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Entre outros assuntos, falo da escalada ao Pico Cão Grande e das minhas aventuras em canoas – Visam defender a teoria de que antigos povos africanos, podiam ter sido os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo da Guiné, antes dos colonizadores – Parti à meia-noite, disfarçado de pescador, ligando a ilha do Príncipe. Para me orientar, uma rudimentar bússola – A canoa era minúscula, à segunda noite adormeci: rolei na escuridão das vagas. No regresso fui distinguido com sopapos da policia salazarista, enviado para os calabouços – Cinco anos depois, numa piroga maior, fiz a ligação São Tomé-Nigéria. Partindo igualmente à noite, 13 dias depois atingia uma praia de Calabar, tendo sido detido 17 dias por suspeita de espionagem. - No mesmo ano, já com São Tomé e Príncipe independente, tentei a travessia São Tomé ao Brasil, usando os mesmos recursos. Além de pretender reforçar a minha teoria, desejava evocar a rota da escravatura e repetir a experiência de Alain Bombard. Porém, quis a ironia do destino que vivesse a difícil provação de um naufrágio de 38 longos dias, tendo aportado numa praia de Bioko (Bococo)onde fui recambiado para a famosa prisão de Black Beach

domingo, 10 de junho de 2018

Escravos e Homens Livres” romance de Orlando Piedade – A vida escrava dos africanos na capital do reino colonial após abolição da escravatura – Os tempos mudam mas a escravatura do presente, será assim tão diferente da do passado? - A narrativa do livro não a questiona mas o autor vê com atenção e preocupação a difícil vida nas suas ilhas


  Jorge Trabulo  Marques - Jornalista


A vida escrava dos africanos na capital do reino colonial após abolição da escravatura –  Os tempos mudam mas a escravatura do presente, será assim tão diferente da do passado?  - A narrativa do livro não a questiona  mas o autor vê com atenção e preocupação a difícil vida nas suas ilhas


“Escravos e Homens Livres” – Este o título  do terceiro romance de  Orlando Piedade: o talentoso escritor santomense, voltou a pegar em temas históricos,  que marcaram alguns dos episódios mais duros e desumanos da colonização – O lançamento foi apresentado, ao principio da tarde, de ontem,  na Feira do Livro de Lisboa, no stand  das Edições Colibre,  com uma sessão de autógrafos pelo autor – Fomos ao seu encontro, justamente quando o escritor já descia uma das áleas do Parque Eduardo VII -  Mesmo assim, ainda pudemos registar, com muito agrado, um breve diálogo com o romancista historiador, que  temos o prazer de aqui reproduzir, num vídeo, ilustrada com imagens da escravatura e outras dos tempos atuais. 


Orlando Piedade, estreou-se, com “O Amor Proibido, em 2011,  baseando-se  na historiografia colonial  das Ilhas Verdes do Equador.  Em 2014 publicou “Os Meninos Judeus Desterrados -   De Portugal  para São Tomé e Príncipe por Ordem Del Rei D. João II em 1493,  trazendo para a atualidade, o drama das crianças judias deportadas para S. Tomé, e outras histórias relacionadas com essa horrível deportação, que foram arrancadas do seio familiar e desterradas para São Tomé e Príncipe, nos primórdios da colonização - onde a grande maioria acabaria por não resistir quer às agruras da viagem quer às adversidades do clima e, sobretudo, devido ao profundo trauma causado pela ausência do carinho maternal e paternal,  

Embora a residir em Lisboa, nem assim esquece as suas Ilhas
Emocionante  obra pela qual seria distinguido com o prémio literário Francisco José Tenreiro 2015  - Agora, de novo a surpreender-nos com o  livro “Escravos e Homens Livres”, versando sobre a vida dos africanos em Lisboa, expondo as duras condições de vida que tiveram depois da abolição da escravatura em Portugal, decretada pelo Marquês de Pombal, em 1773”  Ou seja, tendo como enredo factos da História de Portugal oitocentista - como o liberalismo- - Traçando,  para “melhor enquadrar a sua narrativa, a história das relações entre africanos e portugueses, no quotidiano de duas famílias lisboetas, uma de origem africana, vivendo em condições económicas difíceis e marcada pelo passado esclavagista, e outra portuguesa, de estatuto social elevado, integrada no quadro político do século XIX português. 

Se o texto revela a presença permanente e actuante do preconceito racial que desvaloriza os africanos e dá como a da dureza da sua vida, pois mesmo livres perante a lei - depois da abolição da escravatura em Portugal decretada pelo Marques de Pombal em 1773 - estes homens e mulheres, 'os pretos', não só são rejeitados pela sociedade portuguesa como se mantêm na esfera laboral mais degradante, fornece também os elementos que permitem conhecer as estratégias de sobrevivência africanas e as suas formas de integração e de pacificação  nos quotidianos portugueses.

Neste campo específico da integração, o autor apresenta O bairro do Mocambo, o bairro africano de Lisboa, hoje a Madragoa, onde viviam sobretudo africanos livres desde os finais do século XVI e que é conveniente reter dado o  reter o seu carácter inédito no espaço europeu. Bairro da cidade - por alvará régio de 1593 -, cuja designação significa “pequena aldeia de refúgio”,em umbundo, uma língua de Angola -, era um  espaço urbano onde africanos coabitavam com portugueses, sobretudo gente ligada às actividades do mar, desde o século XVII – Refere o prefácio, assinado por Isabel Castro Henriques



ILHAS SACRIFICADAS E INGOVERNÁVEIS – ONTEM E HOJE

Páginas igualmente impressionantes, que reafirmam, não apenas os excelentes dotes literários de um escritor nadado e criado nas tão sacrificadas Ilhas  de S. Tomé e Príncipe, como as suas preocupações em trazer à  luz da atualidade, episódios que a memória não pode esquecer, num tempo em que a esmagadora maioria dos africanos, nas suas terras, e sob outras formas,  não deixam, porém, de viver o estigma da miséria  e de uma profunda exclusão social

Escreve o autor, na página 123: “Apesar dos lamentos, tudo corria sobre rodas. Pelo menos no plano pragmático, Portugal esqueceu-se de que São Tomé e Príncipe fazia parte do império colonial português. Enquanto as cidades, vilas e aldeias do reino de Portugal barulhavam, ora ao grito absolutista ora ao grito liberal, solitário, o arquipélago ligou-se ao Brasil - via São Salvador da Baía através de um cordão umbilical chamado tráfico de escravos. O cordão foi sendo solidificado com a ex-colónia que, durante muito tempo, se revelou um São Salvador das finanças das ilhas em função do comércio de escravos para ali dirigido. A alfandega da Baía pagava à colónia uma renda anual, importantíssima para sobreviver ao esquecimento, que a ligava a uma espécie de suborno à memória. 

Uma renda anual pelos direitos sobre os escravos para aí traficados e isso permitia um equilíbrio financeiro bastante razoável sob a batuta de alguns notáveis que pautavam o rumo a seguir e, assim, definiam o plano estratégíco. Um plano estratégico moldado à medida do "eu", focado nas "minhas ambições", nas "minhas vaidades" - o "eu" que impedia  as ações de qualquer governador destacado para as ilhas, sobretudo aquele que realmente abraçasse a missão de que era imbuído, de dedicação ee zelo, sem lugar a duelo de titãs porque o governador o elo mais  fraco, logo rapidamente chegava à conclusão de que as ilhas eram ingovernáveis





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