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Entre outros assuntos, falo da escalada ao Pico Cão Grande e das minhas aventuras em canoas – Visam defender a teoria de que antigos povos africanos, podiam ter sido os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo da Guiné, antes dos colonizadores – Parti à meia-noite, disfarçado de pescador, ligando a ilha do Príncipe. Para me orientar, uma rudimentar bússola – A canoa era minúscula, à segunda noite adormeci: rolei na escuridão das vagas. No regresso fui distinguido com sopapos da policia salazarista, enviado para os calabouços – Cinco anos depois, numa piroga maior, fiz a ligação São Tomé-Nigéria. Partindo igualmente à noite, 13 dias depois atingia uma praia de Calabar, tendo sido detido 17 dias por suspeita de espionagem. - No mesmo ano, já com São Tomé e Príncipe independente, tentei a travessia São Tomé ao Brasil, usando os mesmos recursos. Além de pretender reforçar a minha teoria, desejava evocar a rota da escravatura e repetir a experiência de Alain Bombard. Porém, quis a ironia do destino que vivesse a difícil provação de um naufrágio de 38 longos dias, tendo aportado numa praia de Bioko (Bococo)onde fui recambiado para a famosa prisão de Black Beach

terça-feira, 7 de abril de 2015

Almada Negreiros nasceu na Ilha de S. Tomé há 122 anos – Hoje é inaugurada a Casa das Artes e Museu na Roça Saudade – Finalmente, das ruinas onde veio à luz se fez uma obra para honrar a memória de uma figura ímpar no panorama artístico português do século XX. – Também no dia em que se anuncia um filme da sua vida.


Casa Museu Almada Negreiros, é inaugurada hoje na Roça Saudade onde nasceu - E para quando a homenagem em Cascais para onde foi viver de tenra idade - - Por Jorge Trabulo Marques - jornalista

"Naquele berço encantado, que era a sede da Roça Saudade, nasceu José de Almada Negreiros, a 7 de Abril de 1893. Da terra da sua naturalidade foi arrancado, na tenra idade de 2 anos, e transplantado para Lisboa, em 23 de Abril de 1895, passando a viver em Cascais, em casa dos avós e tios maternos, da família Freire Sobral" - Padre. António Ambrósio.


Transformar as ruínas da casa onde nasceu Almada Negreiros, numa Casa de Arte, foi o pensamento que norteou Joaquim Victor, mesmo partindo quase de mãos vazias, confiante na sua determinação e no alcance cultural e turístico da sua iniciativa  -A edificação de uma casa de madeira, alpendrada, assente justamente sobre algumas colunas e rebocos do antigo solar, é já uma espantosa realidade
 


Situada na antiga Roça Saudade, a cerca de 800 metros de altitude, próxima da antiga Pousada Salazar, e também relativamente perto de uma das mais belas cascatas de São Tomé, a cascata de São Nicolau e do Jardim botânico  -

 Joaquim Victor, que recolheu vários apoios em Portugal, menos oficiais “por se tratar de uma iniciativa particular”, é, com certeza, hoje um homem muito feliz. Teve a gentileza de nos dar a boa nova, ontem, através de um telefonema, que, com muito prazer, aqui divulgamos.


Já nos tínhamos apercebido dessa comovente surpresa, a que neste site fizemos referência, nomeadamente, na visita que ali fizemos em Outubro passado, numa fase em que ainda decorriam obras de acabamento, mas, finalmente, aí está a concretização de um projeto cultural e turístico, muito interessante. que é inaugurado, oficialmente, com a presença de familiares, amigos e admiradores da  vida e obra do autor do autor do “Manifesto Anti-Dantas  - Artista multidisciplinar que se dedicou fundamentalmente às artes plásticas e à escrita, ocupando uma posição central na primeira geração de modernistas portugueses.

Quem gostaria de também ali estar era o seu filho Arquiteto  José Afonso Almada Negreiros, que, no mesmo ano em que falecera, nos chegara a manifestar o seu grande desejo de ir conhecer a Roça onde seu pai nascera 

José de Almada Negreiros nasceu em São Tomé  na Roça Saudade, freguesia da Trindade, às 3 hora da manhã do dia 7 de Abril de 1893.
Da terra da sua naturalidade foi arrancado, na tenra idade de 2 anos, e transportado para Lisboa, em 23 de Abril de 1895, passando a viver em Cascais, em casa dos avós e tios maternos, da família Freire Sobral.

«Aos vinte e quatro dias do mez de Junho do anno mil oitocentos e noventa e três, nesta Egreja Parochial da Santíssima Trindade, Concelho de S. Thomé, Diocese de S. Thomé e Príncipe, baptizei solemnemente um indivíduo do sexo masculino, a quem dei o nome de - JOSÉ- e que nasceu nesta freguesia, na Fazenda Saudade, às tres horas da manhã do dia sete do mcz d' Abril do anno de mil oitocentos e noventa e tres, filho illegítimo de digo legitimo de António Lobo d' Almada Negreiros, casado, natural de Portugal, proprietário, agricultor e de Dona Elvira Sobral de Almada Negreiros, casada, natural desta freguesia, proprietária, parochianos desta freguesia, moradores na mencionada Fazenda, neto paterno de Pedro d' Almada Pereira e de Margarida Francisca de Almada Lobo Branco de Negreiros. Foi padrinho José António Freire Sobral, casado, proprietário e agricultor e madrinha Dona Marianna Emília de Souza Sobral, casada, proprietária e agricultora, os quaes todos sei serem os próprios. E para constar lavrei em duplicado este assento que depois de ser lido e conferido perante os padrinhos comigo o assignaram”-In Almada Negreiros  Africano - António Ambrósio

Este o poema que, seu pai, lhe dedicaria, no livro Equatoriaes, escrito no dia 7-4-1894  - Ou seja, um ano depois do seu nascimento:


Um anno! Um beijo de luz
Na tua fáce, criança!
Suavíssima esperança
Que desabrócha e seduz!

Nunca se acábe a bonança
Que a tua frônte tradúz,
Como um beijo de Jesus
Da Mãe na virginea trança

António Lobo de Almada Negreiros



A ROÇA SAUDADE: UM SONHO E UM BERÇO 

Sim, foi um sonho e um berço para quem lá nasceu e viveu. Mas a vida das pessoas não é eterna, tal como também não são as construções humanas. E a sua longevidade é curta, sobretudo quando desabitada e deixada ao abandono. Foi o que sucedeu ao principal edifício da Roça Saudade, que, muito antes de se falar da independência de S. Tomé e Príncipe,   acabara por ficar reduzida a meras ruínas. irreconhecível - Mas eis a descrição do que chegara a ser

 "A casa  onde Almada nasceu, na sede da Roça Saudade – diz ainda António Ambrósio – “estava suspensa sobre uma profunda grota, e aberta a nascente, por uma varanda corrida, ao estilo tropical, para um mar de verdura, que, depois da primeira quebra, se espraiava, numa ondulação aparentemente suave, por vários quilómetros de extensão, em forma de leque rendilhado, até ao mar-oceano.

(…)Por fora, a Saudade era um mimo. O comendador José António Freire Sobral fizera da sede uma estância modelar: além das instalações para habitação e trabalho, das sanzalas  e dos secadores, e do hospital de boa construção, a Roça tinha um amplo terreiro, onde, como uma bandeira hasteada, se erguia uma elegante palmeira de 54 metros de altura (Veja-se: Almada Negreiros, História Ethnographica da Ilha de S. Tomé, p.272). Na parte superior do terreiro, em zona mais elevada, situavam-se os jardins, dispostos em socalcos. No meio, sobressaía  um artístico  caramanchão, todo coberto de buganvílias e trepadeiras. Junto, uma nascente de água puríssima foi aproveitada para construir  uma pequena  fonte, bem adornada de azulejos  pintados  e com dois grandes jarrões de porcelana envidraçada, aos lados” Im Almada Negreiros Africano”



A NOTICIA QUE FALA DE UM FILME 

"O artista que marcou a arte e a cultura portuguesa, nasceu em São Tomé mais concretamente na roça saudade, exactamente a 7 de Abril de 1893. Entre Maio a Junho próximos, Almada Negreiros, vai regressar a sua terra natal.

Um regresso a convite do Programa “ A Ilha do Meio do Mundo”, que está a ser produzido e realizado por João Carlos Silva e Kalu Mendes.

Almada Negreiros que deixou São Tomé com 2 anos de idade, regressa a sua terra natal na pele do actor português João Grosso.

Uma viagem de regresso, que permitirá a Almada Negreiros, revisitar e conhecer a ilha de São Tomé, saborear os pratos típicos da terra, matar saudades da roça saudade, e dançar ao ritmo do Socopé, da Ússua, mas também da Puíta ou da Tafua, cujo batuque continua a ser repicado nas montanhas da roça Monte Café e da sua dependência Saudade, desde séculos. – Excerto de Almada Negreiros regressa a São Tomé e a sua roça natal-Saudade


"Almada, todas as peças da mesma coisa"

"Olhar para Almada Negreiros, O menino d'olhos de gigante, é ver muitos: o Almada das Belas-Artes, o Almada das Letras, o Almada da Geometria, o Almada dos palcos e das performances ... E, dentro destes, tantos outros. Tantos que se torna fácil imaginá-lo dentro do tudo com que ele próprio assinou o Manifesto Anti-Dantas e por extenso (1916): «José de Almada-Negreiros Poeta d'Orpheu Futurista e Tudo». - Por Sílvia Laureano Costa"



OUTROS TRAÇOS DA SUA BIOGRAFIA -
 
(...) "Pela sua obra plástica, que o classifica entre os primeiros valores da pintura moderna; pela sua obra literária, que vibra de uma igual e poderosa originalidade; pela sua ação pessoal através de artigos e conferências - Almada-Negreiros, pintor, desenhador, vitralista, poeta, romancista, ensaísta, crítico de arte, conferencista, dramaturgo, foi, pode dizer-se que desde 1910, uma das mais notáveis figuras da cultura portuguesa e uma das que mais decisivamente contribuíram para a criação, prestígio e triunfo de uma mentalidade moderna entre nós". Assim apresenta Jorge de Sena, no primeiro volume das Líricas Portuguesas, o homem que, com Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, mais marcou plástica e literáriamente a evolução da cultura contemporânea portuguesa 

Órfão desde tenra idade, viajou para Lisboa com sete anos para casa de uma tia materna. Frequentou os estudos primários e liceais em Lisboa, no Colégio Jesuítico de Campolide, Liceu de Coimbra e Escola Nacional de Lisboa. Entre 1919 e 1920, seguiu estudos de pintura em Paris, aí trabalhando como bailarino de cabaré e empregado numa fábrica de velas, redigindo na capital francesa muitos dos textos e grafismos que viriam a ser célebres, como o "autorretrato". Viveu entre 1927 e 1932 em Espanha, onde realizou várias encomendas para particulares e públicos – E
xcerto de
Almada-Negreiros -


A ALMADA NEGREIROS

voltaste enfim ao regaço das palmeiras
onde serpentes volteiam
e navegam na claridade. Voltaste
porque os teus olhos mitigavam
palavras entontecidas cheias de água fresca
da Cascata. Voltaste trazendo cânticos
de outras terras
cânticos de trovadores desconhecidos
teceste roupas diferentes mas sempre
com as cores das buganvílias da Saudade
apagaste pegadas antigas no
luchan
da tua meninice. Mas voltaste!

esperaste que o ranger da porta
da casa onde nasceste se prolongasse
no júbilo do teu regresso

hoje
sentado no presídio da marginal
onde ninguém nota o teu vulto altivo e belo
só eu sei que voltaste
e por que voltaste

Olinda BEJA in "Água Crioula" Pé-de-Página

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