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Entre outros assuntos, falo da escalada ao Pico Cão Grande e das minhas aventuras em canoas – Visam defender a teoria de que antigos povos africanos, podiam ter sido os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo da Guiné, antes dos colonizadores – Parti à meia-noite, disfarçado de pescador, ligando a ilha do Príncipe. Para me orientar, uma rudimentar bússola – A canoa era minúscula, à segunda noite adormeci: rolei na escuridão das vagas. No regresso fui distinguido com sopapos da policia salazarista, enviado para os calabouços – Cinco anos depois, numa piroga maior, fiz a ligação São Tomé-Nigéria. Partindo igualmente à noite, 13 dias depois atingia uma praia de Calabar, tendo sido detido 17 dias por suspeita de espionagem. - No mesmo ano, já com São Tomé e Príncipe independente, tentei a travessia São Tomé ao Brasil, usando os mesmos recursos. Além de pretender reforçar a minha teoria, desejava evocar a rota da escravatura e repetir a experiência de Alain Bombard. Porém, quis a ironia do destino que vivesse a difícil provação de um naufrágio de 38 longos dias, tendo aportado numa praia de Bioko (Bococo)onde fui recambiado para a famosa prisão de Black Beach

sexta-feira, 18 de março de 2016

São Tomé - Sum Marky - Figura lendária nas Ilhas Verdes do Equador - 1911- 2003 - O escritor-editor luso-santomense que denunciou os crimes mais hediondos do regime colonial nesta maravilhosa ilha - Perseguido e preso pela PIDE e desprezado pela critica das boas aparências pela sua incursão na linguagem do erotismo popular, sob os pseudónimos de Roy Harvey e Louis Rudolfo, a cuja maldição também se juntou a mesma policia política, confiscando-lhe e queimando-lhe centenas de livros da sua tipografia, além de meses de prisão.

Por Jorge Trabulo Marques - Jornalista e investigador -  Testemunho histórico na literatura  luso-santomense  - Excerto de entrevista em 1992 para a Rádio Comercial-RDP

Para a história da literatura luso-santomense  - Sum Marki, na primeira pessoa Pseudónimo (em dialeto) do  Senhor Marques –  - 1911- 2003   O escritor de origem portuguesa, nascido nas Ilhas Verdes do Equador, que cativou o coração dos santomenses, pela sua coragem na denúncia dos Massacres do  Batepá, quer antes quer depois do 25 de Abril   - 

Já não está entre nós  - Faleceu em 2003, em Lisboa, aos  93 anos – Mas tenho para lhe oferecer o registo da sua voz – Um breve excerto que pude recuperar, nos meus arquivos, de  uma entrevista que me concedeu, em sua casa, em Algés, no dia  6 de Abril de 1992  - Mais tarde, foi ainda por mim entrevistado e por Rui Castelar, nas madrugadas da Rádio Comercial, RDP, porém, de momento, não me foi possível localizar esse interessante dialogo. 
    
A OUTRA FACETA LITERÁRIA, MENOS CONHECIDA, DE JOSÉ FERREIRA MARQUES, NOS PSEUDÓNIMOS de:  Roy Harvey e Louis Rudolfo – Expressa em algumas dezenas de romances e novelas do erotismo popular, expressão artística hoje banalizada, tanto pela palavra como pela imagem,  mas muito ousada nos tempos dos chamados “bons costumes – Linguagem  da qual ele se servira, dada a cerrada perseguição movida pela policia Salazarista às suas obras de intervenção e denúncia.


Autor de quase três dezenas de romances, grande parte dos quais proibidos pela PIDE/DGS, com processos que o levaram até à prisão

Filho de pais portugueses, natural de São Tomé (1921), onde fez a instrução primária - A primeira voz a dar brado ao massacre do Batepá – Através de "O Vale das Ilusões" (1956), "No Altar da Lei" (1962),"Vila Flóga" (1963), ""Tempo de Flogá" (1969) e "Crónica de uma Guerra Inventada" (2000) - .


Perseguido e preso pela  PIDE, que lhe aprendeu e queimou várias edições na sua própria tipografia, na Amadora  - E também  mal amado pela critica, que sempre o olhou de sobranceria  pela sua incursão na literatura popular, humor e erotismo da qual se servira como alternativa à de denúncia e de intervenção – Porém, nem mesmo assim, o regime repressivo o deixou em paz  - O que lhe valeu é que, os agentes da brigada, que, de volta e meia, iam passar a revista a sua casa, eram porventura consumidores do erotismo e do humor dos “Virtuosos”, do Bom Dia Prazer, do Insaciável ou dos Imorais – Se bem, que, para salvar as aparências, no sistema de que faziam parte, até o aconselhassem a uma literatura mais normal, como, Júlio Dinis, ou  como Alexandre Herculano!... Enfim, livros sérios!... – A que. o escritor perseguido, respondia: bem… sabe!... Eu não tenho o génio de um Júlio Dinis! Eu sou um escritor principiante!... Gosto de escrever estas maroteiras!



UMA VIDA DE CONSTANTES PERSEGUIÇÕES - EIS ALGUNS TRAÇOS DA SUA EXTENSA E VARIADA OBRA LITERÁRIA



"Antes do 25 de Abril foi preso pela PIDE e entregue à Policia Judiciária sob a acusação de escrever livros pornográficos. Durante 90 dias foi mantido nas celas daquela Policia, até que o processo transitou para o Tribunal e o Juiz ordenou a sua libertação. Mais tarde julgado, foi condenado a uma pesada pena de prisão, remível a dinheiro

Os primeiros livros de Sum Marky nada tinham de obsceno ou pornográfico. A Comédias dos Sexos era uma crítica social, em que certo meio da nossa sociedade é dissecado com profunda verdade. Logo foi proibido pela censura e o autor entregue ao Tribunal. Em 1961 e 1962 Sum Marky publica dois livros "No Altar da Lei" e "Vila Flogá",,, que constituem uma denúncia terrível dos crimes praticados pelas autoridades portuguesas sobre o indefeso povo de São Tomé e Príncipe.

Também estes dois livros foram proibidos pela censura, com as consequentes perseguições ao autor.
Depois disso, publicou mais duas dezenas de novelas ou romances e todos eles foram proibidos pela censura. Sum Marky é, sem dúvida, o escritor português com mais livros proibidos pela censura.
Sum Marky tornou-se assim, um escritor "underground" cujos livros se vendiam ( e ainda vendem) por redes subterrâneas e como se constituíssem algo de abominável.
Enfim, um escritor Maldito, de quem a critica e os jornais nunca se ocuparam, antes ou depois do 25 de Abril.


VILA FLOGÁ – Romance 1963 – Sum Marky

Pág. 9 - A cidade acordou, alvoraçada, com a rusga nas ruas. Os cipaios,  de cassetetes arrogantes, procuravam trabalhadores para as obras do Estado. Um ou outro, mais zeloso, batia logo, sem meso perguntar pelo “papel”. E as camionetas das Obras Públicas, iam-se enchendo de homens assustados.
Sum Olímpio estava na manhã de sorte. Um grupo de cipaios, empenhado na singular caçada, tal como cães raivosos, já se preparava para lhe deitar a mão, quando surgiu o portão salvador.


Refugiou-se no quintal e subiu a escada a correr, só respirando ao ver-se por detrás da porta cerrada. Durante um instante, restou imóvel, a ouvir o burburinho dos soldados, o estrondo das armas, os gritos de pavor dos homens perseguidos. Depois, pouco a pouco, os gritos foram cessando, diluídos a distância, e ele pôde dirigir-se à escolinha.   




Página 104

Tudo começara na vila da Trindade, com a população nativa a ser perseguida há meses com rusgas permanentes e arrebanho de pessoas para as obras do Estado. Ao anoitecer do dia 3 de Fevereiro de 1953, o tenente Ferreira e o Zé Mulato, acompanhados de soldados armados de espingarda e baioneta, apareceram num jipe em atitude provocatória. Um homem que passava, descuidadamente, na rua principal abatido pelas costas. A população, aterrada com o tiroteio, corre a refugiar-se no mato. E, no dia seguinte, principiaram as prisões em massa, as rajadas de metralhadora, morte de gente indefesa. Com a desculpa, disparatada, de que os nativos, armados machins, se preparavam para marchar sobre a cidade para matar o Governador. E, por fim, nomeariam como  governantes  personalidades desafetas  ao Governo, como o Engº Graça , os professores Januário e Maria de Jesus, os chefes e mentores da revolta. E também alguns brancos-forros, Vergílio Lima, Carlos Soares, Américo Morais  - In Crónica de uma Guerra Inventada – por Sum Marki

As ruas da cidade jaziam em quase completa obscuridade, de lampiões elétricos apagados. E não se via vivalma, nem sequer um cão. Uma cidade-fantasma, ou ~r, uma cidade ocupada com jipes e camionetas carregadas de homens armados a impor a lei da guerra. E as palavras do Songo, em segredo: "O senhor Doutor : saia de casa depois das 21 horas! Está em vigor o recolher obrigatório e o senhor está na lista dos inimigos a abater! Dirão, depois, que não respeitou a lei, que não passou de um lamentável incidente ... "

Consultara o relógio: 6 horas da tarde. Dispunha do tempo necessário para ir a casa tomar um duche e mudar de roupa, antes do jantar. Depois, voltaria para casa e restaria ali, tranquilamente, coligindo todas as informações que conseguira recolher.
Porém, o seu plano fora alterado. O restaurante estava cheio de risos, conversas e músicas de rádio. Um mundo alegre, confortável, diferente do mundo tenebroso que Songo descrevera, em palavras de alarme. Qual era o verdadeiro? - Interrogara-se.
O senhor Gomes, dono do restaurante, aproximava-se: "Então, senhor Doutor, que tal estava o jantar?" Era um homem gordo, bonacheirão, de riso fácil como os nativos, a palavra discreta. "Conspiração dos pretos contra os brancos, matar o Governador?" Nisso, ele não falava, não sabia nada e pronto!
De súbito, lembrara-se da hora de recolher, alarmara-se: "Bem, tenho de ir, está na hora!"


Um dos brancos ouvira-o, soltara urna gargalhada de troça: "O recolher obrigatório? Isso é prós pretos!"

A ILHA DE NOME SANTO

A ILHA DO SANTO:

Sum Marky, como nos seus anteriores romances e no seu habitual estilo sarcástico, vem denunciar as condições pungentes em que as autoridades coloniais portuguesas exerciam a sua autoridade discricionária sobre os nativos da Ilha de São Tomé, a Ilha Santa,

Neste livro, Sum Marky também prova que Salazar e os seus cúmplices, com a célebre

"Lei do Indigenato", instauraram um regime ·de escravatura, que lhes permitiu mandar
arrebanhar pessoas nos sertões de Africa, metê-las nos porões de barcos de carga, como se· rezes humanas fossem, transportando-as para São Tomé, para trabalhar nas roças de cacau e café em regime de pura escravidão.

Mas, Salazar com a hipocrisia que lhe era peculiar quis dar a tal trabalho um cunho legal, chamando-lhe de contrato,  o que na realidade não era; uma vez que nele só prevalecia a vontade de uma das partes.
Neste livro também ,se prova· que a , colonização portuguesa, em Africa não foi tão exemplar corno nos querem fazer crer. Aconselhamos vivamente a leitura deste livro a todas as pessoas que se interessam pela Liberdade e seus valores eternos. - ttexto na contra-capa

Capítulo 12

Abandonara tudo para perseguir
Quando Carvalho entrou ria fábrica de óleo, a maquinaria estava em pleno funcionamento, num estrondo ensurdecedor. Ele ainda sentia o gosto amargo dó quinino e as fontes latejavam-lhe numa dor de cabeça intolerável. O ruído brutal repercutia-se inteiro na sua cabeça, mas a Suzana estava ali, entre as mulheres - a escolher caroço e ele queria vê-la, pousar os olhos, ardendo de febre, no colo redondo, virginal, trocar com ela um olhar cúmplice onde havia promessas de inefáveis delícias. Às vezes, parado junto dela, ficava a olhá-la por uma eternidade. E ela, sem desviar o olhar, à olhá-lo também. As outras mulheres, observavam a cena, disfarçadamente, a gozar o seu enleio. Então, ele dava um berro, soltava um palavrão obsceno, para se libertai do sortilégio, fugia ao encantamento de amor, enquanto que- as mulheres baixavam os olhos e retomavam a sua tarefa. Mas ele sabia que lá muito no íntimo continuavam a troçar dele, a rir-se daquele amor envergonhado, pleno de medos. Então, fugia, encabulado, jurando nunca mais se submeter à cena humilhante. Mas voltava sempre, como cão espancado, de rabo entre as pernas. E . elas sorriam, numa cumplicidade feliz e sorridente, prontas à ajudar o branco e a garota dum modo tão petulante, que ele, de humilhado, fugia definitivamente.

Mas, nessa manhã, as pernas tremiam-lhe e o sangue escaldava, mas não de amor e desejo. Não era mais o mendigo de amor que  suplica por uma caricia, mas antes se comportava como alguém aflito que precisa de auxílio. Não lhe apetecia sonhar delícias secretas, tudo o que queria era deixar-se cair no chão de cimento e depositar à cabeça ardendo em febre no colo macio  de Suzana . E que ela colocasse as suas mãos frescas sobre as fontes latejantes, para sentir a carícia dos seus dedos frescos. E esquecer tudo, a mulher e o filho, a terra distante que abandonara para conseguir a quimera de uma fortuna fácil…


A SOLIDÃO DOS AEROPORTOS

 – Romance – Sum Marky
Aeroporto «Leonardo da Vinci», Fiumicino. São 18.30 horas.
Um sol ainda resplandecente inunda a campina romana. Estou a 25 quilómetros de Roma, informa-me um funcionário do aeroporto. Só tenho avião para Palermo às 21.15. Disponho, pois, apenas de duas horas, impossível visitar a cidade, que adivinho perto, mas está invisível, para além das colinas. Resigno-me e vou fazer o «check-in», entro para a sala de embarque e sento-me.

«Banco dÍ Santo Spirito», leio num vasto painel luminoso, à minha frente. Desvio o olhar, mas logo se me depara o «ecran» de uma televisão, que mostra a imagem de uma pequena ilha, ligada a terra por uma passagem. «Azienda Soggierne Isole Eolie», leio a legenda. O paraíso para umas férias, adivinho facilmente. Mas já a imagem desapareceu e, em seu lugar, surge um carro «Fiat», a grande marca italiana, que logo se dissipa, para dar lugar ao refresco «Pepsi». Umas a seguir às outras, num desfilar contínuo, surgem mais imagens: «HERTZ - rent a car», CAMPARI, AVIS, MONTECATIM TERME, COCACOLA. A última imagem desaparece e surge agora uma frase em italiano, que traduzo rapidamente: «13 milhões de pessoas vêm os teus produtos». Seguem-se, mais imagens publicitárias: «RENAULTI>, «FAZIENDA SOGGIERNE AGRICENTI». E, finalmente, reaparece a primeira imagem, o paraíso dos turistas. E a solidão mais completa a cerrar-se sobre mim.


A meu lado, uma jovem morena lê um livro numa língua qualquer deste mundo. Deve ser italiana, presumo. Ela tem um perfil romano era provavelmente francesa ... Agora, somos 18 pessoas e o cão, sentado no colo da dona, de orelhas caídas e olhar triste ... Tudo imagens de um mundo distante e diferente, que não me diziam respeito. As pessoas continuam a desfilar, incessantemente, no corredor envidraçado. O autocarro, repleto de passageiros, arranca e dirige-se para o avião de Alghero. Carrinhos, carregados de bagagens, cruzam o aeroporto «GULF», lê-se no enorme camião-tanque. A buliciosa Teresa e seu pai, desapareceram para sempre. Ainda não anoiteceu completamente, o céu é de um azul escuro anilado. Acendem-se as luzes, a fria claridade do «neon». Um carro da «polizia», um Fiat evidentemente. O «gong». A solidão ... Uma italiana gorda, senta-se à minha frente. Há, apenas, dez anos, ela era uma mulher de sonho: alia, esguia, elegante, o cabelo louro a emoldurar um rosto bonito de epiderme muito branca, um encanto. Agora, ainda conserva alguns traços da sua passada beleza, mas é quase um estafermo,· que se inclina para a frente e esboça uma carícia no focinho triste do cão.


Afinal, reparando melhor, a rapariga a ~eu lado têm tipo de francesa. Parisiense, mais exactamente. O «gong», .as palavras obscuras e cantantes, o avião de vigias iluminadas, pronto a subir no céu onde só resta uma vaga claridade. 


O VALE DAS ILUSÕES – SUM MARKY  - Romance

Pág. 7 - Quando, cinco anos antes, desembarcara na Ilha , sentira, vagamente,  que a terra  lhe era hostil. Depois, durante a luta que se seguira, verificara a realidade de tal hostilidade. Mas, nesse tempo, possuía a força  e energia  que agora lhe faltavam. Lutara e vencera. Ou antes, jugara vencer; o presente difícil e amargo mostrava-lhe quão precária tinha sido a vitória e como estava longe do ansiado fim…

Do caminho que o levara  até ali , já nada restava . Aqueles anos tinham-se esfumado sem deixar cinzas , deixando, dentro dele, um incrível vazio, uma sensação de vacuidade que se traduzia em impotência , amarga inutilidade. O passado recente apagara-se, sem deixar vestígios. Apenas,  no seu cérebro restavam sombras vacilantes e a lembrança pertinaz, do longo caminho…  

17 . pag. 146-147- 148
Na varanda, ao sentir a brisa da manhã a refrescar-lhe  o rosto. Julgou sair de um estranho pesadelo. Sentia os músculos lassos, invadido por
invencível cansaço. A custo, desceu a escada que conduzia ao jardim. Com passos incertos, como se estivesse embriagado, dirigi1u-se ao caramanchão.

Isabel estava, sentada no dongo .banco, de rosto entre as mãos. Ao pressenti-lo, ergueu a cabeça e os seus olhos encontraram-se por uma fracção de segundo. Mas,  logo ela desviou o olhar. Levantou-se de um pulo e fugiu, sem que ele, imóvel, pudesse esboçar um gesto para a reter.

Ficou parado, vendo-a afastar-se, sem proferir uma palavra sentindo arrepios a percorrer-lhe o corpo . E seguiu-a com  olhar, até vê-la desaparecer na esquina  da varanda. Depois, sacudido por um tremor de febre, arrastou-se através do jardim e atravessou o terreiro , em direcção ao seu quarto.

Atirou-se para cima da cama, mesmo vestido, envolvendo-se na roupa que encontrou. Apesar  disso, tremia de frio. O coração pulsava com violência e cada pulsação  repercutia-se  no seu cérebro, como uma martelada. Os dentes entrechocavam-se e sentia o estômago revolvido ·pelos vómitos. A boca seca amargava-lhe como se tivesse bebido fel. E, enquanto o corpo tremia de frio corpo tremia, a cabeça escaldava-lhe. Todos aqueles sintomas, ele os conhecia bem: paludismo!

Perdeu a noção do tempo que jazeu ali, amarfanhado  de músculos tensos; encolhendo-se sob a violência dos tremores.  Quando de novo, tomou conhecimento do mundo  à volta, do· quarto de paredes de madeira pintadas a óleo, despidas de adornos, sentiu a febre queimá-lo, corno se nas suas veias e artérias, em vez de sague, houvesse chumbo em fusão. Doía-lhe a cabeça intoleravelmente, mas uma sensação sobrepunha-se a todas as outras·: a sede!
Era uma sede horrível, que o fazia gemer: água, água, água! Mas, ninguém o ouvia. E até tocar o sino, dando por terminado o primeiro período de trabalho, sofreu o atroz suplício da sede.
Passava meio-dia , quando o Rebelo, ao passar no corredor, ouviu os seus gemidos. Entrado no quarto, foi encontra-lo, de rosto congestionado pela febre. Imediatamente, foi buscar  um copo de água, que ele bebeu, sofregamente . Mas, depois disso, ainda tinha sede. Parecia-lhe que não havia água  capaz de matar-lhe a sede ardente.

OS IMORAIS – Louis Rudolfo

Página 3 - A triste conclusão a que sou forçado a chegar, após três meses de casado, é que minha mulher é umã autêntica pedra de gelo.

Durante esse tempo fiz tudo quanto humanamente é possível para derreter aquele iceberg em que ela se envolve, sem o menor êxito.

Ainda esta noite, comecei fodê-la às dez horas da noite e duas horas depois tive de desistir sem conseguir que ela se viesse! Fiz tudo, senhores , desde as espremedelas nas mamas  até ao beijo no ventre. Mas acho talvez melhor descrever em pormenor tudo o que lhe fiz, não vá o leitor pensar que sou uma pessoa sem experiência e que a culpa foi minha .

Como já disse, fomos para a· carna cedo, ainda não e eram  dez horas. Isto depois de muitos rogos, pois minha mulher não gosta de se deitar cedo, provavelmente porque não ignora a sorte que a espera. Assim, inventa mil desculpas para não me fazer a vontade. Ontem, por exemplo, inventou um trabalho de costura, um vestido que tinha de arranjar para um passeio que tínhamos combinado dar para o mês que vem. Fiquei furioso, verdadeiramente danado, e só quando me viu assim, é que acedeu aos meus rogos. Mas não julguem que foi logo para a casa e me abriu as pernas. Isso sim! 

COMÉDIA DOS SEXOS – Romance -  Sum MRKY

Pág. 152  O dia de Natal desse ano foi mais triste de toda a minha vida. Sozinho, na terra estranha,  longe de todos os meus, sentia-me o mais abandonado de todos os seres vivos. Era como se estivesse perdido num deserto ou prisioneiros nos ermos glaciais, na solidão silenciosa  das regiões polares.
A Maria Isabel, convidara-me a passar esse dia com a sua família, mas o nosso conhecimento era tão recente, que resolvi não aceitar. Ela tinha irmãos, já cassados,  que se reuniriam nesse dia e eus sentir-me-iam intruso no meio deles.

O círculo das minhas amizades era muito restrito, posto isto recebi alguns convites para almoçar ou jantar. Recusei-os delicadamente. O Natal é a esta da Família e eu não queria intrometer-me num lar, que não era o meu. A minha presença seria bem recebida, estou certo, mas , aos meus próprios olho, teria  o aspecto de intrusão. E sentir-me-ia mais só e distante da minha própria família. 

SIMBADE O MARINHO – Novela edição de autor  - Sum Marky

CONTO DAS MIL E UMA NOITES
Sindbad Harum-Al-Raschid, o célebre mercador e aventureiro, no fim do banquete, mandou distribuir a soma de mil squins aos seus convidados mais pobres.

- Que Alá te conserve a vida e os teus bens! -· gritou, histericamente, um dos vagabundos. E depois prosseguiu em tom normal: - Agora, que saciaste a nossa fome e a nossa sede, rogo-te, encarecidamente, que nos contes uma daquelas maravilhosas aventuras que, a par de mil perigos, te trouxeram esta prestigiosa riqueza.

- Sim, sim... - gritaram várias vozes, entusiasmadas.

- Oue Deus e Maomé seu profeta, sejam louvados, pois só a Eles devo tudo o que possuo! E acedo, com prazer ao vosso desejo, -uma vez que ao relembrar os perigos por que passei, não deixarei de louvar os prodígios a que me foi dado o privilégio de assistir, que necessariamente reverterão em louvor de Deus, meu protector.
- Oue Deus e Maomé, seu profeta, sejam sempre louvados! - gritou a multidão em côro.
- Oue Alá esteja convosco, meus queridos amigos. E agora, já que me pedis com tanto interesse, vou contar-vos uma das minhas aventuras em que corri o maior perigo e que, no fim, me proporcionou grandes prazeres e riquezas – e após um silêncio , iniciou assim a sua narrativa:
“Quando me dirigi a Bassorá numa barca de cem remadores, com uma carga de marfim e especiarias da Índia, ao terceiro dia de viagem de deixarmos Calecute, caiu sobre nós uma terrível tempestade. O mar estava completamente calmo e nada deixava pressagiar a tormenta. Em poucos minutos, porém, o sol apagou-se  e quase subitamente grossas nuvens negras surgiram nos céus. 

BOM DIA PRAZER -ROY HARVEY

 Pág. 56 - É realmente era um prazer, apesar dos meus dedos trémulos. Finalmente consegui correr o-fecho do vestido, que caiu a seus pés. Fiquei a admirá-la por um instante e depois comecei a Libertá-la do soutien, No minuto seguinte, tinha-a toda quente  contra O peito, sentindo os seus seios a palpitar contra mim
- Aposto que eu era uma virgem, disse ela
Não pude responder, com os seus seios. hirtos e arrogantes, tão perto da minha boca. Ela começou a rir subitamente, .num gesto brusco, deu-me os seus lábios. Mas quando tentei despojá-la das calcinhas, libertou-se do meu abraço e dirigiu-se à mesa onde estava o whisky. Vi-a desarrolhar o frasco, com  uma certa apreensão :
 - Querida! – Disse . – Não é altura de beberes mais.

- Qual não é! – declarou a rir

A ADÚLTERA – ROY HARVEY

Pag 106/107 - À medida que bebia, Lena sentia-se muito mais bem-disposta. Já nem sequer se recordava da diferença de tom· da cor da sua bebida. O importante era o confortável calor a tomar-lhe o corpo. ·E quando sentiu a carne palpitante, a excitação a encher-lhe as veias de fogo,  era como se sentisse viva outra vez. Detestava sentir-se deprimida e infeliz. Aquela bebida transmitia-lhe urna sensação de alegria e felicidade. Olhou o copo com reconhecimento
Lembrou-se, então, do ·prazer que Chuck lhé, dera, apesar da aversão que sentia por ele. Era pena, afinal, que ele tivesse· ficado com ela na cama · por tão pouco tempo. E Monroe? Onde estava Monroe para a levar até às estrelas, conforme tinha prometido?
Olhou para a porta., ansiosa, Onde estava Monroe? - perguntou mais uma vez a si própria, sentindo  que o calor se tornava insuportável. Num gesto brusco, despiu o roupão e ficou nua. Sim, assim era melhor. As formas redondas do seu corpo, perfeitas e belas, produziam-lhe uma sensação de inefável prazer. Levou as mãos aos peitos e apertou-os, depois fê-las deslizar até às ancas. Dum só trago, engoliu o resto da bebida. Onde é que estava Monroe? - interrogou-se, mais uma vez.


Precisava, ·de outra bebida, decidiu de repente. Nunca um, só Martini lhe, tinha provocado uma tal reacção. Estendeu as pernas, num gesto lascivo, e ficou a admirá-las durante um instante. Eram umas belas pernas – pensou com  prazer, grossas nas cochas e  estreitando progressivamente até ao tornozelo fino. As suas mãos tornaram a percorrer a barriga lisa e detiveram-se nos seios hirtos. Onde estaria ele? 


Putas sem coração, putas malditas,
Que nos dais a provar já pôdre o cono !
Vós, vós. sois quem fazeis tanto f'achono,
 Que da greta maldiz gostos e ditas!

As galiqueiras são, são infinitas,
Alto clamam da foda em desabonol
Pouco a pouco já vão erguendo um trono
À sacana bem feita heróis catitas!

Reparai nisto bem, ó putas todas,
Deixai por uma vez de ser tiranas
Com esses que vos dão tão belas fodas !

Com os tristes caralhos sêde humanas·
Ou em breve vereis, mudando ias modas,
Triunfarem das putas os sacanas.




O tema deste novo romance de Sum Marky´é, sem dúvida, empolgante. Carlos da silveira, um jovem engenheiro recém formado desloca-se à Ilha dos Papagaios, para montar a torre do telégrafo, permanecendo ali apenas durante três meses. Surge então a morena Valiana e a volúpia das noites tropicais.
Dezoito anos mais tarde ele regressa para realizar uma nova tarefa: a construção de uma campo de aviação." 



(...) "Desconhecem o lealismo dos filhos de um Império, desconhecem os aviões e os navios, e todo um arsenal de história, de espírito humano e real metralha, que Deus pôs à disposição dos portugueses"  - In FORROS, PRETOS E BRANCOS,  do jornal A VOZ DE SÃO TOMÉ -  12 de Fev. 1953 - Um dos artigos sobre o MASSACRE DO BETEPÁ




OPINIÕES

O romance Crónica de Uma Guerra Inventada, de Sum Marky (escritor que não me merece, pela sua obra anterior, particular apreço; autor que foi de textos menores, roçando o porno-tropicalismo que a ditadura, naturalmente, proibiu – claro, que a literatura portuguesa não ficou mais pobre pelo facto, embora esses livros tenham sido precursores da subliteratura que hoje, em versão feminina, enchem de lixo mediatizado as bancas das livrarias), é um texto só possível de produzir em liberdade, suficientemente distanciado em relação aos factos que relata tornando-o assim num livro sem ressentimentos nem constrangimentos excessivos http://daliedaqui.blogspot.pt/2008/04/crnica-de-uma-guerra-inventada-de-sum.html

Incansáveis mocetões de um metro e noventa e estonteantes louras, morenas e ruivas, naturalmente insaciáveis, dedicam-se a praticar sexo fácil em várias novelas editadas em 1965. Com sugestivos títulos como O Insaciável, O Obcecado e O Violador, são livros sem editora, sem tradutor, escritos por Roy Harvey e apresentados por Sum Marky, pseudónimos de José Ferreira Marques (1921-2003), autor de outras prosas light da colecção, branco nascido em São Tomé e autor de um apreciado Vila Flogá, de 1963, libelo acusatório do colonialismo na antiga colónia portuguesa. Tanta clandestinidade serve uma literatura popular, claramente apontada à líbido masculina e ao mito, tão excitante quanto assustador, da voracidade sexual feminina. Acautelando o olho vigilante da censura, Sum Marky prefacia os três volumes nas exíguas badanas, exaltando o proveitoso exemplo destes pedaços sórdidos de uma América corrupta, racista e depravada.  https://www.publico.pt/cronicas/jornal/obsessao-25047267

O romance Crónica de Uma Guerra Inventada, de Sum Marky (escritor que não me merece, pela sua obra anterior, particular apreço; autor que foi de textos menores, roçando o porno-tropicalismo que a ditadura, naturalmente, proibiu – claro, que a literatura portuguesa não ficou mais pobre pelo facto, embora esses livros tenham sido precursores da subliteratura que hoje, em versão feminina, enchem de lixo mediatizado as bancas das livrarias), é um texto só possível de produzir em liberdade, suficientemente distanciado em relação aos factos que relata tornando-o assim num livro sem ressentimentos nem constrangimentos excessivos – característica afinal, apesar dos pesares, comum a grande parte da literatura que tem a questão colonial como matriz. Este romance fala-nos, sem rebuços, dos homens e mulheres que em S. Tomé e Príncipe foram vítimas da ignomínia, do arbítrio, dos mecanismos de cerco, de tortura e morte de que foi capaz o colonialismo salazarento, para submeter e escravizar os povos autóctones. Jornal «Avante!» - Argumentos - A inventona de Batepá 



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