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Entre outros assuntos, falo da escalada ao Pico Cão Grande e das minhas aventuras em canoas – Visam defender a teoria de que antigos povos africanos, podiam ter sido os primeiros povoadores das Ilhas do Golfo da Guiné, antes dos colonizadores – Parti à meia-noite, disfarçado de pescador, ligando a ilha do Príncipe. Para me orientar, uma rudimentar bússola – A canoa era minúscula, à segunda noite adormeci: rolei na escuridão das vagas. No regresso fui distinguido com sopapos da policia salazarista, enviado para os calabouços – Cinco anos depois, numa piroga maior, fiz a ligação São Tomé-Nigéria. Partindo igualmente à noite, 13 dias depois atingia uma praia de Calabar, tendo sido detido 17 dias por suspeita de espionagem. - No mesmo ano, já com São Tomé e Príncipe independente, tentei a travessia São Tomé ao Brasil, usando os mesmos recursos. Além de pretender reforçar a minha teoria, desejava evocar a rota da escravatura e repetir a experiência de Alain Bombard. Porém, quis a ironia do destino que vivesse a difícil provação de um naufrágio de 38 longos dias, tendo aportado numa praia de Bioko (Bococo)onde fui recambiado para a famosa prisão de Black Beach

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Perdido no Golfo - 27 de Nov - 1975 - 38º Dia - Eis que, finalmente, depois de 38 dias, me encontro numa praia!... Junto a um recanto!... de uma magnífica montanha! De verdura!... Equatorial!...


De miserável náufrago a perigoso prisioneiro - 38 de sofrimento na vastidão do Golfo da Guiné:  depois de pisar arreia macia, algemado e conduzido a um escuro calabouço e dali a  uma sinistra cela do reino de terror  de Macias Nguema 

Instantes depois desta fotografia, a canoa abrir-se-ía em pedaços.


Há 44 anos -  neste mesmo dia de manhã, a canoa  acostava na  Guiné Equatorial  - 38 dias depois, fazendo a ligação desde a Ilha de Ano Bom,  localizada no Atlântico Sul, a 350 km da costa oeste do continente africano e 180 km a sudoeste da ilha de São Tomé, até à Ilha de Bioko. ex-Fernando Pó, então  sob a tirania  do ditador Macias Nguema - Era o principio de outra odisseia  Jorge Trabulo Marques


No regime de Francisco Macias Nguema 

FOI PRESO NAS MASMORRAS DO ODIONDO REGIME
  DE FRANCISCO MACIAS NGUEMA – Ele “era conhecido por ordenar a execução de famílias e aldeias inteiras, forçou dezenas de milhares de cidadãos a fugir com medo de perseguição e proteger sua segurança pessoal. Intelectuais e profissionais qualificados eram um alvo específico (…)No final de seu governo, quase toda a classe educada do país foi executada ou forçada ao exílio, Entre os métodos de tortura utilizados estavam . "O balanço" (amarre o prisioneiro pelos pés e mantenha-o pendurado enquanto é espancado, Dada a brutalidade desses métodos, muitos prisioneiros morreram sofrendo com eles. Grande parte dos mortos durante a ditadura de Macías passou pela prisão”(…)  A ilha de Fernando Pó, renomeada como "Isla Macías Nguema".

Em 3 de agosto de 1979, Teodoro Obiang Nguema derrubou Francisco Macías Nguema e assumiu o poder na Guiné Equatorial. Sua ação, aplaudida pelos guineenses e pela comunidade internacional, foi totalmente justificada: o país estava em um beco sem saída, esmagado pela tirania brutal imposta por seu primeiro presidente, eleito democraticamente onze anos atrás, quando aquela nação da África Central conquistou sua independência da Espanha, em 12 de outubro de 1968”. - Webe - Várias fontes. - Foi graças à sua intervenção que fui poupado da forca e libertado - Devo-lhe a vida.














Diário de Bordo  - 27 de Nov - 1975 - 38º Dia - Eis que, finalmente, depois de 38 dias, me encontro numa praia!... Junto a um recanto!... de ummagnífica montanha! De verdura!... Equatorial!... De plantas exóticas ! das mais variadas espécies!.... Foi extremamente difícil chegar até aqui!... Foi para além mesmo da minha resistência!... Mas finalmente , atingi esta costa!... Esta costa que  se ergue aqui numa montanha de verdura!... De magníficas árvores, das mais variadas cores!...

 Estas foram as últimas palavras que pronunciei para o meu diário gravado, um pequeno gravador que consegui preservar no interior de um contentor de plástico, igual aos do lixo. assim como a máquina fotográfica , cujos rolos  o mar poupou mas que bem podiam ter sido confiscados pelas autoridades policiais da Guiné Equatorial, o que não aconteceu, porventura por descuido, já que, quando me prenderam, além de terem passado tudo a pente fino, até as gravações chegaram a ouvir, de ponta a ponta - E eram seis as  cassetes. 




Mal me arrastava de fraqueza mas sentia-me como se estivesse a viver as aventuras de um inesperado
 Robinson Crusoe - E, mesmo ainda hoje, não sei se sentiria vontade de sair dali tão cedo. Porém, quando me apercebi de que havia um carreiro, muito batido, que ali desembocava e que poderia ser sinal de que a praia não era totalmente selvagem (de resto, pouco depois do nascer do sol e antes de a abordar, já ali tinha visto, na pequena língua do negro areal, um homem à cata de ovos de tartaruga) pelo que não tive outro remédio senão seguir aquele mesmo careiro, que me levaria a uma finca  - à sede de uma plantação de cacau.  Tal facto, ia-me custando a vida. Tomado por espião e depois de ter passado a primeira noite nos calabouços de uma esquadra, fui transferido algemado para ser encarcerado na então tenebrosa prisão de Black Beach, em Punta Fernando.



Revivo por instantes os terríveis e maravilhosos momentos vividos. E começo a chorar de intensa comoção. As lágrimas mourejam-me nos olhos e perdem-se pela face e pela barba, enegrecida e  queimada pelo sol ardente equatorial  e as desgastantes maresias

É então que sinto o meu coração ficar simultaneamente aliviado e me dou conta que estou finalmente salvo. Sim, já não tenho a menor dúvida: o momento, tão ansiosamente esperado, havia chegado. Sinto-me bem disposto, posso tranquilizar-me à vontade. E aspirar, com todos os meus pulmões, este hálito benfazejo e perfumado da floresta, deste fascinante rincão  de natureza plena de frescura, viscosidade e de mistério.  E sorrio, sorrio, doido de contente, como que animado por um selvagem alegria, deambulando de um lado para o outro desta frondosa praia, sorrindo e gesticulando a cada instante, sorrindo sempre, ingénua e inocentemente, tal qual o sorriso de uma criança, quando a mãe lhe oferece um lindo brinquedo, ao sentir-me presenteado por esta maravilhosa e abençoada terra, que se me oferece como um verdadeiro paraíso perdido do resto do mundo, como se por vontade sobrenatural, depois de tantos tormentos, me fosse oferecido  como seu único possuidor e mandatário.

Já tive oportunidade de me consolar com  água fresca, pura e murmurante.  Porém, agora que estou finalmente com os pés assentes em terra, já gostaria de ter uma noção mais completa do tempo. Talvez por uma questão de organização humana em que me sinto mais identificado – Sim, gostaria de aqui ficar por algum tempo, viver dos frutos da floresta e  de uns peixitos que pudesse apanhar à  mão, tal como cheguei a apanhar, quando deixei de ter anzóis e eles vinham catar as lapas do costado da canoa.  Já por ali vi, junto a uma rocha, uma gruta onde podia fazer a minha cabana e já  lá deixei uns frondes de palmeiras e uns ramitos para me deitar, mas parece que aqui as horas também não jogam a meu favor .

Gostaria de continuar a saborear este lugar encantador, por tempo indeterminado,  mas  já me apercebi de um certo alarido de sons no interior da floresta, que não me tranquilizam, que também ainda não sei se são de pessoas ou de animais  e que vieram quebrar o enlevo em que eme encontrava.. Afinal, esta terra não me pertence, o mais  prudente é sair daqui: e até ir ao encontro de onde partiram essa mistura de sons ou vozes.riacho que aqui vem desaguar. Também já acabei de transportar todas as minhas coisas que havia ficado na canoa para a orla da  floresta. Do interior do plástico, retirei a máquina fotográfica e já bati algumas chapas à “Yon Gato”. Deverão ser as últimas recordações que guardarei da minha corajosa piroga 

Confesso que, quando aqui cheguei, o meu desejo, era esconder-me em qualquer sítio, Não ficar aqui, junto à borda da praia, por muito tempo. Tive a impressão de que estava a violar qualquer coisa: um território alheio. Não me sentia muito seguro. Olho para um lado e para outro, com desconfiança. Tinha  a sensação de pertencer  a outra espécie, a outro planeta. Porém, estranhamente, agora apetece-me aqui ficar eternamente. Estou encantado com isto. Não me sinto nada preocupado com o meu destino. Até me parece que o meu destino é  o de continuar  perpetuamente embalado neste maravilhoso domínio: sinto uma segurança, sem limites.

Que  beleza! Que doce e agradável melancolia me produz! Que seria difícil ter chegado a um lugar mais calmo  e bonito como este!


Porém, agora que estou finalmente com os pés assentes em terra, já gostaria de ter uma noção mais completa do tempo. Talvez por uma questão de organização humana em que me sinto mais identificado – Sim, gostaria de aqui ficar por algum tempo, viver dos frutos da floresta e  de uns peixitos que pudesse apanhar à  mão, tal como cheguei a apanhar, quando deixei de ter anzóis e eles vinham catar as lapas do costado da canoa.  Já por ali vi, junto a uma rocha, uma gruta onde podia fazer a minha cabana e já  lá deixei uns frondes de palmeiras e uns ramitos para me deitar, mas parece que aqui as horas também não jogam a meu favor .

O pior são as minhas coisas. Eu não tenho forças  para transportar coisa alguma . O mato é cerrado e a encosta íngreme. Vou primeiramente esconder parte delas aí junto de algum tufo de vegetação. Quanto avistar  alguém, peço-lhe que venha comigo ao local para me ajudar a busca-las. 

Entretanto,  mais uma vez, olho o mar. O mesmo mar, desde a rebentação até, ao longe, a perder-se de vista no horizonte, agora a revelar-se-me  uma extensa superfície meiga e tranquila, sim o mesmo mar que tantos perigos me fez correr e que talvez só por milagre não me arrasou para o fundo das suas águas.

Olhando, ainda atentamente a minha canoa, que, estranhamente,  se abria ao meio, passando de um a dois destroços   – Não creio que tanto por  força da rebentação mas sobretudo pelos maus tratos que havia suportado, devido aos constantes embates das vagas, que, quando não navegava, a sacudiam  incessantemente. E, talvez,   também, devido a uma racha,  provocada pelos ataques de um gigantesco tubarão ,  que,  depois de investir contra ela, como um petardo,  mergulhando e forçando voltá-la, deu  em começar às voltas,  em sucessivas rabanadas – Lá o sacudi  com o machim, tal como havia de fazer a outros ataques,  o que me valeu é que a racha era um palmo acima da linha d’água . Lá   costurei, conforme pude, valendo-me  de chaves de latas de sardinha, dobradas, evitando que abrisse totalmente, o que não pude evitar foi a entrada da água, sempre que a cano adernava para esse lado. agora,  acabou por se escaqueirar, tanto pela pancadaria que levou  no alto mar, como pelas surtidas das vagas que  vinham rebentar  no areal, pelos muitos estrondos contra o seu casco. .


DEPOIS DE TANTAS INCERTEZAS, PELAS NOITES NEGRAS E ASSOMBRADAS DAS TEMPESTADES, AINDA TER QUE SUPORTAR TAMANHA INSTABILIDADE EMOCIONAL - Mas vá lá que prevaleceu o bom senso e a humanidade de quem era suposto dar a última ordem de Macias.





Na verdade, após ali ter ido parar, depois dos longos 38 dias de solidão no mar, muitos dos quais sem comida e bebendo água das chuvas ou água salgada,  só vim a saber que era a Ilha de Bioko (ex-Fernando Pó), quando me pus a caminho  pelo mato adentro, até à sede de uma Finca (roça). Ali fui bem recebido, porém, quando o sargento da Polícia chegou, tudo mudou de figura - Este desatou logo aos berros a incriminar o funcionário da Finca por me ter acolhido e dado de comer. Seus Traidores! Seus encobridores! - "Amanhã quero que se apresentem no meu gabinete! " mas o encarregado, acabou também por ir no mesmo jipe. Embora, já noite, obrigou-me a ir mostrar-lhe a canoa, que já estava toda desfeita pelo impacto das ondas na areia, e também dado o estado em que já se encontrava; então mais raivoso e desconfiado ficou, pensando que fosse eu que a tivesse destruído e   queria saber onde eu tinha escondido as armas

De regresso à Finca, forçou-me a manter-me  de pé, a ficar em sentido, frente a uma secretária, durante várias horas: às vezes eu caía, pois eu mal podia andar, quanto mais estar de pé, mas ele imediatamente me  puxava pelos cabelos ou berrava - Ponha-se de pé! Respeite a autoridade!! - E lá tinha eu que apelar às forças que me restavam, durante  o tempo em que durou o longo e exaustivo interrogatório e  revistou minuciosamente os poucos trapos que me restavam. Ainda hoje me custa a crer como não me confiscou os rolos e as cassetes - 

Eis algumas passagens do pesadelo vivido naquela ilha, descrito mais tarde: 

"Serão 10 horas da noite, chega finalmente o esperado carro da polícia. Dentro dele saem  dois indivíduos que imediatamente se dirigem para o interior da casa onde me encontro. Entram e limitam-se apenas a dar as boas noites num tom frio e meramente formal. Não estendem as mãos a quem quer que seja.Mostram-se sisudos e com ar de muita importância.Não vêm fardados. Têm, apenas, sobre o bolso da camisa a esfinge do Presidente Macias.Mas o seu aspeto não ilude ninguém.Têm modos duros e a sua presença provoca um certo ar intimidativo e de gravidade nos circunstantes, que .subitamente param de falar e se entreolham como que alarmados. Os que estão sentados têm que se levantar. (...) Reina um ambiente de severa circunspeção. Tudo leva a crer que se vai proceder a uma espécie de julgamento sumário. Sou olhado com manifesta suspeita e desconfiança. Como se acaso se tratasse de um perigoso criminoso.(...)

Sobre a mesa está a relação das minhas coisas e toda a minha documentação pessoal. Começam as primeiras inquirições. Um deles, que presumo ser o chefe, deita-me uma vez mais um olhar severo e principia a mexer na papelada que tem à sua frente. Analisa-a e revolve-a várias vezes, depois volta-se para mim: Que atrevimento foi o teu de vires aqui espionar a nossa ilha?!!...Que barco te largou?!!...Que abuso foi o teu de entrares clandestinamente na República da Guiné Equatorial?!!...Não sabes que te podemos matar?!!...Ou não tens consciência da gravidade do crime que cometestes?!...Vá! Responde!!...

Chefe! Não cometi crime nenhum! Não venho espionar a vossa Ilha.Sou um náufrago!... (...) Não vê que estou com o corpo fraco; já há muitos dias que não como nada e necessitava que me prestassem a vossa assistência, fossem misericordiosos  para comigo  ou me levassem para um hospital.-Não mintas!! Não sejas fingido e mentiroso!!!...Daqui a bocado, já te digo onde é o hospital.

A relação das minhas coisas já havia sido conferida e descriminada  pela Comissão Administrativa da finca, estava tudo anotado. No entanto, ele faz questão de conferir tudo.As cassetes são escutadas uma por uma. Os meus papéis, inspecionados até ao mais ínfimo pormenor. Faz anotações sobre anotações. Verificando que faltam algumas coisas(que havia oferecido aos trabalhadores da finca),ordena ao encarregado que quer o resto das coisas e a presença de todos os indivíduos que as aceitaram.

(...)Passa já da meia-noite. Todos se encontram já deitados em suas casas. São acordados e obrigados  a comparecerem, com o blusão de oleado, a lanterna, duas camisolas e os bidões de plástico. (...) Seus canalhas!! Seus encobridores!... Seus patifes!. Seus traidores! À manhã, pelas 9 horas,quero-os no meu gabinete!"

(...) 
São quatro da manhã. À nossa frente sobressai uma mancha de luzes. Vejo que é  um centro  urbano.Tem aspeto de ser vila ou cidade (presumo  que tenha sido Luba): "Que lugar é este? - indago."¿Por qué?! .. ¿Qué te importa saber eso! - Responde o chefe da polícia. Fica situado à beira-mar, e, pelos barcos pesqueiros que estão fundeados na baía que o ladeia, denota ser um razoável centro piscatório. Após algumas voltas pelas suas artérias, eis que o jipe abranda e sou imediatamente conduzido ao interior de um edifício. É uma esquadra, não tenho a menor dúvida. À porta está uma sentinela e a inscrição: Policia Nacional de Seguridad

Entro para o gabinete do chefe da esquadra, para onde também são encaminhadas as minhas coisas.Fico de pé frente à sua secretária. Momentos depois manda-me descalçar, passam-me as mãos pelos bolsos e ordena que seja conduzido a uma cela.Aberta a porta, sou empurrado de rampelão lá para dentro.Entorpeço e caio.No chão estão algumas pessoas deitadas que não vejo. Debruço-me e tacteio para tentar descobrir um espaço onde possa deitar-me.Mas só toco em corpos, quase amontoados, estendidos lado a lado como se fossem sardinhas enlatadas.De pé não consigo ficar porque me sinto demasiado fatigado.Necessito de dormir de qualquer maneira nem que seja sobre espinhos.Por fim,lá me deito.De lado e com as costas voltadas para a parede.No chão apenas uma esteira a separar a frieza do cimento.Mesmo assim adormeço que nem uma pedra.

Nove horas da manhã. A cela é aberta e somos acordados. Todos me olham estupefactos e surpresos. A minha surpresa também não é menor. Entre os meus companheiros de infortúnio há duas crianças, duas mulheres e quatro homens (trabalhadores nigerianos. As crianças são ainda de peito.Isto impressiona-me, meu Deus 

Ainda no período dessa manhã,   meteram-me numa carrinha, que fazia de transporte público, ladeado por dois polícias armados de metralhadoras, os quais, após ter chegado a  Malabo, me conduziriam à cadeia da morte - Mal transpus o portão, vi logo que estava metido num grande sarilho. O ambiente era de facto sinistro. Ouvi logo gritos de prisioneiros a serem inquiridos e torturados. Os dois policias (que, de resto, até tinham sido simpáticos, tendo-me até comprado umas bananas pelo caminho, por se terem sensibilizado com o meu estado de fraqueza) quando me entregaram aos carcereiros, foi como se me tivessem lançado às feras: agarraram-me pelos braços e  levaram-me aos empurrões até à cela,  visto eu mal poder andar - e ainda para mais algemado.  Aberta a porta de ferro, fui de novo empurrado: as algemas só mais tarde mas retiraram, tendo entretanto urinado nas calças: ou seja,  só me desalgemaram  depois de ter sido submetido a mais um longo e exaustivo interrogatório, após o que voltaram a  encarcerar-me na dita cela de alta segurança, de reduzidíssimas dimensões, na qual dispunha apenas de um balde para as necessidades e de um banco para me deitar, que não tinha mais de metro e meio de comprimento.  Mesmo assim eu era um felizardo: a maioria das celas, só se fosse a esteira que o próprio condenado levasse.

PIOR DE QUE CELA, AUTÊNTICA LIXEIRA DE RATOS E DE CHEIROS NAUSEABUNDOS

Quem fornecia a comida aos prisioneiros, eram os familiares. Lá dentro não havia cozinhas nem refeitórios. Ao lado da minha cela, situava-se a casa de banho dos guardas prisionais,  que me mandava um pivete insuportável, mas que eu não podia utilizar. Havia baratas e percevejos por todos os lados. 

As ratazanas entravam na minha cela, chegavam a passear-se por cima de mim e a morder-me nos dedos dos pés, quando me deitava - Por vezes no chão, pois não conseguia estender-me e segurar-me no  banco. Também nem sequer dispunha de uma torneira ou de um lavatório. Para beber um copo de água tinha de  o implorar aos guardas, que só mo levavam quando lhes apetecesse. 

Por outro lado, também tinha de levar com o cheiro das minhas fezes, pois, só de manhã eram recolhidas. Como se não bastasse o estado de desnutrição, que quase me arruinara, tinha agora que levar com os suores e cheiros do meu corpo, pois não tinha onde me lavar. Daí que, quem ali desse entrada, não tardasse a que, ao fim de alguns dias, tivesse a sensação de que, em vez do prisioneiro se sentir um ser humano, se identificasse como um pária e ficasse assim mais propenso a aceitar a condenação como um castigo justo e inevitável. Felizmente, nunca me deixei abater, porque, as adversidades do mar, me haviam  preparado para todo o tido de dificuldades, no entanto, a passagem por aquela prisão (breve é certo) constitui uma marca negra nas minhas recordações da Guiné Equatorial e na minha vida.

MAS QUE MAL TERIA FEITO EU, PARA, APÓS OS 38 DIAS DE SOFRIMENTO  NO ALTO MAR, DAR ENTRADA NUM PRESIDIO DOS CONDENADOS À MORTE?!... - CHEGUEI MESMO A PENSAR SE NÃO TERIA VALIDO MAIS A PENA TER FICADO NA BARRIGA DE UM TUBARÃO.




Naquela altura, o pior que me poderia acontecer era acostar em qualquer ponto da Guiné Equatorial, ou nalguma das suas Ilhas ou no continente. Eu sempre pensei que os maiores riscos, não eram tanto as dificuldades no mar, mas a grande incerteza das condições em que poderia ser recebido onde fosse aportar. Quando fiz a viagem de São Tomé à Nigéria, depois de 13 dias solitários no mar, eu não fui maltratado mas não me livrei de ter sido privado da minha liberdade durante 17 dias, após o que me repatriaram para Portugal -  Na viagem dos três dias de São Tomé ao príncipe, fui preso e espancado pela PIDE - Ó sorte macaca! Que no mar me protegeste  e em terra me abandonaste!

"QUE ATREVIMENTO É ESSE!!" - QUASE ME IAM MATANDO QUANDO HASTEEI A BANDEIRA DE SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE


Na viagem à Nigéria, levei as duas bandeiras: a de São Tomé e Príncipe e a de Portugal Mas, nesta viagem,  apenas levei o pavilhão do jovem país independente aonde regressei sem um centavo na algibeira, onde encontrei todo o apoio que precisei para mandar construir a canoa e para a aparelhar.- Sim, e donde parti para grande aventura.  No meu cárcere, em Bioko, um de dia resolvi hastear a  Bandeira Nacional de São Tomé e Príncipe,  - 
Quando o carcereiro, que, de volta e meia vinha  espreitar a minha cela, topou, mas que heresia!... Foi buscar imediatamente a chave da cela e, ao entrar lá dentro, deu-me um empurrão contra a parede, e, ao mesmo tempo que agarrava nela e a amachucava, levando-a, berrava: Su mercenário! ¿Qué descaro!! Qué falta de vergüenza!! 

Não posso dizer que fosse  agredido fisicamente, mas humilhado e submetido a uma incerteza psicológica terrível. É que, após ter dado entrada naquele maldito presídio de condenados à pena capital, contava sempre com o pior: de resto, os presidiários que me visitaram pela janela e me levaram comida, avisam-me logo, com esta pergunta: "És político?!..- A que eu respondi: "Não!" Diz um deles: "Então talvez te safes. Mas não digas mal do Presidente, senão... podem decapitar-te!

Eu tinha realmente informações de que  não era aconselhável ir parar à Ilha de Bioko (ex-Fernando Pó), governada pelo  então  Presidente da Guiné Equatorial, Francisco Macías Nguema, sanguinário e déspota ditador, que dirigia então o país sob duríssima mão de ferro, tendo ordenado o espancamento e o assassínio de milhares de opositores, incluindo alguns familiares – Derrubado, em 3 de Agosto de 1979, pelo seu sobrinho, o actual Presidente Teodoro Obiang Nguema Mbasogo através do chamado golpe daliberdade, que depois o condenou  a um pelotão de fuzilamento a 29 de Setembro, desse mesmo ano.   

Obiang, ainda jovem, com os seus 34 anos (e a juventude é sempre mais tolerante e generosa) era já então o Comandante das Polícias e das Forças Armadas e foi ele que ordenou a minha soltura, depois de me ter mandado chamar ao Comando e após ter passado alguns dias  numa das mais tenebrosas  prisões de África , onde  todas as noites, havia execuções sumárias, já que,  quem ali entrasse, só saía de lá cadáver.  

Na manhã do dia 3 de Dezembro, quando menos esperava, um carcereiro chegou à porta da minha cela e disse-me que tinha de me levar ao Senhor  Alto Comissário da Polícia - E foi  por intermédio dele que fui conduzido ao gabinete do então supremo comandante das policias e das forças armadas, que me recebeu,   inicialmente de forma austera e desconfiada,  após o que, ao sentar-se na sua cadeira de vime(enquanto eu permanecendo sempre de pé e à sua frente) o fez de forma mais descontraída e simpática: "que se passa contigo?!... Porque te meteste num canuco e que vieste aqui fazer?!"

Bom, lá tive que voltar  a repetir o que já havida dito várias vezes, que não era espião e as razões pelas quais me havia metido na canoa e ido ali parar - Mas quando o vi soltar uma gargalhada e pedir-me para que lhe contasse mais alguns pormenores dos meus longos dias no mar, disse cá para os meus botões: este é dos meus!... Estou a ver que está a gostar da minha aventura.  Por volta do meio-dia, depois de me ouvir, ordenava ao Comissário para me soltarem.

POUCOS  DIAS DE CATIVEIRO, MAS AUTÊNTICAS ETERNIDADES - QUEM NÃO RECEBESSE COMIDA DO EXTERIOR, MORRIA DE FOME

A cadeia não fornecia  alimentação: tinham de ser os familiares. Nos primeiros três dias, quem me passou alguma comida (massa de mandioca, regada com  óleo de palma, que mais das vezes a vomitava para a lata das necessidades, pois eu estava magríssimo e, o meu estômago, já não estava habituado a comer alimentos sólidos, há muitos dias), sim, quem me deu alguma comida,   foram os próprios condenados, que trepavam curiosos à minha janela gradeada, durante o curto recreio que dispunham, num átrio para a qual a  minha cela estava voltada. Creio que, naquela altura, devia ser o único europeu preso. Agora, depois que houve por lá uma tentativa fracassada de Golpe de Estado, em Março de 2004, estão lá presos alguns dos implicados. Mas nada que se compare às tenebrosas condições daqueles tempos.  

Nos dias seguintes, passei a receber uma cestinha, com frutos e outros alimentos, por parte  do barbeiro do Presidente Nguema, um amável são-tomense, o Sr. Freitas, que era também o representante diplomático e que ali tinha ido a seu mando para  recolher informações a meu respeito - Pedi-lhe para lhe mostar uma mensagem autenticada pelo MLSTP, que se  destinava  a saudar o Povo Brasileiro: mesmo assim, não acreditou na  sua veracidade; tendo-me dito, no dia seguinte, que "Sua Excelência, está muito desonfiado das suas intenções; não acredita no que está escrito neste papel, pelo que, enquanto aqui estiver, eu trago-lhe alguns alimentos - Sõ depois, quando fui conduzido à presença do Comandante Obiang, a quem mostrei a mesma mensagem,  este ordenou a minha sultura, 



Quem entrasse naquela cadeia, entrava para a lista da morte. 

Eu bem me apercebi dos gritos lancinantes e de terror dos  pobres infelizes, que, depois da meia noite, eram executados, não pelas balas (que isso fazia demasiado barulho e ficava caro, pois, naquela altura, o petróleo, ainda não tinha ali feito jorrar milhões de dólares, sendo então considerado o país mais oprimido e miserável de África) mas por garrotes de asfixiamento!. Dessa sina, felizmente, lá me safei, graças a Teodoro Obiang  - Quando ele veio a Lisboa, por ocasião de uma Cimeira da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, que decorreu no Centro Cultural de Belém, eu dirige-me lá para lhe agradecer pessoalmente o seu gesto. Estou convencido, que, por vontade do seu tio, eu era fuzilado, dado o estado demência e de paranóia, como Macias dirigia o seu país. Bastava-lhe sonhar que um ministro o queria trair, para o mandar logo matar.



A canoa foi construida num tronco de ocã na então Vila das Neves, a nordeste de S. Tomé, donde parti para  a bordo do pesqueiro Hornet, em 15 de Outubro, ao largo da Baía Ana de Chaves, com o objetivo de ser largada na corrente equatorial, um pouco a sul de Ano Bom, e dali partir para uma travessia transatlântica - 

A bordo do Hornet
Ilha de Ano Bom
O comandante não cumpre, porém, com a sua palavra, tenta demover-me a desistir da minha aventura e ficar a bordo a trabalhar - Não tendo aceite a sua proposta, obriga-me assinar um termo de responsabilidade, após o que ordena que a canoa seja arreada ao mar,  alegando que estorvava a pesca.

A sul e à popa ia ficando mais distante Ano Bom
20 de Outubro - 1975 - Desiludido por não ter sido largado um pouco mais a sul e a oeste, lá parti, de regresso a São Tomé, pelo desconhecido oceano a fora, a pensar em refazer nova viagem e com o apoio marítimo  de alguém que não me traísse! - . 

Após um dia de navegação normal, com vento pela popa e à vela - mas sempre perseguido por duas canoas  para me roubarem os alimentos, dada a extrema penúria vivida naquela ilha - surge o inevitável temporal: um violento tornado, ao princípio da noite, vindo do sudeste,  uma súbita rajada de vento seguida por uma enorme vaga, apanha-me desprevenido e ainda com a nova casca de noz,  mal acabada de experimentar,  solta-me o leme (que lhe adaptei - e só por milagre também eu não fui atirado, com a cana do leme, para o seio daquela escurissima confusão, que só a curtos espaços os relâmpagos iluminavam) deixa-me a piroga atravessada à vaga e desgovernada, varrendo-me os apetrechos e forçando-me alijar da maior parte de viveres para aliviar o lastro e não ir ao fundo

Âncora Flutuante com um bidõe
Enfrentando tempestade

- Lá foram mandados ao mar três bidões de água potável  e  as latas de conserva  oferecidas a bordo do pesqueiro Hornet. Apressei-me a enrolar a vela e a colocar o mastro (suplente) de través para lhe conferir alguma estabilidade e a lançar o 4º bidão de plástico, meio de água, preso a uma corda para fazer de âncora flutuante de modo a forçá-la a estar de proa à vaga.. O colchão insuflável, coloquei-o à proa com a lanterna, sobre o estrado) para o que desse e viesse, sim, era a única boia que dispunha e eu não sabia ainda muito bem como a canoa iria resistir e se comportar.. Escusado será dizer que a noite fora pavorosa!...Não há palavras para a descrever..De manhã improvisei um remo com um barrote e uns bocados que arranquei da cobertura, junto à popa..Sim, nunca cruzei os braços, nunca me dei por vencido: foram infinitos os momentos em que a vida esteve sempre presa  por um fio. Mas havia que lutar.

Na noite do naufrágio

Era o começo de um longo e exaustivo tormento . Encontrava-me no Atlântico Sul , em pleno mar alto,  a 350 km da costa oeste do continente africano  e 180 km a sudoeste da ilha de São Tomé. As chuvas constantes da primeira semana, com o horizonte sempre encoberto, impedir-me-iam de avistar São Tomé. Mais tarde avistei a Ilha do Príncipe e Ilhéu das Tinhosas, mas, a falta de remo adequado, não me permitiram a aproximação. Por fim, a 27 de Novembro, acostei numa praia de Bioko (ex-Fernando Pó) .Onde fui preso e encarcerado por suspeita de espionagem.

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