogo, tanto mais que fui ali encontrar santomenses que se lembravam ainda de mim, quer das minhas aventuras marítimas, quer dos artigos que publicara na Semana Ilustrada, sobre os massacres do Batepá – De resto, creio que teria sido  por esse facto que, aquela velhinha de 80 anos, a Mena, com o rosto que parecia um livro ainda vivo de memórias,  me concedera  à porta de sua casa, após o que, já na companhia da sua filha mais velha, me franqueara o seu quintal para me mostrar testemunhos materiais, que o passar dos  anos ainda não desfez.

De referir que, inicialmente algo renitente, com expressão dura e não oculta de alguma  desconfiança, como se, porventura, a memória que os brancos lhe deixaram,  naqueles martirizados dias, ainda pudesse ser estampada num português que agora lhe batia inesperadamente à porta. Sim, pude ver  que há chagas psicológicas, feridas no coração, que deixam marcas para o resto da  vida – Sobretudo, no seu caso, quando era ainda menina e moça, se bem que já grávida  (pois em África o fenómeno  da procriação manifesta-se mais cedo que nas regiões frias) e, além de a espancarem, quase a sufocaram quando lhe meteram a cabeça num tanque de água para a obrigarem a confessar que estava envolvida na tal fictícia conspiração comunista

CAMPO DE EXTERMÍNIO DE FERNÃO DIAS

Um local pantanoso, infestado de mosquitos, embora a escassos metros da praia, onde muitos presos, ou  eram imediatamente acorrentados e lançados ao mar ou, ainda sob o peso de fortes grilhetas,  obrigados a carregar pesadas tinas de água ou grandes blocos de pedra, por forma a que o seu extermínio ainda fosse mais doloroso, porque física e psicologicamente mais sórdido e lento, quando não sufocados pelo terreno movediço da lama para onde também eram atirados ou mortos vivos em valas abertas pelos próprios prisioneiros, que eram obrigados a cavar a sepultura, sob as prepotências e as arbitrariedades de um contratado angolano, um tal Zé Mulato, um inqualificável verdugo que  que as autoridades foram buscar à cadeia,  onde  cumpria pena de assassínio, para chefiar o dito campo de morte. 

 EM PORTUGAL - NUMA REMOTA ALDEIA - TAMBÉM HOUVE OUTRO MASSACRE

Claro que não se pode dizer que, em 1953, os tempos também fossem bons para os portugueses que viviam na “metrópole do império colonial”, muito pelo contrário: eram tempos de repressão, de fome e de miséria – E a pequena aldeia do Colmeal onde nasceu o meu bisavô paterno, varrida por ação de um processo judicial, injusto e prepotente, no dia 10 de Junho de 1957, com os seus habitantes despejados à força, com  desfecho trágico de casas queimadas e algumas mortes por balas da GNR- a guarda pretoriana do regime colonial-fascista -, é  também outra das páginas negras da História da Lusitânia moderna

Conheci pessoalmente a dureza desses tempo, quando fui trabalhar aos 11 anos, como marçano em Lisboa. Daí  que, os criminosos  acontecimento que ocorreram em Fevereiro de 1953, em S. Tomé, sob o comando do próprio governador colonial,  tenham que também de ser analisados -não estritamente por via de  ódios raciais – mas num contexto mais abrangente – O da época colonial e do fascismo que se servia de todos os meios para defender os interesses de uma certa burguesia privilegiada – Infelizmente é esta a situação a que estamos assistir através da ideologia liberal. 

Ainda entrevistei algumas das vítimas - "Prenderam-me durante 45 dias. Houve a ideia de arranjar mão-de-obra gratuita. E daí surgiram as prisões, mais prisões sem quaisquer razões para isso. Procurava-se emprego e não se encontrava. No entanto, as rusgas sucediam-se e as pessoas que encontravam eram presas. É claro que houve um ou outro que reagiu sobre essas atitudes." Declarações de Bartolomeu Cravid

Pouco depois do 25 de Abril, vi com os meus próprios olhos  essas feridas -  Ainda em chagas vivas por sarar! ... Provocadas por longo cativeiro, no campo de concentração de Fernão Dias, acorrentados a bolas de ferro, tal como aos escravos nos barcos negreiros. Pude entrevistar algumas dessas pessoas para a Revista Semana Ilustrada.

Vi também  a fotografia da famosa cadeira onde os presos eram algemados, submetidos a ignóbeis espancamentos e torturas,  até sujeitos a choques elétricos para os obrigarem a confessar e assinar declarações de factos forjados para os incriminarem o seu envolvimento numa revolta que pretenderia matar o governador e os colonos e aproveitarem-se das suas mulheres  - Mais tarde  a PIDE, enviada   por Salazar, iria negar a existência da conspiração, que depois de ter sido rotulada de comunista, passar a ser provocada por elementos desafetos ao regime – Vi também as   fotos   de outras macabras imagens, que me foram mostradas - Pasme-se pelo então chefe da Redação de "A Voz de S. Tomé e Príncipe"  e professor de português no Liceu, que, com um sorriso irónico, chegara ao pé de mim (claro, quando este quinzenário do regime deixara de se publicar, por foça da revolução de Abril e ele andava um tato ou quanto com assustado e com o "rabo encolhido", receando que as liberdades democráticas lhe pudessem tirar os privilégios) vindo junto de mim com esta surpreendente mas hipócrita sugestão: 

 "Você que é amigo dos pretos, veja se tem a coragem de publicar estas  fotografias! Ao mesmo tempo que mas passa algumas para as mãos, pedindo-me, que, logo que as fotografasse, lhas devolvesse. Com a recomendação: "Mas  se o fizer, acautele-se!  Olhe que eles ainda andam quase todos por aí  e não vão gostar - Agradeci-lhe  o gesto e a recomendação mas  não me amedrontei. Pelo contrário, tinha ali um bom motivo de reportagem, entre mãos mas, para isso, precisava de ouvir  alguns dos sobreviventes e  de  fazer as entrevistas que me fosse possível.

 COMETERAM CRIMES HEDIONDOS E NÃO FORAM PRESOS

Ao chegar a minha casa, olhando com atenção para  aquelas fotos (bastantes  mais do que que as hoje se encontram expostas no museu da resistência), sim, não me foi difícil identificar alguns dos protagonistas  envolvidos nos  criminosos acontecimentos. Um dos quais era o chefe de escritórios da Roça Uba-Budo, onde passei um mau bocado: ia para fazer o estágio do meu  curso de Agente Rural, e, além de me terem dado a categoria  mais baixa da roça, a seguir à dos serviçais contratados, que é a de empregado de mato, ainda me queriam obrigar a tratar o trabalhador por tu e ao estilo colonial  - Bom, como recusasse, fui enviado de castigo para a Roça Ribeira Peixe, com um trabalhador cabo-verdiano, a contar cacaueiros velhos e abandonados, na zona infestada pela cobra preta. Não vou agora contar essa porque, só isso, daria talvez um livro. 

Outro colono, que também  identifiquei, era o “Silva Pereira Taxista”, um branco que habitualmente estacionava o carro frente ao Restaurante Palmar -   Quando lhe falei no assunto,  quase me ia fuzilando com os olhos: você não tem vergonha de me vir falar de um caso , que já foi resolvido pelos Tribunais?!... Vás-se f...." - Vi logo que não era pelos brancos que devia começar - Estava visto que dali não lograva qualquer declaração. De resto, a primeira vez que ouvira falar dos Massacres do Batepá, foi depois do 25 de Abril 

Eu desembarcara, a bordo do paquete Uíge, em Novembro de 1963, numa altura em que ainda devia haver bastantes mais feridas por cicatrizar do que após o 25 de Abril de 1974, mas nem assim nunca ninguém me falou de tais factos. A razão é simples de compreender: eram das tais conversas, publicamente proibidas, tal como proibido chegara a ser o livro das “MEMÓRIAS DE UM AJUDANTE-DE-CAMPO”, a que conto vir a falar numa das postagens seguintes. 

MUSEU NACIONAL DE SÃO TOMÉ – SITO NA ANTIGA FORTALEZA DE S. SEBASTIÃO - ONDE O PASSADO HISTÓRICO PORTUGUÊS NÃO DEIXA MUITO A DESEJAR

São Tomé e Príncipe possui um Arquivo Histórico, localizado na praça de Mártires da Liberdade, na cidade capital,  com  a avenida da Independência e Parque Popular, e o Museu Nacional, localizada no sudeste da mesma cidade, que passou ali a integrar as instalações da antiga fortaleza de S. Sebastião, desde 1975.  

Quem ali for visitar, o vetusto ao edifício, erguida na ponta mais a oeste da margem direita  da Baía Ana de Chaves, sobretudo se é português e se ali entrar com olhos de ver - que esqueça os tempos épicos,  em que os canhões tentaram repelir os invasores Olandeses e Franceses ou até mesmo queira ali lembrar os chamados feitos “por mares nunca dantes navegados” de João de Santarém e Pero Escobar, cujas estátuas, depois de apeadas dos seus pedestais,  se encontram ali à entrada na condição de miseráveis testemunhas  mudas  e desprezíveis de um tempo que, por não merecer ser recordado, à população local, as ostraciza e as vota como que ao rol das pedras mortas, que, mesmo tendo fisionomias humanas, deixaram de ter qualquer importância histórica para a posteridade. Não tenho dúvidas que é mesmo assim – Esse o sentimento que também ali nutre depois de lá entrar – O passado não se pode apagar mas também só merece ser lembrado, se as boas recordações superarem as más. Não me parece que seja  o caso. 

E, embora ao chegar ao local, sendo  um dos admiradores dos poemas épicos de Camões («Sempre, enfim, pera o Austro a aguda proa/No grandíssimo gôlfão nos metemos, /Deixando a Serra aspérrima Leoa, /Co Cabo a quem das Palmas nome demos./O grande rio, onde batendo soa) ainda seja tentado  a sentir algum rebate nostálgico, creio que à saída deixará de o ter – Por uma simples razão: é que, na sala reservada ao  ‘’massacre de Batepá’’ do Museu Nacional, o que ali constata é uma autêntica câmara de horrores.  Mesmo assim, não deixe de testemunhar com os olhos de ver,  até onde chega a barbárie. Que mais não seja para admirar, ali mesmo ao lado, talvez a praia mais concorrida pelo colorido e alegria dos  santomenses, sem olhar a idades ou a sexo.

Obviamente, que, por minha parte, não podia deixar de ali fazer  uma vista  ao Museu Nacional de S. Tomé e Príncipe, onde me deparei com algumas das imagens que já conhecia, as quais, juntas com outros macabros objetos, desde as grilhetas, a implacável palmatoria, capaz de fazer estalar uma mão, às  antigas mauseres,  com baioneta cravada nas pontas, usadas por milícias e forças militarizadas, à foto e farpela do Homem Cristo, que fora crivada de balas e que, mesmo assim, milagrosamente, lograra escapar-se aos  carrascos prisionais, bem como dos rostos desfeitos desfigurados, a par de outros rostos, de figuras que pude conhecer, as quais, conquanto tenham sido poupadas de tais horrores, nem por isso deixaram de suportar várias barbaridades e sevicias. 

Confesso que também guardo más recordações destas  instalações. Era ali a antiga Capitania dos Portos, e, no seguimento da minha viagem clandestina de canoa ao Príncipe, fui ali chamado pelo Capitão dos Portos – um tal Elias da Costa - que, além de me  aplicar pesada coima, me deu uns valentes encontros contra a parede  – Isto já depois  de ter sido recebido no aeroporto de S. Tomé, com um par de socos no estômago e de seguida ter passado pelos calabouços da Pide, supondo que eu não queria ir para aquela ilha mas fugir para o Gabão

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